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quinta-feira, 14 de maio de 2026

O Presidente sadomaso


"A moda veio para ficar. Soa a coleção primavera/verão, mas de fresca e leve pouco tem. Cheira a mofo e bolor, uma pestilenta combinação de desespero e chico-espertismo.
E se espreitarmos com atenção, lá encontraremos a sacramental inconsciência.
Falhada a estratégia e o plano definidos (será que alguma vez existiram?), o senhor Presidente (em maiúsculas, pois então) e os seus acólitos lançam a boia ao oceano das impossibilidades, em busca da afligida salvação.
As linhas seguintes são inspiradas em eventos reais.
'O treinador A era um incompetente porque não sabia jogar para a frente. E o mister B? Desse nem é bom falar. O homem mandava subir as linhas e deixava um buraco na defesa.
E se experimentássemos o treinador C? Dizem-me que é gente boa. E o D, quiçá?'
Não é ficção. No futebol português, a chicotada psicológica tem adquirido novas formas e sabores, um delírio tântrico em que o dirigente máximo veste a pele de executor-mor. Tudo em látex, naturalmente. Negro.
O homem erra, volta a errar, mas a culpa é sempre do outro, da vítima. Um cocktail sádico, mas sem palhinha e odores tropicais. Pune-se, sem ponta de discernimento, critério ou serenidade.
Ao mesmo tempo, o carrasco também se castiga. Há um autoinfligir de golpes, uma réstia de responsabilidade. Quase nula, diáfana, mas está lá.
Talvez uma submissão populista ao desejo dos sócios. A exigência da sobrevivência, da manutenção, o medo pela descida, da morte nas vertigens do abismo.
Esse lado masoquista compõe a cena. O prender, o amarrar de todo o normal funcionamento do clube, um bondage futeboleiro. Sofrimento e busca do prazer, de forma mais ou menos explícita.
'Resultou uma vez? Então tentemos a réplica perfeita'. Não há lógica nenhuma.
Vamos a exemplos concretos, para não magicarmos capítulos meramente abstratos.
Em Braga, a uma jornada do fim, decapitaram a equipa B. André Pinto, que substituíra Simão Freitas a partir da jornada 3, foi demitido depois da… penúltima jornada.
Rúben Teles, entretanto, aceitou sair dos sub23 do Gil Vicente para fazer um jogo. O último da época. O SC Braga empatou com o Fafe e desceu.
Na Amadora, o cenário é esquizofrénico. José Faria não servia e saiu no final de agosto. Sonhava-se, para a Reboleira, com um treinador de ideias mais atraentes. Arriscadas. E com um penteado melhor.
A SAD lembrou-se, então, que em Belém havia mais do que torres e monumentos seculares. Por meio milhão de euros, lá contrataram o prometedor João Nuno, entre juras de futebol dionisíaco e orgias de futebol total.
Durou sete meses. As paredes da classificação encolheram, passaram a asfixiar. E as convicções, já dizia o provocador Groucho Marx, são tão sólidas como os princípios: ‘Se não gostarem destes, tenho outros’.
O outro chamou-se Bacci, o truculento Cristiano. Mais próximo de Faria do que de João Nuno no seu ideário e recém-demitido de Tondela, entre cenas de discussão agravada com o Presidente à mistura.
Ofereceram três jogos ao italiano. E talvez a garantia bem-intencionada de uma relação sólida para o futuro, bem ao jeito dos anúncios nos classificados dos jornais.
‘Clube procura treinador para ligação estável e apaixonada’.
Bacci empatou um jogo e perdeu o segundo. O Estrela vai a Braga na derradeira jornada.
Ah, lembram-se do Belenenses, que perdera João Nuno em setembro? Contratou agora Gonçalo Brandão para dois jogos – quatro, em caso de playoff.
É a nova moda em Portugal. Um sacrilégio e uma abominação para quem, como eu, crê cegamente na organização, no rigor científico, na ordem do trabalho atempadamente pensado.
Riscar aquele, eliminar o outro, dispensar só mais um? Nem o Groucho Marx. Vestido de látex negro."

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