quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

“Dear Mr. C. Figueira”


"EM 1955, PORTUGAL VOLTOU A ESTAR REPRESENTADO NO TORNEIO DE WIMBLEDON COM O TENISTA ENCARNADO CARLOS FIGUEIRA

O ténis do Benfica conheceu a hegemonia na dé cada de 1950, depois de alguns anos de instabilidade. A revitalização da modalidade veio pela mão de Francisco Viveiros Pinto, presidente da secção, que trouxe ao Benfica grandes vultos da raquete, como David Cohen, Azevedo Gomes, Lima Mayer e o madeirense José Carlos Figueira da Silva (1929-2021).
Proativo, dono de uma vivacidade que lhe transcendia o físico, Carlos Figueira chegara do Funchal em 1949, com 20 anos, e logo integrou a equipa encarnada. Em 1950, sagrar-se-ia campeão na - cional de 2.ª categoria, em singulares e pares. No ano seguinte, ainda na 2.ª categoria, alinhou pela equipa principal no Campeonato Nacional de Equipas, conquistando o primeiro de mais de uma dezena de títulos da 1.ª categoria, divididos em equipas, singulares e pares mistos.
Em junho de 1955, um mês antes de se sagrar bicampeão nacional, Carlos Figueira entrou na história do ténis português pela sua participação no Torneio de Wimbledon, o mais antigo e um dos mais prestigiados torneios de ténis do mundo. Foi o primeiro português a ter entrada direta na competição.
As dificuldades foram sentidas logo de início, pois a deslocação acarretava custos impossíveis para as entidades desportivas, inclusive a Federação Portuguesa de Ténis. Valeu o apoio do presidente da Mesa da Assembleia Geral dessa instituição, Rodrigo de Castro Pereira, que pagou do seu bolso a viagem de barco, e também dos seus amigos Viveiros Pinto e Gabriel Farra cujos contactos em Londres lhe facilitaram a estadia.
Depois de vários dias em viagem de barco e comboio, Carlos Figueira calçou as suas sapatilhas, pegou numa das quatro raquetas que levou consigo e alinhou pela primeira vez num campo de relva, frente ao americano Wayne van Voorhees, a quem conseguiu ganhar dois jogos (0-6, 1-6, 1-6). As dificuldades que Figueira sentira na “Meca do ténis” expressaram-se no resultado. O campo de relva, inexistente em Portugal, não ajudou, promovendo um “andamento do jogo muito mais rápido, com a bola a saltar no sentido do comprimento e muito pouco em altura”, impedindo o carácter de jogo do tenista português, que privilegiava a defesa e aproveitava “as deixas para os contra-ataques”.
O feito de Carlos Figueira foi hercúleo, dada a tão fraca aposta na modalidade num país onde a validade do desporto despertava timidamente. Para o tenista, o reconhecimento não foi imediato. O jornal A Bola foi o único que relatou a sua prestação em Inglaterra e só décadas mais tarde sobreveio a recordação da sua ida, quando outros portugueses alinharam. Aí, teve evidenciado o seu valor e papel na promoção do ténis português.
Descubra outras figuras de grande craveira internacional do ténis do Benfica na área 4 – Momentos Únicos, do Museu Benfica – Cosme Damião."

Pedro S. Amorim, in O Benfica

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