"O DESPORTO-REI
CRIOU UM DIA EM QUE
O DESPORTO FOI REI.
O desporto é por natureza
justo. Não promete facilidades, nem concede privilégios. Em campo, no
pavilhão ou nas pistas, só triunfam os que ousam ir mais além:
os que resistem, os que lutam, os
que acreditam até ao fim. Qualidade, esforço, garra e ambição
são os fatores que distinguem
carreiras de sucesso das que
ficam aquém.
Ainda assim, persiste uma
desigualdade: certas modalidades
vivem na sombra de outras. O futebol, em grande parte do mundo,
assume-se como o expoente máximo e o principal foco mediático.
Mas houve um dia em que esse
equilíbrio foi desafiado.
O treinador da equipa de
honra do Benfica, Otto Glória, e
os futebolistas Artur, Naldo,
Calado e Monteiro decidiram
inverter a lógica dominante e
devolver protagonismo às modalidades. Assim nasceu o Festival
da Solidariedade, cuja principal
missão era “galardoar os atletas
que mais se distinguem nas restantes modalidades”, premiando
os melhores de ambos os géneros com um troféu.
A 22 de novembro de 1955,
viveu-se muito mais do que um
espetáculo no Pavilhão dos Desportos. Viveu-se a essência do
Benfica. Num ambiente vibrante
e imprevisível, os atletas encarnados quebraram rotinas e superaram fronteiras. Os futebolistas
surpreenderam tudo e todos com
um sarau de ginástica. Após
este número, defrontaram a
equipa de andebol numa partida de basquetebol, vencendo
por 16-5.
Costa Pereira, experiente na
modalidade, confirmou a sua
qualidade. Pegado, Mário João
e Bastos emergiram como grandes revelações. E, no plano
mais leve, Ângelo e Calado brilharam no humor, “os dois eternos enfant gaté”.
Seguiram-se dois jogos de
andebol: primeiro, um empate a
três bolas entre o atletismo e o
hóquei em patins; e, depois,
novo empate, desta feita a duas
bolas, entre o râguebi e a luta. No
futebol de salão, o basquetebol
venceu o voleibol por 1-0, num
encontro tão renhido que deixou
no ar o desejo de uma desforra.
Foi assim, num ambiente de
genuíno desportivismo, que os
atletas ofereceram ao público a
certeza de que incarnam “a mística que é a razão própria da
legenda gloriosa do nosso Benfica: E pluribus unum”. Uma mística feita de união, orgulho e identidade.
Saiba mais sobre as modalidades benfiquistas na área 3 –
Orgulho Eclético, do Museu Benfica – Cosme Damião."
António Pinto, in O Benfica

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