"Infantino convenceu-se de que se tinha transformado num monarca e de que a sua vontade era lei: acatada e incontestada. Enganou-se.
Sucedem-se críticas públicas de dirigentes de topo da FIFA, demissões e acusações de falta de transparência relativamente ao plano para alienar uma participação nas receitas futuras do Mundial através de uma nova estrutura comercial. A FIFA vive a sua maior crise institucional desde 27 de maio de 2015, quando vários dirigentes foram detidos em Zurique, no escândalo de corrupção que acabaria por precipitar a queda de Sepp Blatter e mudar para sempre a história da organização.
A este propósito, convém destacar a figura de Alejandro Domínguez, presidente da CONMEBOL (Confederación Sudamericana de Fútbol) . Cada líder escolhe o papel que quer desempenhar. Uns representam os interesses das instituições que dirigem. Outros preferem representar os interesses de quem ocupa o poder. Alejandro Domínguez parece ter feito essa escolha há muito tempo.
É uma figura pedante e bajuladora que se transformou na lebre de Infantino. Alguém sem credibilidade, sem carisma e sem estatura intelectual para liderar uma confederação com a história da CONMEBOL, mas com uma enorme necessidade de protagonismo e uma disponibilidade permanente para servir os interesses do presidente da FIFA.
Em 2023, foi o primeiro a anunciar como uma vitória sul-americana a solução encontrada por Infantino para o Mundial de 2030, apresentando-a como o "regresso" do Campeonato do Mundo à América do Sul, quando, na realidade, se tratava apenas da realização de três jogos inaugurais antes de a competição seguir para Portugal, Espanha e Marrocos. Tudo isto num tweet absolutamente decadente em que aparecia a dançar. Horas depois a FIFA confirmava os jogos comemorativos na américa do sul.
Há duas semanas voltou a desempenhar exatamente o mesmo papel, ao antecipar publicamente a proposta de um Mundial com 64 seleções, muito antes da FIFA apresentar oficialmente um estudo para tal alargamento. Domínguez é sempre o primeiro a testar a reação pública às ideias de Infantino e o primeiro a procurar legitimá-las. Age mais como um emissário do presidente da FIFA do que como representante do futebol sul-americano. Acaba por simbolizar uma parte da velha elite dirigente do futebol internacional: demasiado dependente do poder, demasiado conformada com ele e demasiado disponível para o servir.
A UEFA esteve bem e liderou o movimento que travou o projeto de Infantino. Pela primeira vez em muitos anos, o presidente da FIFA percebeu que o seu poder tem limites e que nem todas as suas vontades se transformam automaticamente em decisões. Resta saber se este foi apenas um revés político ou o princípio do fim de um modelo de liderança cada vez mais isolado."

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