"Ao ganhar na Noruega deixando Cristiano Ronaldo no banco, Jorge Jesus permitiu que se visse como pode ser diferente a abordagem ao jogo da Seleção Nacional. Neste fim de ciclo de um dos melhores jogadores de todos os tempos, o render da guarda deve ser feito com elevação, sem confundir gratidão com subserviência. Cabe a CR7 um papel ativo neste processo, seja titular, seja suplente...
GRANDE vitória de Portugal em Oslo, ao dia de hoje um dos mais difíceis palcos do futebol europeu para os forasteiros. Depois dos três pontos anémicos conseguidos em Alvalade frente a um País de Gales que já viu melhores dias, Jorge Jesus apresentou alterações de fundo na equipa nacional e a vida correu-lhe bem. Mas será justo resumir tudo ao facto de Cristiano Ronaldo ter visto o jogo do banco? Qualquer explicação que se apoie apenas num pilar será sempre inconsistente, daí que quem quiser, de forma simplista, ir por aí, vai mal.
O que está em causa é muito mais profundo e tem a ver, sobretudo, com a forma como Portugal, com onze jogadores na plenitude das suas capacidades físicas, consegue pressionar alto, prejudicando a qualidade da saída de bola dos adversários, e recuperando a posse mais cedo. Esta forma de jogar, mais de acordo com os padrões das grandes equipas, não permite que dez façam o trabalho de onze, só funciona se houver articulação, solidariedade e entrega.
Com Cristiano Ronaldo, Portugal começa o trabalho defensivo dez metros depois do meio-campo; sem ele, o ataque à bola é feito à entrada da grande área do opositor. Atenção: isto não é um pormenor, é um pormaior, porque mexe nos fundamentos de jogo! Quero com isto dizer que, aos 41 anos, e sem a disponibilidade física de outrora, Cristiano Ronaldo já não deve ser convocado? Pelo que pode aportar nos 15 ou 20 minutos de alta intensidade que ainda tem nas pernas; pelo efeito motivador que, se estiver com ‘animus bonus’, pode gerar nos companheiros; e pelo impacto que tem sobre os adversários, CR7 pode continuar a ser útil a Portugal, sem que se fique com a ideia de que a Seleção Nacional lhe está a pagar, dando-lhe a titularidade, 23 anos de bons serviços à Pátria.
Será que Cristiano Ronaldo aceita a realidade como acabei de descrever, ou sente que ainda deve ser ele mais dez no onze das quinas? Só o próprio pode responder a esta questão.
Escrevi, após o triunfo sobre Gales, que esta Liga das Nações será uma competição de transição para Portugal, que já não tem um jogador que leve a equipa às costas. Gostava que CR7 contribuísse para o novo ciclo, mostrando fora do campo a grandeza ímpar que teve dentro dele.
AO CONTRÁRIO dos confrades latinos, os portugueses têm o péssimo hábito de menosprezar os seus feitos. Se estamos à frente de um ‘ranking’ internacional é porque não é fiável; se nos atribuem galardões de excelência, é porque a coisa não é séria; e se dizem que somos um dos países mais seguros do mundo, só pode ser porque não leem os tablóides cá do burgo. A esta autoflagelação nem os Descobrimentos escapam, independentemente de, de facto, termos aberto novos mundos ao Mundo, porque a sanha negativista obriga a que a História seja treslida, explicando realidades do século XV com os parâmetros do século XXI. No Desporto não é diferente, como a Liga das Nações mostra: se vencemos a competição duas vezes, é porque não é de alto nível; e nem o facto de todas as Seleções apresentarem o que têm de melhor, e os estádios estarem a abarrotar, criando audiências televisivas de ‘top’, inverte esta vertigem pela mediocridade. Para os descrentes militantes dos nossos momentos de excelência, ainda no âmbito da Liga das Nações, o exuberante Inglaterra-Espanha pode ser um bom motivo de reflexão, embora não haja pior cego do que aquele que não quer ver…
CARTAS
ÁS
Vasco Vilaça
Em 2020 foi prata, cinco anos depois ficou com o bronze, ontem não deixou fugir o ouro: Vasco Vilaça, triatleta do Benfica, é o novo campeão do Mundo da exigente especialidade. Nove anos depois, o português, de 26 anos, reeditou o sucesso de 2017 no Mundial de juniores…
ÁS
João Félix
Jorge Jesus, ex-treinador do Al-Nassr, tem razões para se sentir orgulhoso do trabalho que fez com João Félix em Riade, devolvendo-o, tirando o melhor dele, ao caminho de que nunca devia ter sido desviado. Não estamos perante uma Fénix renascida, mas de um Félix renascido.
DUQUE
Roberto Mancini
A Bélgica, de Mark van Bommel, foi a Roma derrotar a Itália de Roberto Mancini por 0-2, na primeira jornada da Liga das Nações. Adensam-se assim as suspeitas de que a crise da Squadra Azzurra, ausente de Mundiais desde 2014, vai muito para lá de quem está com a batuta.
CAPA
Manchester City e o futuro do futebol
Apesar de terem sido dadas como provadas, pela Premier League, 114 das 115 acusações que pendiam sobre o Manchester City, tenho dúvidas fundadas de que a punição dos ‘citizens’ ultrapasse um puxão de orelhas. Entre o que será apurado nas instâncias de recurso e o que já estará prescrito - para além do que o músculo financeiro dos ‘blues’ representa para a economia do futebol - não me surpreenderá que a montanha venha a parir um rato.
FOTOLEGENDA
UEFA
O Israel-Irlanda disputado ontem em Debrecen, Hungria, foi transformado num ato político quando os irlandeses decidiram não cumprimentar os adversários, baixar a cabeça durante o hino israelita e usar um fumo negro, que representou o luto pela população de Gaza. A UEFA, para lá das exceções políticas que ‘abençoa’, tem-se mostrado inflexível com os movimentos autónomos, como foi o caso. Será este um momento de inflexão da UEFA? Ou vem aí uma punição severa aos irlandeses? Ou, ainda, será que a posição de Israel, no futebol europeu, vai ser revista em baixa em Nyon? Como sempre as perguntas são fáceis, as respostas é que são difíceis (e incertas…)."

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