terça-feira, 16 de junho de 2026

O Mundial 2026 vê-se na vertical


"Olho à volta na zona de imprensa e sinto-me um dinossauro. Que raio aconteceu ao mundo? Houve um tempo em que a cobertura de um Campeonato do Mundo não se fazia sem um bloco de notas todo gasto do tempo. Havia os sons clássicos do bater furioso nas teclas do portátil e das vozes a anunciar: “um, dois, três, gravar”.
Hoje já ninguém anuncia que vai gravar. Desconfio até que hoje já ninguém grava. O jornalismo foi tomado de assalto pelos diretos para as redes sociais. O som destes nossos tempos é o do zumbido dos estabilizadores de imagem.
No primeiro treino da Seleção Nacional, por exemplo, havia gente do Brasil, de França, do Panamá, da Costa Rica, da Colômbia, da Bolívia, enfim, uma autêntica legião de repórteres armados apenas com um stick, um smartphone e um microfone de lapela. A falar ininterruptamente e a mostrar tudo o que estava a acontecer em direto.
Ora isso levou-me a outra evidência: o Mundial de 2026 já não se consome nas páginas do dia seguinte e acho que há cada vez menos paciência para esperar pelo programa da noite. O Mundial 2026, hoje, consome-se em vídeos de quinze segundos.
A análise tática e a crónica de fundo estão a perder terreno para o engagement, para o POV e para o áudio que está a bater no TikTok.
Será que são eles que estão errados? Há quem diga que é uma moda passageira, como já diziam da internet em 2001 ou do Facebook em 2008.
Eu tenho sérias dúvidas. Acredito que isto ainda é tudo muito recente e, como todas as novidades, precisa de amadurecer. Mas não tenho dúvidas de que o jornalismo tradicional vai ter de aprender a conviver com os criadores de conteúdo. É que a bola continua a ser redonda, mas cada vez mais gente quer vê-la na vertical."

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