Últimas indefectivações
Thursday, April 9, 2026
Porca miseria!
"A Itália ainda é a terceira nação com mais sucesso na história dos mundiais. Mas vai ficar, pelo menos, 16 anos sem marcar presença numa fase final. E não é só a «Squadra Azzurra» que está em crise; os clubes italianos também andam longe dos seus áureos tempos de glória internacional. Algo vai mal, «veramente male» no reino do Calcio.
O título deste texto até podia ser «Mamma mia!», mas, se calhar, não era tão apelativo. E, provavelmente, sendo também uma expressão tão idiossincraticamente italiana, não terá sido tão exclamada na terça-feira quanto a escolhida. Imagine-se o sofrimento dos devotos e ufanos «tiffosi» perante o desencontro da sua realidade futebolística com a história gloriosa do Calcio…
Ainda se lembra de quando a Itália tinha de estar sempre entre os candidatos a ganhar as grandes competições?
Mesmo acusados de pragmatismo extremo, de cruel cinismo, de recorrerem ao famigerado «catenaccio», de aplicarem espartilhos táticos às seleções mais talentosas – de causarem desgostos ao mundo, como não permitir que o mágico Brasil de 1982 se sagrasse campeão! – os italianos sabiam que o objetivo do jogo era ganhar – e sabiam ganhar!
Ao longo das décadas, Itália teve jogadores míticos para todos os gostos e posições, de Altobelli a Zoff, com génios como Meazza, Baggio, Zola ou Del Piero pelo meio, além de líderes como Baresi, Cannavaro ou a dinastia Maldini. Todos e cada um, à sua maneira, espelhavam a classe do futebol italiano.
Além da seleção, habituámo-nos a ver os clubes italianos entre os melhores. Em qualidade, organização, estruturas, competitividade e ambição. Tudo isso parece, agora, uma miragem.
Já ouviu falar da maldição de Zidane?
Há quem defenda que depois da expulsão na final de 2006 (a célebre cabeçada em Materazzi) se abateu sobre a «Squadra Azzurra» uma «nuvem negra». A verdade é que, desde aí, a Itália caiu duas vezes na fase de grupos e, pior, depois falhou três mundiais seguidos! Acredite se quiser; se não quiser, argumente com o título europeu de 2020 – o último momento de glória.
Voltando aos clubes, é de 2010 o último título na Champions (o Inter de Milão de Mourinho, nessa época perfeita); depois, a Juventus esteve em duas finais, que perdeu; mais recentemente, o Inter fez o mesmo. Este ano não há um único representante da Serie A nos quartos-de-final da prova.
Na Liga Europa, longe vão os tempos de finais entre clubes italianos… A Atalanta ganhou em 2024, para quebrar um jejum de conquistas de 25 anos (desde o Parma de 1999). Este ano há um clube nos quartos – o Bolonha, que não é exatamente um favorito.
Como se chegou até aqui?
Roberto Baggio foi durante três anos diretor técnico da Federação italiana de Futebol. Saiu em 2013 dizendo que não o tinham deixado fazer o seu trabalho, que tinha feito um documento de 900 páginas com propostas de reformas que foram ignoradas.
Baggio queria mudar a formação de jogadores (com destaque para os avançados) dos treinadores, modernizar o scouting e proteger o talento italiano.
Baggio é do tempo em que só os melhores jogavam em Itália – e em que havia duas ou três vagas para estrangeiros por clube. O Milan teve os seus holandeses, o Inter os seus alemães, o Nápoles teve Maradona, Zico só entrou no Calcio pela porta da Udinese.
A «Lei Bosman» mudou tudo isso, o Calcio perdeu poder financeiro, os melhores jogadores passaram a preferir ir para Inglaterra ou Espanha, o nível baixou na Serie A - cheia de estrangeiros medianos ou medíocres – e isso reflete-se na seleção.
Até porque, ao contrário de Portugal, os melhores italianos não saem para os melhores clubes de outras ligas. E a formação também já não produz craques como costumava – ainda que as seleções jovens de Itália continuem a lutar por títulos.
Algo está mal, «dovvero male», no reino do Calcio. E isso não é um bom sinal para quem gosta mesmo deste desporto. Porque poucos países têm a mística, o elã da Itália e dos italianos – que fazem falta num Campeonato do Mundo.
PS – apesar de tudo, a Itália ainda está no 12º lugar do ranking da FIFA. É a seleção com melhor classificação das que não se apuraram para o Mundial deste ano. Se o Irão não for aos Estados Unidos da América – pelas razões que se conhecem – alguém está a ver uma repescagem de última hora por via do ranking?"
Alerta FPF! O que se passa com a formação e onde pára Pedro Proença?
"Entre o deserto de portugueses nos onzes da Liga e o descalabro das seleções jovens, a formação vive crise de identidade. Onde está, agora, a voz de Proença?
Enquanto os líderes do futebol português se divertem num jardim infantil de polémicas vazias, trocando insultos de baixo nível sobre cheiros de balneário e picardias de algibeira, algo profundamente preocupante está a acontecer nos alicerces da nossa casa.
Com todos a olhar para o lado, entre o silêncio cúmplice e a ausência de estratégia, a formação em Portugal está a desmoronar-se. O milagre português, que durante décadas espantou o mundo, parece ter entrado num processo de autodestruição assistida perante a passividade de quem deveria zelar pelo nosso maior património.
A realidade da 28.ª jornada da Liga e os resultados internacionais das últimas semanas são um murro no estômago da nossa autoestima. O que se passa na Cidade do Futebol? A pergunta é legítima e a resposta parece enterrada num silêncio institucional asfixiante.
Olhemos para os factos: no último fim de semana, o Sporting de Rui Borges deu uma lição de identidade ao apresentar sete portugueses no onze contra o Santa Clara, com os quatro golos da vitória a serem assinados por jogadores nacionais. Foi a exceção gloriosa que confirma uma regra doentia. No mesmo campeonato, o jogo entre Rio Ave e Alverca ofereceu-nos um cenário distópico: entre os 22 jogadores que iniciaram a partida, apenas um — repito, um! — era português. Como é possível pedir renovação se a nossa classe média fechou as portas ao produto interno em prol de um mercado de low-cost estrangeiro sem critério?
Este cenário de clubes transformados em entrepostos de mercadoria humana tem reflexo direto nas Seleções. Há apenas seis meses, celebrávamos o topo do mundo. Hoje, o descalabro é total. A Seleção Sub-17, que em 2025 detinha os títulos mundial e europeu, está fora das próximas grandes competições. O tombo dos sub-19 foi ainda mais violento: muitos dos heróis do ano passado sofreram humilhação histórica de 0-6 frente à Inglaterra, ficando também fora do Europeu. Passámos da glória ao abismo num piscar de olhos, e a sensação é de que a fábrica não está só a gripar; está a ser desmantelada pela precocidade das vendas e pela falta de espaço para errar e para crescer nas equipas principais.
E onde está a liderança? No ano passado, Pedro Proença foi rápido a subir ao palanque para colher os louros de sucessos que eram fruto de um trabalho estrutural anterior. Agora que ocupa a presidência da FPF há mais de um ano, e perante este cenário de terra queimada, Proença remete-se a um silêncio cómodo. Não houve uma palavra sobre a queda dos sub-17 e dos sub-19, nem uma linha estratégica para inverter a desertificação de portugueses na nossa Liga.
A formação tornou-se uma linha de montagem sem alma, focada no negócio imediato e esquecida da sua missão. Se a FPF continuar a assobiar para o lado enquanto os nossos jovens talentos são vendidos antes de aprenderem a fazer a barba, o futuro terá os dias contados. É tempo de acordar, sr. presidente. A grandeza de uma Federação não se mede pelos troféus de ontem, mas pela coragem de proteger o amanhã."
Caso Emiliano Sala: o desfecho de uma guerra de milhões
"O «caso Emiliano Sala» começou como tantos outros no futebol - uma transferência de inverno, um avançado em alta, um clube a apostar forte. Terminou de forma trágica e inesperada. Pelo meio, deu origem a um dos litígios mais marcantes dos últimos anos no futebol internacional, que conheceu esta semana o seu desfecho.
A 19 de janeiro de 2019, o Cardiff City formalizou o acordo com o FC Nantes para a contratação do avançado argentino, por cerca de 17 milhões de euros. Emiliano Sala assinou um contrato de três anos e meio, despediu-se em França e partiu para o País de Gales. Nunca chegou ao destino. O avião onde seguia despenhou-se no Canal da Mancha, na noite de 21 de janeiro.
O Cardiff recusou o pagamento da primeira tranche da transferência - cerca de 6 milhões de euros - defendendo que o negócio não estava totalmente concluído e suscitando dúvidas sobre a organização do voo. O Nantes, por seu lado, exigiu o cumprimento integral do acordo, mas, face à recusa de pagamento do Cardiff City, viu‑se obrigado a recorrer à FIFA para fazer valer o seu direito.
A resposta das instâncias do futebol foi unânime: tanto a FIFA, como o Tribunal Arbitral do Desporto de Lausanne (TAS/CAS) - este confirmando a decisão da FIFA após recurso do Cardiff - consideraram que o contrato de transferência era válido e eficaz, desde logo porque o Certificado de Transferência Internacional (ITC) já tinha sido emitido e o jogador se encontrava devidamente registado como atleta do Cardiff, considerando se a transferência, portanto, concluída. A partir desse momento, o risco passou para o Cardiff. Dito de forma simples, o contrato era para cumprir. E foi isso que acabou por acontecer, com o emblema galês a pagar a totalidade do valor da transferência ao longo de 2023.
Mas o litígio não ficou por aqui. Em resposta, procurando reverter o ónus financeiro do sucedido, nesse mesmo ano, o Cardiff avançou para os tribunais franceses com um pedido de indemnização de cerca de 122 milhões de euros, sustentando que o Nantes teria organizado o voo privado em que o jogador viajava, imputando responsabilidade pela tragédia ao clube francês. Tal pretensão indemnizatória alicerçou‑se num argumento polémico: um cálculo de pontos e golos esperados, realizado pelo clube, que considerou que a ausência do jogador argentino teria contribuído para a despromoção do clube à Segunda Divisão inglesa em 2019 - o ano da tragédia - o que provocou uma queda drástica nas suas receitas.
O Tribunal de Nantes não acompanhou este argumento, concluindo que não existia prova para demonstrar o nexo de causalidade entre a conduta do Nantes e o acidente, nem base para sustentar uma indemnização desta dimensão. No essencial, deixou uma mensagem clara: o direito não decide jogos nem valida cenários hipotéticos.
O cair do pano chegou com sabor de reviravolta: o Cardiff, que reclamava 122 milhões de euros de indemnização, acabou por ser condenado a pagar 480 mil euros ao Nantes, 300 mil a título de danos morais e 180 mil por despesas de representação legal.
Cumpre esclarecer que a coexistência destas duas decisões judiciais, no âmbito do mesmo caso, resulta de apreciações sobre matérias diferentes. No plano do direito desportivo internacional, a FIFA e o TAS/CAS pronunciaram se sobre a validade e execução do contrato de transferência, reforçando a centralidade do princípio “pacta sunt servanda” (os contratos são para cumprir) e a tendência de alocação objetiva do risco ao clube comprador assim que a transferência se considera concluída. No plano dos tribunais comuns, a decisão do Tribunal de Nantes centrou se na responsabilidade civil, delimitando os danos efetivamente indemnizáveis e demonstrando que a imputação de responsabilidade exige a verificação rigorosa dos pressupostos clássicos, não bastando a mera ocorrência de um evento danoso para justificar pretensões indemnizatórias de grande monta.
É justamente na interseção entre o direito desportivo e o direito comum que este caso se revela um exemplo paradigmático da complexidade jurídica no futebol profissional, evidenciando como diferentes ordens jurisdicionais podem analisar o mesmo evento segundo enquadramentos normativos próprios, sem comprometer a coerência global do sistema jurídico."
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