"No chamado "futebol moderno" de hoje, das SAD's e grupos multimilionários que acumulam clubes pelo globo, um caso faz-nos refletir. Sem teorias da conspiração e sem necessidade de mergulhar nos bastidores obscuros do jogo. Vamos apenas abordar a história de Aron Anselmino, um argentino de 20 anos.
Vamos utilizar um termo que soa forte, mas é completamente ajustado para descrever esta situação (e tantas outras): pertencer. Aron Anselmino "pertence" ao Chelsea, ou melhor, ao BlueCo, fundado em 2022 e que detém o controlo das ações dos Blues e também do Strasbourg, de França.
O modus operandi do grupo é muito simples: apostar em várias promessas do futebol mundial bem no início da carreira, quando o valor de mercado ainda é menor. Ou seja, o grupo investe em potencial para, com o tempo, lucrar com o "produto" finalizado. A tal história da matéria-prima que se transforma num produto manufaturado que moldou a relação das civilizações ao longo dos anos.
Como o plantel do Chelsea só consegue acolher um grupo limitado de atletas (apesar de terem expandido o balneário do clube - contém ironia), a estratégia passa a ser contratar as jovens promessas e rapidamente as emprestar - seja para clubes do próprio grupo, o Strasbourg, no caso, ou para outras equipas.
A partir daí, o departamento de análise de desempenho dos Blues monitoriza os atletas e classifica-os em categorias, segmentando quem ainda precisa de se desenvolver com um novo empréstimo, quem pode ajudar a equipa e ser chamado de volta, e quem provavelmente não vai atingir o potencial esperado e pode ser negociado definitivamente.
Com esta contextualização (importante) feita, voltamos a Aron Anselmino. Em agosto de 2024, o Chelsea comprou os direitos económicos do defesa junto ao Boca Juniors por 18 milhões de euros, a maior venda da história Xeneize. Pouco mais de duas semanas após assinar contrato, o defesa foi emprestado ao Borussia Dortmund, já que não teria espaço num primeiro momento em Stamford Bridge.
O jovem defensor argentino foi ganhando espaço aos poucos no Signal Iduna Park. Fez uma boa partida em novembro contra o Villarreal, com direito a assistência na Champions, e depois marcou o primeiro golo contra o Bayer Leverkusen, duas vitórias importantes dos Aurinegros na temporada.
Terminou o ano com nove partidas disputadas: sete como titular, seis delas desde o final de outubro. Depois de sofrer uma lesão ligeira em dezembro, quando começava a retomar a forma, foi chamado de volta pelos Blues, que sofriam com desfalques na defesa. A equipa londrina perdeu a concorrência do Liverpool pelo também jovem Jeremy Jacquet e acabou por chamar de volta Anselmino, que chorou na despedida na Alemanha.
Poucos dias após chegar a Londres, foi informado que o clube preferiu trazer de volta Mamadou Sarr e teve de fazer as malas novamente para jogar no Strasbourg (onde curiosamente Sarr jogava). Anselmino não jogará mais a Liga dos Campeões nesta temporada, nem vai vestir a camisola dos Blues.
O quanto este modelo de gestão interclubista favorece ou prejudica a carreira dos jogadores? Até que ponto é possível focar nos resultados desportivos tendo de pensar numa integração com equipas de diversas ligas (o BlueCo até é modesto neste sentido, tendo apenas dois clubes)? É possível dar a mesma atenção a todos os clubes do grupo (pergunte a John Textor, talvez)?
São perguntas que ficam e que talvez ninguém queira responder."

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