Últimas indefectivações

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Estamos nas Meias-finais...

Sanjoanense 1 - 2 Benfica

Jogo apertado, ao contrário da goleada no Jogo 1, com mais uma actuação da senhora Sílvia Coelho surreal!!!

Eliminados...

Benfica 3 - (1) - (4) 3 Santa Clara
Bernardes, Kiko Silva, JP Gonçalves
(Duarte)


Benfica afastado de mais um título, com uma arbitragem surreal! Acabámos o jogo com 9 jogadores, jogámos quase de 90 minutos em inferioridade numérica, ainda conseguimos levar o jogo para os penalty's, e se os putos não estão obrigados a fazer mais, o Benfica tem que fazer mais!!!

Continuem a idolatrar jogadores em vez do Clube...

Compensa...

Boa pergunta...

Insatisfatório satisfeito !!!

Impunidade...

Tugalândia...

Hello...!!!

BI: Época 2025/16 - Rescaldo

A convocatória de Martínez não é perfeita, mas é inatacável


"Frustração de António Silva, Palhinha, Horta, Pedro Gonçalves ou Paulinho seria, se tivessem sido chamados, a de outros, e talvez até mais justificada

Se eu fosse selecionador de Portugal, a minha lista de 26 convocados para o Mundial não seria esta:
Mas não faria muitas mudanças. E limitando o leque de escolhas aos jogadores que têm estado no radar da Seleção nos últimos tempos, teria poucas ou nenhumas diferenças.
Sim, é frustrante para jogadores como António Silva, João Palhinha, Ricardo Horta, Pedro Gonçalves ou Paulinho ficarem de fora, uns depois de boas épocas, outros acima de tudo pelo trajeto que têm na equipa nacional. Mas se não fossem eles seriam outros, e essa frustração apenas mudaria de personagem.
António Silva merecia estar no Mundial? Não chocaria, mas merecia mais que Tomás Araújo, que nos jogos principais do Benfica, quando esteve disponível, jogou à frente do companheiro de setor?
Palhinha podia estar nos 26? Claro que sim, mas depois do que Samu Costa fez nos dois particulares de março, não será o médio do Maiorca mais capaz de oferecer coisas diferentes à equipa? Paulinho não justificaria mais que Gonçalo Guedes a ida à Seleção? É possível. Mas o argumento de Roberto Martínez, de que, como terceiro avançado, o jogador da Real Sociedad faz mais sentido, porque oferece coisas diferentes dos outros dois — Cristiano Ronaldo e Gonçalo Ramos —, é inatacável.
E quanto a Ricardo Horta e Pedro Gonçalves, caberiam perfeitamente na lista, mas em vez de quem? Francisco Conceição? Trincão? João Félix? Pedro Neto? Claro que não. Quanto muito, podiam ir se Martínez não levasse cinco laterais, mas também nesse caso os argumentos do selecionador — de que é uma das posições mais desgastantes, de que com cinco substituições por jogo, calor, fuso horário, pode aproveitar para ir refrescando, de que nesses cinco há muita versatilidade, incluindo pensar em Matheus Nunes como alternativa para o meio-campo, a sua posição de raiz — fazem todo o sentido.
E, na verdade, não vale muito a pena discutir o 23.º, o 24.º ou o 25.º jogadores da convocatória. Seja Nélson Semedo, Samu Costa, Paulinho, Gonçalo Guedes ou Horta, a probabilidade de qualquer um deles jogar minutos significativos no Mundial é reduzida.
O que deve preocupar é saber se, mesmo tendo acertado em cheio na convocatória, ou perto disso, Martínez é capaz de transformá-la numa boa equipa. Porque no apuramento ficaram vários exemplos da Seleção a jogar bem abaixo do seu potencial."

Óscar René Cardozo Marín


"Quando cheguei ao Benfica, ou quando o Benfica chegou até mim, não sei bem, o Cardozo já lá estava. E mesmo assim, o Benfica não era mais dele do que meu. Fez sempre questão de o mostrar.
Quando dei por ele, eu tinha seis ou sete anos e ele vinte e quatro, a idade que eu tenho agora e que está quase a esfumar-se em vinte e cinco. Está, portanto, praticamente descartada a minha chegada meteórica ao Benfica para repetir Cardozo, o que, em boa verdade, foi sonho permanente e letárgico em mim muito tempo. Era o rotineiro e automático “ainda vamos a tempo” quando me sentava em frente ao televisor e jogava vídeo jogos de futebol na pele de jogadores sempre mais velhos do que eu. Claro que tive de deixar de jogar esses jogos. Tive por obrigação de afastar o pensamento de que deveria estar agora a usufruir do meu pico desportivo sem retorno e provocar uma das bancadas em Alvalade com uma knee slide celebration, em vez de ser só mais um crónico-do-9-às-18.
Muito mais do que o jogador distante e pixelizado na TV lá do café, o Cardozo era um sonho latino cristalizado num metro e noventa e dois centímetros. A minha geração quis toda ser Cardozo. Por isso mesmo, é também com alguma mágoa, para além do sentimento de dever cumprido, que nos despedimos dele. Até porque não foram poucas as vezes, talvez sem grande motivo racional, em que o reduzi a um grandessíssimo trator com GPS ou a um camelo em relva sintética ou a um guindaste avariado.
O futebol não escapa às perfídias amargas da vida, por isso, até aqui, só damos mesmo valor às coisas quando as perdemos. Ainda assim, acho que a grande maioria de nós sabia a pessoa (e o futebolista) que vestia a nossa camisola preferida. Com os anos, o futebol ganha em quem o vê uma lucidez estranha e à qual não estamos muito habituados, portanto, com toda a naturalidade, já não adormeço a pensar no Cardozo.
A parte boa é que há coisas que nunca mudam mesmo. Ainda agora, quando ouço os versos de Paulo de Carvalho que dizem “E desde então se lembro o seu olhar/É só para recordar/Os quinze anos e o meu primeiro amor” a minha memória divide-se entre o Cardozo e a minha primeira intensa paixoneta adolescente. Não vos posso dizer quem me fez mais feliz, não vá ela poder vir a ler isto."

Devolvam-me o Benfica do meu pai


"Há épocas más. E depois há épocas que nos fazem sentir órfãos de qualquer coisa. Esta do Benfica foi isso.
O meu pai morreu há uns anos. E a verdade é que nunca soubemos muito bem ser pai e filho. Havia sempre qualquer coisa desalinhada entre nós, como dois homens presos em frequências diferentes, incapazes de encontrar tradução um no outro. Falávamos pouco, discordávamos muito, e carregávamos um silêncio pesado que nenhum dos dois teve coragem de desmontar.
Mas havia o Benfica. O Benfica era território neutro. O único lugar onde as feridas ficavam em suspenso durante noventa minutos. Era ali que encontrávamos paz. Não através de grandes conversas ou abraços cinematográficos, mas através de pequenos rituais: o relato ligado demasiado alto, os comentários nervosos antes dos clássicos, o levantar abrupto do sofá num golo aos noventa. O futebol fazia-nos o milagre raro da harmonia.
O meu pai era do Porto. Nascido e criado no Porto. Jogou profissionalmente no Boavista FC, conheceu balneários, campos pesados e viagens intermináveis num futebol muito diferente deste. Mas o coração dele era do Sport Lisboa e Benfica. Ferrenho. Irracional. Daqueles benfiquistas antigos que não precisavam de justificar o amor ao clube porque o Benfica, naquela geração, era mais do que futebol. Era identidade. E talvez tenha sido por isso que ele me falava tantas vezes dos homens que fizeram o Benfica dele.
Falava-me do Eusébio quase como quem fala de uma figura mítica. Do respeito absoluto que inspirava dentro e fora do campo. Do orgulho de ver um português dominar a Europa com uma humildade rara. Falava-me de Mário Coluna como “o patrão silencioso”, aquele capitão elegante que fazia parecer simples o que era impossível. E depois havia Fernando Chalana. O pequeno génio. O cabelo desalinhado, as meias caídas, os dribles impossíveis. O meu pai sorria de maneira diferente quando falava do Chalana. Como se naquele jogador estivesse condensada toda a beleza despreocupada do futebol antigo.
Essas histórias eram talvez as nossas melhores conversas. Porque quando ele falava do Benfica, desapareciam as tensões entre nós. Já não havia cobranças, nem silêncios pesados, nem incompatibilidades antigas. Havia apenas um homem a recordar felicidade e um filho a ouvi-lo em paz.
Talvez por isso me custe tanto olhar para este Benfica atual. Porque isto já não parece o Benfica que me ligava ao meu pai. Parece uma caricatura cara, vaidosa e vazia. Uma equipa construída com milhões, com um dos maiores investimentos da história recente do clube, mas sem alma, sem liderança e, pior do que tudo, sem compromisso visível com aquilo que significa vestir aquela camisola.
Gastaram-se dezenas de milhões em reforços, em promessas embaladas por campanhas de comunicação impecáveis, em discursos sobre hegemonia e ambição europeia. E no fim sobra uma equipa emocionalmente frágil, incapaz de aparecer nos jogos decisivos, perdida entre exibições medíocres e desculpas recicladas.
E talvez o mais frustrante seja saber que, em raríssimos momentos, esta equipa mostrou que ainda sabe o que é jogar à Benfica. Houve noites isoladas em que apareceu raça, urgência, aquela sensação antiga de que os jogadores percebiam o peso da camisola. Como naquele jogo europeu contra o Real Madrid, quando até o Anatoliy Trubin apareceu como símbolo de desespero e crença, subido à área nos últimos minutos, à procura do impossível. Foram segundos de caos, de coração na boca, de estádio inteiro empurrado pela emoção. E talvez tenha sido precisamente isso que mais custou: perceber que a chama ainda existe algures, mas que passou a ser exceção em vez de identidade.
Porque o Benfica do meu pai não precisava de jogar perfeito. Precisava apenas de jogar com alma.
Este Benfica lembra-me os chamados anos do Vietname. Não apenas pelos resultados, mas pela sensação constante de desorientação. Pela ausência de identidade. Pela ideia de que o clube se tornou uma máquina empresarial que já não sabe alimentar a sua própria mística.
Há dinheiro. Há marketing. Há vídeos épicos nas redes sociais. Mas falta Benfica. E talvez seja isso que mais dói.
Porque eu lembro-me — através do meu pai — do outro Benfica. Do Benfica que fazia um homem esquecer os problemas da vida durante duas horas. Do Benfica que unia gerações inteiras à volta de uma televisão pequena numa sala cheia de fumo e nervosismo. Do Benfica que entrava em campo com jogadores como Pablo Aimar, Javier Saviola, Cardozo ou Luisão e onde, independentemente da qualidade individual, se via entrega, personalidade e respeito pela camisola.
Havia noites na Luz em que o estádio parecia respirar junto. Em que o Benfica era maior do que o futebol. Maior até do que a vitória.
Hoje vejo jogadores que perdem e abandonam o campo com a indiferença burocrática de quem terminou uma reunião de condomínio. Vejo dirigentes que falam como administradores de uma marca e não como guardiões de um património emocional. Vejo adeptos cansados de amar um clube que já não os reconhece. E dou por mim a pensar naquela frase que tantas vezes apareceu em faixas e murmúrios de bancada: “Devolvam-me o meu Benfica.”
Talvez porque o meu Benfica nunca tenha sido apenas um clube. Era também o meu pai. Era aquele raro instante em que conseguíamos existir sem conflito. Cada jogo era uma trégua emocional entre dois homens que nunca aprenderam totalmente a comunicar.
E quando vejo esta equipa sem chama, sem coragem e sem respeito pela dimensão do símbolo que carrega ao peito, sinto que não estão apenas a destruir uma época. Estão a destruir memórias. Porque o futebol nunca foi só futebol. Às vezes era a única linguagem possível entre um pai e um filho."

Zero: Mercado - Sporting pesca talento no futebol italiano

BF: Mercado...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Zero: Tema do Dia - Análise à convocatória para o Mundial

Observador: Três Toques - Os convocados da seleção e os esquecidos (até na caderneta)

BolaTV: Mais Vale à Tarde que Nunca #141

Fixar número máximo de minutos é inevitável e urgente


"O que distingue o jogador profissional de futebol de um escravo? Teoricamente, o facto de poder deixar de jogar quando quiser e ter alguns direitos laborais

Os adeptos precisam de voltar a ter saudades de ver um jogo de futebol. Hoje, o futebol nunca pára, não há off-season. A NFL, por exemplo, só tem jogos durante sete meses, entre cada temporada há cinco meses sem jogos.
O interesse dos adeptos de futebol está a esmorecer com o excesso de jogos, que resultam em saturação e desinteresse no longo prazo. Os Mundiais, Europeus e Mundiais de Clubes fazem com que a pré-temporada comece antes de acabar a temporada anterior. Há poucas dezenas de anos, em maio, começavam três longos meses em que não havia futebol para ver.
Três vezes por semana, A BOLA trazia algumas novidades. Nos anos de Campeonato do Mundo e da Europa, que eram disputados apenas por 16 e por oito equipas, Portugal não participava — e os jogos eram poucos. No Mundial, os portugueses apoiavam o Brasil. Os desportos que os portugueses seguiam nesses longos verões eram o ciclismo e o hóquei em patins. A Volta a Portugal vivia da rivalidade dos três grandes e dos ciclistas serem portugueses. Sabe quem foi o vencedor em 2025?
Na Volta a França, participava o Joaquim Agostinho, o melhor ciclista português de todos os tempos. Melhor ainda, era a cobertura do jornal A BOLA. Homero Serpa e Carlos Miranda, e alguns jornalistas excecionais, descreviam a evolução da corrida, mas também as cidades e as vilas por onde o Tour passava e contavam histórias sobre os protagonistas ou sobre pessoas anónimas com quem se cruzavam ao pequeno-almoço e ao jantar.
O hóquei em patins era ainda mais entusiasmante. Os jogos passavam na televisão, e quem disputava, e ganhava, os Mundiais e os Europeus era a Seleção Nacional. Não se conseguia ainda ver a bola, mas, pela reação dos jogadores, percebia-se quando tinha entrado na baliza.
O futebol foi inventado em Inglaterra, e era jogado pelos estudantes universitários — a elite rica da sociedade no século XIX. Era um desporto de inverno, porque no verão os jogadores queriam passar férias no sul de França. Ganhavam sempre às equipas formadas por operários, porque estes treinavam à noite, depois de fazerem turnos de trabalho pesado. Apenas quando foi permitido aos jogadores receberem um pagamento, os operários puderam deixar de trabalhar e competir de forma justa — e ganhar.
A igualdade de oportunidades e a meritocracia do futebol foi consequência do profissionalismo. E o descanso nasceu com o jogo. O excesso de jogos também é prejudicial para os jogadores — nunca se investiu tanto em departamentos médicos e de performance e as lesões graves não param de aumentar.
Quem tem mais dinheiro, mais hipótese tem de ganhar. E a procura de receitas fez aumentar o número de jogos em cada época. Até as pré-temporadas passaram a ser definidas em função das receitas que os jogos garantem — todas as equipas que o conseguem, logo na pré-temporada exageram o número de jogos e de viagens intercontinentais. O excesso de jogos está a matar a galinha dos ovos de ouro.

Como se vive na Gaiola Dourada?
O que distingue o jogador profissional de futebol de um escravo? Teoricamente, o facto de poder deixar de jogar quando quiser e ter alguns direitos laborais — muito menos do que a maioria dos trabalhadores. Pode não conseguir ter férias, não tem fins de semana com a família e o horário de trabalho é fixado semanalmente. Entre o Natal e o Ano Novo, não pode meter férias.
Trabalha até à exaustão e é muitas vezes sujeito a pressão psicológica no limite da coação. Ninguém se importa com isso, afinal o jogador é bem pago (os poucos que realmente o são). Mas também ninguém se importa com os pais que não estão com os filhos, os filhos que crescem sem o pai presente no aniversário, os avós que não veem o neto entre o Natal e o Ano Novo. O futebolista foi desumanizado, é apenas um ativo.
A sua formação, muitas vezes iniciada antes dos 14 anos, tem traços evidentes de trabalho infantil — agravado pela separação da família. Seria tolerado pela sociedade que crianças de 13 anos fossem viver para academias de fábricas de calçado ou têxtil? A 300 quilómetros de casa dos pais? Em que o dia fosse ir de manhã à escola e à tarde a aprender a fazer sapatos e camisas? E dormissem em camaratas?

Se dividirmos a Primeira Liga em velocidades, há cinco muito diferentes entre si
Os três maiores, o SC Braga, o Vitória de Guimarães, a classe média alta (Famalicão, Gil Vicente, Santa Clara e alguns outros) e os que lutam pela sobrevivência. Desde que em 1995/1996 a vitória passou a valer três pontos, a época 2025/2026 foi a primeira em que os três maiores fizeram, simultaneamente, 80 pontos ou mais — 88/82/80 (250 no total dos três).
Entre 1995/1996 e 2005/2006, a média dos três maiores foi de 211 pontos, o máximo entre os três foi de 229 e o mínimo de 188. Em 2006/2007, a Primeira Liga reduziu o número de participantes para 16 até ao regresso às 18 equipas em 2014/2015. Neste segundo ciclo (2014-2026), a média de pontos dos três maiores subiu para 241, o máximo foi de 250 pontos e o mínimo de 219.
Reveladora, também, é a análise entre o Vitória de Guimarães e o SC Braga. No primeiro ciclo, cada um ficou cinco vezes à frente do rival — numa das 11 épocas acabaram empatados com 42 pontos. No segundo ciclo de 12 épocas, por 11 vezes o SC Braga ficou à frente do Vitória. (2026/2017). O SC Braga fez uma média de 49 pontos no primeiro ciclo e de 64 no segundo. O Vitória passou de 47 para 50. O crescimento do SC Braga é impressionante (30%), o do Vitória pouco mais do que marginal (6%).
Consolidar o sexto lugar no ranking da UEFA, passa prioritariamente por reforçar a competitividade do Vitória de Guimarães e da nova classe média alta do futebol português, liderada pelo Famalicão. A chave de repartição da centralização, tem de prever um premio extra a quem aceda à disputa das competições da UEFA — só assim vamos conseguir manter o sexto lugar do ranking de forma duradoura."

SportTV: Quintas - ÁFRICA DO SUL 2010: TENSÃO NO BALNEÁRIO

Oliveira: Convocatória...

DeLetra #43 - ⚽ Derby na Sérvia, jogar no Japão e Otamendi

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DAZN: The Premier League - R37 - Golos

Prata da Casa #51 - Regresso ao Passado, Entrevistas de Rua, Convocatória

SportTV: Vamos à Bola - Marítimo...

Renascença: Jogos Sem Fronteiras - Altitude...

Um conto de fadas chamado Vardy


"O que é mais provável acontecer? Um futebolista que está na oitava divisão inglesa com 20 anos ainda conseguir conquistar a Premier League ao serviço do Leicester ou então alguém subir até ao topo do Monte Evereste sem a ajuda de oxigénio suplementar?
Subir ao topo do Monte Evereste sem oxigénio suplementar é uma coisa raríssima e brutalmente difícil, mas que já aconteceu algumas vezes na história. Por outro lado, um atleta sair tão tarde do desporto amador, chegar ao topo do futebol inglês e ainda vencer a Premier League num clube que (quase) todos achavam que iria descer de divisão nessa época é, definitivamente, um conto de fadas. Mas que aconteceu mesmo.
E depois de ter visto o seu mais recente documentário decidi que tinha realmente de escrever sobre este futebolista inglês. Porque a história de Jamie Vardy é fabulosa, sobretudo porque é real. Porque cheira a relva molhada dos campos pequenos, a fábricas no norte de Inglaterra, a noites frias jogadas longe das câmaras e dos milhões.
Vardy não nasceu prodígio. Não cresceu dentro das academias de luxo nem foi apontado como «o próximo grande craque». Foi dispensado em jovem, trabalhou numa fábrica com vários turnos, jogou na oitava divisão inglesa depois de sair do trabalho, cheio de dores nas costas, e percorreu quilómetros e quilómetros num futebol quase invisível para o grande público. Enquanto outros apareciam nas capas dos jornais aos 18 anos, ele lutava simplesmente para poder continuar a jogar.
E talvez seja precisamente isso que torna a sua história tão poderosa. Quando Vardy chegou ao Leicester, muitos pensavam que seria apenas mais um avançado esforçado. Mas Vardy carregava algo que não se ensina: fome. A fome de quem sabe o que custa chegar ali. Cada sprint dele parecia uma resposta aos anos em que ninguém acreditou. Cada golo tinha a força de uma vingança silenciosa contra todas as portas fechadas.
Pelo caminho, ainda quebrou um recorde extraordinário. Van Nistelrooy tinha marcado em 10 jogos consecutivos pelo Manchester United, em 2003. Em novembro de 2015, Vardy igualou esse registo. E uma semana depois ultrapassou-o ao marcar no 11.º jogo seguido, precisamente contra o Manchester United.
E há algo quase poético nisso. Um avançado vindo do futebol amador, da oitava divisão inglesa, a ultrapassar um dos pontas-de-lança mais letais da era moderna. Não foi apenas um recorde estatístico, foi o futebol a gritar que «tudo é possível». E o mais incrível é que o recorde continua de pé até hoje. 11 jogos consecutivos a marcar na Premier League. Absolutamente brutal.
Depois veio o impossível. De novo. A temporada do título da Premier League ao serviço do Leicester não foi apenas uma surpresa desportiva. Foi um milagre moderno. Um grupo desacreditado a desafiar milionários, superestrelas e probabilidades absurdas. Que por pouco não foi despromovido ao Championship na temporada anterior. E no centro desse milagre futebolístico estava Vardy. Muito rápido, faminto, agressivo, emocional e humano. Um jogador que parecia jogar sempre como se ainda estivesse nos campos da oitava divisão, como se tivesse constantemente algo a provar ao mundo.
Porém, há ainda outro detalhe muito bonito nesta caminhada. A estabilidade fora do campo. Vardy teve muitos problemas com o álcool ao longo da sua carreira, mas a relação com Rebekah Vardy trouxe-lhe uma base emocional que muitas vezes é ignorada quando se fala de futebolistas. O talento conta. O treino conta. Mas a paz mental, o apoio em casa, alguém que acredita em ti quando tudo ainda é incerto, isso também constrói carreiras. Há jogadores com mais técnica que se perdem pelo caminho porque lhes falta equilíbrio. No caso de Vardy, sente-se que encontrou um porto seguro precisamente quando a vida começou a acelerar.
O documentário mostra isso muito bem. Por trás do avançado explosivo existe um homem imperfeito, intenso, leal às suas raízes e profundamente marcado pelo passado. E talvez seja por isso que tanta gente gosta dele, mesmo fora do Leicester.
A história de Jamie Vardy lembra-nos que o sucesso não pertence apenas aos escolhidos e aos predestinados. Às vezes, pertence aos teimosos. Aos que continuam quando ninguém está a ver. Aos que caem, trabalham, insistem e chegam lá mais tarde.
E quando finalmente chegam... chegam com uma força impossível de ignorar. Porque, tanto no futebol como na vida, nunca é tarde."

De trincos ao banco. Quanto tempo demora a ganhar?


"Comecemos onde poucos começam. Nos trincos. Pep Guardiola, Xavi, Xabi Alonso, Mikel Arteta. Não é coincidência que tantos dos treinadores mais influentes do futebol contemporâneo tenham sido médios-centro; jogadores que pensavam o jogo antes de o jogar. E talvez seja precisamente aí que reside uma pista essencial para responder à pergunta que domina o futebol moderno: quanto tempo demora um treinador a implementar um modelo de jogo ganhador?
A resposta curta é simples e desconfortável: demora tempo, muito mais do que o futebol atual está disposto a aceitar.
O modelo de jogo, tantas vezes reduzido a um sistema tático no discurso público, é na verdade algo muito mais profundo. Corresponde a uma organização de comportamentos coletivos. Trata-se de posicionamento, de decisão e de como os jogadores pensam e se associam em cada momento do jogo. E isso não é automático. Para funcionar por reflexo cognitivo é preciso tempo.
Porque envolve a articulação das dimensões técnicas, táticas, físicas e psicológicas, cada comportamento coletivo exige repetição estruturada até se tornar automático. A adaptação faz-se por ciclos. Em termos realistas, a implementação de um modelo de jogo com uma identidade plenamente consolidada não ocorre antes de, pelo menos, uma época completa. Os grandes clubes, que mantêm os treinadores ao longo de várias épocas, demonstram isso.
Depois, o fator mais importante: os jogadores. Em termos simples, as equipas que pensam juntas jogam melhor. Isto ajuda a perceber o que leva os treinadores de topo a insistir tanto nos «perfis certos». Não basta saber jogar; é preciso saber pensar o jogo dentro de um sistema coletivo.

A grande contradição do futebol: exige resultados imediatos num processo que é lento
E aqui regressamos aos trincos. É lógico e muito intuitivo que os jogadores que exercem papéis centrais desenvolvam uma compreensão mais profunda das dinâmicas individuais e coletivas.
Guardiola pensava o jogo no Barcelona antes de o reinventar no banco. Xavi foi o cérebro de uma geração antes de assumir o comando técnico. Xabi Alonso é hoje um dos treinadores mais promissores da Europa depois de uma carreira marcada pela leitura do jogo. Mikel Arteta, menos posicional, mas igualmente central, dava nas vistas pela precisão de passe e pela capacidade de entender o jogo taticamente.
Talvez não exista prova científica direta de que os melhores treinadores foram trincos, mas há evidência suficiente para sustentar esta ideia lógica.
Ainda assim, na atualidade, mesmo os melhores intérpretes enfrentam um obstáculo maior do que o treino: a cultura do clube. É neste ponto que o futebol contemporâneo se confronta com a sua maior contradição: exige resultados imediatos num processo que, por natureza, é lento.
Os argumentos são claros. As evidências confirmam. Ganhar de forma sustentada leva, no mínimo, uma época, frequentemente duas ou três. O resto são exceções em contextos excecionalmente favoráveis.
Talvez devêssemos voltar onde começámos. Aos trincos. Aos que garantem equilíbrio. Aos jogadores que sempre souberam que o jogo não se resolve com pressa, mas com associação entre setores e posições em campo. E isso requer ponderação e... tempo."

Canadá: Dwayne de Rosario, o breakdancer que abriu caminho antes de haver caminho


"Chamam‑lhe “o padrinho do futebol canadiano” porque chegou antes do tempo e abriu portas que não existiam. Mostrou que era possível ser protagonista num país que ainda não sabia que podia tê‑los no futebol. Mas antes de ser profissional, DeRo foi b-boy, dançava break-dance e era conhecido como 'Timex'.

Dwayne De Rosario cresceu em Scarborough, num Canadá que ainda estava a aprender o que podia ser no futebol. Os pais tinham chegado da Guiana, nos anos 70, trazendo consigo a herança caribenha que moldou a casa: música alta, comunidade forte, futebol de bairro. O pai, Tony, jogava em ligas comunitárias guianenses em Toronto; a mãe, Yvonne, segurava a disciplina e a estrutura familiar. Dwayne começou a jogar aos 3 anos no Scarborough Blizzard, passou pelos Malvern Majors, e cresceu entre parques e ligas comunitárias onde o talento era visto mais como teimosia do que como promessa.
Antes de ser jogador profissional foi outra coisa: b‑boy. Dançava breakdance em festas, em centros comunitários, em competições improvisadas. Na comunidade, chamavam‑lhe Timex . Há quem diga que a forma como recebia a bola, aquele primeiro toque que parecia coreografado, vinha mais daí do que de qualquer treino formal.
Aos 14 anos recusou treinar no AC Milan porque não se sentia pronto para viver em Itália. O mundo ainda não fazia sentido à escala dele. O Canadá também não. A carreira começou por caminhos que não prometiam nada: Toronto Lynx, uma passagem pela Alemanha, regressos, tentativas. Mas quando entrou na MLS, primeiro em San Jose e depois em Houston, percebeu‑se que havia ali um jogador que não precisava de contexto para ser protagonista. Era agressivo, criativo, imprevisível, daqueles que mudam o ritmo de um jogo sem pedir licença.
O episódio mais caricato aconteceu em 2010, quando decidiu viajar para a Escócia para fazer testes no Celtic sem autorização do Toronto FC. Desapareceu durante dias, reapareceu em Glasgow, treinou, tentou a sorte. O clube não gostou, a relação azedou, e o episódio acabou por precipitar a sua saída.
Quando chegou ao Toronto FC, em 2009, já vinha com estatuto, mas o que encontrou foi um clube ainda à procura de identidade. Tornou‑se o rosto da equipa quase por osmose: era o jogador mais decisivo, o mais reconhecível, o mais capaz de transformar um jogo que não pedia para ser transformado. E talvez por isso a troca que o levou para os New York Red Bulls, em 2011, tenha ficado como uma espécie de trauma coletivo. Não era só perder um jogador importante; era perder alguém que parecia feito para aquele clube e aquela cidade. O regresso, em 2014, não trouxe o mesmo brilho, já não era o DeRo que resolvia jogos sozinho, mas era o DeRo que fechava ciclos.
Na seleção, foi durante anos o rosto de um projeto que raramente acompanhou o seu nível. Entre 1998 e 2015 tornou‑se o melhor marcador da história da equipa masculina canadiana, com 22 golos, e campeão da Gold Cup, em 2000. Jogava com uma confiança que parecia deslocada num país habituado a não incomodar.
O fim da carreira chegou em 2015, anunciado com a simplicidade de quem nunca precisou de grandes gestos para ser ouvido. Na despedida, escreveu um post no Instagram: “Foi sempre um sonho representar a minha família e a minha comunidade #Scarborough #Toronto #Canada da melhor forma possível em todos os sítios onde joguei. Saibam que os sonhos se tornam realidade.”
Como acontece com tantos jogadores a vida depois do futebol manteve-se ligada a ele. Tornou-se embaixador do Toronto FC, foi entrando cada vez mais no trabalho de base e criou a DeRo United, uma fundação e programa de desenvolvimento que oferece treino, acompanhamento e atividades a jovens que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a esse tipo de estrutura.
Um dos momentos mais marcante da vida de DeRo foi, no mínimo, agridoce. Aconteceu em 2020, no dia em que recebeu a Ordem de Ontário , que foi também o dia da morte do seu pai. Aceitou a medalha num silêncio que não era de cerimónia, mas de luto. Chamou‑lhe “um dos dias mais emocionais da [sua] vida” e disse que a honra pertencia mais ao pai do que a ele.
Entretanto, a família tornou‑se quase uma extensão natural da carreira. O filho mais velho, Osaze, é avançado e está a construir caminho na MLS NEXT Pro, liga das equipas secundárias do principal campeonato norte-americano, enquanto o mais novo, Adisa, é guarda‑redes e assinou contrato com o Toronto FC, depois de passar pela DeRo United Academy. A filha, Asha, está envolvida nos programas comunitários ligados à fundação da família. 
Hoje, quando lhe chamam “o padrinho do futebol canadiano”, é por tudo isto: pelo talento, pela teimosia, pelas portas que abriu, pelas que arrombou, pelas que inventou. Pelo jogador que foi e pelo país que ajudou a empurrar para o futuro."