sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Medialivre ao ataque...
Uma prática muito comum por cá, inspecionar refeições , julgar , divulgar e decidir. Um país doente
— Fever Pitch (@Fever_PitchFC) October 8, 2026
Paz Podre !!!
Na antena da SIC Notícias, Pedro Henriques fala num clima de 'paz podre' e questiona se estarão reunidas as condições para o regresso de Cristiano Ronaldo à Seleção Nacional. Veja o comentário completo: https://t.co/tRTNKDXY1X #cristianoronaldo #cr7 #ronaldo #selecaonacional #sicnoticias #opiniao #jj #jorgejesus #football #futebol #desporto #portugal #news #sicnoticias
— SIC Notícias (@SICNoticias) October 8, 2026
Desaparecido em Combate?!!! O Patrão não gostou das parvoíces desta ave rara?!!!
https://t.co/EXzQ6szWt5
— Tiago Raposo (@TRaposo78263) October 8, 2026
Saudades eternas do Octávio Lopes. O homem que arrasava tudo e todos. FPF, Liga, clubes, jogadores, craques, "familhas" de craques, celebridades, tudo. Até 2023. O que terá acontecido em 2023? https://t.co/Gqbn830X7B
— olhaoquete2igo (@olhaoquete2igo) October 8, 2026
Messi foi uma anomalia. E nós temos de lhe agradecer
"27 de junho de 2016. Horas antes, em Lens, Portugal tinha acabado de ultrapassar a Croácia nos oitavos de final do Europeu para, dali a duas semanas, chegar ao céu com golo de Éder. A milhares de quilómetros de distância, em New Jersey, Lionel Messi acabava de perder a quarta final consecutiva pela Argentina e, cansado, fechava de vez a porta à albiceleste. «Para mim, acabou a seleção. Tentei tudo, dói-me não ganhar um título com a Argentina. No balneário pensei que acabou, não dá mais», dizia, devastado, depois de falhar um dos penáltis na derrota frente ao Chile, na final da Copa América Centenário. Antes, mais duas derrotas nas finais da prova sul-americana (2007 e 2015) e a prata no Mundial-2014.
Era demais para o melhor jogador do planeta, acusado de não cantar o hino, de jogar o triplo no Barcelona e não ter arcaboiço para ser lenda como Maradona. A decisão a quente durou, felizmente, pouco. Voltaria à seleção mês e meio depois, para colar um país futebolístico em cacos e apurá-lo para o Mundial-2018. Era estranho o contraste entre a glória em Barcelona e as derrotas dramáticas que colecionava na seleção.
Prestes a completar 30 anos, podia ter desistido de vez e preferido o conforto da família e de verões com férias prolongadas, mas não o fez. E ainda bem, porque o melhor estava por vir. Com Scaloni a história virou, ao ponto de, com 39 anos, ter sido o melhor jogador do último Mundial, mesmo que, por ter perdido a final, o prémio tenha ido para Rodri.
Os números absurdos de Messi e os recordes sem fim ajudam a explicar a carreira mas não chegam para ter noção da dimensão de um legado que perdurará séculos e séculos. Daqui a 500, 600, 700 anos, o nome do meia-leca que teve de tomar hormonas porque não crescia como os da sua idade estará lá, gravado na pedra, como um dos melhores, se não o melhor, futebolistas de todos os tempos. Messi foi uma anomalia perfeita no tempo em que os jogadores são máquinas pensadas ao milímetro, pesam ao grama tudo o que comem e têm dados físicos controlados ao segundo.
«De que planeta vieste, pulguita cómisca? O futebol, quando jogado por Messi, converte-se noutra coisa. É arte, é peça de museu, é espetáculo puro. Gritem comigo: eu vi jogar Messi! Eu vi jogar Messi!», cantou, em 2015, Lluís Flaquer, na Cadena SER, segundos depois de testemunhar um golo milenar do 10 na final da Taça do Rei, quando fez tombar meia equipa do Athletic Bilbao. Nós vimos jogar Messi! E que bom que foi.
O planeta de onde aterrou há mais de 20 anos veio, agora, buscá-lo de volta. Messi soube sair como os grandes, em ombros, venerado por um país socioeconicamente fraturado e que, com ele, tanto pôde sonhar."
Ronaldo não pode (e não parece querer) voltar à Seleção
"«Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo»
Cristiano Ronaldo, sobre a frase que validou para que o selecionador de Portugal lesse e não leu
Para quem esperou cinco dias entre abandonar o estágio da Seleção e vir explicar-se, esperava muito melhor. Esperava, pelo menos, argumentações e pedidos de desculpa que não deixassem o mundo inteiro a gozar com ele, a falar em «delírio», «comunicado bizarro» ou «C-Ego-7» em vez de C-R-7. Sobretudo depois de, pelo meio, tantos «amigos» terem andado mundo fora a testar explicações e a perceber que tudo o que tentavam apenas fazia pensar num miúdo mimado.
Compreendo que Ronaldo se tenha sentido enganado por Jesus. Não assisti às conversas entre eles, e acho peculiar que o selecionador aceitasse ler aqueles oito pontos delirantes em que o avançado do Al Nassr se equipara a Pelé e Maradona, mas não tenho grandes dúvidas de que JJ terá concordado em assumir na conferência que cometera um erro em deixar Cristiano a aquecer tanto tempo sem entrar. E na verdade fê-lo, mas aparentemente não com corda suficiente ao pescoço como Egas Moniz para satisfazer a dimensão do ego do capitão.
Mas o mais incrível é Ronaldo dizer que quer voltar e ao mesmo tempo queimar todas as pontes para o fazer. Já nem falo da «absoluta quebra de confiança na palavra do Selecionador» — basta a forma como parece colocar a condição de se sentir útil ligada a ser titular, ou a não aquecer sem entrar, para que Jesus não deva convocá-lo, mesmo que esteja disponível."
Estava lá tanta gente e ninguém viu nada?
"No dia em que Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da Seleção estavam no mesmo espaço físico pelo menos cinco dirigentes ou diretores eleitos ou contratados pela FPF
Cristiano Ronaldo teve o privilégio, certamente conquistado e merecido por todos os anos de dedicação a uma carreira ímpar, de ter o País e o Mundo inteiros a citá-lo quando na verdade aquilo a que se chama «comunicado» estava apenas nas mãos do grupo de comunicação do qual é acionista e de um outro órgão de Comunicação Social onde, digamos assim, teve um grande amigo nos últimos dias. A agência Lusa tinha umas frases, faça-se justiça. Só uma hora depois o «comunicado» foi publicado nas redes sociais do jogador.
Dantes, um comunicado era-o em duas situações: enviado a todas as redações ou à Lusa, que por natureza de função o fazia correr pelas redações. Hoje aceita-se que também o é quando publicado nas redes sociais do comunicante. Demorou uma hora, repito. Mas foi um «comunicado». E desta vez, felizmente, era verdadeiro. Espero melhor escrutínio em situação futura, não vá a Inteligência Artificial fazer mais uma das suas e envergonhar toda a gente.
Mas isso está longe de ser o mais importante de toda esta história que degrada o futebol português. Com mais razão ou menos razão, mais para frente ou mais para trás, mais lobista menos influenciador, não vislumbro uma parte que saia bem deste caso. Se calhar é negativismo da minha parte, mas a verdade é que um capitão de equipa teve um ato de rebeldia grave. O treinador e o presidente da instituição que ele serve apressaram-se a meter paninhos quentes e dizer que o regresso é possível. Por absurdo que pareça, foi o próprio capitão a dizer que merece uma punição disciplinar pelo que fez. Mas está pronto a voltar. E depois vamos todos sorrir e ser amigos outra vez, a não ser que o treinador se aborreça e, do alto da sua idade e experiência, diga que não quer mais nada com isto e vá à sua vida. O que não deixaria o presidente em bons lençóis, dado que por acaso o treinador, com e sem capitão, até ganhou, e com nota artística de permeio.
No meio de tudo isto, há algo muito intrigante: no dia em que Ronaldo abandonou o estágio da Seleção, estavam no mesmo espaço físico pelo menos cinco dirigentes ou diretores eleitos ou contratados pela FPF: Pedro Proença, Lourenço Pereira Coelho, Toni, Domingos Paciência e João Vieira Pinto. Nenhum deles tinha sido chamado para estar ao lado de Jesus nas reuniões mantidas anteriormente com o diretor desportivo do Al Nassr (?) e um conselheiro de CR7. Mesmo assim: naquele dia, tanta gente e ninguém tentou sequer demovê-lo? Manda quem pode..."
Nem um guião salva isto
"Já quase nos esquecemos do campeonato, mas eis que está de volta. Há algo terapêutico nestes regressos: apagam-se as más memórias e regressa o transe motivador que nos salva da depressão. A viagem não é das mais simpáticas para uma equipa vitoriana insegura, mas um triunfo pode ser o clique de que precisa.
O regresso traz também a 'bênção' das discussões sobre o penálti por marcar ou o cartão por mostrar. Nunca pensei achar isto tão reconfortante num país que, nos últimos dias, se especializou em discussões de outro planeta.
Na novela Ronaldo, já não consigo escolher o episódio mais dantesco. Pensávamos que a deserção de um estágio era o limite. Afinal, havia ainda mais um andar para descer. Ficamos a saber que um diretor do clube onde joga Ronaldo e um colaborador do jogador tiveram um papel ativo em conversas, na seleção, entre Ronaldo e Jesus, e que dali saiu um guião para o treinador ler numa conferência de imprensa. Nem o melhor argumentista se atreveria tanto.
Na nossa infância, quando alguma coisa parecia impossível, havia uma expressão para tudo: “nem na Cochinchina”. Talvez a expressão tenha envelhecido mal. Ainda assim, e por falar em expressões, talvez seja mais real dizer que, por estes dias, o futebol português parece aquele relógio parado que, por acaso, acerta duas vezes por dia. E, quando ninguém sabe quem manda, há sempre quem faça de rainha da Inglaterra."
A incompetência total da FPF
"A contenda entre o selecionador nacional Jorge Jesus e a nossa mega-estrela Cristiano Ronaldo monopolizou a discussão no espaço público português. Tudo foi já passado a pente fino, do ponto de vista futebolístico, psicológico e social. Conhecidas as versões das duas partes, o caso parece resumir-se à insensibilidade de Jorge Jesus na forma como tratou a sua maior estrela e à hipersensibilidade de Ronaldo quanto à forma como foi tratado. Nada que justificasse tamanho barulho. Uma explosão que parecia de bomba atómica e que afinal parece não passar de uma granada de pólvora seca. É o problema destes casos; “todos sabemos como começam, mas ninguém sabe como acabam ou como acabar com eles”.
Considero Jorge Jesus um dos melhores treinadores do planeta e Cristiano Ronaldo, a par de Messi, os dois melhores jogadores de sempre. Talvez o problema resida aí: ambos têm um ego à dimensão do seu valor, e isso leva-os a achar que podem tudo. Mas, sendo a matéria em causa de fraca qualidade, bastaria que houvesse um adulto na sala quando o caso eclodiu para de imediato por um ponto final no mesmo.
Esse adulto tinha de ser a Federação. E a verdade é que o seu Presidente, também ele dono de um ego considerável, demitiu-se do seu papel e não foi a jogo quando o problema ainda estava no início.
Este caso é como os incêndios florestais: ou se apaga nos primeiros momentos, ou depois é deixar arder tudo. Foi o que aconteceu. A FPF tem uma estrutura de futebol profissional numerosa e principescamente paga: Pedro Proença, Helena Pires, Óscar Tojo, Lourenço Pereira Coelho, João Vieira Pinto, os vogais Daniel Carriço e Domingos Paciência, para além do gabinete de comunicação, que parece servir sobretudo para não deixar os jogadores falar. Tenho a certeza de que várias destas alminhas faziam parte da comitiva quando tudo aconteceu. A sua intervenção? Zero. Bola.
Até a reunião entre Cristiano e Jorge Jesus foi mediada por Simão Coutinho, diretor do Al Nassr, com Tiago Craveiro, antigo dirigente da FPF e hoje na estrutura de CR7, a participar via Zoom. Ninguém da FPF se apercebeu do problema, ou andavam em turismo pela Noruega e pela Dinamarca? Ninguém explicou a Jorge Jesus e a Cristiano Ronaldo que aquilo se resolvia numa conversa entre os dois, e que o assunto não tinha dignidade para se tornar um caso desta dimensão e que, se o deixassem crescer, as consequências reputacionais para ambos seriam brutais?
Se ninguém se apercebeu, há duas coisas a fazer rapidamente: obrigar Jesus e Ronaldo, ainda que momentaneamente, a esvaziarem os seus egos e a fumarem o cachimbo da paz e de seguida, a despedirem aquela gente toda, que serve para muito pouco. A solução passava, e continua a passar, pelo bom senso. Coisa que, pelo que se viu, parece não existir, nem nos envolvidos, e muito menos nas pessoas que os circundam, e que pelo que se viu, valem muito pouco, muito pouco mesmo."
Ronaldo queria contar-nos a verdade sobre Jesus e acabou a contar-nos a verdade sobre ele próprio
"Há um pormenor revelador na partilha que Cristiano Ronaldo fez do comunicado divulgado na terça-feira: nenhum jogador da Seleção Nacional pôs um like.
O mais próximo de jogadores da Seleção que se encontra são Anthony Lopes e Vieirinha, dois campeões europeus de 2016, que entretanto já deixaram a equipa nacional. O primeiro não saiu propriamente a bem, aliás.
Depois, claro, há várias outras figuras do futebol. Vinícius Jr., por exemplo. Vitor Baía, Éder Militão, Marcelo, Lucas Vasquez, Thiago Silva, David Ospina, Nacho Fernández, Richarlison, enfim.
Colegas da Seleção, porém? Nada. Zero. Bola.
Porquê? Não é difícil perceber. Afinal de contas, um jogador - mesmo sendo Cristiano Ronaldo - não deve dar opinião sobre quem será o novo selecionador e não deve chamar um amigo para participar na gestão de um conflito dentro da seleção.
Um jogador - mesmo sendo Cristiano Ronaldo - não deve participar na definição daquilo que o selecionador vai dizer numa conferência de imprensa, não deve validar previamente um documento com essas diretrizes e não deve negociar previamente com o selecionador quantos minutos vai jogar.
Benefícios exclusivos?
Não deve fazer nada disso, mas acima de tudo não deve tornar estes privilégios públicos, como se fossem uma coisa perfeitamente natural.
Ronaldo quis demonstrar que foi vítima de duas quebras de palavra de Jorge Jesus, mas, ao fazê-lo, revela uma coisa bem pior: que atua como dono da Seleção, e acha isso normal.
Talvez por isso tenha achado perfeitamente natural exigir que o selecionador assumisse perante o mundo que ele esteve exemplar, que ele ama a Seleção, que o quer muito, que não tem nada para lhe ensinar sobre Portugal e que não devia ter feito aquilo a um jogador da dimensão dele.
Ou seja, acha normal exigir que o selecionador não faça propriamente uma retificação: que assuma reverentemente uma capitulação pública.
No fundo Ronaldo queria contar-nos a verdade sobre Jorge Jesus e acabou a contar-nos a verdade sobre ele próprio.
Alguém se surpreende que os colegas não apoiem isto?"
A minha tese imaginária sobre o caso Ronaldo
"Considero que não será despropositado analisar certa temática apesar do desconhecimento parcial do tópico; o mesmo vale, na minha opinião, para escalpelizar determinado episódio ocorrido dentro de um enquadramento que, no geral, permanece estranho a nós próprios.
Os navegadores portugueses, por exemplo, não dominavam a geografia nem as marés do planisfério quando se deixaram tentar pelo desconhecido. Dentro de limites aceitáveis parece-me ser legítima a tentativa de abordar um assunto que somente conseguimos agarrar qual pedaço de areia: malgrado muitos dos grãos se escaparem, alguns permanecerão no nosso punho. Um pouco à imagem de Ortega y Gasset acerca das touradas, nutro pelo futebol unicamente o suficiente para estar informado acerca do que se passa. Ora, o caso Cristiano Ronaldo, além de ter marcado indelevelmente a alma de muitos nacionais, merece sofrer mais uma tentativa de ancoragem. Desta feita, a minha.
Muito se disse e escreveu sobre o tema. Como é típico de quando se fala deste desporto, as paixões deixaram-se exacerbar, fazendo da racionalidade uma miragem. Inclusive os mais dotados e temperados comentadores do fenómeno não conseguiram fugir à regra, tendo eu ouvido da sua boca autênticos disparates. A favor e contra CR7. Fazendo um paralelo com a Inteligência Artificial, tentarei levar a cabo uma espécie de Teste de Turing, afastando-me de emoções descompensadas, entre as quais o medo, e remetendo-me à observação. Ou seja, e ainda me referindo ao criptoanalista britânico e à sua experiência, se algo se comporta de forma inteligente, então deve ser mesmo inteligente.
Assim, partirei dos factos conhecidos, esquecendo todas as implicações morais, emocionais e até intelectuais: ficarei remetido ao mundo sensível, isto é, às possibilidades várias e suas consequências óbvias e lógicas – aos seus descendentes. Começarei evocando as objeções à minha tese imaginária. Essas objeções traduzem-se simplesmente num esquema binário jogar/não jogar.
(1º) Ronaldo fez muito por Portugal. Logo, Ronaldo devia ser convocado e jogar.
Na primeira objeção, jogar implica categoricamente respeito e gratidão. Por outra, se CR7 não jogar, não lhe estamos a prestar o devido reconhecimento do que ele fez por Portugal. Deixando de lado, de momento, discutir o que fez pelo nosso país, podemos concentrar-nos no que significa demonstrar devoção. Assim, a outro (igualmente) grande jogador, Eusébio, quando o quiseram homenagear construíram-lhe uma estátua (várias, presumo). Ninguém ousou sonhar em deixá-lo jogar até cair redondo no relvado. A física e a química, sendo universais, mostram que há um limite para aquilo que um corpo consegue fazer e aguentar. Ora, Ronaldo já batiza um aeroporto e já está representado por uma (pelo menos) estátua. Nada impede que as homenagens prossigam a seu ritmo, nomeadamente na área desportiva. Tal não constitui obrigação de jogar pela seleção ad aeternum.
Em relação aos reais feitos do atleta pelo país, estes resumem-se a um reconhecimento facial e a uma ligação do nome de Portugal a CR7. O jogador é famoso mundialmente, mais do que a nação, e é através da nomeação e sobreposição que se estabelece a evocação. Em termos políticos, por exemplo, ou económicos, pouco se alcançou devido à fama de Ronaldo: as finanças do país não melhoraram, os portugueses não ficaram mais ricos, etc.
(2º) Ronaldo é um símbolo de Portugal. Logo, Ronaldo devia ser convocado e jogar.
É sempre arriscado atribuir simbologia a alguém vivo. Enquanto andar entre os demais há espaço para o erro e para o disparate – até para o crime. Todavia, podemos encarar, de facto, CR7 como um símbolo, ou seja, como uma bandeira ou um hino nacionais. Perante a audição de um hino todos se levantam, entoando a letra conforme as capacidades e a vontade de cada um. Não é em nenhum momento expectável que um símbolo faça outra coisa além de simbolizar. Com maior razão para um símbolo desportivo.
(3º) A Federação negociou com Ronaldo um prolongamento do seu vínculo à seleção. Logo, CR7 devia ser convocado e jogar.
Baseando-me no que me chegou aos ouvidos pela comunicação social, os responsáveis da Federação Portuguesa de Futebol negociaram (alegadamente) uma adenda ao contrato: o jogador continuaria a financiar a instituição e como forma de retribuição seria convocado e, mais importante, claro, iria jogar (provavelmente a titular). Pelo que sei, compete a um selecionador escolher os convocados para representar o país – não aos burocratas e dirigentes. Se tal foi realmente levado a cabo, o que é bastante ofensivo para os restantes jogadores (que não querem/podem contribuir financeiramente) e eticamente reprovável a todos os níveis, a situação é um desvirtuamento do espírito desportivo, que se baseia no esforço, talento e trabalho, atlético e tático, dentro de campo. Penso que, a ser verdade, os responsáveis, atuais e pretéritos, por tal acordo, deveriam ser responsabilizados. A conta bancária nada vale – nada deveria valer - durante os 90 minutos.
(4º) O treinador prometeu a Ronaldo que jogaria. Logo, Ronaldo devia ser convocado e jogar.
As promessas no futebol de nada valem: isto diz respeito tanto aos treinadores que prometem títulos aos adeptos como aos treinadores que prometem minutos de jogo aos jogadores. Ou seja, só lhes dá ouvidos quem quer - quem é néscio. Outra questão que deve ser levantada é por que motivo algum mister se comprometeria com algum jogador nesse sentido: primeiro, se esse tipo de promessa é feito a vários ou a todos os jogadores; segundo, a ser Ronaldo o único destinatário, qual a razão que o torna especial. Mas aqui entramos nos outros pontos já referidos.
(5º) Ronaldo é o melhor jogador do mundo e a seleção joga melhor com ele no onze titular. Logo, o ex-capitão devia ser convocado e jogar.
A única objeção que diz respeito ao futebol jogado. (É a mais fraca do conjunto, pois pode ser atacada no âmbito de conversa de café. Concedam-me algum espaço de manobra). Penso que ninguém com honestidade pode afirmar que o ex-capitão ainda faz a diferença. Não é necessário ser um especialista em futebol (que eu – reforço – não sou!) para perceber que a sua presença em campo é indiferente, se formos rigorosos, embaraçosa. Sem a potência muscular de outros tempos, sem o talento natural de Messi, o seu sentido de golo não se torna eficaz. A seleção nos últimos quatro anos, e o jogador em particular, têm-se arrastado em campo. Sintomaticamente, no último jogo contra a Dinamarca, jogo que não contou com a presença de CR7 (nem no banco), a equipa das quinas fez um brilharete, não se sentindo a ausência do madeirense: todos os jogadores estiveram em boa condição, realizando um jogo bastante interessante e conseguido, alcançando de resto uma sólida vitória sobre um oponente nada acessível. Fez o adepto imaginar: se o Gonçalo Ramos tivesse jogado a titular nestes últimos anos…
É esperado que anteriormente à exposição de objeções, se produzam os argumentos e as razões a favor. Antes ainda, que haja uma tese que se propõe sobre determinado tópico. Como referi, os meus conhecimentos sobre futebol pecam por escassos. Parece-me, todavia, que neste texto (que já vai longo) não se tratou efetivamente de desporto. Esmerei-me por estabelecer uma analogia com o célebre Teste de Turing (The Imitation Game), dedicado às capacidades intelectuais de entidades artificiais, levado a cabo precisamente para averiguar a sua inteligência. No artigo de 1950, COMPUTING MACHINERY AND INTELLIGENCE, o também matemático e cientista propõe, além do teste, apresentar as objeções à adoção daquela capacidade pelas máquinas - "Can machines think?". Ou, no nosso caso: deve Ronaldo jogar? (Claro que Turing vai mais longe, assumindo a tese a favor, ou seja, as máquinas podem ou vão poder pensar – coisa que não copiei neste artigo).
Contrariando os contra-argumentos, por assim dizer, tentei demonstrar através da razão e partindo da observação empírica dos factos - considerando assim reunidas as condições para a minha neutralidade na matéria, a qual denominei tese imaginária - que o jogador não apresenta condições suficientes para o dever fazer. Chegados a este resultado, não me parece adequado considerar este artigo uma homenagem a Ronaldo. Uma homenagem ao seu passado, entenda-se. Malgrado, ficaram registadas na minha mente as boas exibições e os golos de encher a vista.
Nada disse sobre o abandono prematuro do atleta do estágio da seleção. Como disse, tentei nada julgar."
Agora é que a Seleção Nacional vai começar a jogar
"Foi um jogador incrível, um fora de série, merecia ter um final de carreira com uma grande homenagem
Tenho visto tanto comentário disparatado sobre a saída de Cristiano Ronaldo da Seleção que me parece que é preciso dizer algumas verdades simples e evidentes.
1. A Seleção está a jogar muito melhor sem ele.
2. Há alguma dúvida de que tem de ser o selecionador a decidir quem joga e quem não joga?
3. Há alguma dúvida de que Gonçalo Ramos rende 10 vezes mais? (e se calhar estou a pecar por defeito) Há muito que merecia esta oportunidade.
4. Jesus desrespeitou-o porque o pôs a aquecer? Acho que foi o contrário: Jesus queria fazer-lhe o favor de o pôr em campo. Se o 3-1 tem sido validado, Ronaldo entrava, mesmo enfraquecendo a equipa. A vantagem permitia isso. Como o golo de Gonçalo Ramos foi anulado, o evoluir e a intensidade do jogo não permitiu a entrada de Ronaldo. Um profissional tem de aceitar isso.
5. Há muito tempo que Ronaldo se arrastava em campo. Já não brilhava e, pior, não deixava os outros brilhar.
6. Ronaldo só jogava ainda porque muita gente ganhava com isso. A Federação vai perder muito dinheiro com a saída dele, mas a mim é-me igual, porque nunca recebi um tostão.
7. Ronaldo levou o nome de Portugal longe, hoje Portugal é conhecido por causa dele, dizem. Uma pergunta: se não fosse o Ronaldo Portugal não existia? Ou era menos por causa disso? Acho que não.
8. Devemos-lhe muito? Digam quanto, para a gente pagar. Não quero ficar a dever nada a ninguém.
9. Estou satisfeito com a saída dele porque vai falar-se mais da Seleção e menos de Ronaldo. O futebol voltou a ser um jogo coletivo.
10. E não, não tenho inveja nenhuma. Nem aceito aquele argumento de que Ronaldo é que é grande e que quem tem o atrevimento de o criticar é mesquinho e que é por isso que Portugal é pequenino, etc., etc. Pequenino é achar que a Seleção se resume a um jogador e todo este endeusamento bacoco.
Dito isto, foi um jogador incrível, um fora de série, merecia ter um final de carreira com uma grande homenagem, que não fosse este episódio triste de mandar chamar o seu avião particular ir buscá-lo ao estágio para regressar sozinho."
Uma guerra tem de ter vencedor
"Ronaldo e Jesus são profissionais de eleição e com egos muito grandes. A forte personalidade conduzi-os ao sucesso,mas agora, mais do que nunca, têm de ter bom senso e fazer cedências.
Cristiano Ronaldo prometeu e cumpriu. Quando deixou o estágio da Seleção Nacional fez uma publicação na qual avisou que «a seu tempo» diria «a verdade a todos os portugueses». Fê-lo em forma de comunicado e no qual não poupou Jorge Jesus, acusando-o «de faltar duas vezes à palavra».
Ronaldo mostrou-se disponível para voltar a representar a Seleção, pediu desculpa aos portugueses e aos companheiros e até sugeriu ser punido por ter abandonado a concentração, com a agravante, sublinhou, de ser o capitão.
A novela já leva mais de uma semana e todas as partes, de uma forma ou de outra, já se pronunciaram publicamente. Jorge Jesus e Pedro Proença defenderam a narrativa de um «mal-entendido», enquanto Ronaldo foi mais longe e detalhou todo o processo, desde o final do Mundial 2026 aos jogos da Liga das Nações.
A conclusão é simples: já todos percebemos que o caso espoletado na Escandinávia, entre os jogos com a Noruega e a Dinamarca, não é de simples resolução e que está para durar. Afinal, estamos perante um conflito entre o capitão e o selecionador, com o presidente da FPF a tentar aproximar as partes e promover uma cimeira da paz.
Já tudo se disse sobre a personalidade e comportamento de Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus, com as entourages de ambas as partes, sejam a nível profissional ou pessoal, a esgrimir argumentos, defendendo uma parte e, em muitas ocasiões, a não resistirem a atacar a outra, com muitos a perderem a noção da realidade e a cometerem excessos atrás de excessos.
Conheço, profissionalmente, ambos há muitos anos e, sinceramente, não foi propriamente uma surpresa termos chegado ao ponto em que estamos. Cristiano Ronaldo é um dos maiores jogadores da história do futebol e logicamente não pode ser tratado como um futebolista comum, depois do que fez pela Seleção e pelo nível a que conduziu o futebol português. Até porque, e ao contrário do que tenho ouvido e lido com insistência na última semana, considero que tem lugar na Seleção Nacional. Não como indiscutível, mas como a melhor opção para ser a alternativa a Gonçalo Ramos para a frente de ataque.
Já Jorge Jesus tem contra ele (ou a favor dele, dependendo da perspetiva) ter sucedido a Roberto Martínez. Onde antes estava, acima de tudo, um diplomata, está agora um homem genuíno e impulsivo, um treinador autodidata que construiu a carreira a pulso e que nunca se preocupou com a imagem ou as consequências das palavras.
São dois profissionais de eleição e com egos muito grandes, o que, por vezes, os prejudica. A forte personalidade conduzi-os ao sucesso, com Cristiano Ronaldo a chegar ao topo do mundo. Aceite-se ou não, a marca CR7 é maior que a Seleção Nacional — para o perceber basta passar a fronteira… —, mas agora, mais do que nunca, têm de ter bom senso e fazer cedências. Uma guerra tem de ter sempre vencedor, nem que sejam… dois."
Adeus, que me vou embora (parte II)
"Transição de Carreira — medidas com vista para o futuro. Segunda parte de um artigo cuja primeira parte foi publicada na quarta-feira.
Como referia no artigo anterior, a transição da carreira desportiva deverá assumir-se como um processo dinâmico que necessita de ter o seu início nos primeiros anos da carreira (pós formação) e prosseguir ao longo da carreira profissional de futebol. É um processo que deverá ocorrer a um nível multidimensional envolvendo a interação de vários fatores: emocionais, psicossociais, comportamentais e cognitivos que afetam o indivíduo e seu ambiente.
Para que se possa experienciar uma transição de carreira desportiva, estimamos que o atleta se deve iniciar em atividades de preparação orientadas para desenvolver a atenção, compreensão e estratégias de coping associadas com a transição de carreira desportiva, antes do final da sua carreira profissional futebolística.
As estratégias sugeridas para mitigar o efeito negativo na transição da carreira desportiva, incluem:
— Fazer algum tipo de formação, ao nível académico (gestão desportiva, curso de treinador, ciências da comunicação, recursos humanos, scouting, etc…)
— Participar em aconselhamento e análise vocacional identificando e participando em áreas de interesse, que possam não ser propriamente desportivas.
— Integrar o estudo e avaliação dum programa de apoio académico (ao nível das novas oportunidades) e programa de apoio para abertura de novas empresas ou negócios.
Como sabemos, os ex-atletas apresentam um grau de consciência bastante elevado, sendo por isso possível, sugerir, em função das preocupações transmitidas por estes, que os jogadores possam ser avisados e aconselhados quanto aos desafios sociais, psicológicos e comportamentais passíveis de serem experienciados durante a sua transição de carreira desportiva da Liga profissional de futebol. As questões que precisam de ser equacionadas são principalmente:
— Identidade atlética — atletas que são capazes de se definirem a si próprio de uma forma vincada. Estes experienciam adaptações mais negativas no processo de transição de carreira, não tanto enquanto participantes ativos, mas na adaptação a novo estilo de vida.
— Dor física — incapacidade de responder fisicamente às exigências perante o conflito competitivo com duas respostas: ganhar e voltar a ganhar.
— Dor emocional — a modulação de resposta emocional também parece estar ligada a um certo lastro de segurança familiar e financeira — quem se autoperceciona como tendo recursos, projeta-se mais seguro nos pós–competição. A contrária, é por isso, igualmente válida para aqueles que não se consideram tão bafejados pela sorte. Para estes, os riscos inerentes à imprevisibilidade do futuro, aumenta significativamente.
— Perda de amizades, estatuto de celebridade, camaradagem.
— Risco de comportamentos negativos, como por exemplo, beber excessivamente, abuso de substâncias prejudiciais à saúde.
Se estas questões forem trabalhadas com mestria antecipatória, os jogadores poderão experienciar uma transição de carreira desportiva com muito sucesso.
Não devemos também esquecer a importância do contributo e da responsabilidade social dos clubes/SAD, como forma de garantir a sustentabilidade do Homem que se encontra por detrás do jogador — estrela que se foi e por via disso tantas vezes transportou uma cruz virtualmente fácil, por vezes tão incompreendida.
Existe uma área no estrangeiro ao nível da Responsabilidade Social Corporativa (CSR), que tem atraído considerável interesse no que à gestão diz respeito, mas que raramente tem sido avaliado e explorado na área da pesquisa e intervenção dentro de portas.
Segundo Breitbarth e Harris (2008) «ao realizar a literatura de marketing, desporto e gestão, este artigo considera que o papel da CSR no negócio do futebol apadrinhará a competitividade do jogo e criará valor adicional para os acionistas», propondo «um modelo conceptual que delineie um papel de agente de futebol, tendo em vista a criação de um valor humanitário, cultural, político, social e de segurança».
Uma medida fundamental para que o processo da transição de carreira não conduza aos estados de declínio existencial referidos no número anterior e para além do que já foi mencionado, será a relevância à continuidade de prática desportiva, proporcionando o crescimento em termos de valores da amizade, responsabilidade, respeito, coesão de grupo, capacidade de superação, regímen alimentar e continuidade do respeito pelos hábitos de rotina, para além do fenómeno mais importante que é a contribuição pela prática desportiva para o estado de uma vida saudável.
Um apelo para que as organizações desportivas (federações, Liga, associações, clubes, sindicatos, autarquias) assumam a sua responsabilidade social no enquadramento dos desportistas durante o seu ciclo de vida, preparando o Homem para o futuro, condição que garantirá o sucesso durante o período de transição pós carreira desportiva.
O desporto só pode ser visto como instrumento de formação para a qualidade de vida e não uma mera indústria, cuja principal matéria-prima são as pessoas. Jamais devemos permitir que essas, que outrora enchiam os estádios com hossanas de encanto, venham a ser trituradas sem possível reciclagem. Outrora robustecidas por focos geradores duma paixão coletiva, passam de ícones de aplauso, ao desencanto prostrado, tantas vezes, pelo silêncio do desconhecido.
Porventura todos observamos as exigências do tipo comercial (lei do mercado) que coisificam e degradam até à condição de mera mercadoria o atleta de alto rendimento.
A acompanhar tudo isto, verificamos um setor muito significativo em termos de formação, o ainda deveras preocupante no afã depósito de muitos pais e outros agentes, que ao detetarem numa criança sinais de talento, a fazem entrar à força numa espécie de forja de craques, sugando-lhe aquilo que para ela se torna mais importante: o espaço lúdico para crescer de forma apaixonadamente feliz e entusiasmante.
Quando se quer à viva força enxertar no homem o craque, este, a acontecer, é à custa do homem que aparece, tendo como resultado no imediato, a fulguração da estrela cadente, o vazio, o abandono e a solidão!...
Dado os acontecimentos que nos moem a alma, referentes ao estado de sítio Cristiano Ronaldo, pelo ato imanente de respeito que neste momento se me impõe em todo o processo, faço eco do ar que escapa da minha devotada opinião, que está bem explícito nos artigos que ao longo do tempo A BOLA muito me honra ter publicado, como a título de exemplo: 1) — Carta Aberta a Cristiano Ronaldo, publicada a 22 junho 2026; 2) — Quanto vale o peso duma bandeira, publicado a 26 de setembro 2026. Aí o meu estimado leitor poderá encontrar por um lado em pura reflexão do que, creio, poderia ter sido evitado e por outro lado o arrastamento para um cultivar de memória que jamais deixará de resistir ao tempo, podendo aproximar-se em segredo da eternidade!..."
Ronaldo e um eventual castigo: confissão, agravantes, atenuantes e desculpas
"Cristiano já está suspenso preventivamente pela FPF pois essa medida é de aplicação automática, segundo os regulamentos da entidade, assim que o jogador abandonou o estágio da seleção nacional. Ponderando a confissão de Ronaldo, a prevalência das atenuantes e os pedidos de desculpa apresentados pelo jogador, a aplicar-se, uma sanção disciplinar a CR7 será, digamos, residual
No comunicado emitido por Cristiano Ronaldo a 6 de Outubro há uma passagem que nos chamou especial atenção: “A consequência deste meu ato deve ser avaliada e punida pela Federação Portuguesa de Futebol. Entendo que a punição não deve ter atenuantes. Não sou um jogador qualquer, sou capitão de equipa e isso constitui uma agravante. Já pedi desculpa, mas sei que as atitudes têm de ter consequências. Quem está no futebol como estou sabe que, independentemente do estatuto de cada um, as regras são iguais para todos.”
Ronaldo é um homem e um jogador invulgar e esta sua confissão, nos termos em que é feita, também é invulgar. Antes mesmo da notícia de uma ação disciplinar, o autor do ato confessa a prática do ato, como que pede para que se instaure um processo disciplinar contra si, e transmite logo que não só não há lugar à aplicação de condições atenuantes como existe pelo menos uma condição agravante a ser tida em conta pelo órgão jurisdicional federativo. Um craque incomum, um testemunho incomum.
A norma sancionatória de que já tanto se falou é o artigo 160.º do Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol (RDFPF), sob a epígrafe “Falta de comparência ou abandono de atividade das seleções”. O número 1 dispõe conforme segue: “O jogador que, regularmente convocado, abandone ou não compareça injustificadamente a treino, jogo ou atividade das seleções nacionais ou relacionada com a representação desportiva da FPF ou de Portugal, é sancionado com suspensão de 1 a 6 meses e, acessoriamente e se for jogador profissional, com multa entre 5 e 10 UC.” Por seu turno, o n.º 2 prevê que “[a] ausência ou o abandono determina a suspensão preventiva automática do jogador nos termos previstos no presente Regulamento.”
E agora?
Num primeiro passo, aplica-se a norma especial da confissão, o artigo 244.º do RDFPF, cujo número 2 prevê que “os limites mínimo e máximo das sanções aplicáveis são reduzidos para metade” nos casos em que haja “confissão integral e sem reservas”. Já estamos, portanto, a trabalhar numa moldura disciplinar de duas semanas a três meses e multa de 2,5 a 5 UC.
Num segundo passo, dentro desta nova moldura, e independentemente da análise e do pedido feitos pelo jogador, há que ponderar todas as circunstâncias agravantes e atenuantes, de acordo com o RDFPF.
O artigo 43.º do RDFPF, prevê, no singular, a “Circunstância agravante” a ponderar: apenas a “reincidência”. Não será o caso.
Já o artigo 44.º, consagra, no plural, seis “Circunstâncias atenuantes”, entre as quais “A prestação de serviços relevantes ao futebol”; “O louvor por mérito desportivo”; e a “Contribuição decisiva para a descoberta material”. Tendo em conta o percurso desportivo e a confissão do atleta, todas encaixam. É verdade que só uma pode contar para atenuar, de acordo com o n.º 6 do mesmo preceito [“[o]correndo mais do que uma circunstância atenuante e apenas será considerada uma delas para efeitos de atenuação.”] mas as demais vão contar como “circunstâncias comuns a considerar para efeitos de determinação da medida da sanção, nos termos do artigo 42.º”.
O artigo 42.º, referente à “determinação da medida da sanção” vai atender, de facto, às circunstâncias que “militem a favor do agente ou contra ele”.
A militar contra o astro, temos, como o próprio reconhece, o facto de ser o capitão de equipa, ou seja, o líder que deve dar o exemplo, mais a mais no quadro da participação numa seleção nacional, que constitui uma “missão de interesse público” nos termos do artigo 45.º da Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto. Mas são mais, como vimos as circunstâncias a militar a favor de Cristiano Ronaldo: a confissão – e para aqui concorrem outras partes do comunicado, quando diz “[u]ma falha que é apenas da minha responsabilidade e que não deveria ter acontecido” ou quando apresenta pedidos de desculpas “aos portugueses”, aos adeptos que “sem serem portugueses, ali se possam ter deslocado para me ver e a quem eu possa ter desiludido” e aos “companheiros de Seleção por ter abandonado o estágio”.
Estas palavras podem também subsumir-se à parte final da alínea d) do n.º 2 do artigo 42.º do RDFPF, pois revelam uma conduta posterior ao facto destinada “a reparar as consequências da infração”.
Aqui chegados, parece-nos que ponderando a confissão, a prevalência das atenuantes e os pedidos de desculpa que, a aplicar-se uma sanção disciplinar a CR7, será, digamos, residual."
Da intenção à ação: um mês pela integridade no desporto
"Novembro marca a segunda edição do Sport Integrity Action Month, uma iniciativa da SIGA que pretende colocar na agenda global as melhores práticas para a construção de um ecossistema desportivo baseado na integridade.
O objetivo é claro: mobilizar o setor em torno de um principio essencial - sem integridade não há desporto. A boa governação, a integridade financeira, a integridade das apostas desportivas, o desenvolvimento e proteção de jovens no desporto, a sustentabilidade, a diversidade, a igualdade de género, e até, cada vez mais, a utilização da Inteligência Artificial são geradoras de desafios em todas as latitudes e a todo o momento.
A boa notícia é que para cada problema enfrentado por uma organização há, provavelmente na cidade vizinha, noutro continente ou até noutro hemisfério, soluções testadas e que dão garantias de sucesso. Os desafios não são exclusivos de um país, de um clube ou federação.
Ao lançar o Sport Integrity Action Month, a SIGA convida federações, ligas, clubes, patrocinadores de desporto, media, governos, fãs – todos os que direta ou indiretamente estejam ligados ao fenómeno – a darem um passo em frente e a assumirem o seu compromisso com a integridade no desporto. A colaborarem com outros que possam ter os mesmos problemas. E a beneficiarem da experiência acumulada pelos demais participantes.
Em anos anteriores - ainda no âmbito da antecessora Sport Integrity Week, e em 2025 no Sport Integrity Action Month - iniciativas impactantes com o Jogo Pela Integridade, organizado pelo São Paulo FC em conjunto com a SIGA; a Jornada Pela Integridade, promovida pela Liga Portugal, e dezenas de outras iniciativas trouxeram para o palco maior um tema que deve ser prioridade para a indústria.
Congressos, mesas redondas, sessões digitais, manifestos anti-pirataria digital, compromissos públicos pela integridade e outras ações juntaram especialistas das diferentes áreas que fazem do desporto uma realidade cada vez mais multi-disciplinar. 2025 assistiu à primeira edição dos SIGA Sport Integrity Awards, em Riade, Arábia Saudita. O ano passado ficou, aliás, marcado pela realização de eventos na Argentina, Brasil, Colômbia, Trindade e Tobago, EUA, Nigéria, Gana, Arábia Saudida, Emirados Árabes Unidos, Malásia, India, Austrália, Espanha, Suíça, Inglaterra, Itália, Chipre e, claro, Portugal.
Em 2026, o convite renova-se: sob a bandeira de um mês dedicado à Integridade no Desporto, e com o patrocínio da SIGA, juntar pessoas e instituições que partilham uma visão e uma missão: a de levar mais longe os esforços para que o desporto tenha futuro, e que esse futuro seja assente nos melhores princípios."












