quarta-feira, 1 de abril de 2026
«Capitão Fantástico»
"Falar de Javier Zanetti é falar de uma raridade no futebol moderno. A sua grandeza construiu-se de forma silenciosa, jogo após jogo, sempre com a mesma entrega, como se cada minuto em campo fosse o primeiro e o último ao mesmo tempo.
Mas antes de visitarmos a sua fantástica carreira, quero trazer-vos um episódio que demonstra bem o que foi Zanetti como atleta e como capitão. Um verdadeiro exemplo. Isto porque o desporto, tal como a própria vida, dá-nos espaço e oportunidade para criar laços de amizade (muito) fortes, ao ponto de sofrermos com os problemas dos outros e de saborearmos os triunfos que não são nossos. E este é mais um caso para repetir uma velha máxima. O futebol é a coisa mais importante das menos importantes. «Quando o Adriano marcou aquele golo frente ao Real Madrid (2001), disse para mim mesmo que tínhamos encontrado o novo Ronaldo. Mas ele veio das favelas, o que me assustava, porque eu vi o quão perigoso era aquilo. Quando tu te tornas rico do nada, tudo se torna mais traiçoeiro», afirmou Javier Zanetti numa entrevista concedida a um jornal italiano.
O ex-futebolista argentino lembrou ainda a morte do pai de Adriano, um dia que mudou a vida do avançado brasileiro para sempre. «Quando ele recebeu o telefonema da morte do pai nós estávamos no quarto. Ele atirou o telefone e começou a gritar de uma maneira que ninguém consegue imaginar. Ainda hoje me arrepio ao recordar esse momento. A partir desse dia, eu e o Moratti (antigo presidente do Inter) encaramos o Adriano como se fosse um irmão mais novo. Ele continuou a jogar futebol, a fazer golos e a dedicá-los ao pai, mas depois daquela chamada nunca mais foi o mesmo. Nós não fomos capazes de tirá-lo do túnel da depressão. E essa foi a maior derrota da minha carreira», confessou Zanetti. Um senhor dentro e fora do campo.
Nascido em Buenos Aires, Javier Zanetti não teve um caminho fácil ou imediato rumo à fama. Não foi um prodígio mediático nem uma estrela precoce. Foi, antes de tudo, um trabalhador incansável. Em 1995-96, o Inter de Milão comprou o seu passe ao Banfield, numa altura onde poucos imaginavam que aquele lateral discreto se tornaria num dos maiores símbolos da história do clube italiano. Não apenas pelo talento, mas pela forma como viveu o futebol.
Durante quase duas décadas, o camisola 4 defendeu as cores dos “nerazzurri” com uma lealdade quase poética. E foi precisamente essa fidelidade que o transformou em capitão, líder e, acima de tudo, uma referência. A sua braçadeira não era um símbolo de autoridade imposta, mas de respeito conquistado. Dentro de campo, era o exemplo. Corria mais, reclamava menos, ajudava sempre os seus companheiros de equipa, jogava na posição que fosse preciso, sempre com a mesma elegância e eficácia.
Mas o auge chegou no ano de 2010. Javier Zanetti venceu a UEFA Champions League na temporada 2009-10 como capitão do Inter de Milão. Nessa final, o Inter venceu o Bayern de Munique, por 2-0, com um bis de Diego Milito. Esse título fez parte do histórico “triplete” da equipa orientada por José Mourinho, quando venceram a Serie A, a Taça de Itália e a Champions na mesma época. Mas acredito que, para Zanetti, teve um sabor ainda mais especial. Já estava há 15 anos no clube, tinha passado por muitas épocas sem grandes conquistas europeias e acabou a erguer a “orelhuda” como capitão do seu querido Inter, coroando uma carreira de enorme sacrifício.
Ainda assim, talvez o mais impressionante na sua história não sejam os troféus, nem os recordes, nem sequer a longevidade, uma vez que jogou ao mais alto nível até aos 40 anos. É, sim, a coerência. Zanetti foi sempre o mesmo. No início, no auge e no fim. Nunca precisou de ser mais do que aquilo que realmente era. E isso foi o que mais admirei neste futebolista.
861 jogos depois, em junho de 2014, o Conselho de Administração do clube decidiu retirar a camisola 4 como reconhecimento pela sua trajetória. Zanetti, carinhosamente apelidado de "El Capitán", vestiu essa camisola durante a maior parte das suas 19 épocas no clube, tornando-se num precioso símbolo de lealdade do Inter de Milão. Penso que está tudo dito."
Sono, emoção e juízo
"1. É verdade que o jogo com o Vitória SC, no sábado
passado, não foi grande coisa. Houve até quem
admitisse que aqueles 90 minutos, correspondentes ao desafio da 27.ª jornada, deram ao público
mais sono do que emoção. Quem viu o jogo não
terá grande dificuldade em concordar com isto.
Jogando na Luz, a equipa de Guimarães somou
mais posse de bola, mais remates e mais pontapés de canto, mas nada que motivasse sobressaltos nas bancadas.
2. Quanto ao Benfica, somou mais golos. Somou exatamente 3 golos, e não tendo o Vitória SC somado
nenhum golo, nem nada que se parecesse, o
resultado quedou-se num 3-0 favorável às nossas
lindas cores. Por muito sensaborão que tenha sido
o jogo com o Vitória SC, não há nada que retire o
mérito do triunfo do Benfica. A eficácia foi premiada e, desde sempre, a eficácia é um dom. Esse
dom tem-nos faltado, às vezes.
3. Tivesse o Benfica sido eficaz nos 5 jogos que
empatou em casa nesta Liga de 2025/26 e não
teria desperdiçado os 10 pontos que tanta falta nos
fazem, quando restam 7 jornadas para o fim da
longa prova. É em casa que se ganham e se perdem campeonatos. Percursos imaculados em casa
são atributos do campeão. Nesta edição do campeonato, o Benfica empatou 5 vezes em casa – uma
enormidade de esbanjamento – e empatou apenas
3 vezes fora de casa, o que é um registo aceitável.
4. Voltando ao jogo com o Vitória SC e ao sono que
terá provocado, convenhamos que é bem melhor
ter sono e ganhar 3-0 do que não ter sono e não
ganhar.
5. O Estádio da Luz, outrora conhecido nacional e
internacionalmente como o Inferno da Luz, por ser
infernal para as equipas visitantes, não pode ser
infernal para os donos da casa. Como é que se dá
a volta a esta situação? Ora, ganhando, ganhando
sempre, seja quem for o adversário, seja qual for
a competição. O Benfica tem de voltar a habituar-
-se a ganhar sempre em casa. Os adversários do
Benfica têm de se habituar a perder sempre na
Luz. E os árbitros que apitam os jogos do Benfica
têm de habituar-se a respeitar sempre o Benfica,
quer o jogo seja na Luz ou fora da Luz.
6. Esta questão do respeito é merecedora de atenção. No jogo em Arouca, a contar para o Campeonato, quis-me parecer que o árbitro de serviço – o
seu nome, francamente, pouco importa – desrespeitou, com gesticulação absurda, o capitão António Silva e, para mais, mostrou-lhe um cartão
amarelo quando Silva se dirigia ao juiz da partida
em termos exemplarmente cordatos.
7. É verdade que se deve exigir sempre aos jogadores que tenham juízo. Mas também é legítimo exigir aos árbitros exatamente a mesma coisa. Com
juízo tudo melhora."
Leonor Pinhão, in O Benfica
A um atleta desconhecido
"MANUEL OLIVEIRA DE
SOUSA É UM EXEMPLO
QUE TAMBÉM MERECE
SER RECORDADO.
A memória desportiva tem
a natural tendência de
recordar, por norma, os
nomes dos atletas que
mais se destacaram na sua área
de atuação. Contudo, passaram
pelo Sport Lisboa e Benfica inúmeros atletas “desconhecidos”
que deixaram a sua marca e que
também fazem parte da história
do Clube.
Manuel Oliveira de Sousa é
um desses atletas, tendo praticado andebol e hóquei em
campo pelos encarnados, desde
os anos de 1940 até ao virar dos
anos de 1960. O seu percurso no
Benfica teve início em 1944,
quando foi aprovado como sócio,
aos 13 anos. Em 1949/50, começou a praticar andebol de 11,
começando pelos juniores e
ascendendo até à equipa principal em 3 épocas. Apesar de não
ter conquistado títulos nesta
modalidade, as suas atuações
tiveram algum eco na imprensa
da altura, como na seguinte crítica: “Ao intervalo ganhávamos
por 2-1, golos de Oliveira, que
aproveitou uma abertura no
centro do terreno para se infiltrar e marcar vitoriosamente.”
Eclético, praticou também
hóquei em campo durante 8 épocas pelos seniores, oscilando
entre as reservas e a equipa
principal. Começou igualmente
em 1949/50, fazendo a seguir
uma pausa nesta modalidade e
retomando a sua atividade em
1953/54. Foi um recomeço auspicioso, sagrando-se campeão de
Lisboa de reservas.
Viria a interromper, mais
tarde, a sua atividade desportiva, retornando em 1957/58,
período que seria coroado com
a conquista de dois Campeonatos de Lisboa de reservas, em
1959/60 e 1960/61. Neste último, o hoquista de campo alinhou no jogo que deu o título
ao Benfica, tendo marcado um
dos golos da vitória, por 6-0,
frente ao Palmense. E foi com
esta chave de ouro que encerrou a sua carreira desportiva no
Benfica.
Manuel Oliveira de Sousa foi
um atleta entre muitos que
merecem e têm o direito de ser
relembrados. Saiba mais sobre
outros desportistas que contribuíram para o engrandecimento
do Sport Lisboa e Benfica na área
3 – Orgulho Eclético, do Museu
Benfica – Cosme Damião."
Lídia Jorge, in O Benfica
Conheceram-se no Tinder
"Dois presidentes de clubes de
futebol entram num bar. O que
se diz mais abastado começa a
contar a sua história e como ali
chegou. Está hoje bem na vida,
depois de uns amigos lhe terem
emprestado dinheiro e nunca
lho ter pago de volta. Mas tudo
legalmente, defende-se. Não
tem muito jeito com as palavras,
mas lá consegue explicar,
depois de 15 minutos de banalidades, que quem pagou foram
os contribuintes. E ri-se. Como
tem excelentes relações no
campo da Justiça, puxou uns
cordelinhos e viu-se sempre
afastado de problemas judiciais,
sejam suspensões por cartões
amarelos, agressões selváticas
em campo ou manobras financeiras duvidosas. E quando me
questionam, confessa, bato muitas vezes no peito e digo que sou
diferente.
O outro presidente, moço novo e
de boas famílias, mas com a
conta no vermelho há vários
anos, escutou-o com pouca
atenção. Estava ali porque precisava de um favorzinho. No
meu caso, começou, herdei uma
dívida monstruosa, financeira e
moral, mas faço de conta que não
se passou nada. Estou à frente de
uma empresa que tem por base
um saco azul, sem fundo, mas
tenho uns assuntos para resolver
que me andam a tirar o sono:
uma condenação por roubo de e-
-mails e espionagem corporativa,
e esses teus amigos na Justiça
dar-me-iam muito jeito. É que os
meus só resolvem questões
locais, como invasões a centros
de treino de árbitros, violência em
estádios de futebol, bullying a
jogadores e treinadores, distúrbios em estações de serviço e
férias pagas no Brasil.
Fizeram um brinde com o whisky mais barato da ementa, terminaram o pires de amendoins
e seguiram os seus caminhos.
O primeiro pediu fatura – tem lá
na empresa um funcionário que
ainda vai transformar aquela
despesa num perdão fiscal.
O segundo, mal tocou na bebida
– gosta mais de fruta e café com
leite, mas naquele bar não serviam.
Qualquer semelhança com a
realidade é pura ficção."
Ricardo Santos, in O Benfica
À volta dos números
"É lugar-comum afirmar que
uma equipa joga aquilo que a
outra deixa jogar. Isso é válido
para qualquer partida. É válido,
também, para um campeonato
inteiro.
Uma prova que se desenrola,
semana a semana, durante
meses a fio, é necessariamente
uma prova de regularidade. Mas
é igualmente uma prova de
relatividade, de correlação de
forças. Na qual, como diria Ortega y Gasset, cada equipa é ela e
as suas circunstâncias.
Deixemos de lado a matéria
relacionada com as arbitragens
(que é determinante, mas não
cabe agora aqui). Foquemo-nos
apenas em números.
À 27.ª jornada, o líder do Campeonato soma 72 pontos. O Benfica foi campeão 8 vezes neste
século, e em nenhuma dessas
temporadas obteve 72 pontos
em 27 jogos. Nos anos do
“Tetra”, na mesma altura, o Glorioso somava 70, 68, 67 e 65
pontos respectivamente. Em
2010 tinha 70, em 2019 tinha 66
e em 2023 tinha 71; em 2005
tinha… 54.
Na época passada, à 27.ª jornada, Sporting e Benfica lideravam
a prova com 65 pontos. Precisamente a nossa pontuação actual.
Outro número: na 2.ª volta deste
Campeonato, o Benfica fez mais
pontos do que qualquer outra
equipa. Desde a dobragem do
calendário, o conjunto de Mourinho totalizou 26 pontos, en -
quanto os dois rivais somaram
23 – sendo que o Sporting tem
uma partida a menos.
Sublinhe-se ainda que há 42 jornadas consecutivas que o Benfica não perde para o Campeonato. A série começou em Janeiro
de 2025, ainda com Bruno Lage.
E continua. Em toda a história do
Clube, apenas John Mortimore,
com 56 jogos entre 1976 e 1978,
conseguiu melhor.
A conclusão? Que o campeonato
do Benfica até ao momento, não
sendo brilhante, está longe de
ser uma catástrofe. Paga, isso
sim, o preço de um FC Porto
anormalmente regular, e de um
Sporting muito diferente de
outras décadas. Paga, digamos
assim, o preço das circunstâncias."
Luís Fialho, in O Benfica
Quando todos ganham!
"O desporto adaptado é muito
mais do que prática física: é um
espaço de superação, inclusão e
construção de comunidade onde
todos ganham. Ganham os
jovens participantes com uma
oportunidade de descoberta das
suas capacidades, de autoestima e desenvolvimento de competências tão importantes como
a disciplina, a resiliência e o trabalho em equipa.
Ganham as famílias, com um
caminho de esperança e partilha, e com uma alegria ao
verem os seus filhos envolvidos, ativos e felizes, reforçando laços de amizade e confiança no futuro. O desporto cria
pontes, aproxima pessoas e
reduz o isolamento, eterno
companheiro da deficiência.
Ganham os técnicos, por sua
vez, encontrando no desporto
adaptado uma dimensão profundamente humana do seu trabalho. Cada treino é um desafio
e uma aprendizagem, exigindo
sensibilidade, criatividade e
dedicação. Mas é também uma
fonte única de realização profissional e pessoal.
Ganhar é o sal da competição,
mas incluir, capacitar e inspirar
é essencial. E é aí que reside a
verdadeira grandeza do Desporto."
Jorge Miranda, in O Benfica






