terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sirvam o Benfica. Não se sirvam dele


"“Respeitem, sempre, o dinheiro do Clube. É dinheiro de gente simples e humilde. É dinheiro do esforço de gente pobre que dá, porque gosta muito do Benfica. Sirvam-no. Não se sirvam dele!”
Joaquim Ferreira Bogalho - 20º Presidente do Sport Lisboa e Benfica, o do Estádio da Luz.
Leio tantas vezes esta citação que é curioso me faltarem detalhes sobre ela. Por exemplo, os que o tempo poderá ter apagado: não é clara a data nem contexto em que foi proferida, embora possamos alvitrar: talvez já após a epopeia que levou à inauguração do Estádio da Luz, em algum discurso solene.
Não sou historiador, mas parece-me plausível. Certamente por nos remeter ao legado de Ferreira Bogalho e como se edificou uma catedral assente no esforço e devoção de um clube que conhecia e respeitava muito bem os seus valores fundadores. Não sou de intervir fora do grupo da bola. Por norma, não considero que o assunto do dia de cada dia mereça a minha posta de pescada. Não porque a considero mais exclusiva ou menos válida. Seja por pequenez, pequenez de espírito ou até falta de espírito, não é defeito, é feitio, o que não me diminui o direito à indignação! Então, desta vez, é de rajada. Considerem talvez um desabafo ou mesmo um pedido de ajuda.
Incomodou-me profundamente ler na manhã de 11/08/2026 que “os sócios com Red Pass podem aceder à App do Benfica e solicitarem, se assim o desejarem, o devido reembolso em carteira virtual”:
- Não se identifica motivo para não solicitar o reembolso. Afinal, todos vimos na TV que não estava lá ninguém e, atendendo às filas de espera para novos RP dos últimos anos, (no mínimo) muita gente pagou para assistir àquele jogo; - Conhecemos a realidade do país e o Benfica, pela sua dimensão e dispersão, naturalmente acaba a ser uma amostragem dessa realidade personificada na população e, neste caso, no universo de sócios, mais concretamente os detentores de RP. Facilmente entendemos que um RP é (no mínimo) um esforço financeiro que não está ao acesso de todos e representa certamente e para muitos um sacrifício: sai mesmo muito caro ir à bola, é um luxo;
- Não posso deixar de singularizar a forma como o “reembolso” pode ser solicitado: via app. Bem depois, por meio de um asterisco, esclarecem que esta solicitação pode afinal ser via Linha de Apoio do Benfica ou na loja no estádio. Esta adenda já chegou com menos pujança aos meios de comunicação e à espuma dos dias. É de esperar que, por menor literacia digital, (no mínimo) muitos sócios com mais idade tenham (no mínimo) dificuldades em aceder a este “reembolso”. Invocando novamente a premissa de Benfica enquanto amostragem da realidade nacional, estamos perante um número significativo de vulneráveis a esta situação. Não vejo que o argumento enfraqueça com um asterisco que não coube em nenhuma SMS (no mínimo), daquelas como as da Glassdrive, Norauto, Europcar, loja Damatta, Repsol, Sana, Suits inc. (Olha! E assim do nada, lembrei-me daquilo do sacrifício de ir à bola!) ou apelos à votação virtual para apreciação do District.
- O “reembolso” ser efetuado via wallet virtual também merece o meu comentário: o dinheiro veio da minha wallet, aquela tenho no meu bolso, que suporta as minhas outras despesas, e cai na wallet virtual. Subentendem mais uma vez que a wallet virtual passou a ser a tal wallet que temos no bolso. O dinheiro jamais sairá do mesmo sítio, é um circuito, portanto. Não me resta então derivar para o tema do “fraseamento”. Assim sendo, “reembolso” é um termo discutível, quando muito é um crédito. Este “erro de engano”, perante tudo o em cima exposto, não me parece um pormenor insignificante, no limite (ou mesmo no mínimo) é ironia;
- O cálculo dos 4,7% e 3,6% simplesmente aparece enquanto O resultado final. Indicam que é suportado por uma média e uma previsão para o primeiro jogo do campeonato. O valor é então este porque “foi o que deu aqui na conta que a gente fez”, e terminam as explicações dando lugar a opacidade (no mínimo);
- Por fim, 3 dias para solicitar o “reembolso” se assim o entendermos é (no mínimo) muito curto. 3 dias a contar “já amanhã às 10h”. Transmite a ideia de tentativa bem- sucedida para a redução da exposição do clube a um risco, que se trata na verdade de um reembolso devido.
Por ignorância não me prenuncio sobre a legalidade. Provavelmente nada disto é juridicamente má-fé, mas toda esta fricção não tem como não ser entendida como intencional. Boa-fé não será, muito menos à Benfica.
Não compreendo qual o peso de uma mais-valia para que todo o modelo de “reembolso” esteja desenhado para reduzir o seu valor em prol da otimização da operacionalidade financeira. Sugere que a filosofia e espírito do modelo não prioriza ressarcir os seus sócios. Até porque não se pode considerar isto uma “perda” exclusiva do clube.
O nosso grandioso passado mostra-nos marcas de superação de dificuldades a todos os níveis com a ajuda da boa vontade e até mecenato ou voluntariado dos sócios e adeptos, à Benfica. Foi isto que nos ergueu para o maior de Belém, de Lisboa, de Portugal e do mundo, de campo em campo para uma catedral, um palmarés e uma Mística.
Este episodio dá boleia à validação do chavão: “este clube trata os seus sócios como clientes. Se os sócios tratassem o clube como empresa, dificilmente seriam clientes satisfeitos”. Tenho esperança que muitos concordem e se identifiquem com isto. Que o episodio sirva para uma reflexão mais sustentada que isto. Estamos a perder todos mínimos exigíveis.
“Cada adepto gasta 22 euros por jogo. Queremos chegar aos 40 euros em cinco anos”
Nuno Catarino em 2025 - 3º diretor financeiro do 34º Presidente do Sport Lisboa e Benfica, o do District.
VIVA O BENFICA!
Um Benfiquista dos 100%"

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