O futebol não é uma moda


"Fisicalidade introduzida por Farioli resultou no FC Porto, mas o mais importante é a convicção. E a identidade de jogo de Espanha é o melhor exemplo.

Estive a ver na terça-feira os jogos Sporting-Celtic e França-Espanha e dei por mim a pensar que a moda pode ser um risco. Considero que os bons exemplos devem ser seguidos, mas só o devem ser com convicção.
Vem isto a propósito do campeão FC Porto, particularmente como Francesco Farioli transformou num ápice uma equipa perdedora num conjunto vencedor. O italiano tem uma ideia de jogo assente no poderio atlético, na qual a capacidade física tem um peso decisivo.
Com Farioli chegaram Alberto, Bednarek, Kiwior, Froholdt, Pablo Rosario, Luuk de Jong ou Borja Sainz, que se juntaram a outros atletas poderosos fisicamente, como Samu, Alan Varela, Pepê ou Deniz Gul. Num ápice, o dragão tornou-se numa máquina fortíssima, com o treinador escolhido por André Villas-Boas a logo adicionar uma nova palavra ao léxico do futebol português: fisicalidade.
E a fisicalidade caiu em moda e até promete fazer escola. Curiosamente, foi Bruno Lage quem procurou dar o mote, assumindo que pretendia outro perfil de jogadores para o Benfica. Chegaram Manu Silva, Richard Ríos, Barrenechea, Lukebakio ou Ivanovic, mas o treinador não teve tempo para construir uma equipa à sua imagem, acabando despedido numa fase bem precoce da época.
Agora, surge o Sporting a apostar numa estratégia diferente da dos últimos anos, já com muitos reforços e uma base comum: a… fisicalidade. Altimira, Doumbia, Silas Andersen e o próprio Zalazar são jogadores fortíssimos atlética e fisicamente.
Já se percebeu que Rui Borges, enterrada a herança deixada por Ruben Amorim, pretende mudar o figurino da equipa. Quer um leão mais forte, mais agressivo e também com mais fome. É por este ângulo que observo as saídas anunciadas de Trincão, Pedro Gonçalves e Daniel Bragança, que se juntam às inevitáveis de Morita e Hjulmand. Confesso até que não me surpreenderia que mais algum peso pesado se juntasse ao rol, nomeadamente um dos defesas-centrais.
Certo é que o Sporting vai ser diferente e os indicadores que deu no particular com o campeão escocês até foram animadores. Vamos ter um leão mais arrojado, mais rápido e mais combativo, fruto do sangue novo injetado. Nada a opor, obviamente, pois acredito que todos os reforços tenham o selo de Rui Borges, que prepara a transfiguração assente na convicção e nunca por uma questão de moda, embora esta tenha dado excelentes resultados no Dragão.
Já se percebeu que considero que a convicção é fundamental, pois só ela permite criar uma identidade. Como se constatou na meia-final do Mundial, com a Espanha a dar uma lição de futebol à favorita França. O projeto da federação do país vizinho é sólido, sustentado, assente numa ideia de jogo e transversal. O Barcelona criou o modelo e a seleção adotou-o. Com excelentes resultados. Tanto nos escalões de formação como na seleção principal. A promoção de Luis de la Fuente dos sub-21 à La Roja é só o corolário de uma lógica.
A França tem melhores jogadores — o ataque é mesmo extraordinário —, mas quem levou a melhor foi a equipa, a ideia, a convicção."

Preparação intensa


"A pré-época do futebol profissional do Benfica em destaque nesta edição da BNews.

1. Ingressos disponíveis
A venda de bilhetes para o St. Gallen-Benfica da 1.ª mão da 2.ª pré-eliminatória de acesso à fase de liga da Liga Europa reabre às 15h00.

2. Intensidade na pré-época
O grupo de trabalho às ordens de Marco Silva continua a preparar-se para a nova temporada.

3. Jogo de preparação agendado
Benfica e Belenenses encontram-se no Estádio da Luz, no dia 24 de julho, às 18h00.

4. Pré-época da B
Em jogo treino com o Lusitano GC registou-se um empate a um golo.

5. Movimentações do defeso
Alexandre Ferreira, internacional por Portugal, reforça o voleibol benfiquista. Na vertente feminina do basquetebol, Inês Faustino renova o contrato e Ana Barreto e Inês Neto juntam-se ao plantel benfiquista.

6. Sorteios
Em voleibol, o Benfica vai participar na CEV Cup no masculino e na CEV Challenge Cup no feminino. A equipa feminina de andebol participa na EHF European League.

7. Chamadas internacionais
Catarina Bernardino faz parte da seleção portuguesa no Mundial Sub-18 de andebol. A mais recente convocatória da seleção feminina Sub-19 de voleibol inclui quatro jogadoras do Benfica. E são 3 os atletas encarnados no Campeonato da Europa Sub-18 de atletismo.

8. Jornal O Benfica
A edição desta semana já está disponível para download no Site Oficial."

Prevenir em vez de remediar


"Quando fiz a minha primeira aposta, não estava a pensar em probabilidades nem em integridade. Apostei num cavalo a 33 para 1 porque corria com as cores do meu clube de futebol, o Preston North End.
Ganhou com 12 corpos de vantagem, e aquele momento provocou em mim uma sensação que passaria 17 anos a perseguir. Quando finalmente parei, tinha movimentado 5,6 milhões de euros em 93 contas e perdido quase tudo o que realmente importava. Partilho isto não para despertar compaixão, mas porque é a prova mais clara que tenho de que os danos causados pelo jogo raramente se anunciam — escondem-se à vista de todos, no interior de uma carreira, de um casamento, de uma vida que, vista de fora, parece estar inteiramente sob controlo.
A três dias do apito final, o Mundial entra no seu último acto — e o futebol tem uma oportunidade rara: não a de fiscalizar as apostas depois de o dano ocorrer, mas a de olhar honestamente para aquilo que este torneio nos mostrou sobre prevenção e para o que ainda falta construir antes do próximo.
O torneio gerou um volume extraordinário de apostas, grande parte delas legítima, outra nem tanto — o mercado negro é um risco crescente que nunca foi meramente hipotético.
A polícia francesa foi alertada para um aumento invulgar de apostas internacionais relacionadas com a possibilidade de Elye Wahi, jogador que participou no Mundial, ver um cartão no último jogo que disputou no campeonato nacional antes do torneio, o que desencadeou uma investigação a padrões suspeitos em torno da sua conduta. Casos como este são normalmente enquadrados apenas como um risco de manipulação de resultados. Mas levantam uma questão mais difícil: que formação recebeu esse jogador, e outros como ele, sobre a exposição ao jogo ou sobre integridade muito antes de qualquer investigação ter começado? Os Standards Universais da SIGA abordam, e bem, a ameaça à integridade. O interesse da EPIC situa-se na camada que lhe está subjacente — o bem-estar dos jogadores, das equipas técnicas e dos adeptos dentro de um ecossistema de apostas mais rápido, mais acessível e mais anónimo do que em qualquer outro momento da história.
O jogo online alterou o risco. Está disponível a todas as horas do dia, não exige qualquer transação visível e pode intensificar-se em privado, sem que as pessoas mais próximas se apercebam. A minha própria dependência permaneceu invisível para a minha mulher e para os meus colegas de equipa durante quase uma década — uma característica estrutural da forma como hoje se acede ao jogo e a razão pela qual a prevenção tem de estar incorporada no sistema, e não ser acrescentada posteriormente.
Na EPIC Global Solutions, que fundei depois de cumprir uma pena de prisão relacionada com a minha dependência, o nosso modelo assenta num princípio: a prevenção tem de surgir antes do dano. Cerca de metade da nossa equipa tem experiência vivida de dependência do jogo, e trabalhamos nas áreas do desporto, jogo, serviços financeiros, forças armadas, justiça criminal e educação de jovens, em mais de 30 países.
A nossa parceria com a SIGA é importante para mim a nível pessoal, e não apenas profissional. Os Standards Universais da SIGA e o trabalho de prevenção da EPIC partilham uma convicção: proteger a integridade do desporto e proteger as suas pessoas são uma única missão, observada de dois ângulos diferentes. A SIGA traz um modelo de governação rigoroso para a integridade das competições; a EPIC traz a experiência da linha da frente sobre aquilo que os danos causados pelo jogo realmente são e sobre como intervir antes de um jogador, dirigente ou adepto entrar num território mais destrutivo. Em conjunto, estamos a desenvolver ferramentas, formação e campanhas que tratam a proteção dos atletas como uma questão central de integridade, e não como uma preocupação periférica de bem-estar.
Os danos causados pelo jogo não são definidos pelo valor de uma aposta nem pelo saldo de uma conta bancária, mas pela relação entre o indivíduo e o comportamento. Um jovem jogador de academia que aposta pequenas quantias em segredo pode correr mais perigo do que um adepto abastado que aposta grandes somas de forma recreativa. Isto é verdade em todo o mercado regulado — e ainda mais nos mercados não regulados.
O Mundial foi visto por milhares de milhões de pessoas, muitas delas jovens, que formaram as suas primeiras perceções sobre as apostas ao longo de um mês de marketing associado ao torneio. Quando o troféu for erguido, federações, ligas e operadores terão a oportunidade de adotar um modelo melhor antes do próximo torneio: parcerias transparentes entre entidades de integridade e especialistas em prevenção de danos, formação dirigida aos jogadores antes de os problemas surgirem e uma conversa sobre o jogo que leve a prevenção tão a sério como a deteção.
O jogo existe há 3.000 anos e continuará a existir nos próximos 3.000. A resposta não passa por afastar as apostas do desporto, nem isso seria realista. Passa por reconhecer honestamente o risco e investir na prevenção com a mesma seriedade com que o desporto investe em medidas antidopagem ou de combate à manipulação de resultados. Todas as formas graves de perturbação de jogo com que me deparei, incluindo a minha, terminam num de quatro destinos: falência, rutura de relações, condenação criminal ou — nos piores casos — problemas graves de saúde mental. A prevenção é a única intervenção capaz de interromper esse percurso.
Há quase 15 anos, fiz a minha última aposta. Tudo o que a EPIC faz, e tudo o que a nossa parceria com a SIGA está a construir, nasce do desejo de que menos pessoas percorram a distância que eu percorri antes de alguém intervir. Agora que este Mundial chega ao fim, deixa um indicador claro pelo qual poderemos medir o próximo: proteger a integridade do desporto tem de incluir a proteção de quem o pratica, de quem o apoia e de quem o vê. A prevenção não é uma nota de rodapé da integridade — é o seu alicerce."

O fabuloso destino 'Rojo'


"A Espanha pode não ser campeã do mundo, mas De la Fuente sairá sempre por cima deste Mundial

De todos os semi-finalistas, só a Espanha tinha jogado grandes jogos até agora. França, Inglaterra e Argentina, com maior ou menor nota artística, limitaram-se a cumprir os serviços mínimos para atingir a fase das decisões.
Não chegar a esta fase da prova seria uma desilusão para todos. Terá isso feito a diferença? Em muitos jogos deu a sensação de que os jogadores franceses eram muito melhores. Não havia dinâmica colectiva que lhes fizesse frente porque a diferença era muita. Quando o nível do adversário subiu a equipa não foi capaz de dar resposta. Creio que poucos imaginavam que a Espanha se sobrepusesse desta maneira ao grande favorito. Não temos forma de saber o que seria do jogo se Digne não tivesse cometido penálti sobre Yamal, talvez isso tenha detonado os níveis de confiança dos franceses e tenha agarrado os espanhóis ao seu plano de jogo. No entanto, registe-se como a França praticamente não teve oportunidades de golo nem remates enquadrados, o que numa equipa que começou o jogo com Mbappé, Olise, Barcola e Dembélé é impressionante.
O dado interessante é que isto esteve longe de significar que a Espanha se tenha defendido com unhas e dentes, ou talvez o tenha feito da maneira mais eficiente possível: tendo a bola, gerindo ritmos de jogo, mantendo o adversário longe da baliza. E isto foi suficiente para que os espanhóis tenham concedido apenas um golo durante os cinco jogos da competição.
Luis de la Fuente arrisca-se a passar de ilustre desconhecido a um nome marcante da história do futebol num par de anos. Mesmo sendo a Espanha uma das mais fortes seleções do torneio, é evidente que a subida de rendimento de Rodri e Yamal potenciou o crescimento colectivo da equipa. Por outro lado, substituir Pedri nunca seria uma decisão fácil, e a entrada de Fabián Ruiz catapultou a equipa para outro patamar.
Talvez tenha sido, aliás, parte do problema da selecção francesa. Sentiu-se sempre que Rabiot e Tchouaméni não chegaram para as encomendas. Rodri dominou o meio-campo e teve um papel decisivo na circulação espanhola. Oyarzabal meteu-se muitas vezes por dentro do bloco, arrastou centrais, potenciou entradas em rotura. Novamente: Rabiot e Tchouaméni ou, noutra versão, Rabiot e Koné, foram suficientes quando menos faziam falta. Quando a exigência subiu os problemas estruturais evidenciaram-se.
A Espanha pode não ser campeã do mundo, mas De la Fuente sairá sempre por cima de um Mundial que até foi iniciado aos ziguezagues. Curiosamente, como o último campeão do mundo."

Querer foi mesmo poder


"Para que não subsistam quaisquer dúvidas, sou pela competência e não tenho nenhum ‘parti pris’ contra os treinadores estrangeiros. Antes de andarmos pelo mundo a ensinar futebol, aprendemos sobretudo com os húngaros, ingleses e brasileiros, que nos levaram para patamares superiores. Devemos ter esta consciência e prestar homenagem a quem nos ajudou e nos mantém alerta para não nos deixarmos adormecer. Duas das maiores revoluções do nosso futebol tiveram o brasileiro Otto Glória e o sueco Sven-Goran Eriksson como protagonistas, pelo que só nos fica bem a humildade de reconhecer que adquirir saber, venha de onde vier, é fundamental para evoluir.
Dito isto, e tendo o Campeonato do Mundo no ponto de mira, mais uma vez será um treinador ‘nacional’ a sagrar-se campeão do mundo, Sclaloni ou De la Fuente. E quantas vezes aconteceu isto, desde 1930? Todas! Sim, nunca um treinador 'estrangeiro' se sagrou campeão do mundo. E sabem quantos treinadores 'estrangeiros' estavam nas 48 seleções concorrentes ao Mundial de 2026? Nada mais, nada menos do que 26, sendo as quedas de Ancelotti, Tuchel, Martínez, e Garcia, as mais impactantes.
Mas este Campeonato do Mundo da América do Norte abre-nos outra possibilidade: Lionel Scaloni pode igualar, assim a Argentina derrote a Espanha na final, o italiano Vittorio Pozzo, até agora o único treinador a vencer dois Mundiais consecutivos (1934 e 1938)...
Quanto ao jogo de ontem entre argentinos e ingleses, confesso que comecei a torcer pelos europeus e acabei a desejar a vitória dos sul-americanos. Quis que a Inglaterra chegasse à final, porque são um país de futebol, têm adeptos (uma vez erradicados os ‘hooligans’) que respeitam a integridade do jogo, e puseram de pé o melhor campeonato do planeta, onde atuam cinco dos titulares da Argentina que ontem acedeu à final, em Atlanta. Acabei a querer que a ‘albiceleste’ vencesse porque os apóstolos de Messi juntaram a uma disciplina futebolística europeia, as ‘ganas’ que sempre os caraterizaram. Como dizem os brasileiros, não tiveram ‘sangue de barata’, ou, como dizemos nós, tiveram ‘sangue na guelra’, enquanto que os ingleses de Tuchel, mal se viram em vantagem, levaram o resultadismo à enésima potência, ‘alugaram’ um ‘Double Decker’ que colocaram à frente do magnífico Pickford, e deixaram uma imagem de equipa pequena.

* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minutemen, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…"

Com Jesus isto vai ser bem mais divertido


"A Federação troca o soporífero pela cafeína... Jesus é a bebida energética que a seleção precisava. E se falharmos, será com estilo, será a tentar...

Há muitas maneiras de avaliar a qualidade de um treinador. Posso olhar para os resultados e para a qualidade estética do futebol praticado pelas equipas que comanda. Mas nada é tão completo quanto o que me dizem dele os jogadores por ele treinados. Não me refiro às declarações de atuais jogadores em entrevistas ou conferências de imprensa, mas as de antigos jogadores, em público ou privado, numa fase em que já não dependem do treinador para nada. E deixem que vos diga: em cada 10, cinco consideram Jorge Jesus o melhor treinador que tiveram; quatro entre os dois a três melhores e um diz que é apenas um bom treinador. O trabalho tático, o conhecimento do futebol e a capacidade de tirar rendimento de um jogador e colocar a equipa a jogar muito bom futebol é destacado por todos. Já 10 em cada 10 dizem também que ferve em pouca água; dá reprimendas em público se for preciso – tal como, a seguir, defende o jogador até ao limite; é obsessivo com o trabalho e se tiver de acordar alguém a meio da noite… acorda; é tão perfecionista e tão atento ao pormenor que chega a ser cansativo. Suga. Logo, a larga maioria desses ex-jogadores sempre me contou que à terceira época havia já um desgaste, mantendo-se o respeito e admiração. E não param de falar nele…
Conheci Jorge Jesus em 1998, no Estrela da Amadora. Numa altura em que os treinos aconteciam à porta aberta, bastou-me o primeiro para perceber que era um treinador diferente. A atenção ao detalhe e a qualidade do treino eram evidentes. No final, várias vezes, ficava a falar com os jornalistas. Explicava, debatia, ensinava. Anos mais tarde, num estágio de início de época do SC Braga, assisti a um treino em que uma jogada de ataque, que começou num guarda-redes e acabou num remate para defesa do outro guarda-redes demorou… 45 minutos. Jesus quase de fita métrica na mão a interromper a cada cinco segundos, a corrigir posicionamentos e decisões, a explicar tudo numa lógica de xadrezista.
Aprendi também a gostar de Jorge Jesus pela personalidade. Gingão. Divertido. Às vezes irritante. Umas calinadas no português, uma dose q.b. de arrogância. Tão genuíno. Diz que inventou coisas no futebol. Pablo Aimar concorda. Disse, após ter saído do Benfica, que com Jesus aprendeu coisas que nem sabia que existiam. E Aimar já era Aimar. E tantos outros…
Jesus é um corte com Roberto Martínez. Na personalidade, na independência, até na capacidade de fazer sangue para clarificar. Mas, acima de tudo, na capacidade de colocar a Seleção a jogar. É possível que arranje uma ou outra confusão, alguma incompatibilidade, se espalhe aqui e ali com alguma visão. É o preço a pagar por quem tem personalidade e fervilha de ideias. Pode falhar como outros. Mas falha a construir. Onde Martínez falhou por ausência a mais, Jesus pode falhar por presença a mais. Vai fazer os adeptos acreditar. E em termos de comunicação, trocamos o soporífero pela cafeína. Jesus prende-nos.
Tenho as dúvidas de muitos: uma coisa é treinar um clube, outra a Seleção. Aqui, não tem tempo para vincar novas ideias; aqui tem de partilhar as ideias que defende com as que os jogadores trazem dos clubes. Mas sei que Jesus é um grande treinador. É um personagem. Tem carisma E gosto dele. Pronto.
Esta Seleção, não tenho dúvidas, vai ser muito mais mais competente e… muito mais divertida."

Para português ver: o que é uma verdadeira grande seleção


"«A deceção é grande, mas não apaga tudo de bom que fizemos. Não tiro o mérito à seleção espanhola, que controlou o jogo»
Didier Deschamps, selecionador francês, após derrota com a Espanha na meia-final do Mundial

Didier Deschamps termina aventura de 14 anos como selecionador da França com a eliminação nas meias-finais do Mundial, uma deceção, mais uma, para aquela que foi, provavelmente, a melhor seleção da última década.
E despede-se apenas com um grande título, o Mundial 2018 (ganhou também a Liga das Nações de 2021); mas para quem regularmente coloca Portugal entre as principais seleções do Mundo, atente-se no que a França conseguiu com Deschamps.
Em quatro Mundiais, chegou aos quartos de final (2014), meias (2026), final (2022) e venceu a competição em 2018; nas três eliminações, caiu frente a Alemanha, Espanha e Argentina. Em três Europeus, perdeu em casa a final de 2016 contra Portugal, caiu nos oitavos de 2020 nos penáltis, contra a Suíça, e foi eliminada nas meias de 2024 contra a Espanha. Tirando em 2020, todas as seleções que eliminaram os bleus foram campeãs.
No mesmo período, Portugal não passou da fase de grupos do Mundial em 2014, foi eliminado nos oitavos de 2018 pelo Uruguai, nos quartos de 2022 por Marrocos e nos oitavos de 2026 pela Espanha; e no Euro, após ganhar em 2016, caiu nos oitavos de 2020 com a Bélgica e nos quartos de 2024 com a França.
Não é mau, mas em sete fases finais a Seleção chegou uma vez às meias; a França só não o fez por duas vezes. Só para pôr em perspetiva o que é uma verdadeira grande seleção."

A traição de Thomas Tuchel


"Argentina e Espanha não encontraram data para a Finalíssima e quis o destino que se enfrentem na final do Mundial. O tira-teimas entre o campeão da Europa e o bicampeão da Copa América entregará o título planetário à melhor das duas melhores equipas do torneio e, ganhe ou não, o ceptro definitivo a Messi, o último filho dos deuses, na última dança enquanto carne e osso.
Acredito que, em 1986, as Malvinas tenham passado pouco pela cabeça de Maradó, Valdano, Burruchaga e companhia, quando bateram a Inglaterra no Azteca. Mesmo que o 'Pelusa' tenha dito sobre a Mão de Deus que roubar a um inglês era ainda mais especial, ele e os colegas também confessaram ter atribuído peso relativo ao conflito. Também ontem, com mais quatro décadas em cima, apesar da eterna reivindicação territorial sul-americana, pouco terá contado. Mesmo com a faixa levantada no final. Se a viram antes, afinaram então o grito de guerra, porém serviu sobretudo para pisar ainda mais o velho inimigo já prostrado.
Houve rivalidade, agressividade de faca nos dentes e toda a emoção que os argentinos colocam em cada duelo — tremendas palavras e lágrimas de Lautaro Martínez, que sonhava com um golo num momento destes desde que a mãe lhe comprou as primeiras botas —, mas sobretudo uma alma que nasce da adversidade e que torna a Albiceleste avassaladora, sobretudo quando sente o cheiro do receio. E depois Messi, mais uma vez, com Scaloni a ajudar.
Talvez 'La Scaloneta' não tivesse chegado lá sem a ajuda de Tuchel e os quatro centrais, com um à direita, e a linha de cinco. Com o levantar do muro logo à frente de Pickford, ainda mais alto com Dan Burn. Nunca conheceremos essa realidade alternativa. O que não impede que as decisões do alemão pareçam uma traição à natureza da equipa e à qualidade dos seus atacantes. Messi olhou para o gigante de dois metros e encolheu os ombros. «Tomá lá, Lautaro!» E o planeta abanou com a vénia que todos lhe fizeram."

Tudo e todos precisam de estratégia


"Estratégia é definir uma visão para 5 a 10 anos e garantir que as decisões do dia a dia caminham todas na mesma direção.

A palavra estratégia tornou-se uma das mais utilizadas no desporto, embora uma das menos compreendidas. Surge em campanhas eleitorais, apresentações institucionais e até de treinadores.
Usando como exemplo a recente nomeação de Jorge Jesus para selecionador nacional, por si só, esta decisão não representa uma nova estratégia, por muito mediática que possa ser. Representa por si só e apenas a escolha de um treinador. Pode fazer parte de uma estratégia mais ampla, mas isso só Pedro Proença e os seus pares saberão. Para o comum dos mortais, será apenas uma especulação.
Confundimos demasiadas vezes uma decisão com uma estratégia. Contratar um treinador, mudar um diretor desportivo ou apostar na formação pode estar alinhado com uma estratégia, mas nenhuma dessas decisões, isoladamente, constitui uma estratégia. Estratégia é outra coisa.
É definir uma visão para 5 a 10 anos e garantir que as decisões do dia a dia caminham todas na mesma direção, estão alinhadas e vão ao encontro do que a cultura organizacional fomenta diariamente. É alterar modelos de funcionamento, processos, o recrutamento e a forma como a organização toma decisões. Não deve depender apenas de uma pessoa e muito menos de um treinador.
Jorge Jesus é, naturalmente, uma decisão desportiva, estrutural e política. O seu currículo, experiência e personalidade são inquestionáveis, tem uma forma peculiar de contagiar quem o rodeia (que neste caso, serão todos os portugueses) e é legítimo que o presidente da FPF pretenda ter um novo selecionador. Mas a verdadeira questão não deverá ser quem ocupa o cargo. É perceber se esta decisão vai ao encontro da visão para o futebol português que sobreviva ao mandato do presidente e do novo selecionador. Só isso será uma verdadeira estratégia.
Qualquer estratégia é medida pela consistência e coerência das decisões. E tal como num objetivo demasiado estruturante, é aí que a maioria das pessoas e das organizações falha.
Por último, este caso, que pode ser transversal para muitos outros casos no desporto, dá-nos três ideias-chave: Jorge Jesus, como poucos, tem sabido ter e gerir a sua estratégia desportiva e comunicacional, honra seja feita. Em todas as organizações, a estratégia para ter o mínimo de aspiração a ter sucesso deve ser abarcada como de todos ou quase de todos. Por último, para quem lidera, não há obrigatoriedade de incluir todos nas decisões estratégicas, mas o compromisso de todos ganha-se por alinhamento, inclusão e cultura organizacional."