"A Itália ainda é a terceira nação com mais sucesso na história dos mundiais. Mas vai ficar, pelo menos, 16 anos sem marcar presença numa fase final. E não é só a «Squadra Azzurra» que está em crise; os clubes italianos também andam longe dos seus áureos tempos de glória internacional. Algo vai mal, «veramente male» no reino do Calcio.
O título deste texto até podia ser «Mamma mia!», mas, se calhar, não era tão apelativo. E, provavelmente, sendo também uma expressão tão idiossincraticamente italiana, não terá sido tão exclamada na terça-feira quanto a escolhida. Imagine-se o sofrimento dos devotos e ufanos «tiffosi» perante o desencontro da sua realidade futebolística com a história gloriosa do Calcio…
Ainda se lembra de quando a Itália tinha de estar sempre entre os candidatos a ganhar as grandes competições?
Mesmo acusados de pragmatismo extremo, de cruel cinismo, de recorrerem ao famigerado «catenaccio», de aplicarem espartilhos táticos às seleções mais talentosas – de causarem desgostos ao mundo, como não permitir que o mágico Brasil de 1982 se sagrasse campeão! – os italianos sabiam que o objetivo do jogo era ganhar – e sabiam ganhar!
Ao longo das décadas, Itália teve jogadores míticos para todos os gostos e posições, de Altobelli a Zoff, com génios como Meazza, Baggio, Zola ou Del Piero pelo meio, além de líderes como Baresi, Cannavaro ou a dinastia Maldini. Todos e cada um, à sua maneira, espelhavam a classe do futebol italiano.
Além da seleção, habituámo-nos a ver os clubes italianos entre os melhores. Em qualidade, organização, estruturas, competitividade e ambição. Tudo isso parece, agora, uma miragem.
Já ouviu falar da maldição de Zidane?
Há quem defenda que depois da expulsão na final de 2006 (a célebre cabeçada em Materazzi) se abateu sobre a «Squadra Azzurra» uma «nuvem negra». A verdade é que, desde aí, a Itália caiu duas vezes na fase de grupos e, pior, depois falhou três mundiais seguidos! Acredite se quiser; se não quiser, argumente com o título europeu de 2020 – o último momento de glória.
Voltando aos clubes, é de 2010 o último título na Champions (o Inter de Milão de Mourinho, nessa época perfeita); depois, a Juventus esteve em duas finais, que perdeu; mais recentemente, o Inter fez o mesmo. Este ano não há um único representante da Serie A nos quartos-de-final da prova.
Na Liga Europa, longe vão os tempos de finais entre clubes italianos… A Atalanta ganhou em 2024, para quebrar um jejum de conquistas de 25 anos (desde o Parma de 1999). Este ano há um clube nos quartos – o Bolonha, que não é exatamente um favorito.
Como se chegou até aqui?
Roberto Baggio foi durante três anos diretor técnico da Federação italiana de Futebol. Saiu em 2013 dizendo que não o tinham deixado fazer o seu trabalho, que tinha feito um documento de 900 páginas com propostas de reformas que foram ignoradas.
Baggio queria mudar a formação de jogadores (com destaque para os avançados) dos treinadores, modernizar o scouting e proteger o talento italiano.
Baggio é do tempo em que só os melhores jogavam em Itália – e em que havia duas ou três vagas para estrangeiros por clube. O Milan teve os seus holandeses, o Inter os seus alemães, o Nápoles teve Maradona, Zico só entrou no Calcio pela porta da Udinese.
A «Lei Bosman» mudou tudo isso, o Calcio perdeu poder financeiro, os melhores jogadores passaram a preferir ir para Inglaterra ou Espanha, o nível baixou na Serie A - cheia de estrangeiros medianos ou medíocres – e isso reflete-se na seleção.
Até porque, ao contrário de Portugal, os melhores italianos não saem para os melhores clubes de outras ligas. E a formação também já não produz craques como costumava – ainda que as seleções jovens de Itália continuem a lutar por títulos.
Algo está mal, «dovvero male», no reino do Calcio. E isso não é um bom sinal para quem gosta mesmo deste desporto. Porque poucos países têm a mística, o elã da Itália e dos italianos – que fazem falta num Campeonato do Mundo.
PS – apesar de tudo, a Itália ainda está no 12º lugar do ranking da FIFA. É a seleção com melhor classificação das que não se apuraram para o Mundial deste ano. Se o Irão não for aos Estados Unidos da América – pelas razões que se conhecem – alguém está a ver uma repescagem de última hora por via do ranking?"

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