domingo, 11 de outubro de 2026

A Última Ceia de Cristiano Ronaldo não foi em Oslo


"Se Jorge Jesus quisesse afirmar a sua autoridade sobre Cristiano Ronaldo, não teria encontrado melhor ocasião do que a que teve no domingo à noite.
Depois das quatro vitórias e, sobretudo, do prazer de voltarmos a ver a Seleção Nacional jogar como joga agora, poucos reclamam o regresso de Cristiano para além de um jogo de despedida. Ninguém quer que Jesus saia.
Ao contrário do que proclama a vox populi, no futebol não são apenas os resultados que importam. A alegria vivida na noite da derrota na final do Euro 2004 desmente essa ideia.
Queremos um futebol de que nos orgulhemos: corajoso, ambicioso e de qualidade. Se ganharmos, como em 2016, tanto melhor.
O insuportável é a letargia morna e sem sal do último Mundial, jogado a passo, em que nem à RD Congo conseguimos ganhar.
Quando Jesus foi anunciado, esperávamos voltar a ver Portugal praticar um futebol que o mundo admirasse. Quatro jogos depois, acreditamos que o vai conseguir.
Ganhar o Mundial de 2030 seria uma alegria sem divisões, que imortalizaria os seus protagonistas. A probabilidade é baixa, mas não é zero. Com Jorge Jesus, aumentou. O selecionador foi o ponto fraco em 2026 e vai ser o ponto forte em 2030.
Jesus sabe que só dez milhões de portugueses o julgam. Os restantes habitantes do planeta não têm Portugal como primeira Seleção. Cristiano não está nessa situação.
E Jesus sabe, como poucos, que a gratidão pode ser mortal para um treinador. A frase de Estaline, segundo a qual a gratidão é a doença dos cães, traduz uma lógica brutal: só os resultados interessam. A Jesus, só ganhar interessa.
Tivesse menos confiança em si próprio e menos personalidade, depois de quatro vitórias e de perceber que os portugueses estavam do seu lado, a conferência de imprensa de domingo teria sido diferente: cheguei, vi e venci. Cristiano is finished.
Não o fez.
No Benfica, depois de Óscar Cardozo o confrontar de forma desrespeitosa na final da Taça de Portugal, Jesus perdoou. Na época seguinte, ganhou as três provas nacionais e disputou a final da Liga Europa.
Um treinador inseguro teria feito daquele episódio uma questão de autoridade. Jesus preferiu recuperar o jogador e continuar a ganhar.
Quanto ao comunicado de Cristiano Ronaldo, não o li até ao fim, mas não gostei do que li. Também foi demasiado longo, como os quarenta minutos de aquecimento.
A personalidade de Cristiano não é novidade. Os seus defeitos não começaram agora, nem a sua grandeza terminou com um erro.
Pedro Proença poderia ter feito como Pôncio Pilatos: lavar as mãos e deixar à multidão o veredicto final. Jesus ou Cristiano? Hoje, a decisão seria óbvia. Em vez disso, procura uma saída institucional.
A decisão técnica pertence ao selecionador; uma eventual infração disciplinar exige o apuramento dos factos e o respeito pelas competências da Federação. Cristiano revelou ter falado com Proença antes de sair do estágio. Importa saber o que foi dito, em vez de condenar primeiro e perguntar depois.
E o que resolverá um castigo?
Uma semana de discussão mundial, milhões de pessoas polarizadas, a Seleção transformada num campo de batalha e o nome de Portugal a ser enxovalhado pelo mundo inteiro?
Muitos dos que hoje reclamam uma sanção seriam os primeiros a contestá-la quando fosse aplicada. O castigo, em vez de encerrar o caso, vai ampliá-lo.
No recato de um treino, fazer vinte flexões sozinho, com os colegas à volta dele a rirem-se e pagar um almoço a todos não seria uma solução equilibrada e suficiente?
Há uma frase atribuída a um general romano sobre os povos da Hispânia: não se governam nem se deixam governar. A autoria é incerta, mas o retrato é atual.
Perante um problema, a nossa abordagem clássica é encontrar culpados. Nunca perdemos tempo a procurar soluções.
Com Cristiano, descobrimos subitamente defeitos que sempre conhecemos. A personalidade não mudou; mudou a disponibilidade para o criticar. Os golos deixaram de lhe garantir a imunidade.
É agora, mais vulnerável, que precisa, e merece, o nosso apoio. Não para desculpar os erros, mas porque tantas vezes nos deu alegria e orgulho em sermos portugueses.
Admiro-o profundamente e considero, ao mesmo tempo, que já não devia jogar na Seleção. Não há qualquer contradição.
Se Jesus entende que Cristiano pode ajudar a ganhar a Liga das Nações, confio no seu julgamento. Não por ser Cristiano. Por ser Jesus. 
A homenagem a Cristiano não devia ser um jogo de futebol. E seria extemporâneo fazê-la agora. Pense-se nela, naturalmente, mas reserve-se para o final da sua carreira de futebolista.
Roma sabia homenagear os seus generais vitoriosos em vida. Não lhes oferecia uma última batalha no Coliseu: abria-lhes as ruas, para que a multidão os saudasse. Porquê limitar a 50 mil espectadores a homenagem ao português mais conhecido de sempre?
Cristiano foi muito mais importante para Portugal do que Messi para a Argentina. Antes de Messi, a Argentina já tinha conquistado dois Mundiais e tivera Maradona, que disputava com Pelé o reconhecimento como melhor jogador de sempre.
Cristiano levou o nosso nome a todos os continentes e ajudou a transformar a autoestima de gerações. Há cinco séculos, os portugueses deram a conhecer novos mundos à Europa. No seu tempo, Cristiano deu a conhecer Portugal ao mundo.
No Triunfo Romano de César, o desfile que celebrou as suas conquistas, manteve-se a tradição de um escravo segurar uma coroa de louros sobre a cabeça enquanto lhe repetia ao ouvido que era mortal e não um deus.
A homenagem não exigia a ausência de pecados, mas que o homenageado também ouvisse críticas no momento da sua consagração, para não se esquecer de que não era mais do que um homem.
Cristiano será imortal na história do futebol, mas é humano. A sua grandeza não apaga os erros, nem os erros diminuem tudo o que deu ao país.
Cristiano não precisa de uma Última Ceia em Oslo nem de uma despedida à pressa.
Quando chegar o momento, que Portugal o homenageie nas ruas, como Roma fazia com os seus generais: celebrando o extraordinário, sem esquecer o homem."

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