Últimas indefectivações
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
Benfica: mata-mata em Istambul
"O Benfica tem alternado momentos de qualidade atacante e de pressão defensiva com apagões comprometedores. Que amanhã estão proibidos.
Começou a 85.ª edição da prova maior do futebol nacional e a primeira jornada revelou-nos sintomas prudentes tomar a nuvem por Juno em qualquer circunstância. A Liga é uma maratona de 3060 minutos e como Jorge Jesus dizia, na sua imensa sabedoria, «isto não é como começa, é como acaba...» Caso diferente é o do desafio turco do Benfica. O jogo de amanhã, na parte oriental de Istambul, que a equipa de Rui Vitória inicia a ganhar por um a zero, terá influência, para o bem ou para o mal, em toda a época. Aceder à fase de grupos da Liga dos Campeões é um objectivo maior dos encarnados, não só pelos mais de 40 milhões de euros imediatamente associados à superação da terceira pré-eliminatória e do play-off, mas também pela montra que tal sucesso permitirá aos talentos emergentes na Luz, além do boost anímico que representará para o clube, dos adeptos aos jogadores, sem esquecer os dirigentes.
Não valerá muito a pena, neste momento, fazer um balanço aprofundado às condições em que este plantel às ordens de Rui Vitória foi construído, sendo incontornável, porém, manifestar alguma surpresa por não terem sido colocadas todas as fichas nesta pré-eliminatória, por um lado fechando uma ou outra contratação que continua no ar (Gabriel, Ramires, um lateral direito, eventualmente mais um guarda-redes), por outro não permitindo (e isso só seria feito com acções em tempo útil) que o melhor jogador da equipa vivesse submerso na dúvida fica-sai, não dando seu contributo à equipa em pelo menos dois jogos oficiais (amanhã volta a não ir a jogo, por lesão). Sem qualquer sombra de dúvida, a continuidade do Pistolas na Luz é uma muito boa notícia para o Benfica. Mas este arranque soluçante foi pernicioso.
Quanto ao jogo-jogado do Benfica - de olhos postos em Istambul - alguns considerandos: a equipa de Rui Vitória altera alguns períodos bem conseguidos, quer na dinâmica atacante, quer na intensidade de pressão defensiva, com comprometedores apagões de concentração, que ficaram à vista de todos em dois momentos distintos na partida com o V. Guimarães, primeiro quando os forasteiros estiveram à beira de empatar a uma bola e depois, no susto final, com a passagem do placard de 3-0 para 3-2. Amanhã, só um Benfica sempre focado no jogo e sem medo do ambiente poderá ter sucesso."
(...)
Ás
Pizzi
Um oito a conseguir um hat-trick não é coisa que se veja todos os dias. Pizzi, que já conseguira proeza semelhante, no Dragão, a jogar pelo Paços de Ferreira de Rui Vitória (2010/11), acendeu a Luz e guiou o Benfica a um triunfo que parecia luminoso e acabou por acabar com algumas sombras. Está muito confiante...
(...)
O fantástico destino de Bernardo Silva
«Bernardo Silva é inteligente e esperto. É competitivo e creio tratar-se do jogador mais querido na nossa equipa»
Pep Guardiola, treinador do Manchester City
Num fim-de-semana de arranque da Premier League em que dois jogos portugueses, Rúben Neves e Bernardo Silva, assinaram golos de altíssimo recorte, Pep Guardiola voltou a elogiar Bernardo, de quem, há uma semana, dissera as palavras acima transcritas. Com Bernardo Silva temos a sensação de estar perante um predestinado intemporal do futebol português.
CR7 já fez o gosto ao pé (mas foi 'a brincar')
Cumpriu-se a tradição da Juventus de iniciar a época com um jogo entre as equipas A e B em Villar Perosa, domínio do clá Agnelli. Ontem, este apronto (durou 77 minutos, devido à habitual invasão dos tifosi à caça de selfies) marcou a estrela, com um golo, de CR7, motivo de atenção de toda a Itália...
(...)"
José Manuel Delgado, in A Bola
Falsa denúncia anónima
"1. A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD esclarece que são totalmente falsos os factos citados na notícia hoje publicada pelo Jornal de Notícias sob o título “Benfica suspeito de prometer 10 mil euros para vencer o FC Porto”, feita com base, segundo a mesma notícia, numa denúncia anónima.
2. Reafirmamos de forma inequívoca que nenhum dirigente do Clube cometeu qualquer ilegalidade ou fez qualquer contacto para oferecer qualquer tipo de incentivo ou vantagem nesse citado jogo, ou em qualquer outro jogo a jogadores de outros clubes.
3. Esclareça-se que nunca o Sport Lisboa e Benfica, nem nenhum dos seus dirigentes ou agente desportivo do Clube, foi confrontado ou sequer ouvido sobre o tema que consta na referida notícia.
4. A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD reafirma a sua serenidade sobre esta matéria, tanto mais que foi por sua iniciativa que solicitou às entidades competentes uma investigação rigorosa a todos os jogos realizados nas últimas 5 épocas.
5. Lamentamos, por fim, assistir à forma sistemática como um título reputado como o Jornal de Notícias se tem transformado neste último ano e meio num instrumento permanente da estratégia de comunicação do FCP, facto perceptível até pela promiscuidade existente entre jornalistas com cargos de direcção editorial do referido jornal, que não se eximiram de exibir a sua presença e participação nos festejos mais privados do staff do referido clube, no título conquistado na última época. Felizmente uma instrumentalização e promiscuidade sem paralelo nos media nacionais."
O invisível Pizzi
"Um jogador marca três golos num jogo e algures numa rede social um adepto do clube desse jogador escreve, com familiaridade carinhosa, “hat-trick do zarolho”. O zarolho é – será necessário dizê-lo? – Luís Miguel Afonso Fernandes que, para efeitos de fama futebolística, se apropriou do nome do desengonçado ponta-de-lança hispano-argentino Juan Antonio Pizzi, que no apogeu da carreira vestiu a camisola do Barça e, no seu ocaso, se arrastou em campo com a do Futebol Clube do Porto.
Este Pizzi transmontano é um jogador apreciável. Há dois anos, quando o Benfica ganhou o tetracampeonato, foi eleito o melhor jogador da Liga, prova de que o seu talento não passa despercebido a todos. O ano passado, uma das causas apontadas para a época sofrível dos encarnados foi o sub-rendimento do número 21, o que significa que a sua importância é maior do que alguns estão dispostos a reconhecer. O homem até festeja os golos batendo continência sabe-se lá a que general invisível e os jornais até lhe chamam, por antonomásia ou ironia, “o comandante”.
Então, por que razão Pizzi é reduzido, ainda que afectuosamente, à sua oblíqua condição de zarolho? Por que razão jogadores de méritos mais duvidosos são perseguidos por cardumes de tubarões e por Pizzi nem sequer um peixinho dourado suspira lá na sua solidão de aquário? (Reconheço que esta informação é falsa. De acordo com os jornais desportivos, Pizzi é cobiçado por clubes como Marselha, Schalke 04 e Bétis. No entanto, não permitirei que este leilão irrisório atrapalhe a minha argumentação.) Por que razão se lançam petições públicas a exigir a convocatória de alguns jeitosos e do abnegado Pizzi ninguém sentiu a falta num Mundial em que o nosso meio-campo foi habitado pelos clones dos jogadores que nos deram o título europeu? Um perna de pau marca três golos e, no dia seguinte, é capa de jornal com as chuteiras na mão e declarações de antigos treinadores, de ex-colegas nos juvenis e de vizinhos a afirmar, com os olhos marejados do álcool, que sempre souberam que ele ia chegar longe. (Verdade seja dita que pelo menos um jornal ouviu Beto Antas, antigo treinador de Pizzi, e um ex-dirigente do Bragança, clube onde o jogador do Benfica começou a carreira, mas resistamos a estes factos menores e prossigamos no nosso caminho.)
Nos últimos anos, o Benfica tem conseguido vender, com relativa facilidade e lucro, quase todos os jogadores que se destacam na equipa. Até tem conseguido vender, por milhões de euros, projectos inacabados de jogadores que não só não se destacaram como nem sequer disputaram qualquer jogo pela equipa principal. Pizzi, esse, continua ali, encalhado e a desencalhar a equipa, invisível quando os seus passes e movimentações tornam fluido o jogo, facilmente perceptível até das cadeiras mais longínquas do terceiro anel quando erra um passe, quando perde uma bola, quando o cansaço lhe tolda a clareza de raciocínio.
A única explicação que me ocorre é a de que Pizzi sofre de um excesso de “pizziedade”, a qualidade dos objectos em que só reparamos nos momentos funestos. Vejamos: o último médio do Benfica a marcar um hat-trick tinha sido o senhor Mário Coluna. Mas o “monstro sagrado” até no nome era vertebral. Pizzi, bem, é Pizzi. Falta-lhe aquilo que alguns jogadores têm e outros, por muito bons que sejam, por muito que se esforcem, não têm. Algo semelhante à aura misteriosa das estrelas de cinema. Para não serem incomodadas pelos fãs, algumas vedetas do mundo do espectáculo reservam quartos de hotel com nomes de personagens dos desenhos animados, vestem-se como sem-abrigo, usam perucas, barbas postiças. Ora, estou em crer que Pizzi não seria importunado por ninguém mesmo que caminhasse pelas ruas com o equipamento do Benfica, mesmo que andasse por aí a cumprimentar as pessoas batendo a continência. Mostrem-me uma criança que, entre uma camisola com o nome de Jonas e outra com o nome de Pizzi, prefira a do transmontano e eu mostro-vos um futuro carteiro.
É isso: jogadores da estirpe de Pizzi são discretos como carteiros. Há os galácticos e há a classe média. Os jogadores que pertencem a esta podem marcar três golos que a terra não treme e os astros seguem o seu curso. Por eles, nenhum clube abre os cordões à bolsa. Nenhum presidente excêntrico entra em loucuras. E eles, indiferentes ao ruído, continuam a entregar cartas, faça chuva ou faça sol, com a mesma diligência de sempre, sabendo que só vão reparar neles no dia em que a carta for parar à caixa errada. De resto, estão condenados a uma invisibilidade de certa forma benigna. A invisibilidade que, hoje em dia, é a única maneira de um bom jogador se manter durante muitos anos num clube português."
Almeidinhos...
PS: O facto do Benfica continuar a permitir ao Grupo Imprensa, especialmente ao Expresso, entrevistas aos nossos jogadores, é absurdo!
Futebol total?
"A entrada em força da Eleven Sports no mercado português de direitos desportivos vai fazer tremer aquele que foi o FMI dos clubes, a Olivedesportos.
O grande Bill Shanky, um dos maiores treinadores ingleses de sempre, disse um dia a coisa mais simples e certa sobre o futebol: "Se foste primeiro, foste o primeiro. Se fores segundo, não és nada." Mas a lei da gravidade também é perniciosa para os que querem ser eternos vencedores: tudo o que sobe acaba por cair. O FC Porto teve o seu tempo, destituindo o Benfica e o Sporting; o Benfica regressou à ribalta; só o Sporting espera que o tempo volte para trás. Ícaro simboliza o futebol. No início da nova temporada, depois de um ano em que se tentou tudo para destruir a essência do futebol em Portugal (das suspeitas constantes às agressões a jogadores), fica-se com a sensação de que pouco mudou. Excepto que Portugal só já tem um clube com acesso directo à Liga dos Campeões. E a continuar assim, veremos se será por muito tempo. Enquanto os principais clubes se divertem numa guerra civil onde não haverá vencedores, o mundo move-se. A Liga portuguesa de futebol é cada vez mais periférica, sendo um aviário de talentos para onde o dinheiro está: Inglaterra, Alemanha, Espanha, França e, novamente, Itália (a nova mina de Jorge Mendes). A entrada em força da Eleven Sports no mercado português de direitos desportivos vai fazer tremer aquele que foi o FMI dos clubes, a Olivedesportos. Para trocar mais as voltas a FPF vai entrar no mundo das transmissões televisivas. Enquanto isso os principais clubes entraram em autofagia.
O futebol vive ainda do ego do Europeu de 2016 e do "melhor do mundo", mas parte disso foi destruído com a miserável prestação da selecção no Mundial da Rússia. Nem a estratégia de "os resultados valem mais do que as exibições" valeu: nem exibições nem resultados. A maioria dos jogos da Liga vão ser belas sestas: nem espectadores vão atrair, como é hábito. Sobre isso, e tudo o mais, a Liga do fantástico Pedro Proença apita para o ar. Ou seja, a ideia de o futebol português ser uma indústria está a ser morta pelos seus próprios intérpretes. Mas ninguém parece preocupado com isso."
Currente Calamo...
"“Currente Calamo” é uma locução latina que significa escrever com rapidez, sem se ocupar da beleza, da elegância, da louçania do estilo. No meu caso, tento deste modo, “currente calamo” – criticar! Na palavra douta do Padre Manuel Antunes: “A crítica é um dom. Nasce-se com aptidão interpretativa e judicativa, como se nasce com aptidão criadora e expressiva” (Ao Encontro da Palavra, Livraria Morais Editores, Lisboa, 1960, p. 24). Federico Rampini, correspondente do jorna l italiano La Repubblica, em Nova Iorque (depois de ter trabalhado, com iguais funções, em Paris, Bruxelas, São Francisco e Pequim) declarou à revista LER, em entrevista ainda de grande actualidade (Verão de 2017) que “vivemos na era do caos: a globalização falhou muitas das suas promessas, o aumento das desigualdades tem sido galopante e, para muitos, a resposta certa à incerteza passa pelo populismo e o nacionalismo”. E sublinhou: “Se partirmos do princípio que vivemos numa era em que a hegemonia ocidental está num declínio irreversível, que estamos a assistir ao fim de um período histórico em que o Ocidente era o centro e dominava, para um período em que paulatinamente o centro do mundo se está a deslocar para a Ásia, isto quer dizer que estamos a entrar num período em que temos o declínio de um império mas ainda não temos um novo império e temos vários exemplos de períodos idênticos, ao longo da História, que são caracterizados por instabilidades longo prazo, turbulência, desordem e caos. Não devemos continuar a pensar num regresso à ordem, na restauração de uma ordem e da estabilidade. Penso que isso não deve acontecer. Em vez disso, devíamos treinar as nossas mentes para sobrevivermos da melhor maneira possível, num período muito longo de instabilidade, desordem e caos. Porque é nesse mundo que iremos daque.
Segundo Federico Rampini, a tanto levaram as políticas da austeridade, que se revelaram nocivas à criação de novos empregos e condenaram várias regiões da Europa a uma profunda estagnação. E refere Federico Rampini: “Perdemos uma década. Foi uma década perdida. É possível que as gerações mais jovens nunca venham a recuperar. Perderam dez anos das suas vidas, sem terem um emprego sério”. De facto, ainda hoje esta geração, que apresenta habilitações literárias, graus académicos, publicações de teor universitário e científico que nenhuma outra geração pôde apresentar, sente-se frágil e desprezada, vivendo em democracias que parecem envelhecidas e anémicas. Democracias aliás que, em conluio com um matemático neoliberalismo, ocupam-se do lucro, da exploração, da reificação das pessoas e da trivialização ou destruição da Natureza. E é terrível o vazio axiológico deixado, por este naufrágio das ideologias e por determinados sistemas económico-financeiros – vazio axiológico bem visível, até em algumas das várias formas de prática desportiva, que não se cansam de publicitar que… “o desporto faz bem à saúde”. É evidente que “o desporto faz bem à saúde”, também eu o digo, sem qualquer problema de consciência. Mas não aquela prática, dita “desportiva”, onde o “doping”, a corrupção e a violência imperam; onde o homem-máquina é uma consequência inevitável de um treino e de uma competição, esvaziados daqueles valores que estão na génese do desporto moderno; onde o dirigismo, dito “desportivo”, é corporizado por homens em permanente suspeita de tudo o que fuja aos seus interesses pessoais de vaidade e domínio e que, em todos os que trabalham consigo, nos clubes, vêem acólitos do seu furor orgiástico de manipulação.
José Tolentino Mendonça, no livro, de que é autor, Elogio da Sede (Quetzal Editores. Lisboa, 2018), a síntese dos textos que serviram de guião às suas reflexões no retiro espiritual do Papa, conduzido precisamente por este sacerdote, escritor e universitário português, escreve, demarcando-se sempre (ele que é um dos grandes escritores portugueses da hora presente) da teoria da “arte pela arte”: “a misericórdia é o rosto de Deus” (p. 135). E escreve também: “a misericórdia é um evangelho por descobrir” (p. 136). Mas… o que é a misericórdia? “Perguntamo-nos, muitas vezes, o que é a misericórdia (…). Ela tem de encarnar-se para que a possamos tocar. Misericórdia é compaixão, misericórdia é bondade, misericórdia é perdão, misericórdia é colocar-se no lugar do outro, misericórdia é levar o outro aos ombros, misericórdia é a reconciliação profunda (…). Para concluir: não há misericórdia, sem excesso. Se queremos ser pessoas moderadas, se queremos ser apenas justos, se queremos fazer apenas o que está certo, seremos até boas pessoas, mas não conheceremos o Evangelho da Misericórdia” (p. 132). As “religiões seculares”, corporizadas por algumas ideologias e utopias, que pretendiam fundar a existência humana em novos alicerces morais e políticos, a ditadura do Lucro reduziu-as a bem pouco. Um consumo e um bem-estar, totalmente desinteressados do modo de vida e do nível de vida das periferias, também não permite à nossa hipermodernidade o espaço próprio de uma utopia, com as virtualidades da “misericórdia” que o Evangelho distingue. “Um relatório recente da Organização Mundial de Saúde (OMS) indica que três, em cada dez pessoas, não tem acesso a água potável em casa. Isso perfaz uma impactante multidão, calculada em torno aos 2,1 mil milhões de seres humanos. Se acompanharmos estes indicadores, percebemos que a sede é um gravíssimo problema que atropela a vida de tantos. Basta acrescentar que 844 milhões de pessoas não só não tem água em casa, como lhes falta na vizinhança das suas habitações um serviço básico de água potável” (pp. 137/138).
Costuma dizer-se que “o futebol é a coisa mais importante das coisas pouco importantes”. E, neste caso, quem o diz sou eu que, desde criança, aninhado na ombreira da casa dos meus pais, já me deliciava ao ver passar os jogadores do Belenenses que, lépidos e joviais, seguiam a caminho do Estádio José Manuel Soares (ou das Salésias). Depois, durante muitos anos, continuei a presumir que o futebol, interpretado por praticantes de camisola azul e cruz ao peito, era o espectáculo que mais me entusiasmava, que mais me emocionava até. E cheguei mesmo a escrever que “o desporto, principalmente o futebol, é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo”. Ainda hoje posso adiantar, sem receio, que é o futebol o espectáculo que mais aprecio. Mas o futebol, de que tanto gosto, é o que se joga nos relvados, é o futebol de alguns dirigentes, dos jogadores, dos treinadores e de um ou de outro jornalista ou especialista estudiosos. Há um futebol que me penaliza – o futebol das claques, muitas vezes com um linguajar do mais nojento e ordinário que possa supor-se; o futebol de certos dirigentes, recém-chegados ao futebol, onde esperam encontrar poder, fama, notoriedade, dinheiro (se possível, muito) e o aplauso que lhe tributa a “classe dominante” e a fé e o fervor de um número considerável de sócios, filhos de um povo crédulo, simplório e tradicionalista; o futebol de alto risco dos jogos Benfica-Sporting, Sporting-Benfica, Porto-Benfica, Benfica-Porto, Porto-Sporting e Sporting-Porto, alto risco a que levou um clubismo próximo do “panem et circenses” da Velha Roma, o vazio ideológico, a mundialização da sociedade de mercado e as novas formas de alienação e de barbárie. E ao fim de 46 anos de docência, procurando inculcar, nos que me escutavam, que o desporto, actualmente, só se justifica como contra-poder ao poder das taras dominantes - para mim, um “futebol de alto risco”, ou resulta de crassa estupidez, ou está aí ao serviço de escondidos interesses.
Em Janeiro de 1975, num opúsculo da minha autoria, para uma renovação do desporto nacional (Moraes Editores, Lisboa) já eu enfatizava que uma ética do desenvolvimento do desporto exige “que não se esgotem as análises na apresentação de projecções e quantificações numéricas. Decorre duma racionalidade curta o apresentar a forma dum desporto verdadeiramente nacional pelo número elevado de praticantes, ao nível das massas ou das elites. Sendo muito, não é tudo. É preciso ver antes se o desporto se institucionalizou como instrumento, ao serviço da saúde, da educação e da liberdade… do homem! Este é o húmus fecundo que a ética nos aponta, onde o desporto deve nascer, crescer e manter-se. Vitórias, derrotas, campeões olímpicos, recordistas mundiais, desporto-pata-todos, espectáculo desportivo – são conceitos que só a esta luz encontram fim e justificação. Ao contrário, o desporto actual será mais marco inútil e inumano de sociedades injustas. De que brotou, afinal, como o micróbio do fruto apodrecido” (p. 104). Dois anos depois, também em livro da minha autoria, a prática e a educação física, já eu aditava a tudo o que tinha escrito, a este propósito: “Ciência do Movimento Humano, ou seja, Ciência do Homem, em que os conceitos de coordenação motora, de ideo-motricidade, de esquema corporal, de motivação, de aprendizagem, de treino, de “forma”, de habilidade, de hábito, de táctica, de estratégia, etc., etc. – são também problemas filosóficos, em que o corpo nos aparece como concretização espácio-temporal de uma sociedade, duma visão do Mundo, do Homem e da Vida” (p. 59). Há mais de 40 anos, estimulado pela Filosofia e pelo que aprendera com os alunos e professores do INEF, já eu me separava da vulgaridade e mesmidade de uma certa crítica desportiva. É que, para mim, há muitos anos já, o desporto não está acima da pessoa humana, nem dos seus superiores interesses. O desporto não existe à parte, ou acima da sociedade que o gerou.
Peço desculpa, por fim, do meu “currente calamo”. É que também o tema é merecedor de muito mais…"
Falta de isenção na RTP
"Comentários inqualificáveis e intoleráveis na televisão pública.
Os comentários de Luís Lopes sobre as incidências do Europeu de Atletismo, na RTP, colocando em causa a naturalização do atleta Pedro Pablo Pichardo, que detém a melhor marca do mundo em 2018 no triplo salto, assim como a sua postura discriminatória em relação aos atletas do Sport Lisboa e Benfica durante a competição de Berlim, são inqualificáveis e intoleráveis num canal público de televisão, ainda mais porque não são inéditas por parte de alguém que é encarado como "especialista".
O Clube critica veementemente este comportamento xenófobo e racista inaceitável e irá formalmente denunciar junto da RTP esta atitude absolutamente deplorável que revela total falta de isenção e até de cultura desportiva.
Recorde-se que Pedro Pichardo foi impedido de participar no Campeonato da Europa pela IAAF e não pela Federação Portuguesa de Atletismo. A FPA, após um período de hesitação institucional, tudo tem feito nas últimas semanas para normalizar a situação competitiva de um atleta de enorme valia e reconhecimento internacional, que irá de encontro ao interesse nacional.
O SL Benfica está confiante que Pedro Pichardo tem todas as qualidades para levar o atletismo português a um patamar superior na disciplina do triplo salto."
PS1: O Benfica fez bem em reagir, já na qualificação do Triplo o Luís Lopes se tinha 'estendido' em demasia!!! O Luís Lopes tem direito à sua opinião pessoal, mas enquanto funcionário público, deve respeitar todos... até os Benfiquistas!!!
A questão da naturalização até pode ser discutível para alguns (para mim não é...), mas o historial de Portugal no Atletismo (e noutras modalidades), não deixa qualquer dúvida... se ficaram aziados por o Benfica ter conseguido 'substituir' o pesetero do Évora, pelo Pichardo, azar o vosso!!! E se no próximo ano, o Pichardo for Campeão do Mundo, quero ver a 'felicidade' de alguns!!!
E sim, isto não é só a questão da naturalização do Pichardo, isto ultrapassa essa questão... Quem seguir os Campeonatos com atenção, não pode deixar de reparar, nas introduções 'clubistas' quando os atletas representando a Selecção Nacional são Lagartos, quando são Benfiquistas, na maior parte das vezes, são somente 'portugueses'!!!
PS2: No último dia dos Campeonatos, tivemos a Marta Pen na final dos 1500m. Não foi uma corrida perfeita da Marta, mas prefiro que o 'erro' tenha sido o excesso de ambição, do que tivesse sido 'medo' das adversárias!!!
A Marta não devia ter ido atrás das Inglesas, devia ter deixado isso para as outras e se calhar tinha sacado uma medalha... mas, não deixa de ser uma prestação positiva.
Se a Marta no próximo ano conseguir entrar nos minuto três, então poderá tentar seguir os ritmos com aquele que a Muir 'meteu' hoje, e aí poderá chegar às medalhas... até porque não acredito que a Marta desenvolva uma ponta final de faça a diferença a este nível!!!
Alguns vão recordar que a Marta foi 5.ª no último Europeu, mas o último Europeu foi em ano Olímpico, e houve muitas atletas que não foram ao Europeu, ou planearam o pico de forma para os Jogos no Rio...!!! Algo que provavelmente vai novamente acontecer daqui a dois anos...!!!
PS3: A estafeta dos 4x100, com três benfiquistas (José Pedro Lopes, Diogo Antunes, Frederico Curvelo), portou-se bem... sem a República Checa na Pista 2, ficámos quase 'abandonados' na Pista 1...!!! Voltou a ser um ano com muitas lesões nos sprinters nacionais... se tivermos todos em condições, talvez se consiga a qualificação para o Mundial para o ano...
Quase um ordenado mínimo
"O fervor que explodia das bancadas evidenciava que a fé é imensa. É legítimo o sonho! E com Jonas o sonho cresce e acresce!
1. A Liga portuguesa arrancou na passada sexta-feira no Estádio da Luz e a sua primeira jornada termina, em razão de imperativos dos exclusivos da televisão, apenas amanhã em Portimão. O jogo foi transmitido pela BTV. Os outros pela SportTV. Quase todos os jogos - com excepção dos jogos do Funchal e de Santa Maria da Feira - foram e serão em diferentes horários, o que permite um funcionamento em pleno do VAR, na bonita Cidade do Futebol. O Benfica mostrou na primeira parte frente ao Vitória de Guimarães que a reconquista - da Liga! - é possível. E o fervor que explodia das bancadas evidenciava que a fé é imensa e intensa. É legítimo o sonho! E com Jonas o sonho cresce e acresce! Mas o mesmo Benfica nos últimos minutos da partida evidenciou algumas fragilidades que, decerto, terão sido entendidas como oportunidades para a devida e sagaz ponderação técnica. Na primeira parte houve momentos de nota artística e com Pizzi a fazer, com brilhantismo, três continências de encantar e de embalar. De embalar para um difícil e complexo jogo na próxima terça-feira na parte asiática de Istambul e face a um adversário que mostrou na passada terça-feira, principalmente na primeira parte, alguma ratice em razão da grande experiência de alguns dos seus jogadores. Mas do jogo de sexta-feira ficam as confirmações de Gedson e Vlachodimos, a sagacidade de Salvio e a raça de Grimaldo. E a convicção que Ferreyra vai marcar e vai mostrar tudo o que vale! A Liga Nos aí está. Agosto após Agosto recomeça o sonho de cada um de nós. Em que a paixão, por vezes, e bem (!), vence a razão. Em que ambicionamos largos momentos de prazer e poucos instantes de dor. Em que desejamos sempre vencer mas sabemos, desde o saudoso Senhor Artur Semedo, que «o Benfica nunca perde, de vez em quando é que não ganha»! É com este sentimento que semana após semana vibramos e sofremos, exaltamos e justificamos, apreciamos e motivamos. Sabendo, sempre, que somos legitimamente treinadores de bancada e árbitros pela televisão! E, assim, sendo VARs caseiros construímos acrescidas justificações e criamos irrelevantes substituições. Já que na nossa catedral só queremos a exaltação do nosso Deus! Já que o Outro, o de Verdade, nos perdoa estes pecados que também nos dão Vida!
2. (...)
3. (...)
4. O mundo é feito de mudança. Já cantava o imortal Poeta e já o sentimos nós os fiéis adeptos/clientes/consumidores de futebol em Portugal. A dispersão dos exclusivos televisivos de futebol em Portugal implica que cada fiel consumidor gaste, esta época, quase um ordenado mínimo se quiser ver os principais jogos das mais relevantes competições..Sem falarmos nos canais em aberto teremos de contratar três operadores. A SportTV para as nossas Ligas e outras competições nacionais, Liga inglesa, Liga italiano, por ora a Liga alemã e, agora, e em directo, a Liga chinesa, entre outras menos importantes. Depois a NOWO - Eleven Sports - se quisermos acompanhar a Liga dos Campeões - com a excepção de sete jogos da Liga dos Campeões que serão transmitidos pela TVI -, a Liga Espanhola, a Liga francesa, a Liga belga e a liga escocesa. E, naturalmente a, a BTV, em razão dos jogos na Luz do Benfica. Um ordenado mínimo custa o futebol sentado e no sofá! Por ora deixo os factos. Que vão aos bolsos dos clientes/consumidores. E que levarão muitos a ver nos rossios de ontem os jogos dos seus clubes do coração e levarão, outros, a mecanismos de substituição para acompanharem, também a cores, as suas paixões. O mundo, este mundo, é mesmo feito de mudanças. Como disse John Kennedy «a mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente, irão com certeza perder o futuro»! E o futuro, nesse âmbito, é bem incerto!"
Fernando Seara, in A Bola
domingo, 12 de agosto de 2018
Uma novela com final feliz...
"... e outra terá um fim triste para quem insiste fazer de si próprio personagem principal. Uma viagem aos mundos de Jonas e BdC
Chegou ontem ao fim a novela em torno de Jonas. Teve, como quase todas as novelas, um final feliz para os benfiquistas - os adversários dos encarnados farão, por certo, uma leitura diferente -, que depois de terem dado como perdido o seu melhor jogador dos últimos quatro anos assistem agora, felizes, a um volte-face que lhes garante a continuidade do brasileiro na Luz. Percebeu-se, durante um processo mais longo do que desejável face aos companheiros do Benfica neste arranque de temporada, que aos adeptos pouco interessa o BI ou questões físicas para as quais olham, sempre, de forma bem mais optimista do que fazem treinadores, departamento médico ou, até, presidentes.
Sim, Jonas tem 34 anos e problemas crónicos nas costas. O que, do ponto de vista (sempre implacável) de gestão, empresarial ou desportiva, desaconselharia uma renovação de contrato com substancial aumento salarial. O problema, claro, é que não estamos a falar de um jogador qualquer. Como escrevi neste mesmo espaço há uma semana, para a maioria (e acredito que grande...) dos benfiquistas vale mais Jonas com 34 anos e com as costas feitas num oito do que quase todos os outros de 20 e com as costas direitinhas como um cabo de vassoura. A sua possível saída para a Arábia Saudita provocou, por isso, um tumulto que ninguém previra, motivando, até, a criação de uma página de Facebook para reunir apoios a favor da destituição de Luís Filipe Vieira.
O presidente do Benfica, que não anda cá há dois dias, percebeu a mensagem e apressou-se a aproveitar a hesitação do avançado brasileiro a seu favor. Fez saber que propôs a Jonas a renovação de contrato, que faria dele o jogador mais bem pago do plantel, e encostou-o à parede, colocando do lado do brasileiro o ónus de uma eventual saída. O resto já se sabe: as partes entenderam-se e o avançado vai continuar no Benfica.
São boas notícias para todos: para Vieira, que encontrará sempre no desejo dos adeptos um escudo para uma pequena loucura; para Jonas, que se calhar nunca quis mesmo sair mais aproveitou uma proposta irrecusável para melhorar as suas condições na Luz; para Rui Vitória, que dificilmente encontraria no mercado de um jogador como o atacante brasileiro - agora é encaixá-lo no onze, sendo certo que ter Jonas à disposição nunca poderá ser visto pelo treinador (por nenhum treinador...) como um problema.
Bruno de Carvalho não descola. É como aquele conhecido - todos temos pelo menos um - de quem toda a gente se quer livrar ao fim de uns minutos de conversa e que, por uma questão de educação, vamos ouvindo (ou fingimos que continuamos a ouvir) até que se canse de falar para o boneco. É aquilo a que chamamos um chato. Para piorar as coisas, tem aquele problema de fazer-se sempre de coitadinho, como se tudo, desde o big bang, se tivesse conjugado numa enorme conspiração contra ele, eterna vítima de todos os males do mundo. Era, convenhamos, um traço da personalidade que já lhe conhecíamos, mas piorou bastante desde que os sócios com ele correram da presidência do clube de Alvalade.
Não foi ainda Bruno de Carvalho capaz de perceber que são já poucos os que lhe passam cartão. E serão menos ainda os que se importam se ele pode, ou não, ir a eleições. Um conselho para o primeiro presidente destituído da história do Sporting: às vezes quando se está ferido a melhor estratégia é fazer-se de morto e esperar pelo momento certo para contra-atacar. Vem nos livros: fazê-lo quando se está claramente por baixo é, só, o caminho mais rápido para a auto-destruição. O problema, claro, é que Bruno de Carvalho sempre mostrou uma clara atracção pelo abismo. É, sem surpresas, para lá que insiste em caminhar."
Ricardo Quaresma, in A Bola
Novidades legislativas
"No Conselho de Ministros do passado dia 9 de Agosto de 2018 foram aprovados vários diplomas e propostas de lei com grande impacto para o desporto nacional.
Foi aprovada a criação da Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto, já anunciada anteriormente pelo Governo, e que visa reforçar a prevenção e o combate ao fenómeno da violência no desporto, assegurando de forma mais próxima a fiscalização do cumprimento do regime jurídico do combate à violência, ao racismo, à xenofobia e à intolerância nos espectáculos desportivos, previstos na Lei n.º 39/2009, de 30 de Julho.
Foi também aprovada a proposta de lei que altera este regime jurídico. A revisão proposta tem como «principais objectivos aumentar a celeridade de tramitação e transparência dos processos contraordenacionais do seu regime sancionatório e incrementar a eficácia na sua aplicação».
O Conselho de Ministros aprovou ainda a proposta de lei que altera o regime de acesso e exercício da actividade de treinador de desporto. Após cinco anos de vigência da lei que regula esta actividade, entendeu o Governo que é necessário ajustá-la à realidade actual do sistema desportivo português, de forma mais eficiente e qualificada, reequacionando-se a formação dos treinadores de desporto.
Por fim, foi aprovado o Plano Nacional para a Juventude 2018-2021, que compila e orienta o desenho, execução e avaliação de políticas de juventude nos domínios da Educação Formal e Não Formal, Emprego, Saúde e Habituação, considerando ainda os domínios do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Igualdade e Inclusão Social e Governança e Participação."
Marta Vieira da Cruz, in A Bola
Cadomblé do Vata
"1. Em 5 jogos na Liga contra Luis Castro, Rui Vitória ganhou 5... mas atenção, o vimaranense dá cabazada ao técnico do SLB nas conferências de imprensa e no processo.
2. Esta equipa do SLB mostrou respeito por todos os adeptos do Clube... foram 80 minutos de excelente futebol para todo o estádio e 10 minutos horríveis apenas para dar razão aos críticos.
3. Ferreyra corre o risco de atravessar uma linha sem retorno... é aquela que separa um avançado com falta de confiança de um Bergessio.
4. Esta direcção tem cada vez menos respeito pelos adeptos: como se não bastasse ter acabado com o jogo de apresentação, agora também já não apresenta contratações... foi à China buscar o Ramires e sem dizer nada a ninguém, deu-lhe um penteado novo e meteu-o a jogar com a camisola 83.
5. Hat trick de Pizzi contra a equipa que tem D. Afonso Henriques no emblema... a Dinastia de Borgonha foi inapelavelmente derrotada pela de Bragança."
O fim do treinador estrangeiro
"Depois do banquete do Mundial, que alguns comensais menosprezam como se estivessem habituados a refeições mais opíparas, voltamos à nossa comidinha caseira feita à pressa, metida numa marmita que não podia ir ao micro-ondas e que, por isso, tem a forma de um relógio de Dalí, e consumida em lugares lúgubres onde, na maioria das vezes, o ambiente é o de uma noite de domingo depois de um funeral. Bem-vindos às emoções da Primeira Liga, com os seus estádios vazios, salários em atraso, clubes em pré-falidos, a ocasional violência, os despautérios verbais e os trezentos debates televisivos que estão para o futebol como as ténias estão para o nosso sistema digestivo.
Imune a tudo isto, a macro-troika avança alegremente para o abismo numa caminhada com o alto patrocínio de suas excelências, os senhores presidentes dos clubes – o infalível Papa nortenho, o pneumático caudilho da Luz e o gaso-aquático líder da junta de salvação nacional que se instalou em Alvalade –, devidamente acolitados por uma tropa fandanga de ex-jornalistas, juristas, incendiários, cartilheiros, toupeiras, bufos e, para não se pensar que isto é um bordel, um circunspecto gestor que, em linguagem sóbria e racional que a maioria dos adeptos não domina e não aprecia, explica às massas que a massa é pouca.
E os jogadores? Ah, o melhor do futebol são os jogadores, claro. Falemos deles. Há dias, um jornal diário fazia a antevisão da época e destacava um jogador de cada equipa. De Futebol Clube do Porto, Sport Lisboa e Benfica e Sporting Clube de Portugal, os escolhidos foram, respectivamente, Marega, Jonas e Bruno Fernandes. Por razões diversas, todos estiveram com um pé fora dos clubes e, também por razões diversas e com diversos níveis de compromisso, parece que vão mesmo ficar os três. É uma imagem deprimente do nosso futebol. E o pior é que é uma imagem realista.
Há poucos anos, quando a parada da luta pela hegemonia subiu a níveis estratosféricos, com recurso a muita contabilidade criativa e à droga financeira da antecipação de receitas num edifício amparado pela liberalidade criminosa dos bancos do regime, havia Hulk e James, Falcao e Jackson, Gaitán e Witsel, David Luiz e Ramires (e também Sinama-Pongolle). Hoje, sem a gasosa bancária, os clubes empreendem um esforço contra-natura para viverem de acordo com as parcas possibilidades que o nosso mercado autoriza, mas sempre de olhos postos nas soluções precárias e de recurso, nos balões de oxigénio. Numa época em que as vendas foram magras, o Eldorado são os gordíssimos e quase inacessíveis milhões da Champions. Essa miragem dourada força os clubes a entrar em loucuras na tentativa de acederem ao pote. É um exemplo acabado de economia de casino. Diria a sabedoria popular que um tal modelo de gestão se parece muito com “contar com o ovo de ouro no cu de galinha velha.”
Misérias à parte, uma pergunta se impõe a quem olha para a composição das equipas técnicas: onde andam os treinadores estrangeiros? Onde andam os magos magiares como Béla Guttmann e József Szabó? Ou os marechais ingleses que acostavam no nosso futebol com o espírito de disciplina e civilização de um Lord Curzon no sub-continente indiano? Onde andam figuras como Graeme Souness, que enquanto jogador tanto brilhava naquela equipa do Liverpool cujo passatempo era atropelar o Benfica nas passadeiras europeias e cujo maior legado, enquanto treinador do clube da Luz, foi uma apreciação figurativa dos testículos de um tal Michael Thomas, o Cavaleiro das Grandes Bolas? Onde andam os sucessores de Co Adriaanse, esse holandês meio avariado que, numa certa noite em Paranhos (ou lá onde este tipo de actos se pratica), manteve uma conversa muito instrutiva com uma dúzia de adeptos do FC Porto e amantes de dialéctica, alguns dos quais viriam a fundar a Escola Peripatética de Canelas?
Julen Lopetegui é já uma névoa dissipada, quase tão esquecida como a de Quique Sanchéz Flores, ar de bandarilheiro, sorriso sedutor e infinita prosápia, que, na sua malograda passagem pelo Benfica, conquistou um terceiro lugar e uma senhorita húngara, nenhum dos quais dava acesso à Champions.
Nos anos oitenta e noventa tivemos, entre outros, John Toshack, Pál Csernai, Tomislav Ivic, Marinho Peres, Abel Braga, Paco Fortes (esse inesquecível catalão do sotavento algarvio), Carlos Alberto Silva (o professor Astromar), o eminentemente parabenizável Paulo Autuori e o cavalheiro Bobby Robson que, em conjunto, emprestavam uma diversidade cosmopolita ao nosso campeonato.
Hoje, fecharam-se as portas aos estudiosos internacionais e um ou outro que, por descuido ou curiosidade, por aqui arriba, logo parte sem deixar rasto ou saudades. O treinador português, outrora uma espécie ameaçada, propagou-se por todo o território e até já serve para exportação. O seu actual prestígio é inversamente proporcional ao descrédito que se abateu sobre o treinador estrangeiro, tido como incapaz de penetrar os mistérios do nosso futebol e de superar as armadilhas tácticas montadas pelos astutos congéneres nacionais em campos de batalha tão acidentados como a Mata Real ou o Marcolino de Castro.
Quando Sven-Göran Eriksson chegou a Portugal, alguns dos campos da primeira divisão ainda eram pelados. Isso não o impediu de triunfar e mudar a face do futebol português. Se fosse hoje, a contratação de um jovem sueco com aspecto de professor substituto de Físico-Química suscitaria a chacota geral. Como é que um escandinavo, vindo de uma sociedade avançada, justa e igualitária, se poderia adaptar ao nosso futebol duro, disputado sob inclementes condições climatéricas e financeiras, e desvendar as subtis nuances tácticas que os nossos treinadores introduzem semanalmente com o fito de ludibriar adversários, analistas e os seus próprios jogadores?
Por escassos dias, ainda pairou no ar a possibilidade de haver um forasteiro no nosso campeonato, mas Mihajlović seguiu as pisadas de outros monarcas breves como João, o Póstumo, rei de França durante quatro dias, e Luigi Delneri, ocupante do trono técnico do Dragão durante uma lua, e, depois de fazer umas compras em Lisboa, regressou ao catálogo de um qualquer empresário manhoso, mantendo dessa forma os bancos de suplentes protegidos contra as influências deletérias que os estrangeiros sempre trazem com eles, elevando-os, aos bancos, à condição de bastiões da portugalidade, símbolos do nosso resoluto paroquialismo e dos nossos depauperados bolsos."
A tecnologia que vai mudar os clubes portugueses (e ingleses e franceses e austríacos e...)
"A Liga 2018/19 está a começar e também há novidades fora dos relvados: pelo menos 10 clubes portugueses vão profissionalizar a sua gestão diária, com o software FootballISM, novo parceiro da Liga portuguesa
Quem já jogou Football Manager sabe bem como é: basta um clique no rato para conseguirmos ver, no ecrã, tudo o que queremos sobre a(s) nossa(s) equipa(s), entre plantel, técnicos, treinos e todos os dados relativos ao funcionamento diário dos vários departamentos de um clube. Até agora, esta gestão digital não passava apenas de um jogo de computador para adeptos, ou seja, não existia verdadeiramente no mundo do futebol.
Mas isso já está a mudar com o FootballISM, software que permite que os clubes sejam geridos como empresas. “Andámos por Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Espanha e a verdade é que não encontrámos um clube que tivesse um ambiente totalmente digital e integrado”, assegura à Tribuna Expresso Filipe Esteves, director da FootballISM, plataforma que faz parte da empresa agap2IT.
“O que acontece é que cada um tem a sua ferramenta de trabalho e mesmo que todos usem Excel, por exemplo, cada um tem o seu. Quando é altura de juntar informação, torna-se muito difícil. Houve médicos que nos disseram que nas suas clínicas particulares tinham tudo informatizado e nos clubes tinham de trabalhar em papel”, exemplifica.
O FootballISM permite centralizar todas as informações relativas ao funcionamento de um clube e, por incrível que pareça, isso é algo ímpar no futebol. "A verdade é que aquilo que encontrámos lá fora foi praticamente o mesmo: há tecnologia no mundo dos coletes GPS, tecnologia no mundo de análise de vídeo, alguma tecnologia nos departamentos médicos e para aí. A falta de informação centralizada em termos de gestão é gritante", adianta Filipe.
“Não faz sentido que um presidente ou um administrador de uma SAD não consiga chegar ao trabalho, sentar-se ao computador e ter um 'dashboard' onde veja o estado do clube. Quem está lesionado, quando há treinos, quem vai treinar, o que vão fazer, o que vão almoçar... Todo um panorama que qualquer outro CEO de uma empresa tipicamente tem - só no futebol é que isto não existia”, diz Filipe Esteves, contando o que viu em clubes “de topo”, tanto portugueses como estrangeiros: “O presidente tem de ligar a 10 pessoas diferentes para saber como é que as coisas estão ou então desloca-se ao centro de treinos para falar pessoalmente - é tudo uma perda de tempo enorme, porque podemos facilitar a gestão às pessoas, deixando que cada um faça o seu trabalho na plataforma e depois nós tratamos da comunicação e integração de tudo.”
O director da FootballISM revela outro dos (muitos) problemas que afectam a gestão dos clubes, em Portugal e lá fora. "Desde CNS, 1ª e 2ª divisões em Portugal, 1ª divisão na Alemanha, França, Inglaterra - e aqui fomos a alguns dos cinco maiores clubes - todos têm problemas recorrentes que vão desde o mais simples, como, por exemplo, a gestão de equipamentos. Num clube como o Arsenal, por exemplo, em que estamos a falar de centenas de atletas, o desaparecimento de material pode custar €1 milhão em equipamentos - chega-se ao final da época e ninguém sabe bem onde eles estão. É tão simples quanto isto", diz.
De Alcochete para o Mundo
A ideia de um software assim já vem de 2011, ano em que o sistema começou a ser pensado em conjunto com o Sporting, através do director Pedro Mil-Homens, que queria então uma ferramenta que facilitasse a gestão da Academia do clube em Alcochete.
Nos anos seguintes, a plataforma foi sendo progressivamente aprimorada até se tornar um produto que passou, agora em 2018/19, a ficar disponível a todos os clubes, depois de uma parceria com a Liga portuguesa que permitiu ajustar custos. “É uma das coisas das quais mais nos orgulhamos: conseguimos ser democráticos e solidários no futebol, desde a 3ª divisão até ao topo”, diz, acrescentando que clubes com orçamentos até €1 milhão pagam pouco menos do que o salário mínimo nacional para ter o FootballISM. Para outros, a mensalidade ronda €4 mil.
"É transformar tudo aquilo que são os métodos de trabalho amadores para uma plataforma que profissionaliza tudo e traz um nível de alta performance para todos os departamentos de um clube, desde a rouparia, a treinadores, nutricionistas, médicos, tudo. A Liga escolheu esta ferramenta e trabalhámos em conjunto, desde o início do ano até ao início da época, para termos um modelo adequado para abordar todos os clubes", explica.
O FootballISM já está a chegar a 10 clubes portugueses, assim como a ingleses, franceses, noruegueses e austríacos, revela Filipe Esteves. "Temos alguns problemas em divulgar nomes, porque os clubes são muito proteccionistas nestas questões", explica, quando questionado sobre a identidade desses clubes, aproveitando também para lamentar ainda não ter conseguido contactar com a Federação Portuguesa de Futebol.
Em Setembro, a empresa irá apresentar a ferramenta a outra entidade com quem espera fazer mais uma parceira: a Liga espanhola. “O futebol já não é aquilo que era há 10 anos e a tecnologia tem de acompanhar isto”."
A maçada da Copa América
"No Brasil, imprensa e torcida queixam-se da arrogância europeia em relação à América do Sul, afinal, o berço dos maiores talentos da história do jogo. Essa arrogância, argumentam, reflecte-se por exemplo no Mundial de Clubes, a que os sul-americanos dedicam uma atenção extraordinária e ao qual os europeus comparecem, com ares de colonialistas, apenas para cumprir calendário.
É óbvio: ao vencedor da incomparável Liga dos Campeões ir ao Japão ou às Arábias, interrompendo um Dezembro intenso de provas nacionais e continentais, soa a maçada por causa da diferença de investimento entre clubes europeus e restantes, mesmo os tão míticos, charmosos e tradicionais emblemas sul-americanos.
O que é menos óbvio é o seguinte: o preconceito contra a América do Sul parte também dos próprios brasileiros. No passado, cada “grande” achava mais importante ganhar o respectivo estadual do que uma Taça dos Libertadores; hoje em dia, se a Libertadores se tornou, e ainda bem, a prioridade dos principais clubes, esse preconceito manifesta-se na Copa América.
No Brasil, Copa América é, ao contrário dos seus vizinhos, assunto secundário. O que move o país são os mundiais. A prova da falta de atenção à competição continental por selecções está no número de títulos: se os canarinhos lhe dedicassem cuidado, convenhamos, não teriam apenas cerca de metade (oito) das conquistas dos rivais Argentina (14) e Uruguai (15).
Na Europa, terminado o Mundial russo, fala-se, em primeiro lugar do Euro-2020 e só depois se apontarão baterias ao Qatar-2022.
No Brasil não: a selecção daqui a menos de um ano disputará mais uma Copa América – em casa! – e imprensa e adeptos não gastam um minuto com o assunto. Desde a queda – não é piada a Neymar – da selecção aos pés da Bélgica que só se fala em Qatar, como se a Copa América fosse, como os Mundiais de Clubes no entendimento dos europeus, uma maçada.
A primeira convocatória de Tite, na sexta-feira, será pois, escreve a imprensa e dizem os adeptos, o tiro de partida do Mundial-2022. Como no Brasil devemos agir como brasileiros, concedamos que assim seja. Mas, nesse caso, acrescentemos um dado: a operação Mundial 2022 não começa na tal convocatória para os jogos particulares de Setembro com Estados Unidos e El Salvador; já começou no último dia 24.
Nessa movimentada terça-feira no mercado de transferências europeu, os jogadores brasileiros movimentaram em poucas horas quase 100 milhões de euros. E o mais relevante é que tanto Richarlison, a caminho do Everton por 45 milhões, Malcom, em trânsito para o Campo Nou por 41, ou Éder Militão, que custou a bagatela de sete milhões ao FC Porto, não estiveram no Mundial. Ou seja, o mercado, que não mente, num só dia disse que o futuro do futebol do Brasil é valiosíssimo.
Se somarmos aos negociados daquele dia, os nomes de Vinícius Junior e Rodrygo (um já no Real Madrid e outro a caminho por 90 milhões somados), de Fabinho (no Liverpool, por 45), de Felipe Anderson (no West Ham, por 38), de Arthur (no Barça, por 31) e de Paulinho Sampaio (no Bayer Leverkusen, por 18,5) chegamos a 315 milhões de euros movimentados só por atletas ausentes do Rússia-2018 na actual janela.
Outros jogadores que estiveram entre os 23 de Tite e, à partida, entram nas contas para o Qatar custaram aos cofres dos clubes de destino 646 milhões de euros nos últimos dois anos – são os casos dos guarda-redes Alisson e Ederson, do defesa Danilo, do médio Fred, dos avançados Douglas Costa e Gabriel Jesus e dos dois principais, e mais caros, craques canarinhos da actualidade, Neymar e Phelippe Coutinho.
Com a continuidade de Tite no comando da selecção, uma coluna vertebral a caminho da segundo ou terceiro (no caso de Neymar) mundiais da carreira e um grupo de craques a pedir passagem, o Brasil parte como um dos grandes favoritos à conquista do próximo mundial.
Mas, cá entre nós, é uma pena que não valorize a mais antiga das competições de selecções do planeta, essa maçada da Copa América."
Atividade física, exercício ou desporto?
"Em 1975 falava-se em incentivar o "desporto para todos". Hoje promovemos a prática de "actividade física", em todas as suas formas. O que aconteceu entretanto?
Sobretudo para quem nasceu antes de 1980, a expressão “vou fazer desporto” servia para tudo o que tinha a ver com fazer actividade física. Nos anos 70 do século XX apareceu na Europa e também em Portugal o movimento “desporto para todos”, que procurava generalizar a prática desportiva a todas as pessoas, de todas as idades. Nasci em 1970 e lembro-me de ter na parede do meu quarto de criança autocolantes deste movimento, que o 25 de Abril também ajudava a democratizar. Lembro-me, por exemplo, dos que tinham crianças e avós em brincadeiras activas. E recordo especialmente o cartaz de uma menina com tranças e sorriso na cara, a praticar um salto de cavalo por cima das costas de um menino. Tudo isto era desporto.
Entretanto, vieram os anos 80 e com ele o jogging, presença frequente nas séries de TV, normalmente com actores de calção curtinho e meia branca. E logo a seguir a Jane Fonda e com ela o fitness, com a perneira colorida e o elástico para o suor na testa — que John McEnroe (curiosamente um desportista) imortalizaria. E assim começava a divulgar-se para a população a ideia de fazer exercício físico. Na altura, algo como um “desporto” que se fazia para melhorar a saúde ou a aparência. Mas que, na verdade, já não era desporto como tradicionalmente definido.
Paralelamente, a prática dos desportos tradicionais crescia muito nos anos 70 e 80, bem como a procura de locais e oportunidades para todos o praticarem, sobretudo crianças e jovens. Foi notável a iniciativa de clubes desportivos e recreativos, que expandiam a oferta de equipas de futebol, basquetebol, voleibol e andebol, mas também da prática de natação, judo, rugby, ténis e das várias ginásticas. Para quem vivia em Lisboa ou na linha de Cascais, instituições como o Ginásio Clube Português ou o Sport Algés e Dafundo foram marcantes em vários destes desportos, mesmo com presenças Olímpicas. Infelizmente, estes dois clubes são ainda hoje excepções de um sector – o movimento associativo representado pelo clube desportivo local – que foi perdendo o fulgor de outrora. Pese embora iniciativas recentes para o apoiar.
No espaço público, bem como em “fatia de mercado” e representatividade social, o desporto tradicional perdeu terreno para as novas e várias formas de exercício físico e, em poucos anos, muitos dos clubes desportivos locais parecem ter-se transformado em clubes de fitness. Contudo, é de destacar a semelhança entre o propósito do "desporto para todos" dos anos 70 e a corrente do exercício físico das décadas seguintes: melhorar o bem-estar dos cidadãos através do movimento físico. De facto, tanto o desporto tradicional como o exercício estruturado (ex. actividades de fitness) podem promover a saúde. Tal como a dança, a caminhada, qualquer brincadeira activa, subir escadas, fazer ginástica de grupo, ou ir para o emprego ou para a escola de bicicleta. Hoje sabemos que todos são importantes para um país que se quer mais activo.
Surgiu assim a necessidade de uma expressão que reflicta o facto de todas as formas de movimento humano serem potencialmente benéficas para a saúde, mas também úteis para o desenvolvimento social e económico. A adopção da designação "actividade física" cumpre esse critério e é por isso hoje consensual e universalmente abrangente. É adoptada por todos os países e instituições governamentais internacionais, também como uma meta para que se atinjam os Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável do planeta em 2030. Aliás, a fotografia deste artigo é reflexo da percepção de que o termo "desporto" não serve para caracterizar o que fazem estas pessoas. A novidade é que "exercício físico" também não!
Uma analogia pode ser útil: "actividade física" é como "alimentação". É para todos, pois todos nos mexemos no dia-a-dia, tal como todos nos alimentamos diariamente (uns mais, outros menos; uns melhor, outros pior). Actividade física inclui todas as formas de motricidade humana, tal como alimentação inclui todos os comportamentos alimentares (de beber água da torneira a saborear um prato confeccionado). E inclui também tudo o que é necessário para lá chegar: ir ao ginásio, escolher usar mais as escadas no dia-a-dia – ou comprar alimentos e preparar uma refeição para a família. São ambos termos abrangentes, como chapéus de sol grandes que, no seu território, incluem tudo sob a sua sombra.
Já "desporto" é assim como a restauração (e juntamos a culinária para ajudar à analogia). Em ambos os casos, precisam de um local próprio para se “praticarem”; ambos têm regras próprias (vinagre na mousse de chocolate não funciona!); e nem sempre fazem bem à saúde, como demonstra a ocorrência de lesões graves em desportistas e as calorias (tantas vezes excessivas) da dita mousse. Embora actividade física e alimentação sejam acessíveis a todos, ambas comportam elementos de exclusividade, como são disso exemplo o atleta de alta competição ou o superchefe com estrela da marca de pneu.
É importante não esquecer que tanto o desporto como como a culinária/restauração, sendo actividades e sectores bem circunscritos, apresentam características que os tornam insubstituíveis e bens a proteger para a sociedade como um todo: são fonte (e expressão) de educação, cultura e tradição, em ambos os casos com uma história longa e rica.
E o exercício, onde fica na analogia? O exercício físico é como uma dieta ou plano alimentar. Um como o outro não são para todos, mas para quem precisa. Têm uma finalidade específica – geralmente proteger ou melhorar algum aspecto da saúde – e ambos contêm princípios técnicos e científicos que fazem com que devam ser prescritos e supervisionados por profissionais diferenciados, para garantir que são seguros e eficazes. Pelo contrário, a actividade física e a alimentação saudável devem ser recomendados por todos e dirigidos a todos. Faria sentido Portugal ter um Programa Nacional para a Promoção da Dieta (qualquer que fosse)? Não. Tal como não faz sentido existir um Programa Nacional para a Promoção do Exercício. E é por isso não existe.
Conclui-se que a actividade física pode ser exercício físico, pode ser desporto, mas pode também ser algo que fazemos de outras formas. Estas especificidades são importantes porque se traduzem em diferentes opções para uso do tempo e dos nossos recursos (pensando no cidadão) mas também diferentes opções políticas e económicas (pensando na população). Embora exista uma relação, dizer que devemos promover o desporto, mesmo que "para todos", é diferente de dizer que devemos incentivar a actividade física.
Assim, fará sentido que o Estado tenha simultaneamente um Programa Nacional para a Promoção da Actividade Física (como tem o Ministério da Saúde, através da Direcção-Geral da Saúde) e um Programa Nacional de Desporto para Todos (como tem o Ministério da Educação, através do Instituto Português do Desporto e Juventude), mesmo quando existe uma Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto que claramente diferencia os dois sectores de actividade?
Faz, porque promover o desporto e valorizá-lo socialmente é um objectivo com elementos comuns mas outros diferentes do de termos uma população mais activa. Faz, porque envolve mais recursos e mais agentes na promoção da actividade física, desportiva e não-desportiva, abrangendo assim mais contextos de actividade e chegando potencialmente a mais pessoas. Faz, mas apenas se todos os programas, e todos os agentes envolvidos, convergirem naquilo que os une – a promoção da saúde, bem-estar e o desenvolvimento dos cidadãos e do país – à semelhança do que acontece nos melhores exemplos internacionais (ex., o Reino Unido) e não instrumentalizarem a sua acção para fins demasiado sectoriais ou vincadamente políticos. Faz, se existirem plataformas intersectoriais onde as metas para promover a actividade física (de todas as formas) sejam discutidas e os processos para lá chegar sejam articulados sendo assim muito mais eficazes. E faz, se aceitarmos que os desígnios do país – bem como o uso da melhor terminologia – não podem estar isolados dos desígnios internacionais que instituições como a Comissão Europeia, a Organização Mundial da Saúde, ou mesmo o Comité Olímpico Internacional definem actualmente – e no topo estão o desenvolvimento sustentável do planeta e uma vida com saúde para todos.
Felizmente, na promoção de (todas as formas de) actividade física, Portugal tem uma equipa cada vez mais unida, joga hoje ao ataque e recentemente marcou um daqueles golos que ficam na memória!"
Jonas
"Enquanto escrevo esta crónica, persiste a indefinição quanto à continuidade, ou não, de Jonas, o melhor jogador que vi representar o Benfica. Ainda me deliciei com Chalana ou Nené, mas ambos em final de carreira, e nenhum outro se compara, para mim, ao avançado brasileiro, cujo requinte técnico, criatividade, inteligência em campo e faro de golo são, e ainda mais se combinados, indiscutivelmente fenomenais.
O filósofo Simon Critchley, fanático assumido do Liverpool e autor do excelente O que pensamos sobre futebol, defende que o futebol está subjugado à ditadura dos números quando, em boa verdade, sem desmerecimento da relevância dos golos, tem mais que ver com a forma como os adeptos vivem o tempo. Para o autor, com o qual concordo, apesar de poder parecer paradoxal, a beleza do futebol advém da raridade dos lances belos ou emocionantes.
Jonas, um prolífero goleador que, como tal, não só resiste como até beneficia das análises quantitativas, é daqueles casos raros de quem se espera, a qualquer momento, que nos suspenda o tempo. Começou logo na primeira vez que tocou na bola de águia ao peito: um cabrito a um arouquense em pleno Estádio da Luz. Desde então, o brasileiro coleccionou lances inesquecíveis e ainda mais golos, sendo o benfiquista com a melhor média de golos por época no Campeonato Nacional (24,75) e o terceiro em competições oficiais (30,5). Perder Jonas - este Jonas dos números impressionantes e de arte desmedida - nunca será benéfico seja qual for a circunstância. E é inevitável. O desafio será, então, encontrar novos Jonas, daqueles cuja genialidade e empenho nos aproximam dos títulos. E já tivemos uns quantos."
João Tomaz, in O Benfica
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















