"Dos atletas que decidiram parar aos profissionais que trabalham nos bastidores, a saúde mental ganhou visibilidade. Mas estarão as organizações desportivas preparadas para transformar essa preocupação em condições reais de proteção?
Em 2024, Filipe Toledo, bicampeão mundial de surf, decidiu interromper a participação no circuito profissional para cuidar da sua saúde mental. Disse que uma década a competir ao mais alto nível tinha tido um custo e que precisava de parar para recuperar. Este ano, João Fonseca abdicou da digressão asiática de ténis, reconhecendo que precisava de dar tempo ao corpo e à cabeça depois de uma sucessão de lesões. Já em 2022, Declan Rice, internacional inglês e hoje jogador do Arsenal, se tinha tornado embaixador da CALM, uma organização dedicada à prevenção do suicídio, utilizando a sua notoriedade para incentivar outras pessoas a procurar ajuda.
Três atletas, três formas diferentes de reconhecer a importância e contribuir para uma preocupação que se tornou particularmente visível na última década. Já não falamos apenas de atletas que reconhecem dificuldades psicológicas. Falamos também de campeões que decidem parar, de jovens que aprendem a respeitar os seus limites e de figuras do desporto que assumem publicamente a defesa da saúde mental.
Multiplicaram-se as campanhas, os programas de apoio e as recomendações internacionais. Em agosto, o Comité Olímpico Internacional (COI) publicou uma nova declaração de consenso sobre saúde mental no alto rendimento, atualizando a de 20191. A investigação que a acompanha ajuda a perceber a dimensão do desafio.
A meta-analise (72 estudos) que sustenta a este consenso, estima que cerca de um em cada três atletas no ativo reporta sintomas de sofrimento psicológico. Aproximadamente um em cada cinco reporta sintomas de depressão, ansiedade ou perturbações do sono. Os comportamentos alimentares desordenados surgem em mais de um quarto dos participantes2.
Saúde mental
Saúde mental
Mas os atletas são apenas uma parte desta história.
Os treinadores vivem igualmente sob pressão. São avaliados pelos resultados, tomam decisões difíceis, gerem expectativas e trabalham, muitas vezes, com uma enorme incerteza sobre o futuro. Espera-se que transmitam confiança e estabilidade às equipas, mesmo quando a sua própria estabilidade está a ser posta à prova.
A investigação confirma que o desgaste é significativo. Num estudo longitudinal com 299 treinadores de alto rendimento, quase um quarto apresentava níveis elevados de exaustão no final da época3. A carga de trabalho e a dificuldade em conciliar a profissão com a vida pessoal surgem associadas a maior desgaste. Não se trata apenas de uma questão de resistência individual. As condições em que se exerce a profissão também contam.
Esta realidade estende-se a todo o tipo de profissionais que atuam nos bastidores: médicos, fisioterapeutas, psicólogos, preparadores físicos e outros elementos das equipas de suporte vivem sujeitos a calendários exigentes, viagens constantes, responsabilidades elevadas e à pressão de garantir que tudo funciona quando chega o momento de competir.
Num estudo australiano com 252 treinadores e profissionais de suporte, cerca de quatro em cada dez atingiram o limiar de rastreio para uma possível condição psicológica4, o que faz das preocupações associadas à saúde mental um assunto muito mais abrangente do que simplesmente um tema de atletas.
Na realidade, na generalidade das (poucas) situações em que o apoio existe, ele é especificamente direcionado a atletas – esperamos que treinadores e equipas técnicas cuidem do bem-estar de quem compete, mas nem sempre lhes proporcionamos condições equivalentes.
Quem cuida de quem cuida?
Durante muito tempo, a resposta à saúde mental no desporto concentrou-se sobretudo no indivíduo. Desenvolver competências para lidar com a pressão, gerir emoções, recuperar de um erro ou adaptar-se à adversidade. Tudo isto continua a ser fundamental. O alto rendimento exige preparação psicológica, tal como exige preparação física, técnica e tática.
Mas há uma pergunta que a investigação começou a colocar com maior insistência: e se parte do problema estiver também nas condições em que estas pessoas vivem e trabalham?
O papel das organizações desportivas
O desporto tem sido um enorme impulsionador da visibilidade do tema, inclusive na sociedade. Há mais atletas a falar sobre o assunto, mais investigação, mais programas e maior reconhecimento institucional. É um progresso importante, mas o verdadeiro compromisso não se mede pelo número de campanhas, pelas declarações de princípios ou pela existência de um gabinete de apoio psicológico. Mede-se pelas condições que as organizações oferecem e pela disponibilidade para modificar aquilo que as compromete.
Em 2024, um grupo internacional de especialistas descreveu situações em que psicólogos atendiam atletas no lobby de hotéis durante estágios e competições. Noutros casos, os gabinetes estavam localizados em zonas onde treinadores e dirigentes conseguiam observar quem entrava e saía – as organizações disponibilizavam apoio psicológico, mas não as condições para que o mesmo se pudesse efetivar.
Há uma diferença grande entre querer fazer e fazer de facto. E fazê-lo bem.
Construir uma cultura que proteja a saúde mental dos atletas, treinadores e demais colaboradores obriga a rever práticas de liderança, critérios de avaliação, políticas de confidencialidade, formas de comunicação e decisões organizacionais que se tornaram habituais, antecipando o impacto direto na qualidade dos contextos onde as pessoas desenvolvem a sua atividade.
O próprio processo de seleção e recrutamento do especialista que deverá ser responsável pela área de saúde mental tem levantado sérias questões éticas em muitas organizações, pois a visibilidade dada ao tema trouxe consigo também uma multiplicação de ofertas de apoio de carácter científico e ético duvidoso.
A naturalidade com que outras áreas encaram poder “fazer uma perninha” na área do apoio psicológico, saúde mental e mesmo na área do treino de competências emocionais é verdadeiramente assustadora e resulta, em última instância, no agravamento das condições de saúde mental de quem a eles recorre.
Ter alguém a desempenhar uma função não significa que essa função esteja a ser desempenhada por quem tem legitimidade e preparação para o fazer. E essa responsabilidade começa no recrutamento, e termina na organização que contrata.
Contribuir para ambientes que a protejam é também um dever, proporcional à influência e ao poder de cada um. A responsabilidade de quem dirige uma equipa, um clube ou uma federação não é a mesma de quem está sujeito às suas decisões.
A proposta de Orçamento do Estado para 2027 prevê uma dotação de 76 milhões de euros para o Desporto, quase 30% mais do que a relativa ao corrente ano. Mas saberemos qual a percentagem que será efetivamente canalizada para esta área (se é que haverá alguma)? Não seria expectável que a atribuição desta dotação viesse acompanhada de um compromisso por parte de quem a recebe, definindo que parcela será aplicada neste setor? Será que uma medida deste género é realmente tão inviável de concretizar?
Não, não é.
Precisa é de haver vontade política (diria coragem e visão) no sentido de orientar as organizações desportivas para um rumo que é uma necessidade cada vez mais emergente."


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