domingo, 20 de setembro de 2026

Jorge Jesus mudou tudo sem mudar quase nada


"A primeira convocatória do novo selecionador é uma revolução sem revolucionários. Só não digam que não há uma revolução, porque há (nós é que estávamos a olhar para o sítio errado)

Há um ritual quase religioso no futebol português: contar as caras novas. É a nossa unidade de medida para as mudanças na Seleção Nacional e o entusiasmo é diretamente proporcional ao tamanho do número.
Nesse sentido, houve uma desilusão coletiva com a primeira convocatória de Jorge Jesus. Afinal de contas, quando o nome dele foi anunciado, meio país preparou-se para uma série de explosões: nomes novos, cortes dolorosos, regras conservadoras viradas do avesso.
E depois saiu a lista. Com quatro jogadores que não tinham estado no Mundial. Quatro. Apenas. De resto, nada de novo: os jogadores de sempre, pela ordem de sempre, com as fotos de sempre.
À primeira vista quase nada aconteceu e a reação do país foi imediata e previsível: afinal era isto? O pirómano veio de extintor na mão?
Não, nada disso. O discurso de Jesus explicou-nos que estávamos a olhar para o sítio errado. E, sejamos honestos, isso nem sequer devia surpreender-nos. Afinal de contas, Jorge Jesus nunca precisou de jogadores novos para descobrir jogadores novos. Ele foi o homem que olhou para Pizzi e viu um médio centro onde antes só existia um extremo. Pelo contrário, olhou para João Mário e viu um extremo onde antes só havia um médio centro. Olhou para Fábio Coentrão e viu um lateral, olhou para Enzo Pérez e viu um médio.
No fundo, não precisa de mudar o elenco para mudar o guião. E por isso começou a desmontar dogmas sem nos dar tempo, sequer, para digerir uma lista conservadora.
Com ele, João Félix joga no meio, como segundo avançado. Não é um «pode ser», nem um «às vezes cai ali». Nada disso, é segundo avançado e ponto final. Com o tempo, garante, irá acabar como primeiro avançado até. Enfim, não foi bem uma opinião tática: foi um quase diagnóstico de personalidade. Como se dissesse que Félix passou anos a ser mal traduzido.
Já Rafael Leão vai jogar muitas vezes pelo meio, que foi onde ele o lançou no Sporting, Fábio Silva traz princípios diferentes à posição de ponta de lança e o médio defensivo terá de ser um jogador posicional, ao jeito de Palhinha e Ruben Neves (mais do que de Vitinha).
Portugal abandonará o 4x3x3 tradicional, para jogar mais num 4x4x2, e Cristiano Ronaldo só será titular se tiver rendimento. Ou seja, a relação da Seleção com Ronaldo vai mudar: durante anos a pergunta foi como encaixar Portugal em Cristiano, Jesus pretende fazer o contrário, encaixar Cristiano em Portugal.
Não é fácil, vamos ver se o consegue.
Certo é que, bem vistas as coisas, a revolução não estava onde a procurávamos. Nós olhávamos para as caras e Jesus já tinha decidido que o que deve mudar são as ideias.
Ele não traz uma seleção nova: traz uma seleção diferente. Olhou para o que havia e decidiu não deitar os jogadores fora. Até porque, como sublinhou, Portugal não tem assim tanto talento que dê para construir duas equipas com a mesma qualidade. E, na vida dele, as caras foram sempre menos importantes do que o que ele pretende fazer com elas.
É uma revolução menos evidente do que se esperava? Talvez seja, sim. Ou, pelo menos, é legítimo pensar nisso. Só não é legítimo pensar que não houve uma revolução, porque houve.
Não veio foi no formato que estávamos preparados para a reconhecer.
Ou, colocado de outra forma, a primeira lista de Jorge Jesus teve muito pouco de revolucionário: já a primeira conferência de Jorge Jesus teve revolução por todo o lado."

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