Quem está realmente preparado para o futebol de elite? Marco Silva, Farioli e Rui Borges à lupa do alto desempenho


"Em Portugal, onde o futebol é quase religião, uma das perguntas que mais vezes se repete nas conversas dos adeptos é: quem é o treinador dos três grandes (enquanto o SC Braga não entrar seriamente nesta contenda) que está verdadeiramente preparado para treinar a elite e ser campeão em Portugal?
Não basta ter ideias, não basta ter um modelo de jogo, não basta comunicar bem. O topo exige uma combinação rara de liderança, inteligência emocional, consistência competitiva e capacidade de transformar pressão em rendimento. É neste quadro que se torna plausível, a partir de dados públicos e conversas com técnicos de futebol, comparar os atuais treinadores dos três grandes: Marco Silva, Francesco Farioli e Rui Borges.
Marco Silva é, de todos, o que apresenta o perfil mais maduro. A experiência acumulada na Premier League moldou um treinador pragmático, emocionalmente estável e capaz de gerir balneários sem perder o controlo. O seu modelo de jogo é posicional, mas nunca dogmático, adapta-se ao adversário sem perder identidade.
A liderança situacional é provavelmente a mais completa dos três: sabe quando dirigir, quando apoiar e quando delegar. E, acima de tudo, transmite uma serenidade competitiva que se reflete na consistência das equipas que orienta. No futebol de elite, onde cada erro custa milhões, essa estabilidade é ouro.
Francesco Farioli representa o polo oposto. É o conceptual, o filósofo, o inovador. As suas equipas jogam com uma estética rara, com construção limpa, superioridades constantes, energia defensiva e poder físico. A intensidade emocional que transmite cria ligações fortes, identidade e picos de rendimento muito altos. Mas essa mesma intensidade também expõe fragilidades: quando a confiança baixa, o modelo sofre.
Farioli é, provavelmente, o treinador com maior potencial de evolução e o que mais pode transformar um clube em algo maior do que a soma das partes. Mas a perceção é que ainda falta provar que estabilizou emocionalmente para garantir consistência absoluta em contextos de pressão extrema (o título de campeão no FC Porto ainda não fez esquecer o que aconteceu no Ajax e Nice).
Rui Borges surge como bastante equilibrado emocionalmente. Humilde, regulado, orientado ao processo, raramente entra em euforias ou depressões. O seu modelo é funcional, organizado, competitivo e de baixa volatilidade. No Moreirense em 2023/2024 conseguiu uma média de 1,53 pontos em 36 jogos e um excelente sexto lugar apresentando um bom futebol para os recursos que tinha.
No V. Guimarães mostrou capacidade de construir uma equipa sólida e emocionalmente estável (30 jogos nas diversas competições) com uma excelente campanha na Conference League (12 jogos, 10 vitórias e dois empates) e uma média de pontos no campeonato de 2,03 por jogo.
No Sporting na época passada em que treinou a equipa da primeira à última jornada conseguiu uma média de 2,41 pontos por jogo, uma magnífica prestação na Champions League (12 jogos, seis vitórias, dois empates e quatro derrotas) e a derrota com o Torreense na final da Taça. Porém, a realidade do futebol de elite expôs uma fragilidade que não pode ser ignorada: as vantagens ganhas e que se desperdiçaram.
Desde que Rui Borges chegou ao Sporting, contam-se 17 vantagens desperdiçadas. Três empates no atual campeonato que ocorreram após os 84’, com perda de seis pontos que podem revelar-se fatais na luta pelo título. Na época passada após os 85’ deixou-se empatar três vezes, mais duas vezes até aos 70’ e perdeu em Alvalade com o Benfica aos 90’+3’. Ou seja, pode-se afirmar que nas compensações perdeu sete pontos numa temporada em que o Sporting terminou a seis do FC Porto. Na temporada 2024/2025 registou cinco desempenhos menos conseguidos.
Relativamente à Liga Portugal, desde que Rui Borges está no Sporting, três dessas vantagens foram desperdiçadas em Alvalade e onze fora de casa. Mas o dado mais revelador surge quando se observa o relógio: sete golos sofridos em período de compensação e mais quatro depois dos 85’. São onze golpes tardios, onze momentos que expõem uma vulnerabilidade estrutural nos minutos decisivos. Nos jogos disputados entre os quatro primeiros classificados na época passada, Rui Borges conseguiu quatro pontos em 16 possíveis enquanto o FC Porto registou 12, o Benfica oito e o SC Braga quatro.
Este padrão não é apenas estatístico. É emocional, tático e situacional. Não se trata de um acidente repetido — trata-se de um traço comportamental da equipa sob pressão. No futebol de elite, onde a diferença entre ganhar e perder se decide nos detalhes, uma equipa que não controla emocionalmente e taticamente os últimos minutos de cada jogo não está preparada para ser campeã. E aqui reside o ponto crítico: Rui Borges tem muitas virtudes — organização, clareza, honestidade, meritocracia — mas ainda não demonstrou a capacidade de aguentar e transformar pressão extrema em rendimento, nem de comandar emocionalmente e taticamente a equipa nos instantes em que o jogo se torna quase caótico. No alto desempenho, essa robustez é inegociável.
Quando cruzamos as dimensões — perfil individual, matriz tática, liderança situacional, inteligência emocional, impacto emocional e tático no modelo de jogo e impacto da liderança no desempenho — a conclusão torna-se inevitável. Marco Silva é, neste momento, o treinador melhor preparado para o futebol de elite. É o mais completo, o mais estável, o mais consistente e o que melhor gere a pressão. Farioli é o mais inovador e poderá ultrapassá-lo se estabilizar emocionalmente o seu modelo. Rui Borges é competente, equilibrado e promissor, mas ainda não demonstrou a robustez emocional necessária para o topo absoluto.
No futebol de elite, não basta jogar com nota artística. É preciso aguentar a pressão em todos os jogos do primeiro minuto ao derradeiro apito. E é aí que a carreira de Marco Silva em ambientes ultracompetitivos parece destacar-se. Farioli ainda não é uma certeza, mas promete muito. Rui Borges ainda não passou da fase de treinador em construção. É na pressão que se decide quem está — e quem não está — pronto para o futebol de elite."

Falta de noção...

Lema


"Ponto prévio, o UNUM é um movimento que une “ilustres benfiquistas” seja o que isso for, uma vez que é composto por malta que se revoltou contra os 10-0…e com outros que estiveram na génese dos comentadores benfiquistas amorfos tal era a incapacidade para verbalmente anular os rivais de painel…entre outros…
Mas aqui, gosto do que pedem, há muito que o defendo na minha página.
Enquanto não for restaurada a confiança nos órgãos de decisão desportivos em Portugal não há forma de se continuar a jogar estas competições enquinadas à partida.
Os cartilheiros virão a terreiro dizer que os erros são para todos e que os 3 grandes são os mais favorecidos e que o Benfica no final do somatório é sempre o mais beneficiado pelo sistema, isto é a pura das verdades da cartilha da Santa Aliança porque é assim que eles gerem os campeonatos, primeiro vencem na tabela e depois tratam do resto para parecer que são os maiores…nada mais ridículo!
Em relação ao tema do movimentos destaco que tocam num tema sensível, mas que carece de mais ação, precisa de intervenção policial e política, ainda esta semana ficamos a saber que o FC Porto financiava despesas correntes do FC Canelas…passou ao lado de tudo e todos…um saco azul nos bilhetes para financiar o seu braço armado que fez o trabalho de sapa a promover árbitros nas bases…ninguém quer saber…ninguém diz nada!


Foi chutado para canto graças as larachas do palhaço azul.
Isto está disseminado na base, e só é resolvido retirando as mais altas esferas dos lugares e criando uma unidade europeia de arbitragem. Este seria o primeiro passo e decisivo…um árbitro Francês, Alemão ou Inglês aqui, sem ninguém saber quem é até entrar no estádio. Só assim isto toma rumo!
Voltando ao movimento, espero que cumpra o seu propósito e se coloque ao serviço do Benfica, algo que aqueles que vomitam essas palavras nunca compreenderam, ser crítico não é andar constantemente à procura de palco, é antes de mais, chegar a quem nos governa com soluções para os problemas que nos afligem!
Ver Manteigas, que era até um comentador sagaz, um filho do “Vieirismo” não se colocar à disposição da direção é algo atroz…a não ser que o presidente seja um Ronaldo da vida e se deixe toldar pelo ego…(não ficaria surpreendido uma vez que nunca teve a coragem de dar a mão a quem tanto fez por este clube, falo de Luís Filipes Vieira quer gostem quer não gostem, estou-me a marimbar!)
Nisso Vilas Boas foi mais sagaz, ganhou, mas no dia seguinte deu-lhe a tribuna ao seu lado, mostrando ao universo Portista que unidos são mais fortes!
E nós?
Que temos isso no nosso lema e tudo???
Quando é que nos unimos todos em prol de um em maior e deixamos as desuniões para os momentos oportunos que são de 4 em 4 anos nas eleições????"

Boa memória...

Do Século...

Com a FPF em pré-bancarrota sem o Velho, as probabilidades do Desdentado, saltar para a UEFA desaparecerem...

Pois... Euro2000 continua a ser a melhor Seleção que eu vi jogar!!!

O Profeta não tem espelhos !!!

Pois... mas foste contratar um deles, novamente!!! Ainda bem...!!!

Indignados da Wish !!!

Coincidência do cara**** !!!

Tadinho!!!

Excelente oportunidade para identificar as pessoas que necessitam de ser internadas num hospício !!!

Verdade

Cristiano vs Jesus: tudo isto é fado


"Um narcisista é incapaz de reconhecer erros, assumir culpas, sentir empatia. Possui um ego desmesurado, embora frágil.
Na Casa Branca ou na Seleção Nacional, o diagnóstico é semelhante.
Tudo isto é fado, tudo isto é triste.
Os mundos de Cristiano, Jesus e Proença são semelhantes na escassa destreza emocional e na abundante altivez. Não excluo nenhum deles da síndrome narcísica.
Nesta endogamia, porém, não podemos perder de vista a função objetiva de cada um. O papel que lhes cabe representar, principalmente por estar em causa o futebol de Portugal.
Qual é o debate que verdadeiramente importa? Fujamos das investidas histéricas dos partidários da ‘eterna gratidão’, pois o passado não é uma garantia de sinecura, seja qual for a dimensão da personagem.
Se Cristiano foi um gigante desportivo, a exigência deve ser-lhe proporcional.
O que pretende viver o avançado ao serviço da Seleção? Um casamento de conveniência, uma relação que lhe sirva de meio para agigantar a lenda?
Aos 41 anos - 42 em fevereiro -, Ronaldo deveria trajar as vestes de sábio ancião, conselheiro ponderado dos mais imberbes, ombro amigo nos frágeis e desamparados.
Num outro mundo, num mundo em que Cristiano tivesse transitado para um estado de maturidade e grandiloquência, eu perceberia a sua presença e bons auspícios dentro da comitiva nacional.
Sucede que Cristiano Ronaldo, lamentavelmente, é o causador, o instigador-mor, de tudo o que deveria ajudar a serenar. Castiga-se quando não marca, amua se não joga os minutos por si idealizados, foge dos holofotes se corroído pela azia.
«Tenho a certeza que sim. Jorge Jesus foi uma escolha perfeita.»
«Tudo o que mister precisar, para jogar, para sair, entrar, ou não jogar, o orgulho que tenho de representar Portugal é igual.»
«Espero que corra tudo bem com o Jorge Jesus. Se lhe correr bem, corre a todos nós.»
A 23 de setembro, numa conferência de imprensa que mais parecia um espetáculo de variedades, Cristiano deixou estas e outras frases aos portugueses.
Quatro dias depois, em Oslo, não foi utilizado e amuou. Não se juntou aos colegas de equipa e recusou cumprimentar os adeptos portugueses.
Um capitão, um bom capitão, não faz isto. Aguenta, respira fundo. Se tem algum incómodo a resolver, resolve-o na discrição da intimidade.
As notícias chegadas do norte da Europa resumem assim o conflito:
1. Jesus terá combinado com Cristiano a titularidade nos dois jogos em casa: Gales e Noruega
2. Jesus terá dito a Cristiano que jogaria 30 minutos em Oslo
3. Cristiano aqueceu para entrar na Noruega e não entrou
4. JJ justificou-se e disse que o jogo se tornou difícil para um avançado com as características de Ronaldo
5. Ronaldo sentiu-se desrespeitado e o ambiente ficou irrespirável
6. O sinal de emergência chegou a Lisboa, Pedro Proença meteu-se no avião e percebeu a dimensão da confusão.
Cristiano tem sido isto há mais de quatro anos. No mínimo. Um embaraço tático, uma nulidade em campo, um vazio em termos comportamentais. A nossa referência mundial é uma preocupação para quem a gere, quando devia ser um descanso, um conforto, um aliado.
As culpas não são só dele. Se Jesus lhe prometeu meia-hora na Noruega, errou – nenhum treinador de elite sabe o que um jogo vai ditar, tamanhas são as variáveis.
E se Jesus ceder à pressão e adaptar as suas ideias às manias de Ronaldo, voltará a errar.
A melhor forma de homenagear o legado insuperável de Cristiano é tratá-lo como um homem, com maiúsculas, exigindo-lhe sabedoria, comprometimento e respeito pelas hierarquias.
A permanente desculpabilização e o medo de perder o ativo milionário - e os sponsors associados -, são a pior traição a esse legado.

PS 1: o cachimbo da paz fumado a três a altas horas da madrugada sueca (Malmo é o local do quartel-general) não torna este deplorável momento menos deplorável. A ferida foi aberta, é feia e deixará marcas na epiderme da seleção.

PS 2: já depois de publicado este Campo Pelado, Cristiano Ronaldo achou boa ideia abandonar o treino, o estádio e afastar-se do grupo da Seleção. Mais um capricho de um futebolista incapaz de perceber e aceitar a lei da vida. E do futebol."

CR7: o elefante continua na sala


"Uma vitória, por boa que seja como foi esta (e a de há dias na Noruega), não é suficiente para apagar o efeito da saída de Cristiano Ronaldo. É pena, talvez, mas é a verdade. Saibamos viver com ela

A cara de quem ganha nunca é igual à cara de quem perde. Esta é uma — entre várias e mais ricas do que achamos — das máximas de futebolês que aprendemos quando entramos neste mundo. Podemos reservar para mais tarde outros exemplos.
Jorge Jesus tem absoluta razão quando afirma que só as vitórias alimentam os bons momentos de um treinador e de uma equipa.
Felizmente para Jesus, mas sobretudo para Portugal, a Seleção venceu com categoria na Dinamarca e está no bom caminho para os quartos de final da Liga das Nações, que já conquistou duas vezes, com os mal-amados Fernando Santos e Roberto Martínez.
Vinte e quatro horas, contas por alto, depois de o maior símbolo de sempre do futebol português ter abandonado o estágio da Seleção, uma boa exibição e três pontos bastaram para que essa parecesse uma nota de rodapé. Não é, e não vai ser. E as ondas que vão também voltam, quem sabe coisas sobre o mar percebe esta dinâmica. 
É relativamente fácil limitar perguntas nas conferências de imprensa, até porque tudo sucede em direto e sem tempo para grandes desvios. Ainda assim, Jesus quis responder a uma questão técnico-tática colocada fora da ordem de trabalhos e, se não tivesse sido impedido, ia responder à segunda, por acaso a mais interessante, sobre a obra de arte que foi o quarto golo.
Percebe-se que para Jesus e a FPF (em parte) o mais importante sejam os jogos, o de ontem e o de domingo. Afinal isto anda tudo a reboque de resultados.
Mas os portugueses sabem o que lhes interessa discutir nesta altura. E isso não é, seguramente, a prestação técnico-tática da Seleção.
Evidentemente ficamos, de forma geral, satisfeitos pelas três vitórias em três jogos. E vamos gostar de estar na fase das decisões da Liga das Nações se essa presença se confirmar. Mas precisamos, todos, de explicações para a saída de Cristiano Ronaldo do estágio, para aquilo que parece ter sido um adeus definitivo à Seleção do — repito — maior e mais impactante símbolo de sempre de Portugal. Sim, escrevi Portugal e foi de propósito.
Uma vitória por 4-2 na Dinamarca não é feito de menorizar, e a exibição foi suficientemente boa e segura para descansarmos quanto à parte desportiva.
Não finjam, porém, que o elefante saiu da sala. Não foi por ter ganho ontem que a Seleção conquistou o interesse das pessoas nestes dias. É pena, mas é assim."

O dia em que Jesus pôs fim ao Cristianismo


"Antes de tudo, uma palavra: Obrigado, Cristiano! Obrigado por tudo.
Cristiano Ronaldo foi o melhor jogador da história do futebol português. Foi um dos melhores jogadores de sempre do futebol mundial. Foi um dos maiores atletas da história do desporto. Foi uma força competitiva extraordinária e uma das maiores histórias individuais de superação que Portugal alguma vez produziu.
E nós tivemos o privilégio de assistir a tudo isto.
Vimos nascer o rapaz magro e irrequieto da Madeira. Vimos o menino do Sporting transformar-se em jogador. Vimos Manchester, Madrid e Juventus. Vimos as Bolas de Ouro, os golos, os títulos, as lágrimas, as derrotas, as remontadas, os recordes e aquela capacidade quase absurda de fazer tantas vezes o impossível.
Vimos Cristiano Ronaldo tornar-se Cristiano Ronaldo. E vimos um português chegar ao topo do mundo num país onde, demasiadas vezes, a mediocridade parece ser apresentada como destino.
Nada do que está a acontecer agora pode apagar isso.
Mas há uma palavra que se tornou particularmente importante nos últimos dias: foi. Cristiano Ronaldo foi o melhor. Já não é. E a culpa não é dele, é da ditadura do tempo. Isto não é uma crítica. É a vida. É o futebol.
O problema começa quando se pretende que o passado continue a mandar no presente. Porque o passado é importante. É a memória, a identidade, a história. Mas não entra em campo.
Se Cristiano Ronaldo fosse norueguês, alguém imaginaria Haaland no banco apenas porque Ronaldo foi o melhor jogador do mundo? Se fosse francês, Mbappé teria de sair do onze porque Cristiano já esteve no topo? Se fosse inglês, Kane perderia a titularidade pelo mesmo motivo? Claro que não.
Então porque haveria de ser diferente por ser português?
A Seleção Nacional não é um museu. Não é um monumento a Cristiano Ronaldo. É uma equipa de futebol. E, numa equipa de futebol, joga quem o treinador entende que deve jogar. Foi isto que Jorge Jesus, e bem, decidiu lembrar a toda a gente, incluindo a Cristiano Ronaldo.
E é por isso que, neste momento, há que reconhecer a coragem do treinador.
Não porque todas as decisões de Jorge Jesus sejam, por definição, certas — isso só o campo pode demonstrar — mas porque há uma coisa essencial na sua postura: a tentativa de colocar sempre os interesses da equipa acima dos estatutos individuais.
O próprio Jesus explicou que deixou Cristiano Ronaldo aquecer "mais tempo do que devia" e que foi por isso que o jogador ficou zangado. Para quem conhece o treinador, isto parece uma tentativa pouco habitual de ser surpreendentemente humilde e de resolver o problema com o jogador a bem e com respeito.
Depois, em Copenhaga, veio a frase que incendiou o Cristianismo: «Na equipa mando eu.» E outra, igualmente óbvia: »As regras são iguais para todos.»
Ora aí está. Finalmente. Uma equipa onde manda o treinador. Que conceito revolucionário.
Jorge Jesus não acabou com Cristiano Ronaldo. Acabou com a ideia de que existe um jogador acima da equipa. Acabou com a ideia de que o passado pode garantir automaticamente o futuro. Acabou com a ideia de que o tamanho da lenda determina o tamanho do onze.
Não determina. E não deve determinar.
Cristiano Ronaldo foi demasiado grande para precisar disso. E é precisamente isto que mais me incomoda nesta história. Aquilo a que temos assistido nos últimos dias não é digno de uma lenda como Cristiano Ronaldo. Não é digno da sua carreira. Não é digno do capitão da Seleção Nacional. E, sobretudo, não é justo para ele próprio. Porque Cristiano Ronaldo construiu a sua carreira precisamente contra o privilégio. A sua grandeza nasceu do trabalho, da disciplina, da obsessão pela superação, da vontade de ser melhor e da recusa em aceitar limites. Aquele menino queria ganhar o lugar, não queria que lho dessem.
E talvez seja essa a ironia mais cruel de todas. A humildade de menino que foi transformada em força de trabalho, capacidade de superação e traço de caráter parece ter-se perdido pelo caminho, esmagada pela dimensão gigantesca da máquina CR7. A marca. O império. Os contratos. Os milhões. A exposição permanente. O personagem.
Tudo isso pode ter tornado mais difícil aceitar aquilo que todos os grandes atletas acabam por enfrentar: o tempo ganha sempre. Não há dinheiro que o compre, não há estatuto que o suspenda. não há Bola de Ouro que o atrase. Cristiano Ronaldo não consegue comprar o elixir da eterna juventude. E ainda bem. Porque é isso que torna o desporto humano e fez dele um exemplo.
Cristiano Ronaldo foi o melhor de sempre. Já não é. E, dizer isto, não diminui Cristiano Ronaldo. Diminui-o, isso sim, tentar negar o óbvio.
Por isso, o que mais me custa nesta história não é o banco, a substituição ou a discussão sobre quem joga. É ver uma lenda transformar aquilo que deveria ser o capítulo final de uma carreira extraordinária numa discussão sobre autoridade, estatuto e poder.
Cristiano Ronaldo merecia sair pela porta grande. Ainda merece. Mas, sair pela porta grande, não significa necessariamente sair quando queremos.
Às vezes significa saber quando chegou o momento. E isso também é grandeza. Pelé não deixou de ser
Pelé quando deixou de jogar. Maradona não deixou de ser Maradona. Eusébio não deixou de ser Eusébio. Federer não deixou de ser Federer. Carlos Lopes e Rosa Mota não deixaram de ser quem foram.
O tempo não lhes retirou a grandeza. Retirou-lhes apenas o presente. Cristiano Ronaldo também merece essa distinção.
Por isso, este é o momento de lhe dizer obrigado. Um obrigado enorme, daqueles que não cabem numa camisola, numa estátua ou numa cerimónia. Obrigado pelos golos. Obrigado pelos títulos. Obrigado pelas lágrimas. Obrigado pelas noites impossíveis. Obrigado por ter levado Portugal ao topo. Obrigado por ter mostrado a milhões de crianças que o talento sem trabalho não chega. Obrigado por ter provado que um rapaz da Madeira podia chegar onde quase ninguém imaginava. Obrigado por tudo aquilo que foi.
Quanto ao presente, é tempo de estar com Jorge Jesus, com a equipa e com o staff técnico da Federação. Não contra Cristiano Ronaldo. Mas a favor da Seleção Nacional. Porque a Seleção tem de poder existir para além de qualquer jogador. E Jorge Jesus tem de poder ser treinador.
Quem fala em »traição» parece esquecer quem é Jorge Jesus. O treinador tentou explicar, em Oslo, aquilo que tinha acontecido e reconheceu que deixara Cristiano Ronaldo a aquecer mais tempo do que devia. Isso não é uma declaração de guerra. É uma tentativa de resolver o problema. Depois, em Copenhaga, foi claro: na equipa manda o treinador e as regras são iguais para todos. É assim que funciona uma equipa.
Quem não aceita isto, por maior que seja o seu estatuto, não percebe o que é uma hierarquia. E, muito menos, o que significa ser capitão da Seleção Nacional.
Desportivamente, Portugal já mostrou, frente à Noruega, que consegue ganhar sem Cristiano Ronaldo no onze.
Mas ninguém se iluda. Daqui para a frente, os resultados vão contar mais do que nunca.
Cada vitória será usada para justificar Jesus. Cada derrota voltará a trazer Cristiano Ronaldo para o centro da discussão. Cada golo de um avançado será comparado com os golos de CR7. Cada jogo menos conseguido levantará a pergunta inevitável: «E se Cristiano estivesse em campo?»
É uma armadilha, tão injusta quanto seria responsabilizarmos Cristiano Ronaldo por, sob a sua liderança, Portugal nunca ter sido Campeão do Mundo. E é por isso que a equipa tem de jogar futebol e Cristiano Ronaldo tem de decidir, com serenidade, como quer escrever os últimos capítulos da sua história.
Porque ainda pode escolher. Pode sair como uma lenda. Pode permitir que o seu último grande legado seja também uma lição: até os melhores têm de aceitar que o tempo passa.
Cristiano Ronaldo foi o melhor de sempre. E isso ninguém lhe tira.
Foi um privilégio vê-lo nascer, crescer e conquistar o mundo. Foi um privilégio ser português enquanto ele vestia a camisola das quinas. Foi um privilégio testemunhar uma carreira que dificilmente voltaremos a ver.
Obrigado, Cristiano, mas agora deixa a Seleção jogar. Deixa Jorge Jesus ser treinador. Deixa os outros jogadores crescerem. E deixa que a tua vida seja aquilo que merece ser: uma história extraordinária, não uma guerra pelo direito a continuar a ser aquilo que já foste.
Porque o futebol não é uma cerimónia de homenagem. É um jogo. E o jogo seguinte nunca se joga ontem.
Talvez tenha sido o dia em que Jesus percebeu isto, que pôs fim ao Cristianismo."

Jorge Jesus na Seleção: a diversão estava prometida...


"Quando Pedro Proença escolheu Jorge Jesus para Selecionador Nacional nasceu em mim uma certeza: as paragens de Seleção — confessem, ninguém gosta verdadeiramente —iam passar a ter pelo menos mais piada do que realizar dois ou três jogos com seis ou sete conferências de imprensa insípidas, umas lesões a chatear os clubes e um «então até à próxima, se possível só na fase final, que é quando a malta gosta da Seleção».
Confesso, porém, que não esperava tanta densidade novelística em tão poucos dias. Previa que dois egos como os de Jesus e Ronaldo pudessem colidir neste contexto, mas mais devagarinho. Afinal aconteceu tudo à primeira. Que se seguirá?

De chorar por mais
Portugal entrou a todo o gás na Liga das Nações. Ganhar à seleção da moda é obra. Com mais ou menos sorte.

No ponto
Despeço-me, pelo menos por agora, desta coluna quinzenal. O Hugo Vasconcelos vai escrever mais, o que é bom.

Insosso
A arbitragem portuguesa não sai bem na fotografia depois das revelações específicas de Duarte Gomes.

Incomestível
Tudo o que envolve este caso de CR7 e da Seleção é absolutamente lamentável. Espero que não termine aqui."

Glória, tempo e talvez uma despedida. Sim, falo de Cristiano Ronaldo


"Acompanhei de perto as suas ligas, Champions, e aplaudi o ser Bola de Ouro por cinco vezes. Nessa altura celebrava todos os seus sucessos, e não tinha medo nem vergonha de o dizer aos quatros ventos, chamando-lhe “meu ric’menine”. Mas crescemos ambos, ou pelo menos um de nós.
Se há dois ou três dias vemos desfilar painéis de comentadores e posts de treinadores de bancada, uns lamentando a marca Cristiano Ronaldo que escapa a tanta gente por entre os dedos, outros despedindo-se não vá ser mesmo desta, também quero dizer uma coisa ou outra.
Sou apenas uma adepta de futebol e do jogador que Cristiano (posso também dizer “o Cris”?) já foi. Vi os seus primeiros jogos como senior, em Alvalade, ainda no estádio antigo. Assisti com muita, ainda que fugaz esperança, ao jogo com o Manchester United, que o catapultou para os palcos que todos conhecemos e acompanhámos.
Gostei muito do seu Euro 2004, tive a sorte de estar na meia-final e ver o seu golo frente à Holanda (eu não me acostumo aos Países Baixos, mas aqui fica a emenda), e dos torneios seguintes. Acompanhei de perto as suas ligas, Champions, e aplaudi o ser Bola de Ouro por cinco vezes. Nessa altura celebrava todos os seus sucessos, e não tinha medo nem vergonha de o dizer aos quatros ventos, chamando-lhe “meu ric’menine”. Mas crescemos ambos, ou pelo menos um de nós.
Quando o Euro 2016 caiu finalmente para Portugal, já eramos mais a torcer, a agradecer-lhe, e mais ainda a celebrar um Portugal finalmente campeão da Europa, que luxo. Depois de uma final dramática, com um herói improvável em Éder, desculpem a expressão, “matar o borrego” que sempre foi a França, ainda soube melhor.
Sabemos que é conhecido de um lado ao outro do globo, no último Mundial ficou ainda mais evidente a sua popularidade, com hordas de fãs em euforia à sua espera, gritando mal põe um pé no relvado, ainda no aquecimento. Hordas essas que invadem perfis de instagram do Portugal e jogadores da seleção de futebol, com o irritante “pass the ball to Ronaldo”. Por cá, sempre esteve longe de ser consensual, ainda que muitos portugueses de várias idades, credos e clubes diferentes o admirem.
Nos últimos anos, o tempo começou finalmente a notar-se. Não me interpretem mal, tomara muitos chegarem aos 38, 39 ou 40 anos com a preparação, a disciplina e a vontade de Cristiano Ronaldo. Em 2018, com 33 anos, ainda marcou de bicicleta em Turim, o que levou o próprio Buffon a perguntar-lhe a idade, depois daquele gesto técnico irrepreensível. Mas os anos passam, e por muito extraordinário que tenha sido, já não tem os 20 ou mesmo os 30 anos de outrora.
Não é de hoje, há já uns anos me interrogo sobre a forma como Cristiano Ronaldo imaginaria o fim da sua carreira. Numa profissão que, sabemos, raramente chega aos 40 anos, muito menos a de um avançado, sempre me intrigou a sua aparente dificuldade em lidar com o fim. Porque nos habituou à ideia de que havia sempre mais um objectivo, mais um recorde, mais uma meta por alcançar. Como se a linha de chegada desandasse sempre mais um pouco. Só mais uma época, só mais um Mundial, mais um Europeu, mais uma competição, qualquer uma. Sempre mais um desafio no horizonte. Se para muitos de nós é estranho imaginar o futebol sem Cristiano Ronaldo (e aqui devo admitir que não vejo a Liga Árabe. Tomara eu conseguir ver as ligas europeias que gostava de acompanhar, não tenho tempo nem interesse nesse novo mundo do futebol), suspeito que para ele essa ideia continue difícil de conceber.
Eu não sei se acabou por aqui, tão pouco tenho certezas sobre o que foi falado, ou sobre o que aconteceu no estágio. Sei que Jorge Jesus não é Martinez. Sei que estamos a falar de dois egos enormes, que se entenderam na Arábia, mas não tinham de se entender na Selecção. E sei que as vozes insatisfeitas com a defesa das cores de Portugal por Cristiano Ronaldo têm aumentado de ano para ano.
O que me custa não é que se discuta se ainda deve jogar, ser titular, ou mesmo ser convocado. Isso faz parte do futebol. E sejamos sérios: ninguém está à espera que Cristiano Ronaldo se transforme numa espécie de mascote da equipa nacional, convocado em nome da história ou da gratidão. Poupem-nos, a mim e a ele, a isso.
Custa-me que seja assim. Que abandone um estágio, seja lá pelo que for, que confirme que é um capitão quando corre bem, mas quando as coisas não lhe agradam, a liderança seja a primeira a ficar para trás. Que a maturidade que a idade e a experiência deveriam trazer, só apareça quando tudo lhe corre de feição. Custa também confirmar que sempre esteve tão preparado para a competição, e tão pouco para um fim que um dia terá de chegar. E só eu sei quanto me custa escrever isto hoje."

Muito Benfica para apoiar


"Em destaque nesta edição da BNews, a aprovação, em Assembleia Geral, do Relatório e Contas 2025/26 da Benfica SAD e os próximos compromissos desportivos, entre os quais duas Supertaças.

1. Relatório e Contas aprovado
O Relatório e Contas do exercício 2025/26 da Benfica SAD foi aprovado em Assembleia Geral de acionistas com 100% dos votos emitidos.

2. Contributos internacionais
Acompanhe a prestação de vários futebolistas do Benfica ao serviço das seleções, entre os quais se conta agora Dahl, chamado pela Suécia.

3. Sábado preenchido na Luz
Às 15h00, a equipa feminina de andebol do Benfica defronta o Zrinski Cakovec na 1.ª mão da ronda de qualificação para a fase de grupos da EHF European League Women. Às 17h00 há Benfica-Sporting em basquetebol no masculino. Às 19h00 é a vez de a equipa masculina de andebol atuar frente ao Santo Tirso. E, às 21h15, em futsal no masculino, as águias defrontam o Leões Porto Salvo.

4. Outros jogos no fim de semana
No sábado, às 15h00 em Felgueiras, o Benfica disputa a Supertaça de polo aquático no feminino com o CA Pacense. À mesma hora, no futebol de formação, os Iniciados visitam o Belenenses às 15h00.
No domingo começa a Taça da Liga de futebol no feminino com o Benfica a deslocar-se ao reduto do SC Braga (11h00). E a equipa feminina de basquetebol tem dérbi com o Sporting no Pavilhão joão Rocha (11h30).
Na segunda-feira é a vez de a equipa masculina de râguebi lutar pela conquista da Supertaça no Jamor ante o Cascais (17h00).

5. Apresentação aos sócios 
A equipa masculina de voleibol do Benfica tem embate com o Leixões, hoje, às 20h15, no Pavilhão n.º 2 da Luz. Após o jogo há sessão de autógrafos. A entrada é gratuita.

6. Desaire por números exagerados
O Benfica perdeu por 0-3 com o Bayern Munique em jogo da fase de liga da Liga dos Campeões Feminina. Ivan Baptista considera a exibição positiva até ao golo inaugural: "Sem dúvida que [os números do resultado] foram penalizadores para aquilo que fizemos, pelo menos durante 70, 75 minutos. Acusámos o primeiro golo. Desapontado pela derrota, mas muito orgulhoso por aquilo que foi a entrega, o compromisso e a audácia das jogadoras."

7. Convocatórias
Várias futebolistas e futsalistas do Benfica integram as mais recentes convocatórias de seleções nacionais.

8. Protagonista
A entrevistada da semana é Marta Martins, basquetebolista do Benfica.

9. Parceria renovada
SL Benfica e WiZink renovam parceria estratégica por mais cinco anos.

10. Título regional
O Benfica sagrou-se campeão regional de Lisboa em paintball.

11. Jornal O Benfica
A edição desta semana está disponível para download no Site Oficial.

12. Casa Benfica Vila de Rei
Esta embaixada do benfiquismo celebrou o seu 20.º aniversário."

FOI UM GRANDE JOGO DE FUTEBOL


"O primeiro jogo do resto da vida da Seleção Nacional. Há um ano, levámos ali um banho de bola e perdemos por um-zero. Hoje Portugal fez um belo jogo, não levou nem deu banho de bola, diga-se, mas foi sempre mais perigoso do que a Dinamarca e justificou a vitória.
Bem, e o que jogou Gonçalo Ramos! E Nuno Mendes, Vitinha, Bruno Fernandes e Ruben Dias! E o João Félix que em menos de nada faturou mais um golo.
Num quadro difícil dados os antecedentes do jogo, contra um adversário de qualidade, num estádio complicado, a resposta foi fantástica.
Três jogos, três vitórias, apuramento praticamente garantido, excelente trabalho de Jorge Jesus na forma como geriu os jogadores à sua disposição e em pouco tempo, praticamente sem treinos, colocou a Seleção a jogar um futebol menos rendilhado, mais ofensivo e muito mais objetivo. Nota final: ter Carlos Daniel a comentar em direto os jogos da Seleção é um enorme upgrade relativamente aos restantes comentadores da RTP. Que continue!"

Cristiano Ronaldo alvo de processo disciplinar?


"A saída do capitão do estágio da Seleção Nacional abriu, para além da polémica desportiva, uma questão de natureza disciplinar que não pode ser ignorada

Cristiano Ronaldo praticou um ilícito disciplinar.
Dos elementos que são conhecidos publicamente, resulta que o jogador abandonou o estágio por sua iniciativa. Minutos antes, Jorge Jesus tinha afirmado, em conferência de imprensa, que Cristiano Ronaldo iria participar no treino. Pouco depois, o jogador deixou as instalações da Seleção e, posteriormente, confirmou que havia decidido abandonar o estágio, remetendo para mais tarde a explicação das razões que o levaram a fazê-lo.
Não conhecemos ainda toda a verdade dos acontecimentos e, por isso, qualquer conclusão definitiva seria prematura. Mas existe uma questão que pode ser colocada desde já: o que determina o Regulamento Disciplinar da FPF perante um abandono de um estágio da Seleção?
O artigo 160.º é claro ao estabelecer que o jogador regularmente convocado que abandone ou não compareça injustificadamente a treino, jogo ou atividade das seleções nacionais é sancionado com suspensão de um a seis meses e, sendo profissional, com multa entre 5 e 10 UC. O mesmo artigo determina ainda a suspensão preventiva automática do jogador.
Assim, o ponto essencial será saber se o abandono ocorreu e, sobretudo, se existe uma justificação juridicamente atendível. O artigo 165.º poderá igualmente ser chamado à discussão, caso os factos venham a demonstrar uma violação das regras de funcionamento da Seleção, uma desobediência a ordem legítima ou uma conduta suscetível de prejudicar o bom nome da FPF ou de Portugal.
Há, porém, uma questão incómoda: deverá ser instaurado um processo disciplinar a Cristiano Ronaldo?
É uma decisão de grande melindre, que deve naturalmente ser ponderada. Um processo disciplinar poderá contribuir para extremar posições e tornar mais difícil uma eventual reconciliação entre o jogador, o selecionador e a Federação. A FPF não pode, por isso, deixar de considerar as consequências institucionais da decisão que vier a tomar.

O Conselho de Disciplina da FPF deve - nos termos do Regulamento - agir e abrir processo disciplinar
Mas essa ponderação não pode transformar-se numa decisão de conveniência. A justiça disciplinar existe para apreciar condutas à luz das normas aplicáveis, e não para decidir se, num determinado momento, dá mais ou menos jeito aplicá-las.
E é precisamente aqui que importa recordar a natureza e as competências do Conselho de Disciplina da FPF. Trata-se do órgão a quem está cometida a função disciplinar, devendo exercer as suas competências com independência relativamente ao poder executivo da Federação. Não cabe, por isso, a considerações de natureza política ou de mera conveniência institucional substituir-se à apreciação disciplinar que compete ao órgão próprio.

A Direção da Federação tem obrigação Regulamentar de instaurar Processo Disciplinar
Sem prejuízo da aparente obrigação Regulamentar do Conselho de Disciplina em agir perante o insólito caso que assolou a seleção nacional, certo é, que a Direção da Federação Portuguesa de Futebol tem também a obrigação regulamentar de participar os factos ocorridos ao Conselho de Disciplina e, por essa via, impulsionar a instauração de processo disciplinar a Cristiano Ronaldo.
Veja-se a propósito o Art. 233 n.º 3 do Regulamento Disciplinar onde é translucido que «[o]s titulares dos órgãos sociais e os dirigentes da FPF (...) são obrigados a participar ao Conselho de Disciplina da FPF quaisquer factos que sejam suscetíveis de constituir infração disciplinar e de que tenham tomado conhecimento no exercício ou por causa do exercício das suas funções».
Caso a Direção da FPF não o faça está a violar frontalmente os Estutos da mesma, nomeadamente a alinea a) do Art. 27. O que obrigatoriamente, na sua omissão, originará responsabilidades e consequências disciplinares para os órgãos sociais que, tendo conhecimento, escolham nada fazer.

Ricardo Carvalho já foi anteriormente alvo de processo disciplinar pelos mesmos motivos
E há um precedente que não pode ser completamente esquecido. Em 2011, Ricardo Carvalho abandonou o estágio da Seleção e foi instaurado um processo disciplinar, tendo posteriormente sido afastado da equipa nacional por um ano. As circunstâncias e o enquadramento regulamentar eram diferentes, mas o episódio demonstra que a FPF já considerou que o abandono unilateral de um estágio podia justificar uma resposta disciplinar.
É precisamente por isso que a aplicação das regras deve ser coerente. Não significa tratar situações diferentes como se fossem iguais. Significa que o estatuto, a notoriedade ou a importância de um jogador não podem, por si só, determinar uma resposta disciplinar diferente.
Cristiano Ronaldo tem uma importância extraordinária na história da Seleção Nacional. O próprio Regulamento prevê, aliás, como circunstância atenuante a prestação de serviços relevantes ao futebol. Mas uma coisa é essa circunstância ser considerada na determinação da eventual sanção; outra, completamente diferente, é entender que o estatuto do jogador pode afastar a aplicação das regras.
Se houver uma infração, deve ser apreciada pelos órgãos competentes, com respeito pelo contraditório e pelo direito de defesa. Se houver uma justificação válida, deverá ser ponderada. E, se não houver, deverão retirar-se as consequências previstas regulamentarmente.
A justiça deve ser cega. Não no sentido de ignorar as circunstâncias concretas de cada caso, mas no de não distinguir as pessoas a quem as regras se aplicam. Cristiano Ronaldo tem um percurso absolutamente excecional na Seleção Nacional e os serviços que prestou ao futebol são inquestionáveis. Mas esse estatuto não o coloca acima das regras.
Se vivemos num Estado de Direito, ninguém está acima da lei. Nem mesmo Cristiano Ronaldo."