quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Festival da Solidariedade, um tributo às modalidades


"O DESPORTO-REI CRIOU UM DIA EM QUE O DESPORTO FOI REI.

O desporto é por natureza justo. Não promete facilidades, nem concede privilégios. Em campo, no pavilhão ou nas pistas, só triunfam os que ousam ir mais além: os que resistem, os que lutam, os que acreditam até ao fim. Qualidade, esforço, garra e ambição são os fatores que distinguem carreiras de sucesso das que ficam aquém.
Ainda assim, persiste uma desigualdade: certas modalidades vivem na sombra de outras. O futebol, em grande parte do mundo, assume-se como o expoente máximo e o principal foco mediático. Mas houve um dia em que esse equilíbrio foi desafiado.
O treinador da equipa de honra do Benfica, Otto Glória, e os futebolistas Artur, Naldo, Calado e Monteiro decidiram inverter a lógica dominante e devolver protagonismo às modalidades. Assim nasceu o Festival da Solidariedade, cuja principal missão era “galardoar os atletas que mais se distinguem nas restantes modalidades”, premiando os melhores de ambos os géneros com um troféu.
A 22 de novembro de 1955, viveu-se muito mais do que um espetáculo no Pavilhão dos Desportos. Viveu-se a essência do Benfica. Num ambiente vibrante e imprevisível, os atletas encarnados quebraram rotinas e superaram fronteiras. Os futebolistas surpreenderam tudo e todos com um sarau de ginástica. Após este número, defrontaram a equipa de andebol numa partida de basquetebol, vencendo por 16-5.
Costa Pereira, experiente na modalidade, confirmou a sua qualidade. Pegado, Mário João e Bastos emergiram como grandes revelações. E, no plano mais leve, Ângelo e Calado brilharam no humor, “os dois eternos enfant gaté”.
Seguiram-se dois jogos de andebol: primeiro, um empate a três bolas entre o atletismo e o hóquei em patins; e, depois, novo empate, desta feita a duas bolas, entre o râguebi e a luta. No futebol de salão, o basquetebol venceu o voleibol por 1-0, num encontro tão renhido que deixou no ar o desejo de uma desforra.
Foi assim, num ambiente de genuíno desportivismo, que os atletas ofereceram ao público a certeza de que incarnam “a mística que é a razão própria da legenda gloriosa do nosso Benfica: E pluribus unum”. Uma mística feita de união, orgulho e identidade.
Saiba mais sobre as modalidades benfiquistas na área 3 – Orgulho Eclético, do Museu Benfica – Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

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