sábado, 3 de outubro de 2026

Glória, tempo e talvez uma despedida. Sim, falo de Cristiano Ronaldo


"Acompanhei de perto as suas ligas, Champions, e aplaudi o ser Bola de Ouro por cinco vezes. Nessa altura celebrava todos os seus sucessos, e não tinha medo nem vergonha de o dizer aos quatros ventos, chamando-lhe “meu ric’menine”. Mas crescemos ambos, ou pelo menos um de nós.
Se há dois ou três dias vemos desfilar painéis de comentadores e posts de treinadores de bancada, uns lamentando a marca Cristiano Ronaldo que escapa a tanta gente por entre os dedos, outros despedindo-se não vá ser mesmo desta, também quero dizer uma coisa ou outra.
Sou apenas uma adepta de futebol e do jogador que Cristiano (posso também dizer “o Cris”?) já foi. Vi os seus primeiros jogos como senior, em Alvalade, ainda no estádio antigo. Assisti com muita, ainda que fugaz esperança, ao jogo com o Manchester United, que o catapultou para os palcos que todos conhecemos e acompanhámos.
Gostei muito do seu Euro 2004, tive a sorte de estar na meia-final e ver o seu golo frente à Holanda (eu não me acostumo aos Países Baixos, mas aqui fica a emenda), e dos torneios seguintes. Acompanhei de perto as suas ligas, Champions, e aplaudi o ser Bola de Ouro por cinco vezes. Nessa altura celebrava todos os seus sucessos, e não tinha medo nem vergonha de o dizer aos quatros ventos, chamando-lhe “meu ric’menine”. Mas crescemos ambos, ou pelo menos um de nós.
Quando o Euro 2016 caiu finalmente para Portugal, já eramos mais a torcer, a agradecer-lhe, e mais ainda a celebrar um Portugal finalmente campeão da Europa, que luxo. Depois de uma final dramática, com um herói improvável em Éder, desculpem a expressão, “matar o borrego” que sempre foi a França, ainda soube melhor.
Sabemos que é conhecido de um lado ao outro do globo, no último Mundial ficou ainda mais evidente a sua popularidade, com hordas de fãs em euforia à sua espera, gritando mal põe um pé no relvado, ainda no aquecimento. Hordas essas que invadem perfis de instagram do Portugal e jogadores da seleção de futebol, com o irritante “pass the ball to Ronaldo”. Por cá, sempre esteve longe de ser consensual, ainda que muitos portugueses de várias idades, credos e clubes diferentes o admirem.
Nos últimos anos, o tempo começou finalmente a notar-se. Não me interpretem mal, tomara muitos chegarem aos 38, 39 ou 40 anos com a preparação, a disciplina e a vontade de Cristiano Ronaldo. Em 2018, com 33 anos, ainda marcou de bicicleta em Turim, o que levou o próprio Buffon a perguntar-lhe a idade, depois daquele gesto técnico irrepreensível. Mas os anos passam, e por muito extraordinário que tenha sido, já não tem os 20 ou mesmo os 30 anos de outrora.
Não é de hoje, há já uns anos me interrogo sobre a forma como Cristiano Ronaldo imaginaria o fim da sua carreira. Numa profissão que, sabemos, raramente chega aos 40 anos, muito menos a de um avançado, sempre me intrigou a sua aparente dificuldade em lidar com o fim. Porque nos habituou à ideia de que havia sempre mais um objectivo, mais um recorde, mais uma meta por alcançar. Como se a linha de chegada desandasse sempre mais um pouco. Só mais uma época, só mais um Mundial, mais um Europeu, mais uma competição, qualquer uma. Sempre mais um desafio no horizonte. Se para muitos de nós é estranho imaginar o futebol sem Cristiano Ronaldo (e aqui devo admitir que não vejo a Liga Árabe. Tomara eu conseguir ver as ligas europeias que gostava de acompanhar, não tenho tempo nem interesse nesse novo mundo do futebol), suspeito que para ele essa ideia continue difícil de conceber.
Eu não sei se acabou por aqui, tão pouco tenho certezas sobre o que foi falado, ou sobre o que aconteceu no estágio. Sei que Jorge Jesus não é Martinez. Sei que estamos a falar de dois egos enormes, que se entenderam na Arábia, mas não tinham de se entender na Selecção. E sei que as vozes insatisfeitas com a defesa das cores de Portugal por Cristiano Ronaldo têm aumentado de ano para ano.
O que me custa não é que se discuta se ainda deve jogar, ser titular, ou mesmo ser convocado. Isso faz parte do futebol. E sejamos sérios: ninguém está à espera que Cristiano Ronaldo se transforme numa espécie de mascote da equipa nacional, convocado em nome da história ou da gratidão. Poupem-nos, a mim e a ele, a isso.
Custa-me que seja assim. Que abandone um estágio, seja lá pelo que for, que confirme que é um capitão quando corre bem, mas quando as coisas não lhe agradam, a liderança seja a primeira a ficar para trás. Que a maturidade que a idade e a experiência deveriam trazer, só apareça quando tudo lhe corre de feição. Custa também confirmar que sempre esteve tão preparado para a competição, e tão pouco para um fim que um dia terá de chegar. E só eu sei quanto me custa escrever isto hoje."

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