"Em noite chuvosa e entre tempestades, o Benfica venceu (2-1) o Alverca procurando sempre os mesmos três nos ataques e viciando-se em cruzamentos. Eram tantos que Mourinho lançou Anísio Cabral, o campeão mundial de sub-17, para a área. Ao segundo jogo pela equipa principal, outra vez ao primeiro toque que deu na bola e no minuto seguinte a entrar em campo, o adolescente marcou
Aquela noite na Luz, épica e lendária, deu ao alento do Benfica uns propulsores dignos de foguetões da NASA. Tal foi a descarga hormonal de serotonina e dopamina que os neurotransmissores de qualquer adepto, arrisco dizer, benfiquista ou não, haveria de retumbar num baixio inevitável: seria impossível que uns ânimos assim, uns contornos heroicos daqueles, uns planetas alinhados com régua esperassem hermeticamente no estádio pelo regresso da equipa, entretanto, ida a Tondela para um empate a lembrar que as coisas mudam num instante.
Vieram tempestades, foram-se a Ingrid, a Kristin, a Marta, e os jogadores do Benfica entraram no campo molhado para flanquearem o Alverca. Insistiram os encarnados em carrilar o jogo, os centrais a ignorarem um Leandro Barreiro formatado com outras pré-definições e um Fredrik Aursnes fiável para fazerem a bola chegar com pressa à recente inspiração encontrada nas alas. Pouco merecedores de destaque até há bem pouco tempo, a equipa assentou desde cedo na procura de Prestianni e Schjelderup.
Do norueguês veio o primeiro remate oriundo da primeira boa ideia, ao tabelar na esquerda com o calcanhar sedoso de Rafa. As mãos de Matheus Mendes negaram-lhe um festejo. O primeiro golo teria Prestianni, do lado oposto, esperto a posicionar-se atrás da pressão dos ribatejanos mal perderam a bola, para receber um passe e soltar em Rafa. A trivela do recém-chegado retornado também encontrou as manápulas do guarda-redes do Alverca, mas um norueguês prolongou a sua lua-de-mel com a Luz: na recarca, Schjelderup juntou um golo (16’) aos dois que fez contra o Real Madrid.
Festejou-se com banho de chuva, as gargantas dos adeptos ainda quentes da reverberação de há quase duas semanas também muito por causa do norueguês baby-faced. E o Benfica, a ganhar, não abrandou. Rafa acelerava-se com qualquer bola que recebia, absoluto contraste com a pausa de Sudakov, o habitual ocupante do lugar que o via do banco. O entusiasmo de Sydney Lopes Cabral fê-lo rematar de longe, da direita e com o pé esquerdo, demonstrador da sua ambidestria. Otamendi animava-se para se juntar a contra-ataques. O Benfica tinha pressa em vez de controlo.
Já depois de cruzar uma bola venenosa, Chiquinho recebeu outra perto da linha do meio-campo, o dócil Sydney nas suas costas. Despachou o lateral quando este se encostou às suas costas, correu pelo arraial de espaço vago na metade do Benfica, lançou Marezi pela esquerda e o Alverca empatou (30’) com Figueiredo a emendar o passe do sérvio. Com dois passes os ribatejanos fizeram o golo.
Faltava calma ao Benfica com a bola, demasiado impetuoso a lançar-se em ataques, apressado a colocar passes em Prestianni, Schjelderup e Rafa para eles decidirem a jogada. O Alverca concedia metros e baixava as linhas, defendia-se junto à sua baliza de modo a forçar situações de campo aberto para as suas gazelas quando recuperasse a bola que recebia dos encarnados pouca paciência. Era uma opção conspirativa para abrir pradarias no relvado da Luz. Até ao intervalo, só um remate à distância de Vangelis Pavlidis no meio da velocidade única a que o Benfica jogava.
O ímpeto ficou na mesma equipa que continou a ter os cruzamentos frequentes de Lopes Cabral para um subtil Rafa desviar um deles contra o poste esquerdo. Depois foi ele próprio a assumir uma jogada e à boca da área rematar a bola que sobrevoou a barra por um palmo, maior do que a polegada a separar o cabeceamento de Pavlidis do mesmo ferro. O grego fora descoberto por um radar cruzado pela chuteira de Aursnes. Era assim, a cruzar incessantemente, que o Benfica se fazia ao Alverca.
Teve um pequeno salsifré que se instalar na Luz para os encarnados ligarem uma jogada pensada entre os seus três mais perigosos, mas seria a única. Após os assobios-mil face a um golo anulado a Pavlidis por a bola tocar no braço maroto do grego antes de desviar no seu peito, vinda do artimanhas Schjelderup, e de José Mourinho ver um cartão amarelo ao refilar com o árbitro por um penálti não assinalado sobre Rafa, os encarnados destabilizaram-se. Prestianni ainda se juntou aos dois citados para obrigar Matheus Mendes a uma parada complicada, depois a equipa mirrou no critério a atacar. O Alverca já só defendia.
Com o adversário encostado atrás, a primeira cartada de Mourinho foi tirar Sydney, mover Aursnes para lateral direito e lançar Sudakov para ser um médio, não um 10. Fazia sentido colocar um cérebro pensador no núcleo das jogadas, alguém que acalmasse a equipa no meio da pressa. Mas o Benfica manteve a tendência de pôr a correr o seu triunvirato, estava viciado, mal se reparava em Pavlidis, os seus apoios frontais como rotunda para os ataques em parte incerta enquanto Prestianni entrava na área e rematava em cheio na testa do guarda-redes.
Bruma e Anísio Cabral seguiram-se. Restavam cinco minutos. Era o treinador encarnado a acrescentar um cruzador à faixa e um corpo à área que tantas bolas recebia, se não fosse pela pontaria dos tantos cruzamentos ao menos a equipa piscava o olho às probabilidades - mais um avançado, mais um alvo.
E não era um qualquer, mas um muito magnético adolescente, só pode. Tão pintado de fresco com a tinta de campeão mundial de sub-17 com Portugal, ainda mais recentemente a Luz o vira entrar em campo aos 83 minutos contra o Estrela da Amadora e a marcar no minuto seguinte, ao primeiro toque na bola. Foi com a mesma cabeça triunfal, gravítica no poder de atração, que desviou o cruzamento de Samuel Dahl outra vez no seu contacto inaugural com a bola, uma cabeçada triunfal.
O miúdo celebrou com personalidade, doidivanas com moderação, a equipa rodeou-o e houve quem se mostrasse mais estupefacto do que Anísio, salvador de um Benfica que José Mourinho nem um minuto demorou a cerrar com mais um defesa central (António Silva) posto em campo. A vitória não fugiu, nem a história de outra noite efusiva na Luz, menos calórica em apoteoses, mas talvez mais simbólica para o longo-prazo.
Não havia Seixal em 1999, quando um desconhecido Pepa saiu do banco e se estreou a marcar à primeira intervenção no jogo, um episódio encantador com um rapaz da formação que o atravancou de expetativas auspiciosas. Faria carreira longe da Luz. Hoje há o Seixal onde cresceu Anísio, um Pepa 2.0, ou duplicador na proeza de aos 17 anos, a uma semana dos 18, ter entrado em dois jogos da equipa principal e em ambos ter marcado no minuto seguinte. Só se falará dele amanhã, em que há um FC Porto-Sporting onde o seu golo garantiu que haverá algum proveito para este Benfica volumoso em jogo ofensivo, muito rematador (29), mas nem sempre amigo do discernimento.
Não importa, nestes filmes já se sabe: durante dias o tema será a lua-de-mel de um menino bonito com a Luz."

Sem comentários:
Enviar um comentário
A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!