"Como o artigo da jornalista espanhola do ABC que incomodou Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, se pode aplicar, em larga medida, ao Benfica
Se alguém por aí já tiver descoberto a máquina do tempo, faça o favor de mostrar a quem ainda vive nos anos 80 ou 90 a recente conferência de Imprensa de Florentino Pérez. Está lá todo o guião do dirigente que sacode a responsabilidade das costas e dispara contra os inimigos no campo e fora dele, com o requinte vulgar de diminuir uma mulher porque o assunto é futebol e um possível adversário nas eleições por ter pronúncia sul-americana ou mexicana. Todos os que passaram por aqueles anos ouviram, vezes sem conta, aqueles argumentos estafados que, não tenho dúvida, ainda convencem os mais fiéis.
Acompanhei, por dever de ofício, essa intervenção do presidente do Real Madrid. Não gostei. Interessou-me, porém, conhecer o que escreveu essa mulher que, na verdade, não saberá muito de futebol, mas que publicou um texto no jornal ABC de um património que vai muito para lá de uma bola de futebol e 22 jogadores em campo.
Chama-se María José Fuenteálamo e, para lá de jornalista que se dedicou a Economia, Investigação, Educação ou Saúde, é professora na Universidade Complutense de Madrid. Explicou, depois de apanhada de surpresa pela intervenção de Florentino Pérez, que falou do que representa o Real Madrid, como instituição histórica, na sociedade, das suas cores e do desportivismo.
O texto, com riqueza de referências bibliográficas, é uma extraordinária reflexão socioantropológica sobre o momento do Real Madrid, do comportamento de jogadores, dirigentes, sócios e adeptos. Poderia assentar como uma luva no Benfica. Dá-se o caso de que tudo é amplificado pela escala universal do clube da capital espanhola.
Partilhou Fuenteálamo que amigos madridistas estão intrigados sobre qual será o nível dos decibéis da próxima assobiadela no Bernabéu. Como será na Amoreira, sábado, com o Benfica, na última jornada do campeonato? E recorda uma citação do escritor Robert Louis Stevenson: «Ama-me quando menos o mereça, porque será quando verdadeiramente preciso.» Argumenta que nunca se deve deixar só o perdedor porque o vencedor tem tudo. E questiona sobre se o Real merece carinho dos seus neste momento. Também faz sentido por cá, certo?
Real Madrid e Benfica, como outro qualquer clube, não devem respeito aos sócios e adeptos apenas para que sejam apoiados e animados. Fuenteálamo, resumidamente, entende que o Real Madrid deve respeito à sociedade que o observa e deve atravessar os momentos baixos com dignidade. Reclama e sugere que jogadores e dirigentes acompanhem os visitantes aos estádios para tocar a ilusão de sócios e adeptos e sentir de verdade a responsabilidade que têm. Não seria má ideia por cá, pois não?
O Benfica, também em crise desportiva, nem sempre reagiu bem às adversidades — fê-lo apenas através de comunicados, publicações na rede social X ou intervenções do presidente contra as arbitragens. Continuo a dizer que duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo e o Benfica pode queixar-se das arbitragens, mas também reconhecer erros próprios e apresentar soluções que sócios e adeptos possam compreender. O que não pode acontecer é que um gigante se faça surdo perante os assobios. Porque essa surdez, como defendeu Fuenteálamo em relação ao Real, retumba na sociedade.
O maior risco do Benfica é manter-se numa bolha, ignorando tudo o que se passa à volta e, sobretudo, o sentimento de sócios e adeptos. Não tenho forma de prová-lo, mas acredito que uma das razões para Rui Costa ter vencido as eleições foi ter estado ao lado dos benfiquistas e ter falado como um deles. E eles precisam de ouvir Rui Costa. Sem os argumentos de Florentino Pérez."

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