Últimas indefectivações

domingo, 29 de dezembro de 2019

A melodia das estrelas fraternais

"Do futebol conheci a pior das misérias, da vida desgraçada de gente caída do plinto das suas estátuas de barro à corrupção infame e nunca castigada. Do futebol conheci a alegria infinita das vitórias sempre efémeras e o consolo caloroso de afeições que ficarão eternas. Por dentro e por fora, tantos anos como jornalista, outros na lufa-lufa constante dos balneários como naquele tempo mágico da selecção nacional, de 2003 a 2006, quando Portugal fez o que nunca foi feito, com a final do Campeonato da Europa e a meia-final do Campeonato do Mundo, jogando de uma forma ofensiva e exuberante que jamais fez parte da filosofia das equipas que lhe sucederam, incluindo a que ganhou o título em França.
Há uma expressão que todos usamos, aqueles que fui conhecendo ao longo de mais de três décadas de convivência, e que se prende com uma realidade que exige confiança mútua e inquebrável: mano. É o sublinhar de uma fraternidade. Não me recordo de quando conheci Jesualdo Ferreira, que os amigos tratam por Manel. Talvez quando ele treinava a Académica, ainda na casa dos trintas. Estive a seu lado quando conquistou um dos troféus mais encantadores, o do Torneio de Toulon, com uns sub-21 que tinham Rui Costa e Jorge Costa, João Oliveira Pinto e Capucho, Nelson e Brassard, por exemplo, numa altura em que só A Bola e o Record mandaram enviados-especiais, com o saudoso Carlos Arsénio. Acompanhei-o como adjunto de Toni, no Benfica, no Sevilha, no Bordéus, encontrei-o no Qatar, deu uma entrevista a este jornal anunciando que chegara ao fim da carreira, vamos falando de vez em quando, sinto-me verdadeiramente feliz por o ver feliz e por saber que ainda terá uma carreira para lá do final que tinha estabelecido e o sentir mais vivo do que nunca.
Em Novembro de 1991 foi com um peso na alma que me dirigi ao Hospital da Cruz Vermelha para, à cabeceira do Rui Águas, falar com ele longamente sobre o momento negro de Kiev em que viu a perna quebrar-se como se fosse um ramo de árvore naquela que ele garante ter sido a pior noite da sua vida de futebolista.
Há um ano estive com o meu velho irmão bairradino Toni e com o seu filho, também António Oliveira, no Koweit, observando o seu trabalho no Kazma. Como não querer que a aventura que agora se rasga nos seus horizontes, no Santos que foi de Pelé, o melhor jogador que alguma vez vi, e de quem fiquei, mais tarde, igualmente amigo, se abra com a luminosidade de um final de tarde na praia de Embaré, em frente à Avenida Bartolomeu de Gusmão, o homem que sonhou com a Passarola? De certa forma vou com eles. Eu vou com os meus amigos para o fim de cada mundo, embalado, como dizia Goethe, pelo concurso melodioso das estrelas fraternais. São meus manos. Cabem sempre na largura interminável de um abraço companheiro."

A inquietação no futebol

"Uma das vitórias deste natal foi o comentário de um familiar quase dez anos mais jovem do que eu. Sendo anfitrião, calhou-me em sorte a organização de várias tarefas, entre elas a escolha da música de fundo enquanto a família convivia, comia e bebia. Depois de várias semanas a levar com Wham e Mariah Carey em tudo o que era local público, optei por poupar as pessoas a tamanho suplício e poucas foram as músicas seleccionadas que possam ser associadas a esta época do ano. A meio da noite, o tal jovem veio-me perguntar como se intitulava a música que acabara de tocar do Zé Mário Branco. Algo desorientado porque não esperava aquela pergunta vinda de onde veio, lá respondi que tínhamos acabado de ouvir "Canto dos Torna-viagem", do álbum "Resistir é vencer" ", e resolvi questionar o porquê da pergunta. "noutro dia, um amigo mostrou-me esta música e eu fiquei fascinado... Como é que eu nunca tinha ouvido falar deste cantor?"
As mortes de artistas que, por uma ou outra razão, desapareceram do radar comercial e mediático costumam ter este efeito: ganha-se novos seguidores e muitos redescobrem coisas que já tinham sido apagadas da memória.
Vem isto a propósito do centésimo vigésimo aniversário de um dos grandes clubes europeus, o AC Milan. Não, o clube não morreu mas vive dias complicados. Praticamente ao mesmo tempo que os rossoneri sopravam as velas, a sua equipa principal era derrotada e humilhada pela Atalanta, 5-0. Ver o AC Milan em 2019 é algo penoso, principalmente para quem se lembra bem, por exemplo, da última década do século XX e da primeira deste novo milénio.
Mas não é só o AC Milan que vive dias complicados. Não saindo da Europa, Arsenal, Saint-Étienne, Sporting CP ou Hamburgo, todos em graus diferentes, podem ser englobados num grupo de históricos do futebol europeu que passam por momentos menos bons comparando com tempos mais ou menos recentes. E são exemplos que nos servem para lembrar, diariamente, que o sucesso no futebol é bastante efémero e difícil de quantificar.
Sei que talvez insista demasiado nesta coisa da memória, de não deixar morrer certas narrativas e de resistir contra o imediatismo do quotidiano que nos rodeia. Mas eu gostava muito que os novos adeptos de futebol - ainda os há? - não se limitassem a ver uma notícia sobre uma derrota histórica do AC Milan em 2019 como apenas uma nota de rodapé. Que possamos perceber como o AC Milan chegou até aqui depois de Baresi, Baggio, Weah, Maldini, Boban, Kaká ou Shevchenko - e Sílvio Berlusconi, claro - , ao mesmo tempo que ficamos maravilhados com o trabalho de Gasperini e com Papu Gómez nas entrelinhas. O futebol tem que ser uma constante inquietação, porque se há sempre qualquer coisa que está aí para acontecer, haverá outras que nós também devemos perceber."

​O gesto

"Sporting Clube da Covilhã alinha com apenas oito jogadores para ficar em igualdade numérica com o adversário.

Do Interior deste país, quase sempre tão maltratado a todos os níveis, mas donde nos chegam com frequência coisas boas e notícias de verdadeiros actos de solidariedade, acabamos de ter conhecimento de um gesto a que certamente uma grande parte dos portugueses não teve acesso, mas que fica a constituir um exemplo edificante do que deve ser a solidariedade.
Vamos então à notícia: “Sporting Clube da Covilhã alinha com apenas oito jogadores para ficar em igualdade numérica com o adversário”. Sendo importante o título, convirá não deixar cair alguns importantes pormenores que se lhe seguem.
Pois bem: tratava-se de um jogo de juvenis a disputar entre os covilhanenses e a formação de Vila Velha de Rodão, a contar para a sexta jornada do Campeonato Distrital de Castelo Branco, no qual a equipa da localidade da margem do Tejo não pode contar com mais de oito jogadores, por dificuldades de ordem vária mas, sobretudo, derivadas de lesões e doenças.
Perante tão desagradável situação, o treinador serrano decidiu alinhar também com apenas oito atletas. E mais: porque um jogador de VVRodão se lesionou durante o jogo, o mesmo técnico fez sair um jogador da sua equipa para ficar igualmente com apenas sete.
Interessa pouco o desfecho deste curioso desafio, que até foi muito desnivelado e a favor do Sporting da Covilhã. Será mais importante acrescentar que foram assinaladas quatro faltas e não foi mostrado qualquer cartão. E dizer ainda que os treinadores destas duas equipas dão pelos nomes de José Rosa e João Inácio.
Neste tempo de Natal, em que a solidariedade anda de boca em boca, é importante revelar este gesto, grande gesto, que certamente vai cair no esquecimento sem merecer o destaque que realmente merece.
Não há prémios para gestos destes Senhora Federação Portuguesa de Futebol?
Do Interior veio, mais uma vez, um exemplo edificante…"

Entrar no mar e viver

"Dizem que Kahanamoku inventou o surf. Foi campeão olímpico de natação e rival de Tarzan, o homem-macaco

Kahanamoku tinha um ar pacífico mas não era bom de assoar. Aliás também era pacífico de nascença, mas aí geograficamente, se assim se pode dizer. Veio ao mundo na Hale’akala, depois rebatizada de Aikupika, hoje Arlington Hotel, uma estrutura de dois andares em coral-rosa situada em Honolulu, no Havai, local que forneceu à sociedade muitos proeminentes havaianos. 
Kahanamoku tinha um daqueles nomes que parecem saídos de um livro de Emilio Salgari, o Homero das selvas e cimitarras, pai de Sandokan, o Tigre da Malásia, senhor da ilha de Mompracem: Duke Paoa Kahinu Mokoe Hulikohola Kahanamoku. Ora, um fulano que tem apelidos que chegam para encher meia lista telefónica parece destinado ao mau feitio. O Duke até fica ali meio deslocado, mas era vício de família. Ganhou-o do pai, Duke Halapu, que por sua vez foi assim baptizado pelo bispo Bernice Pauahi em honra do príncipe Alfredo, duque de Edimburgo, quarto filho da rainha Victoria. 
Durante a II Grande Guerra, Duke filho serviu na Polícia Militar. Apesar de estar longe das trincheiras, a mostarda subia-lhe ao nariz com frequência e não era, certamente, em forma de gás. Envolveu-se numa tranquibérnia com um desenhador naval chamado Lloyd Duncan, acusou-o de agredir dois soldados e, invocando a lei marcial imposta no Havai após o ataque a Pearl Harbor, levou-o a tribunal militar e espetou com o insurrecto numa masmorra. Duncan levou o caso ao Supremo Tribunal dos Estados e ganhou. Kahanamoku nunca digeriu a afronta. Ficou-lhe a pesar no estômago como mostarda de Dijon.
Duke jr. era de boas famílias havaianas. Um ohana, gente finíssima. Nunca lhe faltou dinheiro nem tempo livre. Tornou-se um beach boy. Se ainda fosse vivo, Patxi Andion poderia cantar em sua honra: «Sólo él tiene el derecho/de tutearle a la mar
le parieron mar adentro
y se le quedó la sal
lamiéndole los orígenes...».
Mas Patxi Andion acabou de morrer e Kahanamoku caíu no fosso escuro do olvido. Podia ter sido parido no mar, tão irmão foi das ondas. Hoje dizem que criou o surf moderno ao entrar pelas vagas com uma prancha que pesava mais de 50 quilos, cavalgando os picos brancos de espuma como daquela vez em Waikiki, em 1917, equilibrando-se durante três quilómetros no oco do mar, de Castles a Queen’s. Depois, conta a lenda, desembarcou na areia e, para divertir a gente que se juntara para o ver, fez o pino. Era um homem ao contrário.
Duke pai ensinou Kahanamoku a nadar com uma frase: «Entra no mar e sobrevive». Duke filho tornou-se amante da senhora das águas. Cresceu até ao metro e oitenta e cinco e a natureza forneceu-lhe pés e mãos enormes como barbatanas. Em 1912, em Estocolmo, ganhou a medalha de ouro dos 100 metros livres e bateu o recorde do mundo. Em seguida, foi prata nos 200 metros da mesma categoria. A sua tez de ébano reflectia o azul-cloro das piscinas e devolvia-lhe o céu impávido da baía de Honolulu.
Duke continuou pela vida fora a ser um vencedor. Nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, em 1920, voltou a ser ouro nos 100 metros livres e na estafeta da mesma distância. O seu maior rival era havaiano como ele, Pua Kelahoa, o único com coragem suficiente para nadar sozinho os 33 quilómetros que separavam as ilhas de Molokai e Oahu. Quatro anos mais tarde, nos Jogos de Paris, Kahanamoku tinha 34 anos. Ao seu lado, no momento do tiro de partida para mais uma prova de 100 metros livres, estava o seu irmão, Samuel. E, em contraste com o ar ensolarado de ambos os filhos do mar, a brancura de um gigante austro-húngaro chamado János Weissmüller.
Duke foi batido por Tarzan. O homem-macaco já lhe tinha tirado o recorde do mundo, percorrendo a distância em 58.6 segundos, e agora tirava-lhe o ouro. Os irmãos Kahanamoku regressaram às ilhas com prata e bronze e devolveram-se ao oceano. Desta vez para sempre.
Hollywood deixou-se fascinar por John Weissmuller, mas não esqueceu Duke Kahamoku. Davam-lhe papéis à medida, de chefe indígena a pirata, tornou-se amigo de Charlie Chaplin e Paulette Goddard, mas nunca lhe deram dinheiro. Longe de casa, trabalhou como gasolineiro e estivador. Contracenou com Henry Fonda e Jack Lemon no filme Mr. Roberts, de John Ford.
Mr. Roberts é um tenente da marinha mercante que faz os impossíveis para que o enviem para o Pacífico lutar contra os japoneses. O papel de Duke foi tão insignificante que aproveitou o chamado do Pacífico para regressar definitivamente a casa. A tempo de, numa noite de tempestade, com a sua prancha, salvar 12 dos 17 tripulantes de um barco de pesca que se afundou ao largo de Honolulu. Dizia: «O mar vai ensinar-te tudo aquilo que precisas de saber».
Depois, ergueram-lhe uma estátua em Waikiki. Diz quem a vê que nunca Kahanamoku esteve tão desoladamente parado."

Autarquias versus Educação!

"O Ministério da Educação já está a preparar a formação de autarcas que vão ter responsabilidades neste sector, de modo a não haver sobressaltos com a transferência da Educação para as Câmaras Municipais.

Eram dois irmãos nascidos e criados no Distrito de Coimbra, um foi para professor, profissão que sempre quis abraçar, desde criança, o outro foi empresário de sucesso, na sua terra, e criou fama, o que o levou a concorrer a Presidente da Câmara local, já que tinha grandes apoios do meio empresarial, e dos negócios locais. Ganhou a Câmara!
De um dia para o outro foi confrontado com o problema mais sério da vida dele, segundo confessou a amigos íntimos. Não percebia nada da problemática da Educação, foi sempre gestor e homem de negócios, e de repente vê-se no papel de responsável pela Educação, do seu Concelho, depois da aprovação na Assembleia da República da transferência da Educação, nas Escolas Públicas, para as Autarquias. Era a aplicação do projecto de descentralização, que iria abrir caminho à regionalização, única forma de salvar a coesão social do País, e de tornar mais iguais os portugueses, independentemente da zona onde vivem. Claro que o objectivo imediato era salvaguardar e evitar a desertificação do Interior, com a emigração dos jovens que ali nunca teriam futuro, nem possibilidade de emprego e de constituir família.
É de facto um projecto interessante, justo, racional, lógico, desafiante e a única maneira de salvaguardar a unidade da Nação, ou seja, a coesão, a comunhão e orgulho de um passado comum, de um presente comum, e de projectos comuns, para o futuro, como Renan nos ensinou.
É tão justo e lógico que ninguém pode estar em desacordo!
Então o que fez o presidente da Câmara local? Começou por nomear o irmão como seu assessor para o novo pelouro da Câmara, a Educação, e enviou dois autarcas para Lisboa, para frequentarem o novo curso que o Ministério da Educação já está a preparar, para formar os autarcas que vão ter responsabilidades, neste sector, de modo a não haver sobressaltos com a transferência da Educação para as Câmaras Municipais, e tudo isto com o apoio da “C.N.E.” como fruto da antecipação para os problemas futuros, como sempre foi seu apanágio, já que tinha chamado a atenção para esta necessidade muito antes da ideia ter surgido. 
Como disse Max Cunha, governar é antecipar o futuro.
Na qualidade de ex-docente, durante várias décadas, no Ensino Superior, e não só, e ainda como sociólogo, regozijamo-nos com toda esta coordenação que antecipou soluções e evitou, com certeza, desarticulação, desnorte, resistências e até “sabotagens”, como é normal, quando surge qualquer projecto educativo, com mudança de tutela, que, por sua vez, exige mudança de atitude mental, com espírito aberto de colaboração e de entreajuda, com todos, e não só, como até agora, só com alguns. 
Esta transferência, quanto a nós, é muito positiva, porque despartidariza a Educação Nacional, que deixa de estar nas mãos de um só partido e passa a ser plural e, verdadeiramente, democrática.
Este é o nosso contributo para a questão presente e é uma pequena contribuição, pelo muito que recebemos do Estado.

P.S. – Este artigo é pura ficção, pois nada disto existe na realidade..."

Habilidades não são Habilitações

"A melhor forma que encontrei de vos explicar o meu ponto de vista sobre o caso Rúben Amorim foi este.
Mas antes, ponto prévio.
Gosto do Rúben.
É da minha geração e fez parte de uma equipa onde joguei apesar de não termos coincidido na mesma.
Nada me move contra, nem tenho nenhuma antipatia.
Auguro-lhe um belíssimo futuro pois foi dos jogadores mais inteligentes que conheci.
Agora vamos ao que interessa.
Eu não tinha carta de pesados de passageiros.
Tirei a minha carta no Barreiro.
Fui e vim vezes sem conta.
Matei-me a estudar um Livro de Mecânica que parecia uma Bíblia de Ferramentas.
Depois fiz um exame.
Paguei quase 1000 euros por esta brincadeira.
A seguir disseram-me que não era o suficiente.
E tive que tirar o Certificado de Aptidão De Motorista.
A formação mais perto e disponível era em Lisboa.
Lá fui eu.
130 horas fechado numa sala a ouvir regras de trânsito e legislação.
Fiquei apto para conduzir e para ser Advogado se quisesse.
Banalidades e curiosidades, e mais um exame.
Fora as deslocações, a alimentação e as estadias.
E mais 1000 euros.
Estava terminado.
Achava eu.
É que depois soube que para andar com crianças nos autocarros tinha que tirar outra formação.
TCC.
Mais uma semana.
Mais documentos pagos.
Mais deslocações.
Mais 500 euros.
Não façam contas que eu desisti de as fazer.
Portanto.
Eu tive que me certificar e formar para conduzir carrinhas que têm mais de 9 lugares.
Que são milimetricamente menores que alguns veículos que até então eu podia dirigir.
Mas, sem estar certificado, não posso.
Ainda que tenha carta desde os 18 e nunca tenha batido.
E que tenha montes de experiência e viagens acumuladas.
Ainda assim.
Mesmo que não me levante do banco do condutor.
Mesmo que ao meu lado tenha gente encartada e cheia de experiência.
Não podia conduzir e ponto.
Não é permitido e não podia estar no lugar do condutor.
Agora Silas.
Silas também está no mesmo processo.
Disse que não trocava a carreira que teve por nenhum curso.
De acordo.
Entendo onde quer chegar.
Em parte até concordo.
Eu também não trocava a minha sabedoria ganha em balneários e estádios por nenhuma outra ganha em salas de aula.
Mas percebo que ambas sejam muito importantes.
E que uma não se sobrepõe à outra.
Porque por esta ordem de ideias.
Cristiano Ronaldo pode tirar o lugar a Silas.
Mesmo que não tenha sequer o primeiro nível.
Resumindo.
Temos que mudar a lei.
Não contornar a lei.
Parece o mesmo, mas não é.
É impensável que os quatro níveis demorem 10 anos para serem adquiridos.
Nenhuma licenciatura demora tanto.
A menos que sejam burros como eu.
É preciso valorizar as competências de quem fez uma vida inteira no futebol.
E não desvalorizar quem nunca deu um pontapé numa bola.
Rúben Amorim e Silas têm tudo para ser grandes treinadores de futebol.
Menos os Cursos.
O tempo dirá se têm o mais importante.
Até para não caírmos no erro de misturarmos as coisas.
Porque Habilidade não são Habilitações."

Ser ou não ser treinador

"Mais uma vez, a Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF) veio a público criticar de forma violenta a escolha de um treinador sem qualificações para treinar na Liga NOS. O alvo foi Rúben Amorim e o Sp. Braga – como antes tinham sido Silas e o Sporting – levantando de novo várias questões de fundo sobre as quais o país futebolístico tem assobiado para o lado.
Há uma lei e, por princípio, tem de ser cumprida. Se a lei (e o regulamento) exige determinada qualificação para que um profissional possa desempenhar uma actividade, então não há nenhuma razão para que os treinadores de futebol vivam num mundo à parte. Aí, a posição da ANTF não pode ser criticada. Mas quem anda no meio também sabe como é difícil aceder aos cursos para treinadores de futebol. São abertas poucas vagas e há vários requisitos obrigatórios, o que torna muito restrito o número de treinadores formados todos os anos. E é impossível não deixar de constatar que são os técnicos que tiraram o curso há mais tempo, quando a exigência era bem menor, que mais apontam o dedo aos que furam na Liga NOS sem o respectivo curso.
Não é um tema de resolução fácil e nunca será consensual, mas fingir que não temos um problema não pode ser a solução."

Umbabarauma #9 - Patrocínio musical

Benfiquismo (MCCCXCVII)

Metal!!!!

Vitória em Guimarães...

Guimarães 83 - 90 Benfica
21-19, 18-22, 20-22, 24-27

Não foi fácil, acabamos por nunca conseguir 'aguentar' as várias 'boas' vantagens que fomos conseguindo 'abrir'! Mas no final, vencemos...
Mesmo com alguns pontuadores a 'branco'!!!

sábado, 28 de dezembro de 2019

SL Benfica: Jogador do Ano, Desilusão e Revelação de 2019

"2019 está perto do fim e está na altura de eleger os destaques, quer sejam pela positiva, quer sejam na negativa, do Sport Lisboa e Benfica.
O ano que agora finda foi um ano agridoce para os encarnados. O principal objectivo – a conquista do tão almejado “37” – foi alcançado, terminando o campeonato com mais dois pontos que o Futebol Clube do Porto. A conquista da Supertaça, diante do Sporting CP, por uns incríveis 5-0, ajudaram a que o ano de 2019 fosse um ano encarnado.
Ainda assim, as restantes competições internas não foram conquistadas. Na Taça de Portugal, o Benfica caiu nas meias finais frente ao seu eterno rival, Sporting. Na luta pelo “caneco” da Taça da Liga, o carrasco dos encarnados foram os dragões, que venceram o glorioso na “final-four” da competição por três bolas a uma.
A luta pela glória europeia também não correu de feição à equipa das águias, que se viram eliminados na fase de grupos da Liga dos Campeões, tendo caído para a Liga Europa. Contudo, na segunda competição de clubes mais importante organizada pela UEFA, o Benfica chegou aos quartos de final, tendo saído derrotado da mesma, pelo Eintracht Frankfurt, que tinha vantagem pelos golos marcados fora do seu reduto.
Nesta temporada, espera-se que melhores resultados apareçam. Eliminado da Taça da Liga e da Liga dos Campeões, o SL Benfica é líder isolado da Primeira Liga, defrontará o FK Shakhtar em jogo a contar para os 16 avos de final da Liga Europa e tem pela frente o Rio Ave FC na meia final da Taça de Portugal.
Foi, então, o ano em revista, mas ainda falta falar dos protagonistas desta história.

O Jogador do Ano
PizziO motor da equipa, o nosso comandante, Pizzi! O internacional português Luís Miguel Afonso Fernandes é eleito, por mim, como o melhor jogador a actuar com a camisola encarnada no ano civil de 2019.
Arrancadas estonteantes, passes de cortar a respiração, golos de todas as maneiras e feitios. Senhoras e senhores, Pizzi. Que ano incrível para o melhor médio a actuar no campeonato português. 
Traduzindo o seu talento para números, Pizzi, na temporada passada apontou 15 golos e 23 assistências em 55 aparições. Como se já não fossem estes números impressionantes, ainda temos de juntar os números desta temporada. São 19 golos e 10 assistências em (apenas) 25 jogos.
O médio transmontano está a atravessar o seu melhor momento da carreira e está num nível simplesmente fantástico. A sua preponderância no onze de Bruno Lage não se resume ao processo ofensivo, uma vez que tem um papel importante no equilíbrio defensivo dos encarnados.
Que é isto, Pizzi? Que bem que jogas!

A Desilusão do Ano
Raúl de TomásDe maior promessa, a um possível flop. Raúl de Tomás chegou à Luz esta temporada e, até ao momento, nada! Nada que justifique o valor que saíram dos cofres encarnados. Qualquer coisa como 20 milhões de euros.
Já esteve em “período de habituação”, já teve “falta de sorte”, também “não tem oportunidades”, mas a única verdade é que ainda não fez nada. Se tivesse de descrever Raúl de Tomás numa única palavra seria “nada”. Por 17 ocasiões que já vestiu o manto sagrado, em jogos oficiais e apontou, até ao momento, três golos. Três míseros golos.
Contudo, as minhas preces são que em 2020 o jogador espanhol me obrigue a fazer um “mea culpa” e que finalmente comece a jogar à bola. Vá lá, Raúl, és pago para isso.

A Revelação do Ano
João Félix Este é o miúdo! Fez correr muita tinta, fez capas, fez golos e assistências, fez um ano 2019 incrível enquanto esteve ao serviço do Sport Lisboa e Benfica.
De camisola 79 nas costas, João Félix espalhou a sua magia pela Catedral e fez os fiéis encarnados levantarem-se das suas cadeiras, vezes sem conta, para aplaudir o seu génio. Foi, sem qualquer margem de dúvida, a grande revelação do ano de 2019.
Jovem formado na academia do seixal, João Félix chegou à equipa principal do Benfica e de lá não saiu até se ter transferido, no defeso de verão, para o Club Atlético de Madrid, por qualquer coisa como 126 milhões de euros.
Na última temporada, de águia ao peito, o miúdo-maravilha disputou 43 partidas e apontou 20 golos, em todas as competições. O ano de Félix não podia ter corrido melhor e acabou mesmo por vencer o prémio Golden Boy – de melhor jogador jovem da Europa (sub-21)-, juntando-se a Renato Sanches como os únicos portugueses detentores do troféu.
A presença de Félix no plantel encarnado foi fulcral e é um dos grandes responsáveis pela “Reconquista” do título de campeão nacional. Obrigado, João! Vai puto!"

A mulher e a prática desportiva

"Para Amade-Escot, ex-presidente da rede europeia “European, Women and Sport” (EWS), defender as mulheres, em geral, e as mulheres no desporto, em particular, é defender a igualdade e o progresso da liberdade. São palavras nobres. Mas, a realidade, é que existe, na actualidade, um desfasamento importante entre as práticas desportivas propostas pelos clubes, virados essencialmente para a competição, e as aspirações das mulheres, mais diversas e orientadas para a convivialidade, as práticas familiares, a saúde e o lazer. Este desfasamento, explica, em parte, o número insuficiente de mulheres a praticar desporto. Resulta daqui também a fraca presença nos centros de decisão (federações, por exemplo). Os mitos, os estereótipos e o sectarismo fizeram com que o direito à prática desportiva lhes fosse negado durante muito tempo. Durante décadas, a questão central debatida foi quais as práticas desportivas e quais as provas que se poderiam oferecer às mulheres. Em 1900, por exemplo, elas participam, pela primeira vez, nos JO modernos em duas disciplinas: o ténis e o golfe. O fundador da “exposição universal do músculo” (JO modernos), o barão Pierre de Coubertin, não queria que as mulheres participassem. Em 1912, quando dos JO de Estocolmo, escreve mesmo que “os Jogos Olímpicos devem ser reservados aos homens”. Confirmando a sua posição negativa, declarou que “uma olimpíada com a participação de mulheres seria pouco prática, desinteressante, pouco estética e incorrecta”. Para si, elas estavam lá apenas para aplaudir e coroar os vencedores. Apesar do seu desacordo e os seus discursos, as mulheres entraram, progressivamente, nos JO e aí permaneceram. É inseparável da realidade do desporto moderno. A participação das primeiras mulheres desde os primeiros JO aumentou substancialmente. Esperemos que se continuem a promover iniciativas para uma maior participação das mulheres na prática desportiva. São os meus votos para 2020, não esquecendo que o progresso desejado de maior participação no desporto passa pela educação."

Alguns ligeiros pensamentos sobre o futebol

"1. Quem ganha e perde jogos poucas vezes é o corpo, é quase sempre a alma. E há tão poucos treinadores que se ocupam da alma dos seus jogadores!
2. O primeiro Benfica-Porto realizou-se noventa e poucos minutos antes de nascer o mundo. Findo o jogo e com tanta balbúrdia e ressentimentos acumulados, ocorreu o big-bang.
3. No futebol, há mais instinto do que inteligência. Porque se utilizam mais os pés do que as mãos. No futebol, o que se perde de inteligência compensa-se com o instinto. Será por acaso que o o Eusébio era o “pantera negra”, o Kempes era a “gazela”, o Butragueño o “abutre”, o Ardiles a “formiguinha”, etc., etc.? O futebol é a mais espectacular celebração do instinto.
4. O futebol-espectáculo reproduz e multiplica, demasiadas vezes, a sociedade altamente competitiva em que vivemos. Se gostassem de ler, certas pessoas. ligadas ao futebol fariam d'O Príncipe de Maquiavel o seu livro de cabeceira. Mas não, um pouco de reflexão não é com eles. A sua cultura desportiva parece não passar da “doença infantil da banalidade”.
5. Se não existissem árbitros, seriam poucos os críticos do futebol, no nosso País. Tombaria sobre o futebol português um tédio irremediável, insuportável. Pois se há programas televisivos (não são todos, evidentemente) que levam duas horas a falar dos “erros dos árbitros”. Ou o futebol é só isto, ou aqueles senhores representam o zero nacional – consagrado!
6. Extraindo do maço, com solenidade, um cigarro, o escritor e jornalista brasileiro, Nelson Rodrigues costumava dizer. “Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia”. E o Nelson era um fluminense doente. Ora, eu que sou belenenses, desde muito antes de ter nascido, sou forçado a dizer: “Cada português, vivo ou morto, já foi Benfica por um instante, por um dia”.
7. O Nelson Rodrigues era um criador de piadas incomparáveis. Como esta: “A fidelidade havia de ser facultativa”. Até no futebol! Quando será que nos convencemos que o espetáculo desportivo é a mais importante das coisas pouco importantes?
8. Não jogamos porque há jogo, mas há jogo porque jogamos. Daí, a irracionalidade que percorre o futebol onde quase todos pensam que ninguém ganha porque sabe, mas que sabe porque ganha. A irracionalidade, no futebol, é uma força latente. Se não se vê – paira!
9. Não há jogos, há pessoas que jogam. Não há remates, há pessoas que rematam. Não há fintas, há pessoas que fintam. Se eu não compreender as pessoas que fintam e rematam, jamais entenderei as fintas e os remates.
10. Esta alegoria surge nas Teses sobre a Filosofia da História, um texto curto, fulgurante, desesperado, escrito por W. Benjamin, em Setembro de 1940, poucos dias antes de suicidar-se: “Paul Klee tem um quadro intitulado Angelus Novus. Parece um anjo que paulatinamente se afasta de algo que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca aberta e as asas insufladas. Assim deve ser o Anjo da História. O seu rosto está virado para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê apenas uma única catástrofe que vai amontoando escombros sobre escombros, lançando-os perpetuamente aos seus pés. O anjo gostaria de demorar-se um pouco mais, ressuscitar os mortos e juntar o que foi desmembrado. Do paraíso porém sopra uma tempestade que lhe agita as asas com violência e o impede de as poder utilizar. A tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, mas ele vira-lhe as costas, diante do monte de escombros que cresce até ao céu. A tempestade é aquilo a que chamamos progresso”. Ora, o progresso, que o século XVIII proclamou a sua grande paixão, conduziu a inúmeras ditaduras e à exploração da classe trabalhadora, fenómenos que ilustram o fracasso de um progresso sem valores de forte carácter antropológico. Temo que o progresso desportivo se resuma aos desempenhos espectaculares de atletas superdotados e supertreinados. Temo que muitos “agentes do desporto” desconheçam que há valores, para além dos económicos, ou de um individualismo sem regras, na prática desportiva. Temo que nas Faculdades onde o Desporto se estuda, sejam a fisiologia e a biomecânica as ciências fundantes e não a complexidade humana, no movimento intencional e solidário da transcendência. Ou seja, não temo o progresso, mas o progresso daqueles que o põem ao serviço de inconfessáveis interesses...
11. As indústrias culturais, designadamente o cinema, inventaram um homem e mulher novos: a estrela! Mas o star-system alargou-se ao Desporto e principalmente ao futebol, que o mesmo é dizer: são, vezes sem conta, alienação e fanatismo e mercado. E o que resta do humanismo de Espinoza e de Kant e de Hegel e de Marx? E o de Jesus, o homem que é Deus e o Deus que é homem?
12. É de Fernando Pessoa o Poema em Linha Recta: “Nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido / campeões em tudo (…). / Quem me dera ouvir de alguém a voz humana; / que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; / que contasse, não uma violência, / mas uma covardia! / Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. / Quem há, neste largo mundo, que me confesse / que uma vez foi vil? (…). / Arre, estou farto de semi-deuses! / Onde é que há gente no mundo?”. E o Fernando Pessoa nunca leu o que hoje se diz das celebridades futebolísticas. Trata-se de uma euforia que atinge o ridículo.
13. É famosa a tese de Marx: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diversos modos, mas trata-se de transformá-lo”. De facto, não é a filosofia que transforma o mundo; não é certamente só com teoria que se ganha um jogo de futebol. Mas, sem filosofia, não há transformação, nem conveniente, nem duradoura. Porquê? Porque quem não compreende não sabe transformar. Portanto, no remate da tese décima primeira sobre Feuerbach (“trata-se de transformá-lo”) não se trata de praticar sem pensar, mas de fazer mais humanamente o que se tem de fazer. Para transformar, humanamente, não há teoria sem prática, nem prática, sem teoria. Embora o primado da prática...
14. Alfredo Teixeira, professor da Universidade Católica Portuguesa e um ensaísta questionador e denso, observa: "A posição dos indivíduos, na hierarquização social é, agora, relativizada pelo capital próprio das diferentes redes sociais. Neste quadro, as redes por afinidades ganham terreno face às estruturas que impunham a homogeneidade própria dos grupos sociais" (Religião na sociedade portuguesa, Fundação Francisco Manuel Dos Santos, Lisboa, 2019, p. 33). É nos Fundamentos da Metafísica dos Costumes e na Doutrina da Virtude que Kant propõe as suas definições de dignidade. Para ele, o ser humano é um fim-em-sí, o que significa não poder (e dever) transformar-se em instrumento, em objeto de quaisquer outros interesses. E porquê? Pela dignidade do ser humano, um ser com razão e liberdade, a qual (acrescente-se) é a presença da razão ao nível do agir. Portanto, a dignidade do ser humano impõe que o consideremos como um fim e não como um meio. Segundo os textos bíblicos, Deus fez o Ser humano à Sua imagem e semelhança. Fácil, à perspectiva cristã, fundamentar e delinear a incomparável dignidade do ser humano. Por isso, já o tenho dito: uma lágrima humana vale mais do que todas as taças e campeonatos do mundo!
15. No livro do meu querido Amigo e Mestre, José Eduardo Franco, intitulado A Europa ao espelho de Portugal - Ideia(s) de Europa na Cultura Portuguesa (Círculo de Leitores, Lisboa, 2019) pode ler-se: "A afirmação da ideia de Europa, no dealbar da Modernidade, não pode ser desligada daquilo a que Fernando Catroga, no seu livro sobre a problemática da secularização, chama "a depreciação sacral do mundo, a cientificação do universo e a historicização do devir" de que o saber humanístico-renascentista foi protagonista. Portugal foi timoneiro neste processo, operando a revolução do conhecimento do mundo com a abertura proporcionada pelas viagens marítimas. É então que se vence o medo do desconhecido. Pela ousadia portuguesa, "o desejo revelou-se mais forte do que o medo", no dizer de Lucien Boia" (p. 44). Relembro as Sete Centúrias das Curas Medicinais do médico português, professor de anatomia em Ferrara, Amato Lusitano (1511-1568), que chegou a ser considerado o mais notável anatómico do seu tempo. Portugal, com os Descobrimentos, rasgou horizontes de imaginação criativa, no conhecimento científico dos séculos XV e XVI. Dizem, por aí, com oratória enfática, que os nossos treinadores de futebol fazem, actualmente, o mesmo, por esse mundo além. Quero eu dizer: também eles rasgam horizontes de imaginação criativa, no conhecimento científico do futebol. Relembro-os, por ordem alfabética: em Fernando Santos, Jorge Jesus, José Mourinho, Manuel Jesualdo Ferreira, Manuel José, Nuno Espírito Santo, Paulo Fonseca, etc. - nalguns mais, noutros menos, em todos se descobrem assomos de indiscutível talento. Nalguns, que conheço melhor, aprendo com eles a aprender-me.
16. Mas é evidente que as razões das conquistas, bem amadurecidas em conhecimento e trabalho, dos nossos treinadores de futebol, não se devem à formação científica e pedagógica, únicas no mundo todo, dos mestres dos cursos de treinadores ou das escolas superiores de Desporto. O que cientificamente nós sabemos os outros também sabem. A ciência não tem adjetivo nacional. Não há sociologia portuguesa, nem matemática francesa, nem física inglesa, mas há sociologia e matemática e física, que se estudam em Portugal e França e Inglaterra. Acerca da filosofia o Padre Manuel Antunes, já o escreveu: "Sim: as filosofias têm uma pátria. Porém, esta é, muito mais que um espaço geográfico, um espaço espiritual" (Do Espírito e do Tempo, Edições Ática, 1960, p. 146). Ora, porque não há jogos, há pessoas que jogam, qualquer modalidade desportiva, cientificamente falando, é uma ciência humana. Que o mesmo é dizer: no futebol, antes da tática - está o homem; antes da técnica - está o homem; antes da preparação física - está o homem. Ou seja, é mais pelas suas qualidades humanas do que pelo seu saber livresco que o treinador se afirma e triunfa. O melhor teórico do mundo pode ser um péssimo treinador de futebol."

Basquetebol feminino Lusófono reforça liderança Africana

"Decorreu durante o mês de Dezembro no “Indoor Stadium” da cidade do Cairo (Egipto), a fase final do Campeonato Africano de Basquetebol de Equipas Femininas (FIBA Africa Women´s Champions Cup) com a participação das formações campeãs nacionais dos respectivos países: Al Ahly Sporting Club (Egipto), C.N.S.S. (R.D.Congo), Energie BBC (Benin), FAP Basketball (Camarões), Ferroviário Maputo (Moçambique), Inter Clube Luanda (Angola), MFM Queens Basketball (Nigéria) e Sporting Alexandria (Egipto). As equipas do Ferroviário do Maputo e do Inter Clube de Luanda, representantes da Comunidade Lusófona em África, demonstraram novamente a sua enorme capacidade competitiva e sagraram-se respectivamente campeãs e vice-campeãs do continente africano.

Sistema competitivo:
Na primeira fase do torneio as equipas foram distribuídas por dois grupos de 4 equipas cada, jogando entre si em cada grupo. A classificação em cada grupo definiu o calendário para a fase derradeira (quartos de final) através de eliminatórias imediatas, de acordo a seguinte fórmula: A1-B4; A2-B3; A3-B2; A4-B1. Os vencedores desta eliminatória ficaram apurados para as meias finais e os vencidos disputaram o apuramento do 5º ao 8º classificado. Por sua vez, os vencedores das meias finais disputaram a final para se decidir o título de campeão e o de vice-campeão, enquanto os vencidos jogaram para o 3º e 4º lugar.

Fase de Grupos:
Grupo A (resultados):
Energy BBC- 56 Sporting- 104; Queens- 96 Energie BBC- 50; Sporting- 67 Inter Clube- 73; Inter Clube- 79 Queens- 43; Energie BBC – 53 Inter Clube- 103; Queens-42 Sporting- 63.
Classificação:
1º Inter Clube (3 vitórias – 0 derrotas) (255-163); 2º Sporting Alexandria (2 vit. – 1 derrota) (234-171); 3º Queens Basketball (1 vit. – 2 derrotas) (181-192); 4º Energie BBC (0 vit. – 3 derrotas) (159-303).

Grupo B (resultados):
FAP- 47 Al Ahly- 78; Ferroviário- 48 FAP- 40; Al Ahly- 117 CNSS- 53; CNSS- 57 Ferroviário- 89; FAP- 52 CNSS- 56; Ferroviário- 84 Al Ahly- 73.
Classificação:
1º Ferroviário Maputo (3 vitórias – 0 derrotas) (221-170); 2º Al Ahly (2 vit. – 1 derrota) (268-184); 3º CNSS (1 vit. – 2 derrotas) (166-258); 4º FAP Basketball (0 vit. - 3 derrotas) (139-182).

Quartos de final:
FAP Basketball – 43 Inter Clube – 81;
MFM Queens – 62 Al Ahly – 78.
Energie EBC – 40 Ferroviário – 104;
CNSS – 42 Sporting – 86.

Apuramento do 7º e 8º classificado:
MFM Queens Basketball- 71 Energie BBC – 59

Apuramento do 5º e 6º Classificado
 CNSS – 54 FAP Basketball – 49

Meias Finais:
Inter Clube – 86 Al Ahly – 85
Ferrovário – 86 Sporting – 70

Apuramento do 3º Classificado:
Al Ahly – 88 Sporting – 65

Final:
Ferroviário Maputo – 91 Inter Clube Luanda – 90 (após prolongamento).

Classificação final: 1º Ferroviário do Maputo (Moçambique), 2º Inter Clube Luanda (Angola), 3º Al Ahly Sporting Clube ((Egipto), 4º Sporting Alexandria (Egipto), 5º CNSS (República Democrática do Congo), 6º FAP Basketball (Camarões), 7º MFM Queens Basketball (Nigéria) e 8º Energie BBC (Benin).

Cinco ideal e MVP: Ingvild Mucauro (Ferroviário do Maputo) foi nomeada jogadora mais valiosa do torneio (MVP) e, como tal, integrante do cinco ideal (All Star), do qual também fizeram parte Kelsey Mitchell (Al Ahly Sporting Club), Astou Traore (Inter Clube Luanda), Odelia Mafanela (Ferroviário Maputo) e Shawnta Dyer (Sporting Alexandria).

Considerações finais: As classificações alcançadas pelas equipas femininas de basquetebol, campeãs nacionais de Angola e Moçambique, nas competições africanas nestas últimas duas décadas, falam por si. Se quisermos ser mais precisos verificamos que neste século, só por três vezes (2005, 2009 e 2011) os clubes de Angola e Moçambique não obtiveram os dois primeiros lugares. Nos últimos 8 campeonatos africanos as equipas de lingua portuguesa conquistaram sempre as duas primeiras posições. Assim, vejamos o quadro das equipas lusófonas que ganharam medalhas neste período: 
(2001-Abidjan/Costa do Marfim)
1º -Académica, 2º -1º Agosto;
(2003-Maputo/Moçambique)
2º - 1º Agosto, 3º-Maxaquene;
(2005-Bamako/Mali)
2º-1º Agosto;
(2006-Libreville/Gabão):
1º-1º Agosto, 2º Ferroviário;
(2007-Maputo/Moçambique)
1º Desportivo, 2º- 1º Agosto, 3º Ferroviário;
(2008-Nairobi/Kenia)
1º Desportivo, 2º- 1º Agosto;
(2009-Cotonou/Benin)
3º Desportivo;
(2010-Bizerte/Tunísia)
1º Inter Clube, 2º Desportivo;
(2011-Lagos/Nigéria)
1º Inter Clube;
(2012-Abidjan/Costa do Marfim)
1º Desportivo, 2º Inter Clube;
(2013-Meknes/Marrocos)
1º Inter Clube, 2º- 1º Agosto;
(2014-Sfax/Tunísia)
1º Inter Clube, 2º-1º Agosto;
(2015-Luanda/Angola)
1º-1º Agosto, 2º Inter Clube, 3º Ferroviário;
(2016-Maputo/Moçambique)
1º Inter Clube, 2º Ferroviário;
(2017-Luanda/Angola)
1º- 1º Agosto, 2º Ferroviário;
(2018-Maputo/Moçambique)
1º Ferroviário, 2º Inter Clube
(2019- Cairo/Egipto)
1º Ferroviário, 2º Inter Clube.
Este final de ano encerra da melhor maneira com a conquista dos dois primeiros lugares, a exemplo do ano passado, pelas equipas do Ferroviário do Maputo (Moçambique) e do Inter Clube de Luanda (Angola) no “FIBA African Women`s Champions Cup 2019”. Deste modo, podemos afirmar que os clubes de basquetebol feminino da comunidade lusófona reforçaram, uma vez mais, a sua liderança no continente africano. Parece que a semente do basquetebol lançada pelos portugueses, adeptos da modalidade, há muitos anos pegou de raíz."

Benfquismo (MCCCXCVI)

Com estilo...!!!

É no 38 que pensamos

"Ganhámos o último campeonato mas essa conquista já tem o pó da história, queremos o brilho do próximo título

Termina o ano de 2019 marcado, na perspectiva benfiquista, pela reconquista do campeonato, com quatro pontos de vantagem sobre o principal rival. Bem vistas as coisas nada disso interessa, de nada serve dividir a história em retalhos, em períodos de tempo manipulados para criar sensações de vantagem ou desvantagem na contagem dos êxitos. Interessam duas coisas: as 37 títulos de campeão nacional conquistados e a vontade de vencer esta época um novo campeonato.
A história é importante mas o presente é tudo. A situação financeira é importante para vencer mais vezes, a boa gestão é decisiva para vencer, estar na frente é melhor se permitir vencer no fim. No desporto há um longo sofrimento para a efémera alegria da vitória, por isso ela é tão importante e tem de ser tantas vezes repetida. Bruno Lage sabe disso, não alimenta lateralidades e não desvia o foco daquilo que interessa: vencer.
Ganhámos o último campeonato mas essa conquista já tem o pó da história, queremos o brilho do próximo título, queremos a adrenalina do próximo Marquês, queremos a eternidade do próximo Campeonato Nacional. É no 38 que pensamos. Não é verdade que não se ligue ao resto, mas, sem a Liga, liga-se pouco. Porquê? Porque é o próximo e para os adeptos o próximo é sempre (quase) tudo.
Esta fase da época, com a janela de mercado, traz sempre instabilidade, nem que seja noticiosa, mas Bruno Lage tem sido implacável com a estupidez. A resposta de Bruno Lage sobre RDT é, a respeito deste tema, paradigmática: «Vai trabalhar como um bicho». Há duas verdades que não serão fáceis de contrariar sobre a matéria. Primeiro, o espanhol ainda não rendeu o que se espera; segundo, RDT é dos melhores valores a jogar futebol em Portugal e vai dar alegrias aos benfiquistas em grande quantidade. Bem se percebe a vontade dos adversários que o queriam ver pelas costas, eu também faria o mesmo se não fosse benfiquista. Na resposta do treinador está o único ingrediente que se pode juntar ao talento para chegar ao êxito, o trabalho. Por isso foi tão importante e concisa a resposta dada.
Comprar pouco e muito bem, valorizar o que temos, jogar cada vez melhor e de forma mais consistente são os desejos para ter um benfiquista ainda mais feliz. Foi um grande 2019, mas só pensamos num enorme 2020 para o Benfica."

Sílvio Cervan, in A Bola

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

2019, um ano mau para a arbitragem

"O ano de 2019 não foi bom para a arbitragem portuguesa e os dirigentes do sector devem ser os primeiros e reconhecê-lo. Não obstante a ajuda significativa da introdução das linhas de fora de jogo, a eficácia do VAR continua muito longe do que devia ser, com as culpas a caírem por inteiro em quem manuseia a tecnologia: neste caso, dá Deus nozes a quem não tem dentes...
Há casos (e não vou referir nenhum em particular para não introduzir as lentes desfocadas da clubite na questão...) em que não havendo nenhuma boa explicação para a conduta do VAR, a única solução passará por afastar quem se mostra tão incapaz de desempenhar a função. E essa coragem, ainda não deu à costa no Conselho de Arbitragem. Poder-se-á pensar que uma sanção tão radical não será justa nem adequada, mas quando se constata que, em muitos jogos da Liga portuguesa, o profissional mais bem pago dentro das quatro linhas é o árbitro, a exigência tem de estar presente.
Enquanto as discussões sobre arbitragem estiverem focadas em cada árvore (erro) e não na floresta (causa), dificilmente se progredirá. O debate, por fazer no espaço público, deverá abordar temas como a carreira específica de VAR, e quem a ela deverá poder candidatar-se; a forma de recrutamento, para evitar a quantidade exorbitante de árbitros de aviário, sem nenhum sensibilidade para o jogo, que não percebem; e a transparência, que está em falta, nomeadamente quanto às classificações dos árbitros.
Há, pois, muito por fazer por um sector que às vezes dá a ideia de que, à boa maneira dos lusitanos, não se ajuda nem se deixa ajudar..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Reflectir no 'break'

"Observar a analisar um jogo de futebol, como uma partida doutra modalidade colectiva, tem especificidades muito próprias. Quando, por exemplo, se pretende comprar a abordagem no futebol, no futsal ou no futebol de praia, parte-se de uma premissa errada. Todos são futebol. Contudo, a especialização obriga a métodos de preparação diferenciados, como para voleibol, basquetebol, andebol, râguebi, etc... Digo isto porque a tendência para uniformizar análises não é, a meu ver, o caminho para a melhoria da qualidade do jogo e até para a informação que chega aos adeptos. Este é um objectivo comum, ajudar a que as equipas tenham mais e melhor informação, mas também com a qualidade necessária para poderem evoluir.
As ferramentas têm surgido a um nível vertiginoso, as opções são tantas, e tão variadas, que muitos esquecem o mais importante, e fundamental, a natureza humana do jogo. São homens e mulheres, rapazes e raparigas, que jogam, que correm e rematam. O jogo nunca deixará de ser assim. Temos de aproveitar as novas ferramentas para melhorar a nossa prestação, mas nunca permitirmos que a decisão deixe de ser nossa.
Também fora das quatro linhas esta questão se levanta. A oferta é cada vez maior, as solicitações não findam. Mas o jogo tem de ser para o público. Nós jogamos para as pessoas. Para todos. Os que têm mais recursos e os que vivem no limiar da pobreza. Jogamos para mulheres, homens e crianças. Temos de ser um exemplo fora de dentro de campo.
Nesta época natalícia de break nas competições, podemos reflectir sobre todos os comportamentos neste fenómeno social, o de maior dimensão global, que é o futebol.
A análise não deve ser feita só ao jogo, à nossa equipa e ao adversário, mas também ao que se passa em redor. Este é um trabalho interessante para podermos perceber como chegámos aqui, e decisivo para alterarmos um caminho que queremos competitivo, mas leal, solidário e cada vez de maior qualidade."

José Couceiro, in A Bola

Benfica desmente interesse em Tapsoba

"O Sport Lisboa e Benfica desmente oficialmente as notícias publicadas recentemente e que dão nota de que o Clube acompanha com muito interesse o defesa do Vitória Sport Clube, Tapsoba.
As notícias são totalmente falsas e não têm qualquer fundamento. Não tem igualmente fundamento o interesse do Sport Lisboa e Benfica em qualquer outro jogador da Liga NOS."

Económico - Rescaldo Internacional...