sexta-feira, 3 de abril de 2026

O que têm Beethoven e Schjelderup em comum?


"Faz hoje 226 anos que a 1.ª Sinfonia se estreava em Viena. Foi arrasada pela crítica. Só que o verdadeiro poder está do lado de quem escolhe em quem acreditar: nos críticos ou em si mesmo?

A 2 de abril de 1800 — passam hoje 226 anos — Beethoven subia ao palco, em Viena, para estrear a 1.ª Sinfonia. O palco do Burgtheater. E, desde já esclareço, para evitar confusões, não era um restaurante de hambúrgueres... Certo é que a crítica arrasou a obra: demasiado inovadora, disseram, uma piada em jeito de desrespeito perante a ordem clássica das sinfonias. Beethoven, felizmente, não lhes deu ouvidos. E ainda bem. Se o tivesse feito, talvez hoje não existissem mais oito sinfonias, nem aquele momento absoluto que é o Hino à Alegria — escrito já quando o silêncio era, para ele, total.
O escritor norte-americano Elbert Hubbard (1856–1915) dava até um conselho: «Se não queres críticas, não faças nada, não digas nada e não sejas nada». Seria, acrescento eu, a mais deprimente das conceções existenciais: viver a vida de forma a que caiba numa lápide a assinalar a data de nascimento e de morte, num vazio de nada pelo meio.
Já Mark Twain (1835–1910), o autor de As Aventuras de Tom Sawyer, aconselhava a nunca darmos explicações a quem nos critica de forma mais dura e injusta. Quem gosta de nós não precisa dessas explicações; quem não gosta nunca vai mudar de opinião e apenas procura arsenal para novas críticas.
Na última terça-feira, falava com uma jovem a entrar no mercado de trabalho e a viver numa fase em que duvida se tem o que é preciso para vencer. Disse-lhe que a questão primeira não é saber se tem ou não o que é preciso; é saber se tem ou não a paixão e o prazer pelo que quer fazer. A segunda é entender que só vai onde quer se for a melhor versão dela mesma. A autenticidade pode até gerar antipatias, mas também muitas simpatias e apoios, e são estes que nos vão ajudar a seguir em frente. Terceiro conselho: nunca ficar afetado com uma crítica. Se é justa, aprendemos e agradecemos; se não é justa, vai para a pasta de spam… O que nunca pode acontecer — e acontece sempre — é esta reação tão humana de, ao fim de um dia com nove pessoas a elogiar-nos e apenas uma a criticar, ser essa a condicionar a qualidade do nosso sono.
Não sei o que Schjelderup pensou da vida há poucos meses, quando ouvia o próprio José Mourinho criticar a forma como jogava, como não defendia. Com janeiro à porta… a porta de saída estava escancarada. Três meses depois, é a imprensa catalã a falar de uma possível investida do Barcelona.
Schjelderup ouviu críticas justas e injustas. Saber a diferença entre ambas é um exercício que pode ser muito difícil. Seguir em frente é essencial. O tempo tem destas coisas e Schjelderup é apenas um entre tantos e tantos exemplos: não somos necessariamente como nos definem; não somos obrigados a cumprir um destino que outros traçaram para nós; em cada segundo há sempre uma segunda oportunidade para uma 1.ª Sinfonia. E restantes que queiramos compor.
Entre dedos que ficam e anéis que podem ou não ir, que fique o sorriso de quem faz o que faz por paixão e procura, na sua consciência — e não na validação externa —, a avaliação que faz sobre a vida. Não devemos temer o julgamento externo, só o julgamento feito no silêncio de nós mesmos."

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