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terça-feira, 3 de março de 2026

Da simbiose entre clube e treinador


"Começo com um desabafo fora do tópico: quando será que os comentadores de futebol em direto abandonam a expressão “troca por troca”? Percebe-se a ideia, de que não se mexe no sistema, no desenho tático, mas ninguém troca por trocar, que diabo. Ou melhor, se algum treinador o faz está na profissão errada, mais valia, se a questão é de fezada, ou de ver se resulta A só porque B não deu (ou está cansado), dedicar-se ao tarot. Mexer numa unidade é sempre alterar uma dinâmica da própria equipa e, por consequência, impactar no jogo. Neste tempo em que as substituições se multiplicaram, há mais vezes duas e três trocas em simultâneo. Querem acreditar – eu sei que sim, porque veem jogos como eu – que até nesses momentos, de quase revolução num onze, há quem continue a ver “troca por troca”?
Hugo Oliveira não é um treinador mediático, ou ainda não é, e a maioria nem se lembrará à primeira do nome do homem que leva o Famalicão no sexto lugar da Liga, prolongando uma estabilidade de comando técnico como há algum tempo não se via por lá. O clube foi mais uma vez astuto a identificar competência e o técnico tem sabido entender o rumo da sociedade, e não há sucesso sem isso. É fácil – e até justo, por ser verdade - associar os bons resultados do Famalicão a uma gestão competente que permite plantéis de qualidade. Bem menos justo é relacionar o rendimento – e a regularidade - da equipa apenas a essa valia individual, até porque está reduzida, sobretudo no ataque, por via da lesão grave de Aranda e, mais tarde, da saída de Zabiri. Sou suspeito porque o conheço bem e há muito lhe sigo as pisadas, mas não tenho dúvidas de que o antigo adjunto de Marco Silva (era mais que um treinador de guarda-redes) acabará por ter bem mais atenção, e reconhecimento, do que tem tido.
Já repararam em Diogo Sousa, o miúdo esquerdino do meio campo do Vitória que acaba de completar 20 anos? As saídas de Handel ou Tiago Silva podem ter reduzido -acredito que reduziram mesmo - as ambições da equipa, mas abriram caminho à afirmação de miúdos de grande potencial. Gonçalo Nogueira, dois anos mais velho, também tem igualmente muito para dar, mas Diogo parece-me talento para voos ainda mais altos, pela qualidade com bola, a facilidade com que decide bem sob pressão e o modo como se insere no ataque na intenção de finalizar. Será provavelmente o próximo bom negócio do clube e a prova de uma aposta acertada da atual gestão vitoriana quanto ao modelo para recuperar o emblema da crise financeira grave e crónica. Até porque há, na mesma linha de aposta, outros nomes que prometem claramente, como Saviolo, Mukendi, Camara ou Strata. Mas é também mais uma evidência de que, para que estas opções (arriscadas) resultem, é obrigatória uma coerência entre as metas do clube e o perfil do treinador. Se outros elogios não merecesse, e merece, Luís Pinto justificava esse, o da coragem de apostar em jovens, quando tantos se desculpariam com a “falta de maturidade” dos seus homens. E a audácia não se fica por aí, que é ver este Vitória, em cada jogo, a enfrentar de olhos nos olhos mesmo os adversários mais poderosos. Um treinador corajoso conquista-me sempre mais que um timorato.
Por falar em simbiose clube-treinador, o zénite desse potencial concretiza-se no fenómeno Bodo/Glimt. Nos confins da Noruega, em pleno Ártico e numa cidade de 55 mil habitantes (os mesmos de Sesimbra, Caldas da Rainha ou Amarante), nasceu a mais recente história de encantar do futebol mundial. Estava na segunda liga norueguesa em 2017. Do ano seguinte para cá, com o mesmo treinador no comando - Kjetil Knutsen – e sem nenhum investidor milionário a despejar dinheiro no Pólo Norte, ganhou quatro campeonatos locais em seis possíveis e acaba de chegar aos oitavos de final da Liga dos Campeões, vencendo o Inter de Milão por duas vezes e não apenas no sintético de Bodo.
O segredo do sucesso está em três pilares, simples de assimilar, exequíveis em qualquer latitude, mas que dificilmente vemos concretizados de modo convicto e duradouro: identidade, processo e pertença. Ou seja, o clube tem um projeto que parte de um perfil de jogo e de jogadores. O treinador confia num processo de treino e jogo e dá-lhe sequência, resistindo ao apelos de saída que duram desde os primeiros sinais de sucesso. Os jogadores são identificados pelo que podem acrescentar e claramente vinculando a essa ideia, que é tática mas também de clube. Dois exemplos: na equipa que entrou em Milão, para voltar a surpreender a Europa só havia dois estrangeiros no onze; e entre os nove noruegueses voltou a brilhar acima dos demais Jens Petter Hauge, o talento que não explodiu nas passagens prematuras por Milan ou Eintracht Frankfurt, mas que exibe um repertório espetacular já há uns anos de amarelo vestido.
Estes noruegueses sensacionais são o próximo obstáculo europeu do Sporting. Rui Borges está avisado. Desde a goleada à Roma de Mourinho em 2021 que os mais atentos ao futebol europeu sabem que algo diferente acontece na zona boreal. Na época passada, o Bodo ganhou ao FC Porto e depois ao SC Braga, e só terminou na meia final da Liga Europa. Na Champions em curso já bateu, além do Inter, o Manchester City e o Atlético de Madrid. Como os recursos não são comparáveis, só a competência pode explicar. Dando de novo razão a Cruijff, que nunca viu um saco de dinheiro ganhar no futebol."

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