"O EXTREMO TEVE UMA
ASCENSÃO METEÓRICA E
AFIRMOU-SE NUMA EQUIPA
REPLETA DE TALENTO
Quando observamos uma
constelação, à primeira vista
dificilmente distinguimos as
estrelas mais jovens. Com o
tempo, estas tornam-se evidentes:
giram mais velozmente, exibem
campos magnéticos intensos e irradiam energia com particular fulgor.
Assim emergiu Simões no firmamento encarnado.
Em janeiro de 1960, o jornal
O Benfica entrevistou a mais recente contratação da equipa de juniores. Dias depois, confirmou que “as
suas qualidades de futebolista correspondiam ao que dele nos dissera com entusiasmo José Valdivielso, que o fez estrear” na 1.ª jornada
do Campeonato Distrital, frente ao
Belenenses. O extremo entrou na segunda
parte e precisou de apenas 8 minutos para
inaugurar o marcador. Rendidos à evidência,
os jornalistas deram um título sugestivo:
“Simões – uma nova estrela?”
Era ainda um núcleo pré-estelar, mas já uma
verdadeira onda de choque. Imprimia verticalidade ao lado esquerdo do ataque benfiquista,
provocando colisões sucessivas nas defesas
adversárias, que superava com dribles desconcertantes. Nessa temporada, sagrar-se-ia campeão distrital e nacional. Na época seguinte,
afirmou-se como protoestrela de uma equipa
que revalidou o título distrital, merecendo a
promoção à equipa de honra em 1961/62.
Em janeiro de 1962, contava apenas 5 jogos
na equipa de honra. Contudo, após a expulsão
de Cavém frente ao Beira-Mar e a poucos dias
de receber o Sporting, Béla Guttmann foi
perentório: “Simões tinha 99% de possibilidades” de ser titular.
No último treino antes da partida, realizou uma exibição memorável: “Precioso nos dribles, perigoso a rematar, rapidíssimo nas
fugas e, muito em especial, desconcertante na maneira de servir
os companheiros na melhor altura
e para o sítio ideal.” O 1% que faltava dissipou-se. Guttmann deixou
de ter dúvidas ao assistir ao comportamento do jovem nesse treino.
Num encontro de elevada exigência, o extremo “dominou os seus
nervos, jogando com a descontração de um veterano, de tal modo
que Hilário não foi capaz de o dominar. Faltou-lhe um golo, que esteve
à beira de marcar por duas vezes”.
A sua prestação havia sido inequívoca: “Foi, para nós [jornal O Benfi‑
ca], o melhor jogador do Benfica.”
Era o início da fusão nuclear.
Conquistou definitivamente o
lugar no onze. A partir do flanco
esquerdo, com a bola colada aos pés,
transformava o futebol físico e intenso numa expressão estética: “Suave,
artística, bela” e profundamente eficaz. Acrescentou velocidade e fantasia a uma
equipa que voltaria a conquistar a Europa e a
vencer a Taça de Portugal. O jornal Diário
Popular, por indicação do prestigioso Ricardo
Ornelas, elegeu-o Jogador do Ano. Confirmava-se a premonição, nascera uma estrela
para integrar a constelação encarnada.
Saiba mais sobre este excecional futebolista na área 23 – Inesquecíveis, do Museu Benfica – Cosme Damião."
António Pinto, in O Benfica

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