Últimas indefectivações

quarta-feira, 5 de julho de 2017

No princípio é o verbo (e o contador)

"Não tenho cartilhas, a não ser a 'cartilha' da minha cabeça e das minhas convicções.

Nesta época, também tive direito ao meu defeso. Ou seja, a uma transferência. Sem intermediários. A Direcção de A Bola resolveu dar um generoso e virtual pontapé na rubrica Pontapé de Saída, pelo que, em tese, duas hipóteses haveria a considerar: despedimento por extinção de posto de escrita ou transferência para outro posto. Aconteceu a segunda opção: fui convidado para este novo espaço, que ocuparei às quartas-feiras. Evidentemente, com prémio de assinatura: o de continuar a escrever neste jornal que, desde a minha infância, leio com avidez e me ajudou a amar a língua pátria.
Como não sou ingrato, gostaria, aqui e agora, de agradecer ao Director de A Bola, Vítor Serpa, o convite que, no Verão de 2010, me fez para escrever o Pontapé de Saída duas vezes por semana. Lembro-me, na altura, lhe ter dito que receava não ter assunto e imaginação para manter tal ritmo semanal. Enganei-me, não tanto na limitação da minha imaginação, mas na abundância de temas que jamais faltaram, por boas ou por más razões. Confesso que aqueles 1600 caracteres, duas vezes por semana, se tornaram um bom exercício e até aprendi a disciplinar a extensão dos textos nesta nossa língua em que sempre se pode dizer mais com menos palavras.
Agora terei de exercitar a demasia de caracteres, depois de me ter dado bem com a escassez dos mesmos. Estou preocupado com a abundância. O tempo dirá se conseguirei passar bem da austeridade para a abastança nesta nova sopa de letras.
Fico com saudades do Pontapé de Saída. Coleccionei nada mais nada menos do que 689 artigos e até já fazia contas para a crónica milenar dentro de três anos. Comecei em 13 de Setembro de 2010 e acabei em 28 de Junho de 2017. Praticamente sete anos. O primeiro e o último falam sobre temas relacionados com o Benfica. Por mero acaso, acreditem. Iniciei-me com Ainda e sempre Torres coincidindo com o desaparecimento do Bom Gigante. Terminei com simplesmente Benfica.
O título destas minhas crónicas será O contador da Luz. Não se trata, porém, daquele medidor de consumo de electricidade electromecânico, estático, híbrido ou digital e (agora) sem caução. O contador (de palavras) sou eu e a Luz (com L maiúsculo) é a minha segunda casa. Assim me chegue a energia, em qualquer regime, mesmo que monofásico. Hoje, não tratarei de nenhum assunto de actualidade. Este texto corresponde ao primeiro dia da nova época nos clubes desportivos: o dos exames médicos. Assim sendo, aproveito para delinear alguns aspectos de um auto-estatuto editorial, ao qual aqui em obrigo e que espero poder sempre cumprir rigorosamente.

1. Este espaço será o de um benfiquista sempre apaixonado pelo seu clube, mas não será um espaço oficial ou oficioso do Sport Lisboa e Benfica. Não tenho cartilhas, a não ser a cartilha da minha cabeça e das minhas convicções.

2. Como gosto de dizer, sou independente por convicção e sou dependente por liberdade. Quer dizer, não abdico da minha responsabilidade enquanto estádio superior da liberdade. E esta defino-a, para mim, como a dependência do que gosto. E eu gosto muito do Benfica que faz parte inalienável da minha vida e dos meus sonhos desde menino.

3. Não abdicarei da minha opinião, mas saberei mudá-la se e quando disso ficar ou for convencido.

4. Sem prejuízo da veemência e intensidade da defesa das posições em que acredito, terei o dever de ser urbano e elegante em qualquer circunstância e procurarei não ser precipitado na análise de acontecimentos sem a sua devida e tão completa quando possível contextualização.

5. Neste espaço, o futebol terá a preeminência de ser o desporto mais popular e importante sob diferentes prismas, mas jamais será totalizante nas minhas rubricas. Sem fui muito ecléctico no gosto e acompanhamento de outros desportos e aprecio poder contribuir, ainda que microscopicamente, para a sua maior mediatização e consideração institucional.

6. Não me sinto limitado aos assuntos de natureza desportiva e, sempre que para mim se justificar, tratarei de outros temas que se possam enquadrar no corpo, espírito e acervo de A Bola.

7. Nunca deixarei de expressar o cuidado com o tratamento de algum assunto no qual, directa ou indirectamente, esteja interessado ou envolvido, através do prévio aviso de declaração de interesses.

8. Sempre respeitarei o direito a privacidade de outros e o meu dever de confidencialidade em todas as circunstâncias.

9. Continuarei a escrever, convictamente, com a ortografia antes do chamado novo Acordo Ortográfico, que empobrece a língua portuguesa sobretudo pela estúpida prevalência do critério fonético em detrimento da raiz etimológica e, modestamente, procurarei não alimentar a indigência gramatical que se vai tornando a norma no nosso país.

Uma nota final neste primeiro O contador da Luz: sempre que achar oportuno, delinearei um quadro sinóptico de pontos que mais me suscitaram a atenção ou a curiosidade na semana, e a que chamarei Contraluz. Uma palavra, um número, uma frase, uma efeméride, um acontecimento, um pensamento, etc.
Para esta primeira semana, fica assim:
Contraluz
- Palavra. Culpa. Enterrados os mortos, ressuscitados as labirínticas culpas.
- Número. 5555. Os caracteres (com espaços) desta primeira crónica... sempre com o 5, meu algarismo preferido.
- Frase. «Renasce o sonho». Vê-se bem que estamos no defeso.
- Árvore. Dillenia indica L. Mais conhecida como árvore das patacas (que escasseiam).
- Pensamento. «No deserto, à procura de água, encontrou petróleo e morreu à sede» (provérbio árabe). Cuidado com o equilíbrio das contratações neste tempo de transferências."

Bagão Félix, in A Bola

Que falta fez lá na Rússia a traça de Paris

"Alguma coisa terá faltado à nossa selecção em Kazan. Não foi vontade nem sorte que faltou. É injusto acusar os jogadores portugueses de pouca disposição para o cometimento e é surreal apontar o dedo aos deuses da fortuna que bem se esforçaram para impedir a saída baixa dos campeões da Europa. Por duas vezes, no mesmo lance, vimos os postes da baliza de Rui Patrício desempenhar garbosamente o papel que competia a Rui Patrício e por uma vez se viu o vídeo-árbitro dormir num lance capital em nosso desfavor. O que faltou a Portugal foi o que faltou a Cristiano Ronaldo: faltou-nos a traça.
Aquela traça que em Paris, vai fazer agora um ano, pousou magnificamente no sobrolho do estendido capitão português e fez a selecção disparar para o momento mais insólito da sua História resolveu não comparecer em Kazan e o resultado viu-se. Sem a traça a eliminação não deixou dúvidas. Ficou apenas uma coisinha por esclarecer: o castigo máximo que o jovem André Silva pretendeu, sem êxito, cavar nas barbas do árbitro iraniano no decorrer da primeira parte do prolongamento conta como o 23.º penálti roubado ao FC Porto na temporada de 2016/2017 ou contará como o 1.º penálti roubado ao AC Milan em 2018/2018? Cientistas da bola, estudem o assunto.
Prossegue, entretanto, o defeso do futebol português entregue por inteiro às barulhentas altercações entre comentadores-residentes das nossas estações de televisão. É esta uma grossa novidade mas não lhe chamaria, propriamente, um progresso civilizacional. Antes pelo contrário. Em termos, por exemplo, da secular rivalidade entre os dois emblemas da Segunda Circular, pertenço a uma antiga geração que aprendeu a gostar de futebol e dos seus clubes graças a magníficos protagonistas de duelos encantadores como Eusébio e Damas, Artur e Diniz, Bento e Manuel Fernandes, Luís Figo e Rui Costa, Chalana e o resto do mundo… Pobres gerações mais jovens que até em tempo de férias têm agora de se dividir entre um Guerra e um Pina. Ou vice-versa.
O Tour vai começar envolto numa polémica de costumes. O ciclista belga Jan Bakelants afirmou no decorrer de uma entrevista que para "ocupar os tempos livres" conta levar "uma embalagem de preservativos" porque "nunca se sabe onde se encontram as meninas do pódio". A organização do Tour exigiu-lhe imediatamente um pedido de desculpas e a equipa do Jan Bakelants, a AG2R-La Mondiale, pediu desculpa aos organizadores e ao público pela alarvidade do seu corredor. Esta historieta vinda do estrangeiro e de estrangeiros é exemplar. Por cá o patamar é outro e muito, muito abaixo. Numa recentíssima reportagem televisiva em Kazan, entrevistando adeptos portugueses, um jornalista em missão patriótica perguntava-lhes, felicíssimo consigo próprio: "E as russas? E as russas?" Que tristeza. Ninguém tem mão nisto?"

Carta aberta ao bruxo da Guiné

"Caro general Armando Nhaga, há coisas no futebol português que parecem bruxaria. Eu sei que você já esclareceu que não tem nada a ver com essas coisas, é só um desabafo. Como se já não bastasse o estado do nosso futebol, no defeso falou-se mais de e-mails do que de reforços, o que aumenta o nível de alerta e preocupação quando se aproxima o arranque da competição. Estamos, cada vez mais, à beira do abismo. Estou preocupado, como adepto, e temo que agora só as forças do oculto possam livrar-nos do mau olhado. Da minha parte, se eu fosse presidente da Liga e você bruxo, acordava consigo um contrato de prestação de serviços segundo o qual você receberia um valor chorudo por cada jornada da Liga 2017/18 sem polémica, mas calculo que não teria interesse em aceitar um trabalho em que muito dificilmente poderia ter sucesso. É como pedir à gelatina que pare de tremer, eu sei. Para mais, além do elevado risco de insucesso, a tarefa iria exigir-lhe muita dedicação, sem direito a folgas e distracções, para não acontecer o mesmo descalabro do Dortmund-Benfica (4-0).
É evidente que, como o caso é grave, se eu fosse presidente da Liga e você bruxo, não teria reservas em contratar alguém com provas dadas para o ajudar. O mestre Alves ou o bruxo de Fafe, por exemplo. Mesmo o nível internacional há especialistas de renome como o espanhol Pepe (o tal que um dia lesionou Ronaldo). Se mesmo assim não chegasse, meteríamos voluntários em cada estádio a fazer buracos na relva, a espalhar aguardente, sal e alhos, a soltar galinhas, sapos e pombos. Se tudo isto falhasse, então sim tentaríamos pedir bom senso e fair play aos nossos dirigentes. Porque no fundo, eles, você e eu queremos todos o mesmo: um futebol português firme e hirto como uma barra de ferro. Lá dizia o bruxo Alexandrino."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

Alvorada... com o Lemos

3.ª dia dos B's

Haris...

Aulas...

NetPress... Powered by Benfica!

5.º dia...

2.º dia dos B's

Benfiquismo (DXX)

Grande...

105x68... recomeço...!!!

Videoárbitro? Um projeto bebé que fazia falta ao futebol moderno e à arbitragem. Ponto

"Vamos então fazer um balanço sobre a actuação do Sistema do Videoárbitro na Taça das Confederações.
Por partes. A tecnologia em si é boa. Muito boa.
Está bem construída, bem pensada e funciona (quase sempre) sem falhas. É útil e fazia falta ao futebol moderno e à arbitragem. Ponto.
A partir daí, a questão central passa a ser outra: a da eficácia da sua utilização.
E sobre este aspecto, convém recordar algumas coisas:
Este é um projecto bebé. Um projecto que está a dar os primeiros passos e que ainda se encontra em fase de testes.
A introdução do Sistema de Videoárbitro no futebol foi um passo corajoso e arrojado, que terá impacto fortíssimo no jogo, nos jogadores, no sistema táctico das equipas e sobretudo na rotina em campo dos árbitros. Terá também impacto nas expectativas dos adeptos e de todo o universo do futebol.
Algo assim leva tempo. Leva tempo a interiorizar. A afinar.
A FIFA, à semelhança de outros países (como Portugal), quis participar nesta fase piloto. Porquê? Porque tenciona aplica-lo no Mundial de 2018, na Rússia. Legitimamente.
Qual é que foi o grande risco dessa decisão?
É que, ao contrário das federações nacionais (que têm jogos de menor dimensão mediática para realizar os seus testes), só o poderiam fazer nas suas competições: Mundial de Sub 20, Mundial de Clubes, Taça das Confederações...
Tudo montras de grande dimensão, vistas e escrutinadas por centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.
Foi uma decisão compreensível mas arriscada, que comportava riscos.
E o certo é que, tendo corrido bem na maioria das vezes (existiram sete situações claras onde a colaboração do VAR foi crucial para decisão final), naturalmente que teve menos bem em momentos importantes.
Num deles, terá falhado o próprio VAR: o penálti do José Fonte (pisão a um jogador chileno) foi claríssimo nas imagens mas o videoárbitro teve leitura diferente e absteve-se de intervir.
Noutros dois, falhou apenas e só o árbitro: no México/Nova Zelândia (tudo correu mal) e, de forma mais clara, na Final entre Alemanha e Chile, onde um vermelho (evidente e inquestionável em todas as imagens) ficou por exibir.
Reparem: em nenhum desses erros falhou a tecnologia em si.
O que correu mal foi a sua aplicação pelos árbitros. A intervenção humana.
E o que é isto nos diz a todos?
Diz-nos que esta é mesmo uma mudança de paradigma e que a sua afinação requer tempo, treino e formação contínuas.
Um bom VAR tem que ter um conjunto de competências, técnicas e humanas, distintas. Muito distintas. E isso não se aprende de um dia para outro. Tem que conhecer bem as leis de jogo. Tem que estar familiarizado com o protocolo aprovado.
Tem que saber analisar imagens e identificar potenciais erros. Tem que saber como pedir informação ao técnico de imagem de forma a que ele entenda qual o incidente a rever e qual a melhor imagem/ângulo a facultar. Tem que perceber quais os timings da sua intervenção junto do árbitro e, sobretudo, tem que saber qual a melhor forma de passar essa informação ao árbitro - que está pressionado em campo - com serenidade, segurança e credibilidade.
Tem ainda que saber juntar tudo isso a uma enorme eficácia, ou seja, fazer muito e bem, o mais rapidamente possível.
Isso implica, de facto, muita coisa.
E implica sobretudo que o VAR tenha uma forte personalidade. Que seja imune a pressões ou ruídos exteriores e que tenha a clareza de saber obedecer apenas e só à sua consciência.
Em suma, deve ser alguém tecnicamente muito competente e pessoalmente capaz, independente e corajoso.
Grande parte dessas competências, sobretudo as técnicas, requerem muito treino.
Treino em sala, com visionamento exaustivo de imagens e com a realização de sucessivas simulações (role play) ao nível da comunicação.
Mas também "treino" em competição. Porque só o ambiente real, a pressão dos tempos de espera, o ruído infernal do público e o enorme stress competitivo, colocarão verdadeiramente à prova a capacidade de alguém tomar excelentes decisões, de elevada responsabilidade, no menor espaço de tempo possível.
Um excelente árbitro não será, necessariamente, um excelente VAR. E é importante que todos entendamos isso com urgência.
Não esperem milagres. Seria pedir demasiado nesta fase e penso que já todos percebemos porquê. 
Mas não duvidem: erros grosseiros, de lances objectivos e transparentes, que escapem ao olho do árbitro em campo, deixarão de existir.
E com o tempo, muitos outros também. Haja tolerância e tempo para deixar crescer, sustentadamente, uma iniciativa que tem tudo para dar certo."


PS: Dois erros evitáveis que aconteceram no protocolo na Taça das Confederações:
- A obrigatoriedade de ser o árbitro de campo a 'pedir' a actuação do VAR! No lance do José Fonte, o VAR devia ter avisado o árbitro de campo... simples.
Na Final da Taça de Portugal, no video que a FPF divulgou, com a entrevista do Hugo Miguel, foi notório que o Soares Dias 'aconselhou' mesmo quando não foi solicitado... E isso deve acontecer sempre, agora o nível e confiança entre o VAR e o árbitro de campo tem que ser grande, ter árbitros de nacionalidades diferentes, que nem falam a mesma língua, não é fácil...
- A possibilidade do árbitro ir à linha lateral rever o lance, não faz sentido. Perde-se tempo, e vai criar um potencial foco de muita contestação com os 'bancos' a protestarem...
A opinião do VAR deve ser valorada, ponto final... Além disso, é muito mais complicado um árbitro de campo, alterar uma decisão sua, vendo o lance, na linha lateral... existe sempre uma relutância maior em admitir o próprio erro... como foi visível na Final com a cotovelada do Jara ao Alemão!

terça-feira, 4 de julho de 2017

"Mesmo batido pelas vagas mais alterosas, o Benfica não sossobra"



NetPress... Pré-época

As Regras dos Jogos... Opções!

Ainda o videoárbitro

"O protocolo aprovado pelo IFAB é rígido e aplica-se apenas a situações claras.

Sou e sempre fui um defensor acérrimo da arbitragem e da qualidade profissional dos nossos árbitros. Mas a verdade é que a distância que percorri nos últimos dois anos permite-me ver, com outra clareza, os dois lados da caixa: e do dentro, onde vivi e cresci durante toda a minha vida profissional. E o de fora, onde existe um mundo que teima em olhar, desconfiado, para tudo o que tenha a ver com a classe.
Perante duas perspectivas tão contrárias, tento posicionar-me sempre no ponto que julgo ser o mais sensato: o do equilíbrio, que mora no meio daqueles dois extremos.
Aceito que possam existir comportamentos menos próprios ou desviantes, mas estou convencido de que a esmagadora maioria das pessoas que estão na arbitragem são sérias, honestas e honradas. E isso nada tem a ver como facto de poderem ser mais ou menos competentes, mais ou menos experientes.
Parto deste pressuposto pessoal para vos falar, novamente, sobre o Projecto Videoárbitro.
A famosa tecnologia que o futebol português decidiu abraçar e que nos fará companhia já a partir do próximo mês, na Liga NOS.
Primeiro. A ideia é muito feliz e a tecnologia é boa. Muito boa.
Ou seja, existe uma variável objectiva, bem pensada e melhor elaborada, que permite que um árbitro, confortavelmente sentado numa sala bem apetrechada, possa ver imagens de qualidade de alguns incidentes de jogo. Perfeito.
Segundo. Para que esta inovação seja bem-sucedida e sobretudo, para que convença todo o universo do futebol, é imprescindível que as outras variáveis onde assenta não falhem.
E que variáveis são essas ? O árbitro e o videoárbitro.
O problema, como já perceberam, é que, ao contrário de primeira, estas têm um componente de subjectividade elevadíssima. Estamos a falar de árbitros. De pessoas. De homens. Homens por detrás da máquina. Ora, para contornar as diatribes da interpretação e limitação humanas, o protocolo aprovado pelo IFAB é rígido. É rígido e aplica-se apenas a situações muito claras e objectivas.
A ideia é evitar o erro grosseiro (aquele qe for evidente para todos), desde que tenha eventual influência no jogo. Se tudo isto fosse uma equação matemática, diríamos que a soma de uma variável objectiva (tecnologia de qualidade) com duas subjectivas (árbitro e VAR) resultariam no sucesso do maior e mais arrojado projecto alguma vez criado para o futebol. Certo?
Problema. Se é verdade que a tecnologia em si, não sendo infalível, é muito fiável, não menos verdade que com os árbitros as coisas podem não ser bem assim. Naturalmente.
Essa convicção aumenta se nos lembrarmos que estamos a falar de pessoas que só agora estão a mergulhar nesta nova realidade. Que só nos últimos meses começaram a familiarizar-se com as novas funções. E essas são bem distintas das que estavam habitados a desempenhar até então.
Um bom árbitro não será, necessariamente, um bom videoárbitro.
As competências, técnicas e humanas, que uma e outra requerem são totalmente distintas. Passar da dinâmica de um jogo vivido num relvado, para outra sentida na frieza distante de uma sala repleta de écrans e slow motion não é tarefa fácil. Não é algo que se ensine ou aprenda de um dia para outro.
Requer, em si, é fantástico.
Mas o seu sucesso, dependerá sempre desta componente. Da forma como um grupo de profissionais conseguirá adaptar-se a uma realidade totalmente diferente, numa função completamente nova e num universo de tolerância - como o nosso - reduzindo a zero.
Ao contrário de dois ou três maus exemplos recentes (Taça de Confederações), onde falhou o homem, não a máquina, eu confio totalmente na qualidade técnica, independência e serenidade dos nossos árbitros. Confio na sua capacidade de aprendizagem rápida, na sua frieza de análise e sobretudo, na sua coragem. Na coragem de tomar a decisão certa no momento exacto.
O projecto tem tudo para dar certo, desde que ninguém se esqueça que há muita coisa que poderá inicialmente não correr bem. Por alguma razão, a fase de testes dura até meados de 2018..."

Duarte Gomes, in A Bola

Alvorada... com o João Paulo

Com a grandiosidade de um Hermitage...

"Palco da final da Taça das Confederações, o Estádio de São Petersburgo, inserido no Parque da Vitória Marítima, na Ilha de Krestovski, é uma obra formidável que merece uma visita e jogos de futebol de topo. Portugal venceu aqui a Nova Zelândia por 4-0.

passa da meia-noite em São Petersburgo e ainda há uma luz sobre a cidade. Parece que a noite nunca se põe, aqui na beira do Báltico.
No momento em que escrevo, terminou a primeira fase da Taça das Confederações e Portugal, como se esperava, cumpriu o seu Destino, assim mesmo, com maiúsculas.
Um empate com o México, em Kazan, a abrir, com alguma dose de desilusão por via do golo consentido no minutos final, uma vitória seca mas segura frente à Rússia, tão fraquinha, benza-a Deus, e uma goleada frente à Nova Zelândia, grupo de rapazes com boa vontade, mas apenas abana-pinheiros vindos lá do Pacífico Sul.
Nota surpreendente: o Estádio de São Petersburgo.
Já jogou o Benfica nesta cidade por mais de uma vez. Mas no Estádio Petrovski, que consigo espreitar da janela do meu quarto, aqui em frente, na outra margem do Neiva. Estádio muito soviético, entalado entre pequenos canais que o rodeiam e nos quais, ao fim da tarde, os homens vêm pacientemente pescar. Compará-lo com o novo, para já apenas Estádio de São Petersburgo, mas com o naming já vendido para os próximos anos, casa do Zenit que até tem sido de boa memória para os encarnados. É preciso caminhar bons quilómetros a pé até chegarmos a essa espécie de disco voador, erguido na ilha de Krestovski.
Não se duvida que quem planeou esta nova arena, já que agora é moda chamar arena a todos os campos de futebol do planeta, pretendeu manter as características do seu antecessor, mas desta vez fugindo do centro da cidade para entrar por um bairro de edifícios bem separados uns dos outros, com pracetas e relvados a dividi-los, e erguendo-o no meio de um parque verdejante e encantador. Pois sim, mas a verdade das verdades é que, ainda por cima com os cortes de trânsito que a polícia russa aplica, um mamífero tem de se levantar cedo pela manhã e encher a mochila de sandes de queijo, para não passar fome quando se meter ao caminho, que isto de ir a um disco voador não é como ir a um moinho e requer bem mais paciência e força de vontade.

O disco no parque
Nada de muito original nesta ideia de disco voador, já o arquitecto japonês que o desenhou, Kisho Kurokawa, lhe chamou Nave Espacial. É isso mesmo que parece, pousado no final do magnífico Parque da Vitória Marítima, a dois passos das águas do Báltico nas quais se espreguiçam os paquetes que carregam milhares de turistas durante estes dias em que o sol nunca se põe. Noites Brancas, chamou-lhes Dostoiévski. E como os russos são como muito nós, no rebuço e no viva lá o seu compadre, ei-los que não prescindem, ali à volta do estádio, da sua barraca dos tirinhos, do seu carrinho de choque e da sua montanha russa, pois então, no meio de toda esta salada.
Moderno, especial. Já se sabe que a cada fase final de uma competição vão surgindo, aqui e ali, estádios completamente fora do que estávamos antigamente habituados. Vimos como isso sucedeu em 2004, no tempo do nosso Europeu, vivido em ambiente de festa como nunca se vira em Portugal desde o 25 de Abril.
Os novos estádios russos pelos quais passei, a Arena de Kazan, o Estádio do Spartak, em Moscovo, e agora este, são de uma funcionalidade admirável. Mas, em São Petersburgo, ficamos surpreendidos pela impotência. A Nave Espacial é gigante, o parque que o rodeia parece infinito, os percursos que nos levam até ele fantasticamente arvorejados, as escadarias decididamente grandíloquas.
Tudo foi feito em grande escala, não fossem os russos gente tão desmesurada como o tamanho das suas terras.
Quando o meu paciente leitor tiver passado os olhos por estas páginas, já saberemos se Portugal regressa aqui para disputar a final. Aconteça o que acontecer, o Estádio de São Petersburgo é, sem qualquer motivo para dúvidas, um dos melhores da Europa. E um palco que merece jogos de toda a qualidade. O Benfica e os benfiquistas já sabem. Da próxima vez que os sorteios das taças europeias mandarem marchar para esta cidade formidável junto ao Báltico, terão à sua espera uma obra de truz. Que fica na memória de quem a visita como se fosse a grandiosidade de Hermitage."

Afonso de Melo, in O Benfica

A resiliência de Espírito Santo

"De todas as adversidades, a doença foi a pior que Espírito Santo enfrentou. Mas, tal como de todas, saiu vencedor.

Em 1936, Guilherme Espírito Santo, com apenas 16 anos, estreou-se oficialmente na equipa principal do Benfica, na 1.ª jornada do Campeonato de Lisboa, frente ao Casa Pia. Em Novembro de 1937, realizou o primeiro jogo por Portugal, contra a Espanha. O seu enorme talento parecia não deixar ninguém indiferente.
Em 1940, após ter estado ao serviço da selecção nacional numa partida realizada em Paris, frente à França, adoeceu gravemente, ficando afastado da prática desportiva por largos meses. Contudo, habituado a driblar as adversidades, o 'Pérola Negra' voltou, meio ano depois, a envergar a camisola de águia ao peito para defrontar o Barreirense, a 23 de Junho. Recebido sobre uma enorme ovação do público, foram-lhe entregues pelos 'seus companheiros e todo o «team» barreirense (...) lindos ramos de flores'. O jogador agradeceu a recepção da maneira que melhor sabia, com uma exibição brilhante coroada com dois golos na vitória 'encarnada' por 5-2. A imprensa elogiou o seu regresso: 'Espírito Santo teve, de facto, uma reaparição feliz, conservando intactas as qualidades reveladas antes da doença'.
Jogou o resto da temporada e a seguinte. Porém, quis o destino pregar uma nova partida e o jogador teve uma recaída que o afastou durante duas épocas inteiras, surgindo a dúvida se conseguiria voltar ao futebol. A resiliência do 'Pérola Negra' e o seu enorme gosto pelo desporto fez com que não desistisse e conseguiu sair vitorioso. A 24 de Outubro de 1943, num encontro da equipa de reservas contra o Unidos, Espírito Santo voltou aos relvados: 'entrou em campo aos ombros dos seus companheiros de equipa (...) uma manifestação vibrante, calorosa, entusiástica, encheu o campo de lés-a-lés. Em todos os sectores, de pé, os espectadores aplaudiram freneticamente'. A partida foi difícil, os benfiquistas jogaram bastante tempo com nove unidades. Ainda assim, venceram o jogo, com a contribuição de Espírito Santo, o que levou a imprensa a afirmar que 'o valoroso jogador fez exibição agradável, demonstrando recursos para voltar à sua anterior posição no Benfica e no futebol português'. Jogou ainda até 1949, altura em que 'pendurou as botas' após uma carreira fantástica.
Pode ficar a saber mais sobre este sensacional jogador na área 23 - Inesquecíveis do Museu Benfica - Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica