domingo, 16 de agosto de 2026

Morte na Volta: mais uma sexta-feira no asfalto


"O ministro da Administração Interna anunciou medidas, mas as leis chegam sempre tarde para quem fica pelo caminho

A minha manhã de sexta-feira começou com o sobressalto banal de quem vive nas estradas portuguesas. À saída de casa, quando me deslocava para o meu carro, dei de caras com um motociclista a circular descontraidamente, numa moto de alta cilindrada, em sentido proibido.
Pouco depois, numa viagem de mais de 300 quilómetros, confirmei que esse pequeno sobressalto era apenas a introdução de uma norma não escrita. Ao longo de todo o percurso, a ignorância intencional das regras (quando é que aprendemos a conduzir à direita nas autoestradas?) e o desrespeito pela prioridade dos outros repetiram-se quase a cada quilómetro. Sobre velocidade não há ninguém inocente em Portugal.
Na passada quarta-feira, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, utilizou uma expressão dura, para descrever o panorama rodoviário nacional: vivemos uma «guerra civil» nas estradas. Ao anunciar que o novo Código da Estrada pode criminalizar a condução acima dos 180 km/h e reforçar substancialmente a fiscalização nas zonas urbanas, o Governo reconhece o que é evidente para todos. Porque todos conhecemos quem tenha morrido num acidente. O problema é que as leis chegam sempre tarde para quem fica pelo caminho.
Finlay Tarling tinha apenas 19 anos. Corria com as cores da sua equipa na Volta a Portugal em bicicleta, alimentando o sonho de uma carreira no ciclismo profissional. O seu futuro foi ceifado numa fração de segundo porque, alegadamente, um condutor decidiu ignorar as indicações das autoridades. Um jovem atleta, protegido apenas pelo seu capacete e pela sinalização de uma competição oficial, acabou vítima do absoluto desprezo que muitos condutores nutrem pelas ordens mais elementares de segurança.
A tragédia de Finlay Tarling não pode ser isolada sob o carimbo do «azar» ou de um «incidente lamentável». Porque é reflexo da mesma mentalidade que vejo à porta de minha casa, na autoestrada ou nas vias nacionais. E que você também vê. É a cultura do «passo eu primeiro» - a sério que nos chateamos por dois metros e meio de alcatrão? - , do «o sinal é para os outros».
Portugal tem mesmo um problema grave, estrutural e sangrento nas suas estradas. O diagnóstico do ministro está correto, mas a mudança exige mais do que radares e coimas: exige uma profunda alteração de mentalidade. Enquanto continuar a imperar o egoísmo ao volante, o país continuará a somar lutos. Para a família do jovem ciclista galês, este dia ficará marcado para sempre pela dor irreparável; para a Volta, como um dos episódios mais trágicos da sua História; para Portugal, infelizmente, como mais uma sexta-feira."

A tragédia, o civismo e a RTP


"Neste início de temporada futebolística, tinha pensado escrever sobre o investimento dos mais representativos emblemas, sobre os desafios que se colocam à competitividade da Liga portuguesa, sobre o esforço crescente para a dignificação da arbitragem.
Tinha pensado discorrer sobre as principais transferências, os grandes beneficiados do defeso ou as surpresas nas transações internacionais.
Deixei de pensar nisso há duas horas, justamente quando, embora em férias no meu refúgio da ilha do Faial, acompanhava a etapa da Volta a Portugal.
Morreu um ciclista na estrada, a mesma estrada que tantos anos palmilhei, na cobertura da prova rainha. Para quem anda no ciclismo, ainda que não contacte com o pelotão há mais de vinte anos, o vício impregna-se e não sai do corpo e da alma.
Pelo meio cobri algumas edições do Tour de France, do Giro d’Italia e da Vuelta a España.
E aumentei, a cada quilómetro narrado, a cada chegada exultada, a admiração profunda pelos heróis da estrada, pela magia da modalidade, pela estratégia que ultrapassa, em muito, o desempenho individual, pelo sacrifício de lutar por outro ou pelo todo, pelo empenho e pelo prazer de se fazer o que se gosta, independentemente do país, do dinheiro ou do prestígio.
Porque o corredor (o rider, como muito bem lhe chamam os ingleses), é um animal do asfalto, sempre pronto a lutar pelos seus objetivos, sempre direto na abordagem, com a máquina que apenas se move pela força motriz da energia humana.
O profissional das bicicletas merece-me, desde sempre (desde 1988, quando pela primeira vez cobri, para a Antena 1, a Volta a Portugal em Bicicleta), uma admiração apenas igualável ao profundo respeito que por ele tenho.
Finlay Tarling, 19 anos, tinha todos os sonhos do planeta alicerçados numa família de quem tinha diretamente herdado o gosto e o talento em bruto para a modalidade.
Inserido numa equipa de academia, num conjunto de jovens promissores que ali encontram o seu espaço próprio de desenvolvimento, sem a exigência imediata de resultados, antes com a certeza de um acompanhamento de qualidade profissional para subirem, degrau a degrau, a longa escadaria do sucesso num desporto de e para campeões.
Numa etapa duríssima como a ligação de Melgaço a Fafe, na curva e contra-curva de um Minho aliciante para as corridas de bicicletas, o miúdo sonhador de 19 anos encontrou o fim da linha.
Depois se apurarão os detalhes, mas parece certo que, sendo colhido por um veículo a circular em contra-mão, antes da passagem do carro vassoura e, por conseguinte, do fecho formal da caravana da Volta a Portugal, houve um motorista que, percebendo que o grosso da coluna já havia passado, foi a avançando, ao arrepio das instruções das forças de segurança móveis e estáticas.
Há muito tempo que isto sucede. Não apenas nas estradas portuguesas, mas nas italianas, espanholas, francesas ou em quaisquer outras por onde circulem caravanas de provas profissionais de ciclismo. É uma questão de paciência, ou de falta dela. De civismo, ou de falta dele. De respeito, ou de falta dele.
A morte de um jovem de 19 anos ensombra, definitivamente, a Volta a Portugal em Bicicleta mas, mais do que isso, volta a levantar todas estas questões, transportando para patamares talvez dificilmente conclusivos a equação da segurança nas provas internacionais em percurso aberto.
O momento é de consternação na caravana, e a sua equipa (a NSN Development Team) já não estará hoje na estrada, em óbvia decisão de homenagem ao seu jovem promissor.
Se foi correta a decisão da organização, neutralizando os quilómetros finais até Fafe e cancelando a etapa e respetivas celebrações, é importante que A Portuguesa continue na estrada, no fim de semana final. Essa será a principal homenagem a Finlay Tarling, prestada em competição e com indecisão até ao final, por todos os companheiros de pelotão.
Nem se trata, neste caso, da velha máxima segundo a qual the show must go on, mas apenas do reconhecimento de que, para homenagear uma esperança do ciclismo internacional, só concluindo a prova e lutando até ao final, segundo a segundo, pelo alinhamento e pelos melhores lugares.
Sou dos que entendem, ao cabo de 41 anos de jornalismo profissional, que a gestão das situações de crise é um dos primeiros elementos de avaliação, por ser dos mais marcantes, decisivos e difíceis. Na emissão de ontem, a equipa da RTP deu um exemplo de extraordinária dignidade, sem perder o sentido do momento, da notícia, da reação e do comentário.
João Pedro Mendonça, Marco Chagas, Alexandre Santos e Ana Barros souberam sempre o que fazer e como fazer. E fazer bem, no respeito absoluto pela situação inusitada, percebendo o alcance, o significado e o impacto de cada palavra, de cada ideia, de cada intervenção ou entrevista. E fazendo-o em televisão, com a seriedade mas, também, com o distanciamento que sempre deverá caraterizar o repórter.
A RTP conseguiu juntar a componente informativa factual a um conjunto de reações e de informações adicionais no tempo certo, não antecipando por respeito, mas não adiando sem necessidade.
E garantiu equilíbrio e sobriedade. Num momento como o do falecimento do jovem ciclista, pergunto-me quantas estações de televisão e quantos profissionais de comunicação o conseguiriam, garantindo o fluxo e a narrativa, sem nunca comprometer o perfil e a descrição.
Talvez nenhuma e nenhuns, o que só sublinha a indesmentível qualidade e sobriedade do serviço público de televisão.

João Palhinha
Bem sei que o jogador pretenderá o melhor para o seu futuro profissional, agora que o Bayern Munique oficializou a sua dispensa dos planos de Vincent Kompany.
Mas a novela em torno de João Palhinha torna-se dificilmente suportável, sobretudo pelo alongar de informações difusas, e, seguramente, de fontes muito mal informadas.
A gestão da comunicação em torno do jogador não está a ser bem acautelada, com as inerentes fugas, contradições e muitas opiniões.
Palhinha, um dos excelentes e muito experientes jogadores da sua geração, merece tranquilidade para o próximo passo da sua carreira. Admissivelmente, um passo decisivo para que o centrocampista se mantenha (ou não…) no centro das atenções do futebol internacional…"