sábado, 11 de abril de 2026

Mais Rafas e menos Sudakovs (e o que se sabe dos próximos erros de Rui Costa)


"A época do Benfica tem três grandes culpados. Um está no gabinete da presidência, outro no banco e o terceiro lavou as suas mãos quando teve a oportunidade de evitar o abismo

Chegamos a 10 de abril e não há surpresas. Um clube sem rumo dificilmente conseguiria resultados desportivos e financeiros de excelência, tal como uma equipa sem QI considerável só por milagre tridimensional, que afetasse a si e aos dois rivais ao mesmo tempo, conseguiria ser campeã e chegar longe noutros objetivos.
Se alguém está surpreendido é porque não tem andado por aqui. E prefira perder tempo com queixas por ter deixado em Fátima velinhas insuficientes para o milagre ou os malfadados árbitros andarem a fazer das suas.
Neste julgamento, os culpados atropelam-se à vista de todos. Embora, na verdade, todos pareçam inimputáveis. O mais visível é José Mourinho.
O futebol que o Benfica joga não só é o pior em muito tempo, como é ilógico e não promete melhorias. Este plantel, que primeiro elogiou (sim, mental games…) antes de ser por este eliminado para depois desdenhar, assim que o herdou, foi construído com as ideias de alguém que pensa parecido, como é Lage. Nunca se tratou de ter um 11 ou, pior, um plantel novo para o tornar à sua imagem.
Depois, todas as decisões, seja no dia a dia, no mercado ou verbalizadas, vão no sentido de um Benfica ainda mais radical e extremo: acrescentar fisicalidade, velocidade e capacidade de desequilíbrio individual, seja pela relva ou pelo ar. Ou seja, precisamente mais Rafas e Lukebakios do que Sudakovs e Schjelderups. E, eventualmente, o tal pinheiro — foi só há quase 16 anos que Paulo Sérgio pediu um para Alvalade!
Mourinho quer levar a vertigem de Lage ao abismo, quando o conterrâneo, há meses, já tinha percebido que também precisava de jogadores como o ucraniano (faltou-lhe entender que um só não era suficiente).
Depois, onde está o projeto? Todas as decisões são ao dia. Schjelderup ia sair, mas fez ponto em castelo da defesa merengue e ganhou a confiança que procurava para ser hoje o principal desequilbrador. Prestianni era curto, mas foi ao Mundial sub-20. Scaloni começou a olhar para ele e, mais focado e moralizado, cresce a ritmo distinto dos demais. Não foram trabalhados, não estão diferentes, têm, sim, uma maior fé em si próprios.
Entretanto, num momento em que Sudakov também parecia mais influente, Mourinho e o clube avançaram para Rafa. Já então Aursnes e Leandro Barreiro estavam no miolo, fruto das ausências, e a consistência tinha-lhe caído aos pés, por muito que apostasse num 10 luxemburguês. O Special One, que nunca quis nada daquilo, regressará sempre à vertigem à primeira oportunidade.
Falta a formação, que Mourinho vai lançando para que os nomes apareçam no currículo ou enquanto galões no uniforme, mas não por muito tempo em campo. Para o Casa Pia, queixou-se que não havia Dedic… mas ignorar que Banjaqui já reclama o espaço de (pelo menos) Bah é negligência que pode custar caro. Tal como Neto poderia ser hoje mais dinâmico do que Dahl.
Houve tentativas com maior ou menor expressão com Rodrigo Rêgo, João Rego e Ivan Lima, todavia Gonçalo Oliveira não deve ter ficado feliz com a adaptação de Barrenechea num momento que ele, como central esquerdino, poderia aproveitar como rampa de lançamento. Já para não falar dos 21 minutos, distribuídos por dois jogos, que os elogios a Prioste valeram ao próprio, enquanto Gonçalo Moreira, pelo qual há um fraquinho e tem estado em grande na B e na Youth League, ainda nem 1 somou. Anísio, por sua vez, marcou e meteram-no a tirar o curso de bombeiro.
Mesmo Manu, que era tão preciso para a rotação de Enzo quando estava lesionado, agora raramente sai do banco. Mourinho pode ser um génio a comunicar e até agora poderia atirar-me com o que Cruijff dizia: «Se eu quisesse que entendesses teria explicado melhor.» Mas eu não importo. E, por isso, questiono: também se passa o mesmo com os atletas?
Claro que quem vê a big picture, percebe que Mourinho não é solução para resgatar de volta o campeonato, em que o processo será sempre mais importante do que a estratégia pontual, tal como saber ultrapassar blocos baixos e não só especializar-se em transições.
Até na perspetiva de ser perito em finais — ele que tanto critica o Tottenham pelo momento do despedimento — parece esgotado: falhou as meias da Taça da Liga com o SC Braga e com o Vitória Guimarães à espera; foi eliminado da Taça no Dragão nos quartos; e ainda não conseguiu bater FC Porto e Sporting e assim aproximar-se por mérito próprio dos rivais. Já para não falar do empate com o Casa Pia, que voltaria a colocar os encarnados na luta. Emocionalmente, não está lá. Muito menos o futebol jogado deixa promessas que possam ser cumpridas por jogadores mais físicos e velozes. Um futebol que culturalmente nada tem que ver com o Benfica. E, por fim, também não irá abrir espaço para os mais novos.
Para quem não tem estado atento, Mourinho podia, de facto, ter sido jogada de génio: Rui Costa ganharia as eleições, juntava-lhe o título e saía aos ombros dos adeptos. O nome e o passado derrotaram os outros candidatos, que também tinham uma razoável taxa de rejeição, e falhou no resto. Na parte desportiva. Agora, pode virar-se contra si. Mourinho ganhou umas eleições e pode levar a outras.
Talvez passe a 4.ª jornada, mas o futuro está longe de ser risonho. O presidente, com um plantel que já tem pouco por onde alimentar novas compras, sem Champions e com rasto assinalável de más decisões, vai dar a Mourinho armas que vão criar maior fosso entre o que o Benfica é e o que deve ser.
Em sintonia com o treinador, ao símbolo da formação encarnada só resta fechar os olhos e repetir: «Não me interessa jogar ao ataque, o futuro para além do imediato e mesmo o Seixal.» E não irá ver o precipício!
O outro e último responsável, todos sabemos, é coletivo. Os sócios que tiveram oportunidade de mudar e, mesmo com exemplos positivos — se não excelentes pelo menos menos maus do que os antecessores — nos rivais que tinham feito o mesmo, escolheram a continuidade. Pois bem, aí está ela! Em toda a sua dimensão!"

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