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sábado, 11 de abril de 2026

Campeonatos que se decidem fora de campo


"O Benfica vive hoje numa espécie de contradição permanente. Produz como equipa grande que é, dominante, instalada no meio-campo adversário, capaz de encostar o jogo à área contrária durante largos períodos. Mas depois, quando o jogo acaba, a realidade é outra. Pontos perdidos. Distâncias que não encurtam. Sensação de que falta sempre qualquer coisa no momento decisivo.
Frente ao Casa Pia, voltou a ver-se tudo isto. Setenta e oito por cento de posse de bola, um valor que iguala o máximo da época. Um registo de expected goals de 2.72, entre os mais elevados da temporada. Volume ofensivo, presença constante no último terço, ocasiões suficientes para resolver o jogo com relativa tranquilidade. E, no entanto, mais dois pontos deixados pelo caminho.
Não foi um caso isolado. Frente ao Santa Clara, o filme foi semelhante. Em Tondela, voltou a repetir-se. Jogos onde o Benfica teve bola, teve espaço, teve oportunidades. Jogos onde, olhando apenas para os números, seria difícil justificar outro desfecho que não a vitória. Mas o futebol não se joga em folhas de Excel. Joga-se em momentos. E nesses momentos, o Benfica tem falhado.
Este é o primeiro problema. E é um problema sério. Equipas que querem ser campeãs não podem viver de métricas avançadas. Podem usá-las como suporte, como diagnóstico, como ferramenta de análise. Mas, no fim, o que conta são golos. E o Benfica, em demasiados jogos desta época, produziu muito e concretizou pouco. Falta frieza. Falta eficácia. Falta aquela capacidade de transformar domínio em vantagem, que tantas vezes separa os candidatos dos campeões.
Mas ficar por aqui seria olhar para metade da realidade.
Porque há outro padrão, menos confortável, mais difícil de discutir, mas cada vez mais evidente. Um padrão que não se explica com estatísticas, mas com decisões. Com critérios. Com aquilo que acontece nos momentos-chave dos jogos.
Em janeiro, instalou-se um ruído quase permanente em torno dos penáltis assinalados a favor do Benfica. Criou-se a narrativa, repetiu-se até à exaustão, colocou-se em causa a legitimidade de decisões que, todas elas, eram enquadráveis pelas leis do jogo. O resultado desse ruído viu-se nos meses seguintes. Fevereiro terminou sem um único penálti a favor. Março repetiu o cenário. E frente ao Casa Pia, apesar de vários lances na área adversária que suscitam dúvida, o desfecho voltou a ser o mesmo: zero decisões favoráveis.
Ao mesmo tempo, nos jogos dos rivais diretos, o critério parece variar com uma elasticidade difícil de compreender. O FC Porto resolve um jogo complicado frente ao Arouca com um penálti que levanta sérias dúvidas. Pouco tempo depois, frente ao Famalicão, beneficia de uma omissão num lance claro na sua área. No meio disto, decisões disciplinares que também mereciam outro tipo de análise.
O Sporting, por seu lado, volta a somar três pontos num jogo onde um golo é anulado ao Santa Clara e um penálti por assinalar poderia ter mudado o resultado na fase final. Não é um episódio isolado. É uma repetição que começa a ganhar peso no conjunto da época. Convém ser rigoroso. Nenhuma equipa perde um campeonato apenas por causa da arbitragem. Reduzir tudo a esse fator seria um erro de análise e uma forma fácil de fugir às próprias responsabilidades. O Benfica tem problemas seus, evidentes, sobretudo na eficácia ofensiva e na capacidade de matar jogos quando está por cima.
Mas também convém não ignorar o contexto.
Num campeonato equilibrado, decidido muitas vezes por margens mínimas, os detalhes contam. Um penálti assinalado ou não assinalado. Um golo validado ou anulado. Uma expulsão que acontece ou que fica por mostrar. São momentos que alteram jogos. E jogos que alteram classificações.
E quando esses momentos começam a cair, de forma consistente, para o mesmo lado, a discussão deixa de ser apenas futebolística. Passa a ser estrutural.
José Mourinho, com a frontalidade que lhe é reconhecida, colocou o tema em cima da mesa. Fê-lo sem rodeios, antes do jogo com o Casa Pia. E independentemente da forma, há uma questão de fundo que não pode ser ignorada: a perceção de desequilíbrio está instalada.
Para o Benfica, isto coloca um duplo desafio. Internamente, tem de resolver aquilo que depende de si. Ser mais eficaz, mais clínico, mais capaz de transformar superioridade em golos. Externamente, tem de lidar com um contexto onde nem sempre sente que joga com as mesmas regras que os outros.
E essa é, talvez, a pior combinação possível.
Porque uma equipa pode sobreviver a um dia mau. Pode recuperar de um erro próprio. Pode até ultrapassar uma decisão injusta. Mas quando tudo isso se acumula, quando os sinais se repetem jornada após jornada, o impacto deixa de ser pontual e passa a ser estrutural.
Os campeonatos não se decidem apenas nos grandes jogos. Decidem-se nestes dias. Nos jogos onde uma bola entra ou não entra. Onde um apito se ouve ou fica em silêncio.
E neste momento, a sensação que fica é simples e inquietante.
O Benfica tem feito muito para ganhar jogos. Nem sempre tem feito o suficiente para os resolver. Mas há jogos em que, mesmo fazendo quase tudo, parece que há sempre algo que falta.
E quando esse algo começa a repetir-se demasiadas vezes, já não estamos apenas a falar de ineficácia."

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