A entrevista de António Silva a um youtuber parece que fez dói dói no auto-proclamado maior grupo de comunicação em Portugal, mais conhecido por Medialivre. Comentadores e jornalistas ficaram incomodados e destrataram António Silva e o Benfica, pelo conteúdo da entrevista.
— Liga da Farsa (@ligadafarsa) June 23, 2026
quarta-feira, 24 de junho de 2026
Dói-Doí...
Concordo
A entrevista de António Silva ao @JOliveira10_ mostra a importância do Seixal como escola de homens, não apenas de atletas. Maturidade, ambição e benfiquismo. Vejo nele um futuro capitão. A renovação deve ficar concluída antes do arranque da época. Foco total no 39. pic.twitter.com/KihzxlGurO
— Mauro Xavier 🇵🇪 (@MauroXavier) June 23, 2026
Norberto Alves
Por vezes esquecemo-nos de que, por detrás de um jogador, treinador ou dirigente, existe uma pessoa.
— Cesto1904 (@cesto1904) June 23, 2026
Não, Norberto Alves não foi dispensado, nem demitido. A sua saída está relacionada com motivos pessoais, algo que deixa a entender que a decisão estaria tomada independentemente… pic.twitter.com/iuLRXiRpKp
Cristiano Ronaldo no labirinto do ego
"Há um momento inevitável dos predestinados em que o passado deixa de conseguir resgatar o presente. Do lado de fora da Seleção, o capitão já não é indiscutível. Faltará bom senso dentro
Talvez seja a primeira vez que a ideia dos adeptos coincide com a dos jornalistas no que diz respeito a Cristiano Ronaldo e à Seleção Nacional. Embora sejam apenas sondagens feitas em ambiente digital, a verdade é que tanto uns como outros já parecem sentir-se preparados para abdicar do capitão na equipa inicial de Portugal. A imagem que Ronaldo tem apresentado em campo, sobretudo nos momentos em que era forte, ou seja na finalização, baixou dos mínimos olímpicos e justifica, para ambos, uma alteração que a análise mais aprofundada dos jogos já defendia há meses. Talvez anos. Ou seja, CR7 terá ultrapassado finalmente o limite de tolerância, esticado pelo natural sentimento de gratidão, da maior parte das pessoas.
É tudo muito bonito, mas não acredito que Roberto Martínez deixe agora cair o capitão. Foi contratado precisamente para que isso não acontecesse e não acontecerá após apenas um jogo nas Américas. A teimosia ainda tem defesa possível, na sua perspetiva. Não, o nome de Ronaldo só será riscado do onze titular se o espanhol entrar em modo de sobrevivência, tal como aconteceu no Qatar, quando ao terceiro jogo trocou finalmente um Eden Hazard, também capitão, que se arrastava na Bélgica, por Dries Mertens. Foi o melhor jogo dos Diabos Vermelhos, mas mesmo assim não conseguiram melhor do que um nulo diante da Croácia, que resultou na mais do que justificada eliminação.
Cristiano começará, sim ou sim, o encontro com o Uzbequistão. À hora do fecho desta edição, o que sabemos é que o jogador que fará a antevisão à partida não será aquele que tantas vezes foi tema ao longo dos últimos dias. Aquele que, sem qualquer provocação, reagiu mal a perguntas na zona mista. Alguém que acham que já não está a ser útil à equipa. Que usa a braçadeira — porque ser capitão é outra coisa — há muitos anos sem que seja o melhor exemplo para os colegas. Que deveria ter dado a cara, mesmo que Rúben Dias e Diogo Dalot tenham feito o seu papel o melhor possível, eles que nem um minuto somaram no infeliz empate com os africanos. Ainda que se enganem quando acham que os portugueses estão contra eles. É precisamente o contrário. Não há português que não queira vê-los triunfar. Só que não é só questão de fé.
Cristiano joga por ele. Já Messi, por exemplo, joga pelos outros, que jogam por ele. Os egos serão do mesmo tamanho, mas o argentino sabe, há anos, que não se consegue manter no topo sozinho."
Os lesados de Roberto Martínez
"Roberto Martínez nunca devia ter sido o selecionador nacional.
Fernando Gomes, então presidente da Federação Portuguesa de Futebol, estava no auge do seu poder e influência e não houve quem questionasse publicamente tão bizarra escolha. Sem cair em exageros, há uns 30 treinadores portugueses melhores do que ele.
Em janeiro de 2023, Fernando Gomes, na apresentação de Roberto Martínez, revelou a razão para Fernando Santos não continuar: «Depois de um Mundial em que sentimos que poderíamos ter ido mais longe (...) Portugal pode e deve estar sempre nas decisões de grandes competições, e isso significa, pelo menos, aceder às meias-finais.»
A indústria do futebol foi a única que não se deixou contaminar pelas ideias de igualdade, diversidade ou agenda verde. A meritocracia é o critério único.
A melhor equipa que tinha treinado tinha sido o Everton. Vencera uma Taça de Inglaterra e um campeonato da terceira divisão inglesa.
O rei vai nu. No conto de Hans Christian Andersen, publicado há quase 200 anos, dois vigaristas convencem o rei que iam fazer o melhor fato do mundo e que seria invisível aos ignorantes. O desfile começou e todos elogiavam, até uma jovem criança gritar que o rei ia nu e todos perceberem o logro. Em Portugal, a criança tinha sido evacuada.
Pedro Proença manteve o objetivo. Desde o jogo com a RD Congo, expôs-se a apoiar Roberto Martínez, quando a não responsabilidade na contratação aconselhava prudência e distância.
No futebol, a culpa nunca morre solteira — é sempre do treinador.
O treinador é, de longe, o elemento mais importante numa equipa de futebol. A decisão mais importante do presidente é a sua escolha.
Na qualificação para o Mundial já houve uma tremedeira no fim. Não se ganhou à Hungria em Alvalade (2-2), pelo que o jogo com a Irlanda, em Dublin, foi a segunda oportunidade para nos qualificarmos — perdemos 0-2. No último jogo, no Dragão, com a Arménia, ganhamos 9-1, em pressão máxima. Porque é que em Portugal se faz sempre tudo no último dia? Porque no dia seguinte já não é possível.
Com a divulgação dos 26 jogadores escolhidos, a escandalosa não convocatória de Palhinha, mas também com a incompreensível ausência de Ricardo Horta e a presença de quatro laterais-direitos na lista, surgiram as primeiras críticas públicas.
A ideia de Martínez foi ter dois grupos de jogadores, um para jogar e outro para fazer número (de cara alegre).
A matilha digital, depois do primeiro jogo, dedicou-se ao linchamento dos jogadores. Até a ida à praia foi um tema central, facto surpreendente para quem almoça esporadicamente na Costa de Caparica e vê, quase sempre, jogadores a darem um mergulho em vésperas de jogos decisivos — que ganham.
Fosse o selecionador Jorge Jesus, José Mourinho ou Sérgio Conceição, as teorias da conspiração não existiriam. Mesmo com Martínez, não têm razão de ser. É ele quem toma estas estranhas decisões — por exemplo, preferir Rafael Leão contra uma defesa fechada em vez de Trincão, que marca golos e fura numa área defendida por dez adversários.
Soubesse a RD Congo contra-atacar e tínhamos perdido.
Se é fácil jogar a fase de qualificação, quando os jogadores chegam a voar das melhores equipas do mundo, será Martínez capaz de preparar uma competição em que o treino é da exclusiva responsabilidade da sua equipa técnica?
Este jogo morno que nos exaspera é uma opção ou manifestação de incapacidade? Um dia, vai haver uma alteração às regras penalizando a interminável posse de bola em zonas mortas do campo, como fizeram desportos como o basquetebol e o andebol.
Não há um português que considere que Cristiano não tem lugar na Seleção. Dividimo-nos apenas em relação à sua utilização e só Martínez acha que deve jogar os 90 minutos.
João Neves e Tomás Araújo
João Neves foi o melhor com a RD Congo e Tomás Araújo assumiu responsabilidades alheias. João Neves não é o típico português, porque está sempre com ar de bem disposto.
Saiu muito jovem de casa dos pais no Algarve e foi viver para a academia do Benfica no Seixal. Sofreu com a morte da mãe. Sempre a correr e sempre com um sorriso.
Em 1988, assisti a um jogo do campeonato no antigo Estádio das Antas. Shéu, o capitão do Benfica, fazia nesse dia o seu último jogo na carreira. Foi substituído e todos os adeptos do FC Porto se levantaram e aplaudiram. Com João Neves, seria igual, não há quem não goste muito dele.
Com 22 anos, já ganhou duas Champions e três campeonatos nacionais. Na Liga das Nações, depois de ganhar a primeira Champions com o PSG, sem qualquer queixume, jogou a lateral-direito.
Tomás Araújo fez com Renato Veiga uma improvável dupla de centrais no primeiro jogo do Mundial. Juntos, tinham 18 internacionalizações no total e uma média de 23 anos.
No Mundial de 2022 e no Europeu de 2024, os três principais centrais foram Pepe, Rúben Dias e Danilo Pereira. Em 2022, tinham uma média de 31 anos e 77 internacionalizações; no Euro-2024, 33 anos e 89 internacionalizações.
Portugal defende os cantos de uma forma inconcebível, com poucos jogadores na área. O jovem Tomás Araújo, assumindo corajosamente responsabilidades que não foram dele, protegeu a equipa técnica e Diogo Costa (o cabeceamento é na pequena área).
Padre António Vieira
«Nós somos o que fazemos», dizia o Padre António Vieira. Portugal vai ganhar ao Uzbequistão mas dificilmente ganhará o Mundial.
Só perdermos, se privarmos as crianças da alegria de viver um Mundial — com ou sem cromos.
Se não correr bem desportivamente, a culpa será do selecionador. Felizmente, foi sempre assim e sempre será.
Para tristezas, já basta o mundo em que vivemos."
O elogio ao erro
"É comum dizer-se que o erro faz parte do processo de evolução. Acredito muito nisso, tanto na vida como no futebol.
A meio da segunda ronda de jogos dos grupos, é possível identificar algumas seleções que, após uma entrada menos positiva no Mundial 2026, identificaram os erros cometidos, analisaram-nos, reconheceram-nos e decidiram promover alterações com impacto direto e positivo nas suas performances.
A Espanha mudou substancialmente de um jogo para o outro. Depois do surpreendente empate frente a Cabo Verde, Luis De La Fuente percebeu que jogar sem extremos que garantissem largura, profundidade e capacidade ofensiva no um para um havia sido um erro.
Bastaram quatro alterações para que o momento ofensivo espanhol voltasse a ter fluidez, agressividade e acutilância ofensiva. Pedro Porro, Dani Olmo e Lamine Yamal sobre a meia direita estiveram em sintonia, garantindo dinamismo e eficácia. Baena sobre a esquerda foi multifacetado o suficiente para saber quando teria de ser extremo, segundo avançado ou quarto médio quando a Espanha atacava.
O 4-0 final sobre a Arábia Saudita mostra-nos que a exibição frente a Cabo Verde poderia ter sido outra. Mas também nos mostra o reconhecimento do erro e a capacidade para encontrar soluções para o mesmo.
Ronald Koeman viu fugir dois pontos frente ao Japão depois de uma exibição pouco inspirada do ponto de vista coletivo, na qual foi evidente a falta de mentalidade competitiva para segurar a vantagem com bola e impedir o assédio nipónico.
Ao contrário do homólogo espanhol, Koeman não promoveu uma revolução tática no onze inicial. Mexeu apenas no centro do ataque, o suficiente para que o coletivo funcionasse melhor.
Com Brian Brobbey na posição 9, os Países Baixos passaram a ter quem segurasse a bola e ligasse o jogo com os médios e extremos. Tão ou mais importante do que isso, contou com Donyell Malen sobre a direita na primeira parte.
O avançado da Roma não marcou, mas soube preencher os espaços em corredor central, juntando-se a Brobbey, permitindo a Cody Gakpo, sobre a esquerda, ter mais liberdade de movimentos e um raio de ação mais alargado.
Koeman sentiu ainda que podia acrescentar algo mais e, ao intervalo, lançou Crysencio Summerville para o lugar de Mallen, dando mais imprevisibilidade ao ataque holandês.
O 5-1 sobre a Suécia diz-nos que os Países Baixos não só melhoraram de um jogo para o outro como ainda melhoraram dentro do próprio jogo. Sinal claro de humildade, inteligência e liderança por parte do seu selecionador."
O milagre por fazer depois do já feito
"Por causa de Rangnick, lembrei-me de Bielsa. De Maslov. De Wolfgang Frank. De Rappan. De Jimmy Hogan. Não Hagan, Hogan! Todos eles estão nas melhores equipas da história mesmo que não tenham ganho assim tanto com as suas.
O alemão acabou com o líbero na terra do líbero, avançou para a marcação à zona, para a linha defensiva subida e para a pressão feroz. O melhor que ganhou no país em que nasceu foi a Taça e a Taça da Liga, contudo, o seu futebol espalhou-se como um vírus e abraçou também a Áustria. O vírus e ele, agora, depois de ter sido considerado alguém banal em Old Trafford.
Maslov viveu em Lobanovskiy, Frank em Klopp e no 'gegenpressing' e Rappan em Helenio Herrera. Sem Hogan não teria havido a Wunderteam austríaca de Sindelar ou a Aranycsapat húngara, com os míticos magiares Puskás, Czibor, Kocsis e Bozsik. Sem ele, os cafés de Budapeste e Viena não teriam discutido o futebol tão apaixonadamente ao ponto de acharem que podiam desafiar a Mother of Football.
El Loco é um dos maiores influenciadores que o jogo já teve. Há Cruijff, mas o neerlandês deixaria sempre discípulos porque ganhou. O argentino fez carreira no seu país e, apesar de ser amado por quase todos nós, ganhou muito pouco fora dele. Ele, talvez o primeiro a não escolher entre o romantismo de Menotti e o pragmatismo de Bilardo, tornando-se uma síntese dos dois, está nos modelos de Guardiola, Simeone, Pochettino, Tata Martino, Berizzo, Sampaoli, Gallardo, e mesmo Nagelsmann e Tuchel.
A garra charrúa e o bielsismo pareciam mesmo feitos um para o outro. Porque o modelo de Marcelo é feito de energia e os uruguaios fazem dela a base do seu jogo há muitos anos. No entanto, o Mundial não corre como o esperado. São dois empates, diante de Cabo Verde e Arábia Saudita, e o risco da eliminação presente no último jogo diante da Espanha. É uma Celeste Olímpica sem Suárez e Cavani, com Darwin em baixa e um ala como guia. Nem Bielsa faz milagres! Ou fará? Precisa mesmo?"
Simpatia natural ou ‘gorjetadependente’?
"HOUSTON - Gorjetadependente: a palavra pode não constar nos dicionários da Porto Editora, mas devia. Nos Estados Unidos, ela resume toda uma engrenagem social. Aterrar no Mundial de 2026 é, para um português, levar com um choque cultural em várias frentes, mas nenhuma magoa tanto a carteira — ou a nossa sensibilidade europeia — como a cultura da gorjeta, o omnipresente tip.
Por cá, a linha que separa a simpatia genuína do interesse financeiro é tão ténue que quase se apaga. E nós, portugueses, criados no hábito de deixar as moedas pretas ou de arredondar a conta em jeito de mera cortesia, estamos profundamente mal habituados.
A realidade nua e crua do mercado laboral americano rapidamente nos põe na linha. Nos balcões e mesas dos restaurantes, os empregados de mesa recebem salários base miseráveis, que rondam frequentemente os 2 dólares por hora — uns ridículos 1,85 euros.
O ordenado mínimo garantido por lei simplesmente não se aplica da mesma forma a quem recebe gratificações. Sem a gorjeta, esta gente não consegue, literalmente, sobreviver. O cliente não está a dar um extra; está, na verdade, a pagar diretamente o salário de quem o serve. Por isso, o sistema é agressivo. Qualquer valor abaixo dos 20% é visto como uma afronta, um atestado de incompetência ou um insulto pessoal. Se o serviço foi terrível, a penalização máxima aceitável são os 15%. Menos do que isso é declaração de guerra.
Nós aprendemos a lição da pior maneira, logo no primeiro jantar em Palm Beach. Ignorantes da pressão social do terminal de pagamento digital, cometemos o sacrilégio de clicar no botão de «0% tip». O ambiente congelou no segundo seguinte.
A expressão e o discurso da funcionária, que até aí transbordava de uma simpatia quase maternal, mudaram para o plano oposto numa fração de segundo. O sorriso deu lugar a um esgar de desespero e raiva contida: «Como é que vou alimentar os meus filhos?», atirou, sem filtros.
A fatura, outrora entregue com vénias, voltou para trás completamente amarrotada e foi literalmente atirada para cima da nossa mesa, num misto de humilhação e revolta. Foi um banho de realidade. Percebemos ali que a simpatia americana não é necessariamente falsa, mas é, por força das circunstâncias, é, por vezes, altamente dependente do desfecho financeiro.
Em Roma sê romano, na Florida ou no Texas paga o que deves. Desde esse dia, o dedo no ecrã já não hesita: os 20% já fazem parte do custo de cobertura deste Mundial. Coisas culturais."
Novas regras testadas durante o Mundial: um clássico
"Portugal começou o Mundial frente ao Congo. Não começou da melhor forma, mas também não é caso para alarmes. A Espanha também empatou com Cabo Verde, que entrou na competição em grande! Percebo Roberto Martínez: «Falar em ganhar o Mundial não ajuda a ganhar jogos.» Hoje segue-se o Uzbequistão. Uma vitória vai acontecer, confio. Boa sorte para a equipa de todos nós.
Os Mundiais têm servido, nos últimos anos, como laboratório da FIFA para testar novas regras. Este campeonato não é exceção. Vale a pena olhar para algumas delas e perceber o que podem trazer ao futebol. A primeira novidade é que o jogo passou, na prática, a ter quatro interrupções oficiais. Além do tradicional intervalo, surgem duas pausas para hidratação. Ou, sendo rigorosos, duas pausas para publicidade. Ou dois descontos de tempo como em muitas modalidades de pavilhão. Nesta coluna chamamos as coisas pelos nomes. Quem financia o espetáculo são os patrocinadores e a FIFA precisa dessas receitas. Gasta muito dinheiro, nem sempre bem e nem sempre no futebol. Dois intervalos adicionais representam milhões. A lógica aproxima-se cada vez mais da NBA ou do futebol americano. Bom? Mau? Diga-me, caro leitor!
Talvez por este Mundial se disputar nas Américas, a competição parece mais americanizada. Não apenas pelos intervalos publicitários, mas também pelo espetáculo que envolve os jogos. Como acontece na NBA ou no Super Bowl, a partida é apenas o centro de um grande evento onde cabe música, celebridades, influenciadores e entretenimento permanente. Estamos, afinal, na terra do show business.
A FIFA acredita que o público mais jovem procura mais ação e menos tempo perdido. Daí as novas limitações temporais. Os lançamentos laterais têm agora cinco segundos para ser executados; os pontapés de baliza idem. No primeiro caso, a demora entrega a bola ao adversário; no segundo, resulta em canto. As sanções parecem equilibradas: combatem a perda de tempo sem alterar a essência do jogo.
Também as substituições passam a estar mais controladas. O jogador substituído deve abandonar o relvado pelo ponto mais próximo. Se não o fizer, o substituto só pode entrar um minuto depois, deixando temporariamente a equipa reduzida a dez jogadores. Saolução simples, eficaz e com lógica competitiva.
Menos convincente é a proibição de tapar a boca durante as conversas em campo. A chamada regra Prestianni parece um exagero. O futebol vive de comunicação constante entre jogadores, treinadores e árbitros. Essa comunicação sempre teve uma dimensão privada. A evolução tecnológica permite captar imagens e até interpretar movimentos labiais a grande distância. A partir do momento em que se proíbe um jogador de proteger uma conversa, abre-se a porta a polémicas intermináveis. Uma instrução tática ou apenas um bocejo? A UEFA, que já tratou mal o caso Prestianni, insiste agora numa solução que levanta mais dúvidas do que resolve, mas que já deu uma expulsão.
Por outro lado, o alargamento das competências do VAR parece funcionar. Os cantos podem ser revistos e os segundos amarelos também. Para já, sem grandes sobressaltos. A câmara do árbitro, outra novidade, tem igualmente mostrado potencial para aproximar os adeptos do jogo.
Esta semana o Direito ao Golo é, primeiramente, para Manuel Kape, o lutador luso-angolano do UFC derrotou Horiguchi por KO e vai ter direito a lutar pelo título. Fantástico! E para Fernando Pimenta, que conquistou mais um título europeu na canoagem e continua a engrandecer o desporto português. Isto sem esquecer a seleção de Cabo Verde no Mundial: dois empates com sabor a vitória!"
A verdadeira descoberta da América é encontrar a porta de saída
"Sempre brinquei que Lisboa está para o país como os Estados Unidos estão para o mundo: fora das fronteiras, ninguém conhece mais nada. O que é um exagero, claro: uns conhecem o Alentejo e o Algarve, outros conhecem o Caribe, onde vão passar férias.
Brincadeiras regionalistas à parte, é verdade que sempre gozámos com os americanos por serem um desastre a geografia: daquelas pessoas capazes de apontar para a África quando se lhes pede para encontrar determinado país europeu num mapa. Agora, a viver este Mundial por dentro, finalmente fez-se luz e percebi a raiz do problema.
Não é que eles ignorem o resto do planeta, eles simplesmente não conhecem o próprio bairro.
Como é que podemos exigir que saibam onde fica Cabo Verde se eles não fazem a menor ideia de onde fica a Porta 7 do estádio onde trabalham?
A prova dos nove está na organização (ou falta dela) nos recintos. Pedir indicações para qualquer coisa é um exercício de futilidade absoluta. Há poucas placas, o staff não sabe de nada, mas o mais fascinante é a confiança inabalável com que te mandam para o lado errado.
Um americano pode não saber como se sai pela Porta 6 ou onde se apanha o shuttle, mas vai dar-te indicações detalhadíssimas, cheias de certezas, sempre repetidas uma, e outra, e outra vez. São tão convictos que até te fazem duvidar de que não sabem nada.
Tentar entrar ou sair de um estádio, portanto, transforma-se numa autêntica peregrinação a Santiago de Compostela, mas sem setas amarelas a indicar o caminho e sem um único albergue para descansar as pernas.
Anda-se quilómetros em círculos, guiados pela simpática ignorância local, a expiar os nossos pecados no asfalto, até percebermos que a verdadeira descoberta da América, por estes dias, não é chegar cá.
É conseguir encontrar a saída."
O Mundial da diáspora
"Com as migrações no centro do debate político em vários países, as seleções competem por atrair os muitos jogadores elegíveis para representar diversas nações. A Europa consolida-se como grande centro formador de talento, mas há cada vez mais futebolistas que optam por representar a terra dos pais ou dos avós
Vamos jogar a um jogo? Vamos.
Suíça-Bósnia. Protagonista do encontro? Johan Manzambi, natural de Genebra, pais de Angola e da República Democrática do Congo. Canadá-Suíça. Autor de um hat-trick? Jonathan David, nascido em Nova Iorque, filho de haitianos, foi para Port-au-Prince aos três meses, imigrou para o Canadá aos seis anos.
Inglaterra-Croácia. Último golo ingês? De Marcus Rashford, jamaicano do lado do pai, São Cristóvão e Neves da parte da mãe. Portugal-RD Congo. Herói dos africanos? Yoane Wissa, vindo ao mundo em Épinay-sous-Sénart, um subúrbio parisiense.
Áustria-Jordânia. Quem selou o triunfo europeu? Marko Arnautovic, cidadão de Viena, com pai sérvio e mãe austríaca. França-Senegal. Quatro golos? Bem, os autores dos remates certeiros poderiam, todos, representar outras cores: Mbappé os Camarões ou a Argélia, Barcola o Togo, Ibrahim Mbaye a própria França ou Marrocos.
Estes encontros realizaram-se todos ao longo dos últimos dias, mas mais exemplos haveria, casos vindos de todos os continentes e confederações. Talvez o expoente máximo se tenha visto em Monterrey, quando Yasin Ayari abriu o marcador no Suécia-Tunísia e não festejou, pedindo desculpas, como quem marca à ex-equipa. Razão? O médio é de Solna, mas o pai é tunisino e a mãe marroquina. Já agora, ao apontar o definitivo 5-1, Ayari decidiu que, bom, não é todos os dias que se bisa num Mundial, então o melhor é mesmo festejar.
Olhe-se para onde se olhar, é inegável: este é o Mundial da diáspora. O Mundial em que boa parte dos jogadores poderia vestir outra camisola, a competição em que muitos não representam o país de nascimento e outros, representando-o, poderiam optar pelas terras de onde saíram os seus ascendentes. É o Mundial onde seduzir os filhos da diáspora se torna uma tarefa tão importante para as federações como desenhar programas de formação ou escolher os selecionadores.
É, também, o Mundial da diáspora porque as migrações, algo tão humano como ir em busca de um sítio com melhores recursos naturais ou mais paz ou melhor emprego, estão no centro do debate político global. Donald Trump, cujas políticas de entrada e permanência nos Estados Unidos marcam a competição — é o torneio em que o melhor árbitro africano foi barrado —, apontou, há dias, o risco de, “importando pessoas de países do terceiro mundo”, os EUA se transformarem “num país do terceiro mundo”.
França, o berço do Mundial
Uma das maravilhas da modalidade mais popular da história da humanidade é a capacidade de gerar craques nos locais mais improváveis. Há qualidade a brotar de Barrancas, na Colômbia caribenha, como Luís Diaz, ou em Bushehr, no Irão que mira ao golfo pérsico, como Mehdi Taremi. Ter como ponto de partida Taskhent, na Ásia central, não impediu Abdukodir Khusanov de chegar ao Manchester City.
Não obstante, este Mundial consolida uma tendência: é na Europa, nos grandes centros de formação do continente, nas máquinas de produção quase industrial de jogadores, que se forja a maioria dos profissionais das botas calçadas. França, Países Baixos, Inglaterra e Alemanha, particularmente estes quatro países, pegam nos seus jovens — parte deles filhos da imigração — e levam-nos para o topo.
Esta mistura entre capacidade de formação e ser um país recetor de vagas de migração leva a França a destacar-se como grande berço do torneio. Há 98 futebolistas presentes nos EUA, Canadá e México a terem o hexágono como maternidade, o suficiente para formar quase quatro seleções e cerca de 7,9% da totalidade de participantes. Em segundo lugar surgem os Países Baixos, com 67, cifra muito auxiliada pelos 25 homens de Curaçau com nascimento neerlandês. Segue-se a Alemanha, com 48, com o quarto posto partilhado entre Espanha e Bélgica, com 36.
Buenos Aires, São Paulo, Londres ou Lisboa, e respetivas áreas metropolitanas, são grandes urbes de onde vêm destacadas figuras. Ainda assim, Paris e os seus gigantescos subúrbios afirmam-se como o local mais provável para ser a casa de quem pisa o relvado. Há 53 futebolistas do Mundial 2026 naturais da capital francesa e das suas áreas circundantes.
Colonialismo... e não só
Estes dados contam-nos uma história das relações de poder dos últimos séculos. O colonialismo é, obviamente, um fator decisivo neste Mundial da diáspora. Dos 76 naturais de França que representam outras seleções, a maioria (43) tem raízes em cinco Estados que deixaram de ser colónias francesas entre 1956 e 1962: Marrocos, Tunísia, Argélia, Costa do Marfim e Senegal.
O "The Guardian" notava, já durante a competição, que o Reino Unido invadiu, ocupou ou tomou ações militares contra 44 dos países em ação no campeonato.
Em Curaçau, apenas um dos 26 chamados nasceu no território. Marrocos, a certa altura do confronto diante do Brasil, tinha 11 jogadores em campo nascidos fora do país africano, três em Espanha, dois na Bélgica, quatro em França, um no Canadá, outro nos Países Baixos.
A República Democrática do Congo tem 11 naturais de França e cinco da Bélgica. A Argélia tem 13 vindos de França, o Haiti tem 12, o Senegal apresenta 10, a Costa do Marfim conta com oito, a Tunísia leva sete. Cabo Verde, por sinal, não conta com um domínio do antigo colonizador, mas sim dos Países Baixos, com seis. Há três nascidos em França no conjunto de Bubista, três em Portugal, um nos EUA e outro na República da Irlanda.
Mas não é só o colonialismo o único fator a considerar. Os iraquianos são a segunda maior comunidade na Suécia, algo que muito se deve aos refugiados que foram para o país escandinavo na sequência da invasão norte-americana no arranque do século XXI. Consequentemente, há quatro futebolistas do Iraque com naturalidade sueca.
As deslocações forçadas com motivos bélicos também influenciaram nações europeias, nomeadamente nos Balcãs. Há 17 membros da Bósnia que abriram os olhos pela primeira vez num outro local, com histórias como a do jovem talentoso Esmir Bajraktarević, de 21 anos, cujos pais sobreviveram ao genocídio de Srebrenica, em 1995, o qual vitimou o avó e quatro tios. A família descolou-se enquanto refugiada para a Suíça, primeiro, e depois para os EUA, onde Esmir nasceu.
A Alemanha destaca-se especialmente enquanto ponto de acolhimento da imigração europeia. De lá são quatro futebolistas que representam a Bósnia, cinco da Turquia e três da Croácia.
As diferentes políticas de acolhimento de refugiados são, portanto, outra causa da proveniência de talento. O primeiro golo da Austrália no Mundial 2026 foi de Nestory Irankunda, nascido num campo de refugiados na Tanzânia, em fuga da guerra do Burundi. Também nos socceroos milita Awer Mabil, ex-Paços de Ferreira, que viveu até aos 10 anos num campo de refugiados no Quénia, filho de escapados do Sudão do Sul. Outra jovem esperança da equipa é Mo Touré, original de um campo de refugiados na Guiné, com pais à procura de proteção da guerra civil da Libéria. As famílias Irankunda, Mabil e Touré beneficiaram das portas abertas australianas.
O poder de atração
A multiplicidade de origens atesta-se por haver três pares de irmãos que defendem conjuntos diferentes. Os Souttar são de Aberdeen, produto da relação entre um escocês e uma australiana. Harry defende a Austrália, John a Escócia. Os Williams assentaram no País Basco, na sequência de uma história de superação, com ascendência ganesa. Nico representa Espanha, Iñaki o Gana. Os Doué têm mãe francesa e pai costa-marfinense. Désiré é atacante pela França, Guéla é lateral-direito na Costa do Marfim.
Se França ou Inglaterra são centros de formação, os seus jogadores não deixam de contar estas narrativas de deslocação de seres humanos. Com efeito, 20 dos eleitos por Tuchel poderiam atuar por outra seleção que não a inglesa, enquanto 21 dos homens de Deschamps tinham a opção de defender outro país.
Os gauleses, epicentro deste Mundial da diáspora, estão recheados de gente que tem múltiplas raízes: Saliba tem pai libanês e mãe camaronesa, Cherki poderia ter representado Itália ou a Argélia, Dembélé tem mãe da Mauritânia e pai do Mali, nas veias de Mbappé corre sangue camaronês, do lado paterno, e argelino, da parte materna. Todos são cidadãos franceses, nascidos em França.
Perante este paradigma, as federações protagonizam uma verdadeira corrida para convencer os jogadores. É uma disputa de sedução, de convencimento, com os mais variados argumentos, desde o apelo que pode ser feito ao coração — há histórias de dirigentes que foram falar primeiro com os pais, com maiores ligações às terras de origem , para estes depois incentivarem os filhos — até razões mais desportivas. Veja-se como, em março, Portugal tentou convencer Eli Juniour Kroupi, mas sem êxito. Luís Freire já falou sobre a atenção que a FPF dedica a este trabalho, começando nas seleções jovens.
Um dos principais destaques da ronda inaugural do Mundial, Ayyoub Bouaddi, jogou, em março passado, pelos sub-21 de França. Marrocos, capaz de convencer craques que caberiam em grandes seleções europeias, acenou com uma titularidade no maior dos palcos e obteve um reforço de luxo.
Responsáveis de Cabo Verde têm mencionado que um dos principais fatores de crescimento desta histórica participação é o acréscimo de atratividade para a causa cabo-verdiana. Com hipóteses reais de pisar grandes palcos, é mais fácil convencer quem seja internacional jovem neerlandês ou português. Para Haiti ou Curaçau, estas funções — facilitadas pelo alargamento — são vitais para a competitivade nacional.
Um dos maiores artistas presentes no Mundial é Michael Olise, o fantasista do Bayern Munique. Conhecido pelas escassas palavras, o canhoto nasceu em Inglaterra, filho de um britânico-nigeriano e de uma franco-argelina. Olise fala pouco, mas, sobre este assunto, foi contundente: “De onde sou? Sou de quatro países: França, Argélia, Nigéria e Inglaterra. Sinto-me sortudo por ter essas quatro partes, todas me enriqueceram.”"







