quarta-feira, 4 de março de 2026

Prestianni: fora de jogo à presunção de inocência?


"Eis o que se sabe sem suposições: o Benfica jogou contra o Real Madrid em Lisboa. Vinícius marcou o magnífico golo da vitória do Real. Festejou com gesto ordinário para os adeptos do Benfica. E depois insultou Prestianni. Logo a seguir, desatou a correr e disse ao árbitro que o extremo argentino lhe tinha chamado «mono», macaco em português.
O árbitro acionou o protocolo anti-racismo, o jogo esteve suspenso, e só retomou alguns largos minutos depois. Prestianni negou sempre ter chamado macaco a Vinícius. Mbappé diz que ouviu o jogador do Benfica, que tinha a camisola à frente da boca, chamar macaco ao astro brasileiro cinco vezes. Mbappé, claro, é do Real Madrid e tem interesse em apoiar Vinícius na suspensão de Prestianni. Mas Mbappé estava longe do internacional jovem pela Argentina quando isso aconteceu. Aliás, também Vinícius estava a uns metros de Prestianni, que terá falado através da camisola, que abafa naturalmente o som. E, claro, no relvado o ruído de fundo é enorme, por força dos sons emitidos pelos 64.876 espectadores.
Em resumo, é impossível provar o que disse ou não disse o futebolista argentino. E daqui não é possível sair. E, sem qualquer evidência, e mesmo depois de o jogador ter afirmado não ter cometido qualquer ato de racismo, a UEFA julgou-o na praça pública e, ao suspendê-lo por um jogo, declarou-o culpado. E o Benfica perdeu em Madrid por 2-1. Nunca saberemos como seria sem o caso Prestianni, mas sabemos que o Benfica foi claramente prejudicado pela UEFA.
Na Idade Média, e noutras idades das trevas, também era assim. As pessoas acusadas pelos poderosos, ou noutros casos pelas multidões, eram consideradas culpadas e tinham de provar a sua inocência. Ora, a prova da inocência é chamada prova diabólica, por ser impossível de fazer. Por isso existe a presunção de inocência, a necessidade de provar a culpa de alguém. Até essa prova ser feita, todos somos inocentes, mesmo que do crime mais vil.
Diga-se que Vinícius é um extraordinário jogador e já foi vítima de racismo. O artigo 14.º do Regulamento Disciplinar da UEFA diz o seguinte: quem «insultar a dignidade humana de uma pessoa (…) por quaisquer motivos, incluindo cor da pele, raça, religião, origem étnica, género ou orientação sexual, incorre numa suspensão de pelo menos 10 jogos ou outro período especificado (…)». Ninguém tem dúvidas de que chamar macaco a alguém viola este artigo. Como ninguém tem dúvidas que o racismo é altamente censurável. E que chamar, como Vinícius fez — quanto a isso os especialistas em leitura labial estão certos —, burro e cagão de m****, também viola o artigo 14.º. E é também injurioso. A UEFA decidiu, pois, que insultos provados são menos sérios do que insultos não provados nem ouvidos por terceiros, desde que estes sejam raciais.
E o regulamento da UEFA permite, de facto (art.º 49.º), este tipo de medidas preventivas e nem sequer obriga a «(…) ouvir as partes e/ou os inspetores de ética e disciplina (…)». Ou seja, a UEFA cumpriu as regras à letra? Sim mas decidiu mal. Mesmo as medidas provisórias exigem indícios fortes da prática da infração. Que não existem. Tão grande é o embaraço que o presidente da FIFA veio sugerir que tapar a boca deve dar cartão vermelho!
Se de facto houvesse vídeos, gravações ou testemunhos credíveis, a decisão aceitar-se-ia. Deste modo, não. E pior, esta decisão condiciona fortemente o inquérito que existirá. A tendência para condenar Prestianni será muito forte, nem que seja para a UEFA não ficar mal vista pela decisão que tomou sem ouvir ninguém. Até agora ninguém sabe (e não creio que venha a saber-se) se o argentino proferiu algum insulto racista. O que fica é que Vinícius acusou Prestianni. E, por isso, sem provas nenhumas, o jovem jogador tem a sua carreira prejudicada. Chamar justiça a isto é grave.

Direito ao Golo
O Direito ao Golo esta semana é do Benfica. Jogar diante do Real Madrid nunca é fácil. Jogar após tudo o que aconteceu, ainda menos. Perdeu, é verdade, mas não foi inferior ao adversário no jogo jogado. Chegou a silenciar o Bernabéu. Um silêncio que na Luz teria dado muito jeito."

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