"Falar de Javier Zanetti é falar de uma raridade no futebol moderno. A sua grandeza construiu-se de forma silenciosa, jogo após jogo, sempre com a mesma entrega, como se cada minuto em campo fosse o primeiro e o último ao mesmo tempo.
Mas antes de visitarmos a sua fantástica carreira, quero trazer-vos um episódio que demonstra bem o que foi Zanetti como atleta e como capitão. Um verdadeiro exemplo. Isto porque o desporto, tal como a própria vida, dá-nos espaço e oportunidade para criar laços de amizade (muito) fortes, ao ponto de sofrermos com os problemas dos outros e de saborearmos os triunfos que não são nossos. E este é mais um caso para repetir uma velha máxima. O futebol é a coisa mais importante das menos importantes. «Quando o Adriano marcou aquele golo frente ao Real Madrid (2001), disse para mim mesmo que tínhamos encontrado o novo Ronaldo. Mas ele veio das favelas, o que me assustava, porque eu vi o quão perigoso era aquilo. Quando tu te tornas rico do nada, tudo se torna mais traiçoeiro», afirmou Javier Zanetti numa entrevista concedida a um jornal italiano.
O ex-futebolista argentino lembrou ainda a morte do pai de Adriano, um dia que mudou a vida do avançado brasileiro para sempre. «Quando ele recebeu o telefonema da morte do pai nós estávamos no quarto. Ele atirou o telefone e começou a gritar de uma maneira que ninguém consegue imaginar. Ainda hoje me arrepio ao recordar esse momento. A partir desse dia, eu e o Moratti (antigo presidente do Inter) encaramos o Adriano como se fosse um irmão mais novo. Ele continuou a jogar futebol, a fazer golos e a dedicá-los ao pai, mas depois daquela chamada nunca mais foi o mesmo. Nós não fomos capazes de tirá-lo do túnel da depressão. E essa foi a maior derrota da minha carreira», confessou Zanetti. Um senhor dentro e fora do campo.
Nascido em Buenos Aires, Javier Zanetti não teve um caminho fácil ou imediato rumo à fama. Não foi um prodígio mediático nem uma estrela precoce. Foi, antes de tudo, um trabalhador incansável. Em 1995-96, o Inter de Milão comprou o seu passe ao Banfield, numa altura onde poucos imaginavam que aquele lateral discreto se tornaria num dos maiores símbolos da história do clube italiano. Não apenas pelo talento, mas pela forma como viveu o futebol.
Durante quase duas décadas, o camisola 4 defendeu as cores dos “nerazzurri” com uma lealdade quase poética. E foi precisamente essa fidelidade que o transformou em capitão, líder e, acima de tudo, uma referência. A sua braçadeira não era um símbolo de autoridade imposta, mas de respeito conquistado. Dentro de campo, era o exemplo. Corria mais, reclamava menos, ajudava sempre os seus companheiros de equipa, jogava na posição que fosse preciso, sempre com a mesma elegância e eficácia.
Mas o auge chegou no ano de 2010. Javier Zanetti venceu a UEFA Champions League na temporada 2009-10 como capitão do Inter de Milão. Nessa final, o Inter venceu o Bayern de Munique, por 2-0, com um bis de Diego Milito. Esse título fez parte do histórico “triplete” da equipa orientada por José Mourinho, quando venceram a Serie A, a Taça de Itália e a Champions na mesma época. Mas acredito que, para Zanetti, teve um sabor ainda mais especial. Já estava há 15 anos no clube, tinha passado por muitas épocas sem grandes conquistas europeias e acabou a erguer a “orelhuda” como capitão do seu querido Inter, coroando uma carreira de enorme sacrifício.
Ainda assim, talvez o mais impressionante na sua história não sejam os troféus, nem os recordes, nem sequer a longevidade, uma vez que jogou ao mais alto nível até aos 40 anos. É, sim, a coerência. Zanetti foi sempre o mesmo. No início, no auge e no fim. Nunca precisou de ser mais do que aquilo que realmente era. E isso foi o que mais admirei neste futebolista.
861 jogos depois, em junho de 2014, o Conselho de Administração do clube decidiu retirar a camisola 4 como reconhecimento pela sua trajetória. Zanetti, carinhosamente apelidado de "El Capitán", vestiu essa camisola durante a maior parte das suas 19 épocas no clube, tornando-se num precioso símbolo de lealdade do Inter de Milão. Penso que está tudo dito."

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