sexta-feira, 19 de junho de 2026

Finanças...

Benfica vai valer o dobro com Marco Silva


"Ex-Fulham foi escolha acertada de Rui Costa. Terminadas as novelas do treinador que sai e do treinador que entra, é hora de começar a trabalhar e seguir os bons exemplos.

O Benfica regressou, finalmente, à tranquilidade. Terminada a novela José Mourinho, que de forma não digo inédita, mas da qual não tenho memória, coincidiu com a… novela Marco Silva, os adeptos podem finalmente concentrar-se na nova temporada. E respirar de alívio, após semanas e semanas de desilusão e, claro, angústia.
Rui Costa, apesar de todas as críticas, acabou por ganhar a guerra e arrecadar 15 milhões de euros com a mudança do special one para o Real Madrid. Contudo, o enredo deixou marcas no clube e, acredito, também no presidente. O dinheiro, apesar do valor elevado e de tanta falta fazer para compensar a ausência na próxima Champions, não é tudo, especialmente para um clube da dimensão do Benfica. Há danos reputacionais que euro nenhum paga…
Agora, todavia, é tempo de olhar para o futuro… imediato. E considero que Rui Costa fez uma excelente escolha. Marco Silva já a todos mostrou que há muito está preparado para os maiores desafios e também considero que um perfil discreto como o do ex-treinador do Fulham é o que o Benfica necessitava neste momento.
José Mourinho, do qual sou desde sempre profundo admirador, acabou por não fazer um bom trabalho no Benfica. Falhou desportivamente e também praticamente não deixou nenhuma herança. Isto, claro, no campo, já que fora dele mais uma vez provou que é o número um. Foi determinante para a reeleição de Rui Costa e, acredito, também em termos estruturais nada vai ser igual no Seixal.
Todos vamos sentir também saudades do discurso ímpar, mas regressando aos jogadores creio que à exceção de Schjelderup, que, depois de uma convivência inicial difícil, acabou por potenciar, pouco mais há a elogiar. E, ao contrário da maioria, pelo que constato pelas críticas, considero que o Benfica tem um excelente plantel. Como tal, acredito que o Benfica vai rapidamente valer o dobro com Marco Silva.
Não digo jogar o dobro, como Jorge Jesus celebrizou, pois isso depende muito dos resultados. Se se é campeão, é verdade, se não se conquista o título, é… mentira.
O que sucedeu ao Sporting é só um exemplo. Em 2024/2025 somou 82 pontos e Rui Borges foi uma grande escolha de Frederico Varandas, em 2025/2026 somou 82 pontos e o treinador só se salvou dada a campanha na Champions…
Mourinho, nesta fase da carreira, prefere jogadores feitos — repare-se nos primeiros reforços do Real Madrid: Bernardo Silva (31 anos), Dumfries (30), Konate (27) e Cucurella (27) —, e o Benfica não acredito que estivesse em condições de investir milhões em jogadores sem retorno financeiro. 
Rui Costa vai investir e não tenho dúvidas que o perfil dos reforços vai ser outro, essencialmente mais jovens, de forma a que Marco Silva os possa rentabilizar desportiva e financeiramente.
Paralelamente, o Benfica, creio, vai ter de vender e neste capítulo recordo a estratégia de Villas-Boas no FC Porto. Transferiu dois dos melhores jogadores, Nico González e Galeno, por muitos milhões e num ápice reconstruiu o plantel. Um clube vender os melhores jogadores e a equipa tornar-se melhor pode parecer paradoxal, mas não raras vezes resulta. Basta recordar o PSG após perder Messi, Neymar e Mbappé…
Talvez não fosse má ideia decalcar a estratégia.
Trubin, Tomás Araújo, Richard Ríos e Pavlidis valem muitos milhões e prescindir de algum ou alguns possibilitaria reforçar o plantel com os jogadores que Marco Silva considera necessários para equilibrar a equipa.
E ao mesmo tempo digo que os encarnados têm jogadores a mais, daqueles consagrados, com vencimentos avultados e cuja utilização não se coaduna com o estatuto. Transferi-los não só aliviaria a tesouraria, como permitiria lançar os enormes valores formados na casa. Isto é, apostar definitivamente e não apenas dar-lhes uns escassos minutos para ficar registado no currículo. Banjaqui, José Neto, Prioste, João Veloso, Tiago Gouveia, João Rego, Gonçalo Moreira ou Anísio Cabral estão à espera…
Tem a palavra Rui Costa, com Marco Silva, não duvido, preparado para potenciar os jogadores. Todos estes jovens e mais alguns craques que na Luz parece que desaprenderam de jogar. Há casos, estes sim, que podem jogar o… dobro. Lukebakio, Sudakov e Ivanovic são só três bons exemplos. 
Acredito num Benfica forte, mesmo numa época exigente, fruto de toda a pressão sobre equipa e estrutura e de ter de iniciar a época precocemente e obrigado a qualificar-se para a fase de liga da UEFA Europa League.
Com a confiança da estrutura e com a paciência dos adeptos, Marco Silva tem tudo para vingar na Luz."

Treinadores portugueses na ribalta!


"Este verão promete boas notícias para os treinadores portugueses no que diz respeito à sua presença e permanência nas ligas do Top 5 europeu. Para já, os sinais são encorajadores e, mais do que premiar os próprios treinadores, representam uma enorme campanha de marketing e credibilidade para o futebol português na Europa. No Brasil e no Médio Oriente, essa valorização do treinador português continua bem viva.
À data de hoje, teremos dois treinadores portugueses na LaLiga, e não podemos ignorar o facto de um deles liderar um dos clubes mais mediáticos do planeta. Teremos também um treinador em Itália num dos principais candidatos ao título, dois treinadores na Ligue 1, mantemos a nossa aversão à Bundesliga e teremos um treinador na Premier League.
É verdade que manteremos o mesmo número relativamente à época passada, com seis treinadores portugueses nas ligas Top 5. No entanto, a qualidade do posicionamento é hoje muito diferente. Ter dois treinadores portugueses em clubes com ambições reais de conquistar campeonatos e competir pelos maiores troféus europeus volta a colocar o treinador português nos maiores holofotes do futebol mundial.
Juntando a isto os vários treinadores portugueses que continuam a destacar-se no Brasileirão, nos campeonatos do Médio Oriente, os três no Championship e em diversos contextos africanos, Portugal volta a posicionar-se na linha da frente de uma das exportações mais valiosas do seu futebol: conhecimento e talento. Acresce ainda a mais do que provável entrada de um treinador português para a Seleção Nacional de Portugal. Independentemente da avaliação que cada um faça sobre quem sai ou quem poderá entrar, a verdade é que essa decisão permitirá ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol construir uma narrativa assente na valorização da competência do treinador nacional para liderar o principal ativo do futebol português.
Num país com pouco mais de 10 milhões de habitantes, conseguir produzir de forma consistente treinadores, dirigentes e atletas numa indústria tão global e competitiva não deveria ser encarado como algo normal. Deveria ser visto como uma das maiores vantagens competitivas do futebol e desporto português. Conseguimos produzir talento de quem lidera, organiza e joga."

A uma vitória do título


"Dois jogos da pré-época futebolística agendados e o triunfo benfiquista em hóquei em patins frente ao Sporting são os destaques nesta edição da BNews.

1. Jogos de preparação agendados
Benfica defronta Flamengo (11 de julho) e Villarreal (17 de julho) no Estádio Algarve.

2. Passo importante
No jogo 2 da final dos play-offs do Campeonato Nacional de hóquei em patins, o Benfica ganhou por 2-5 ao Sporting no reduto leonino.

3. Mundial 2026
Siga, no Site Oficial, o desempenho dos futebolistas do Benfica e todos os resultados e marcadores.

4. Treinador anunciado
A equipa masculina de voleibol do Benfica passa a ser liderada pelo técnico grego Sakis Psarras.

5. Entrevista de saída
Marcel Matz deixa o Benfica ao fim de 8 anos ao leme da equipa masculina de voleibol.

6. Título analisado
O balanço da temporada feito por campeões nacionais Sub-17 de futsal.

7. Torneio conquistado
As Sub-16 de futebol do Benfica ganharam o Thunder Cup 2026."

Benfica e LiveModeTV assinam parceria


"O Sport Lisboa e Benfica e a LiveModeTV assinaram uma parceria estratégica no âmbito do Mundial 2026. O acordo baseia-se numa lógica de cooperação mútua, com foco na partilha de conteúdos exclusivos e na promoção conjunta das respetivas plataformas digitais.
Ao abrigo deste compromisso, a LiveModeTV passará a disponibilizar e a promover iniciativas e conteúdos institucionais do Sport Lisboa e Benfica junto da sua vasta audiência digital, conferindo maior visibilidade a projetos estratégicos e lançamentos oficiais do Clube.
Em contrapartida, o Sport Lisboa e Benfica apoiará ativamente a divulgação das transmissões da LiveModeTV durante o Mundial FIFA 2026. Esta colaboração incidirá de forma particular nos encontros que contem com a participação de atletas do Clube, potenciando a notoriedade e o alcance da marca LiveModeTV junto da comunidade benfiquista.
Com esta aliança, ambas as entidades reforçam o seu compromisso em aproximar os adeptos dos grandes palcos do futebol mundial, recorrendo a conteúdos digitais inovadores, dinâmicos e de elevado valor acrescentado."

D. Sebastião e as Areias Movediças


"Há mitos que inspiram um povo. E há mitos que, quando se prolongam para além do seu tempo, acabam por impedir esse mesmo povo de avançar. Portugal conhece bem essa história.
No futebol, talvez estejamos a viver uma versão moderna desse fenómeno. A cultura exacerbada do líder raramente produz equipas vencedoras. Pelo contrário, oprime o talento coletivo, inibe a criatividade individual e transforma uma equipa numa estrutura ao serviço de uma única figura.
Cristiano Ronaldo não deve jogar porque "merece", porque tem um passado extraordinário ou porque é uma lenda do futebol. Apesar de esse passado merecer um respeito eterno, o presente, por muito que doa, exige rendimento. Numa Seleção Nacional deve jogar quem está em melhores condições para competir ao mais alto nível.
Aos 41 anos, um Campeonato do Mundo exige uma intensidade física e mental sem paralelo. A experiência continua a ser um ativo valioso, mas não pode substituir aquilo que o corpo, inevitavelmente, já dificilmente consegue oferecer durante 90 minutos. Basta olhar para as explosões físicas de Mbappé ou Vinícius, capazes de desafiar a própria lei da gravidade, para perceber a exigência do futebol moderno.
Mas a responsabilidade não termina no jogador. A questão do selecionador é ainda mais preocupante. Mais uma vez temos uma das melhores gerações da história do futebol português e, no entanto, continuamos sem ver uma liderança capaz de tomar decisões difíceis, libertar a equipa da dependência de uma única referência e transformar talento individual numa verdadeira equipa.
Existe, porém, um problema ainda mais profundo, a cultura competitiva que se instalou no futebol. A minha experiência enquanto atleta olímpico diz-me que qualquer atleta de topo das modalidades ditas amadoras sabe que representar Portugal é um compromisso absoluto. A preparação e o foco tornam-se inegociáveis. Durante uma grande competição desaparecem estatutos, egos, distrações e zonas de conforto. Existe apenas um objetivo, um orgulho único: servir a Seleção. Para além dessa causa nobre, há poucas recompensas que se comparem a esse privilégio.
No futebol dos milhões, continua a existir a pele da estrela quando deveria emergir o atleta nacional. Vestir a camisola de Portugal deveria significar entrar num modo diferente, menos celebridade, menos marketing, menos culto da personalidade e muito mais espírito de missão.
O episódio da praia antes da competição foi, nesse contexto, um erro de imagem. Independentemente das justificações fisiológicas que possam existir, falo por experiência própria ao afirmar que, para a alta competição, a praia nunca foi boa “conselheira”. A perceção transmitida foi a de descontração quando o país esperava concentração absoluta. Trouxe inevitavelmente à memória episódios lamentáveis de seleções passadas, não pelos factos em si, mas pelo simbolismo de uma preparação onde a imagem pública parece sobrepor-se à exigência competitiva.
Depois o jogo com o Congo. Em demasiados momentos, Portugal faz lembrar um encontro de solteiros contra casados. Falta intensidade, agressividade competitiva, sentido de urgência e aquela sensação de que cada bola pode decidir um Campeonato do Mundo.
Também o papel do capitão merece reflexão. Um capitão existe para colocar a equipa acima de qualquer interesse individual. Quando a narrativa passa demasiadas vezes pelos recordes pessoais, o foco coletivo perde-se.
O mais inquietante é que este fenómeno parece ter contaminado até na forma como os jogos são narrados. Portugal aproxima-se da baliza e ouvimos, como aconteceu no último jogo, mesmo nas raras ocasiões de perigo: "Ronaldo quase marcou." Como se o centro da história fosse a corrida para os mil golos e não aquilo que verdadeiramente interessa: Portugal vencer.
As areias movediças têm uma característica cruel, quanto mais nos debatemos para permanecer onde estamos, mais depressa nos afundamos, impedindo-nos de libertar o enorme talento coletivo que Portugal tem à disposição.
Talvez tenha chegado o momento de abandonar o nosso sebastianismo futebolístico e permitir, finalmente, que a equipa, como um todo, venha ao de cima, chegando onde tenha de chegar!"

Portugal lento e previsível


"Análise ao desempenho da Seleção frente à RD Congo

É difícil perceber como uma equipa com tanta qualidade individual consegue produzir tão pouco. A RD Congo foi a décima equipa africana a apurar-se para este Mundial, via play-off, e assumiu uma postura inicial condizente com a discrepância de qualidade entre as duas equipas. Expectante, deixando que o adversário se acercasse da sua baliza, mas sem conseguir impedir que Portugal desbloqueasse o jogo logo a abrir.
Este podia ter sido o mote para uma tarde tranquila em Houston. Contra um adversário defensivo, o primeiro golo é muitas vezes o tónico para abrir espaços. Não foi o caso: Portugal fez muitos mais passes que a RD Congo (724-197), mas rematou menos vezes (8-7). Justiça seja feita que alguns dos lances de perigo não redundaram em remate (recorde-se a incursão de Nuno Mendes, aos 18’), mas os números ilustram um jogo pastoso e previsível.
Faltaram, muitas vezes, movimentos complementares de rotura aos que foram feitos em apoio por parte dos jogadores mais adiantados. A circulação à largura encontrou solução frequente no cruzamento pouco produtivo, e poucas vezes foi capaz de rodar e encontrar espaço do lado contrário. As combinações pelos corredores também foram inexistentes ou lentas, permitindo que os médios congoleses resolvessem com coberturas próximas. Até à entrada de Francisco Conceição foram raras as vezes em que Portugal criou espaços pelo drible.
A falta de movimentos nas costas da linha defensiva foi dando confiança a um adversário que, através de transições ou de bolas paradas, podia ter criado problemas maiores. Ao expor-se, a RD Congo deu espaços nas costas dos médios que Portugal nunca aproveitou. Talvez Trincão e Félix pudessem ter ajudado. Por outro lado, com tanto jogo de corredor, por que razão Ramos só aos 83’?
Martínez mexeu, mas o problema não era só individual. Portugal não revela intencionalidade colectiva própria, não revela capacidade de criar espaços através de dinâmicas conjuntas e, em dias em que as individualidades jogam a dez à hora, é quase impossível desmontar um adversário bem organizado.
Portugal dificilmente falhará o apuramento. É difícil fazer pior frente ao Uzbequistão e, numa situação desastrosa, passam seis dos oito terceiros. Nesse sentido, a postura despreocupada que Martínez trouxe à conferência entende-se. Contudo, é difícil perceber como estar «satisfeito com a atitude» num jogo onde se jogou tão pouco, tão devagar, e onde a equipa foi tão poucas vezes capaz de agitar a estrutura defensiva adversária."

Cristiano Ronaldo não é solução, mas também não é o problema


"«Não era o arranque que queríamos, mas isto está longe de ter acabado»
Cristiano Ronaldo, capitão da Seleção, após o empate de Portugal com a RD Congo a abrir o Mundial

Cristiano Ronaldo virou de novo saco de pancada da Seleção (há quem não se lembre, mas já o foi, ali pelo início da década de 2010), e parece que tanta gente o considera o culpado do empate de Portugal com a RD Congo, a abrir a campanha lusa no Mundial 2026.
Jogou bem? Não, não jogou. Mas quem jogou? Teria Portugal sido melhor com Gonçalo Ramos de início? Talvez, quem sabe... Mas o mesmo se pode dizer de Diogo Dalot em vez de Cancelo, Rúben Neves em vez de Vitinha, João Félix, Trincão ou Gonçalo Guedes em vez de qualquer um dos extremos, e foram quatro...
É legítimo discutir se Ronaldo deve ser titular. Se, sendo-o, deve jogar os 90 minutos. Mas é perigoso achar que ele é o problema da Seleção. De vez em quando, o capitão falha um jogo e Portugal até joga bem, e meio mundo fica a achar que a Seleção só funciona sem ele. É mentira. Tanto já jogámos bem com ele, como já jogámos muito poucochinho sem ele.
Ronaldo, hoje, é um finalizador. Falha, claro, como ontem falhou, e talvez nem seja o melhor finalizador para a equipa. Mas não é ele, ou quem jogar no lugar dele, que deve ter a responsabilidade de criar. E a verdade é que Portugal cria muito pouco, e não é de hoje.
Vá lá que João Neves marcou um golito de cabeça — se o não tivesse feito, a nossa série sem marcar em fases finais de Europeus e Mundiais teria chegado às sete horas e meia. Pôr isso nas costas de Ronaldo é peso a mais para 41 anos..."

'Mister', isto agora vai complicar-se... e muito


"O Selecionador Nacional tem razão: mais do que pensar num eventual (e, convenhamos, improvável) título, é preciso pensar em jogar bem agora. E, sobretudo, em ganhar ao Uzbequistão

Muito mais que o resultado, é a exibição coletiva que preocupa. Mais do que Portugal se ter encolhido após uma vantagem madrugadora, serão os factos de Cristiano Ronaldo ter jogado 90 minutos e ter falhado dois golos que nunca falhava a alimentar a mais do que expectável pressão sobre a Seleção Nacional. Sim, porque isto agora vai complicar-se e muito. Mister Roberto Martínez já tem Portugal suficiente para saber isso mesmo.
Vivemos, com a Seleção, uma relação complicada de 8 ou 80, sobretudo os adeptos regulares de futebol, que aliás só lhe ligam verdadeiramente nestas ocasiões — fases finais de grandes competições. Tão depressa nos achamos sem quaisquer hipóteses como entendemos ter jogadores com qualidade suficiente para chegar a um Campeonato do Mundo na pele de favoritos.
A história do futebol está cheia de exemplos de equipas que não ganharam o primeiro jogo de uma fase final e acabaram a levantar o troféu. Um deles é nosso, curiosamente, como bem nos lembramos porque ainda só passaram dez anos.
Já agora: nas duas vezes em que empatou o primeiro encontro de um Mundial, Portugal passou a fase de grupos. Mas agora pouco vai interessar, isso, aos tais adeptos regulares de futebol, sempre mais críticos que os ocasionais.
Uma tendência da moda é culpar Cristiano Ronaldo, ou a sua manutenção na equipa, pelas coisas menos boas. Já houve bons jogos sem ele, claro, mas também os houve com ele, e recentes.
Enquanto o Mundo, de um modo muito generalizado, continua a colocar o capitão nos píncaros, muitos portugueses (e até adeptos/críticos estrangeiros) cobram-lhe o triplo ou o quádruplo do que cobram a qualquer outro internacional.
Um jornalista inglês escrevia, ontem, que a exibição de CR7 estava a ser «embaraçosa» para Martínez. Realmente esteve longe de ser boa, mas quantos, entre os que jogaram, podem orgulhar-se de ter feito muito mais?
A pressão, não duvidemos, vai aumentar exponencialmente nos próximos dias. De fora para dentro certamente; cabe a toda a comitiva portuguesa (e não apenas à equipa técnica) garantir que não existirá de dentro para dentro, algo que poderá ser fatal, como a história já nos ensinou.
O Selecionador tem razão: mais do que pensar num eventual (e, convenhamos, improvável) título, é preciso pensar em jogar bem agora. E, sobretudo, em ganhar ao Uzbequistão."

A leveza do GOAT e o peso dos nossos


"Portugal entrou no Mundial com um empate diante da modesta equipa da República Democrática do Congo e enquanto tudo parece, para já, errado na equipa de Roberto Martínez, há outras seleções em velocidade de cruzeiro, sem dúvidas no seu processo e com todos a saber o que têm de fazer em qualquer contexto.
Apenas algumas horas antes de começar o célebre 'Houston, we have a problem' a ganhar contornos de piadola fácil, durante a madrugada vimos um Lionel Messi tremendamente leve, a uma semana de completar os 39 anos, a rubricar uma exibição enorme, histórica, com três golos apontados, num triunfo tranquilo diante da Argélia. Não só a Pulga (quem quiser, também pode ler GOAT, que são cada vez mais sinónimos) como todos ao seu lado se apresentam descomplexados, confiantes, solidários uns com os outros e a tomar sempre a melhor decisão para o conjunto. Messi é o primeiro de todos a fazê-lo e continua a marcar golos, muitos deles monumentais. Não precisa de se impor. É aceite. É venerado pelos colegas. Pelos treinadores. Pelo povo.
Os argentinos não se apresentam estáticos perante blocos baixos. Mexem-se a um bom ritmo, como verdadeira equipa. Ocupam os espaços. Libertam outros. Sorriem no final de cada jogada. Estão de bem com a vida. Claro que a maioria daqueles que viajam na Scaloneta já retirou de cima dos ombros o peso de terem de ser campeões do mundo. Antes, Messi sofreu. Agora, ainda parece melhor, criando esculturas de açúcar de cada vez que toca na bola.
Os portugueses ainda não se livraram desse peso. Ronaldo ainda luta contra o estigma. E Roberto Martínez, por falta de coragem ou acreditar mesmo naquilo que parece cada vez mais errado, não consegue ajudar. A Argentina encontrou o segredo no Qatar ainda a carregá-lo às costas, com um Todos por Messi e Messi por todos que transpira desde então em cada jogada.
Não sei se esta Seleção vai dar a volta a si própria e descobrir finalmente o caminho. Um que, passe a arrogância, parece estar à vista de muita gente. Seria importante que o conseguissem para que esta não seja mais uma oportunidade perdida. Para muitos desta geração. É um Mundial, meus caros!
Cristiano Ronaldo parece estar a ser esmagado pela gravidade. Há muito que a braçadeira não se coaduna com as atitudes, desculpáveis ou não pela azia. Neste momento, ele próprio é um problema. E é imposto a um modelo que o rejeita.
Não sei se, mesmo a mostrar esta força, esta Argentina conseguirá revalidar o título. Há vários candidatos, alguns com problemas. Mas Portugal caminha para o abismo por força da sua própria teimosia em não querer ver o óbvio."

Vozinha subiu ao cume do Monte Cara


"Germano Almeida colocou o Monte Cara a ver o Mundo; Vozinha fez o inverso.

Há histórias que só se compreendem quando se olha para o lugar de onde vieram. Como a história de Vozinha. Uma história que se entende quando se olha o Mindelo. Uma cidade que o genial escritor Germano Almeida transformou em personagem principal do livro Do Monte Cara Vê-se o Mundo. Os mindelenses cresceram sob o seu olhar silencioso, vendo partir navios, regressar emigrantes e nascer sonhos que muitas vezes pareciam demasiado grandes para uma ilha pequena. Mas os mais sonhadores, os que insistem em ver o Mundo do cume do Monte Cara sentem a brisa a transportar as palavras de Nélson Mandela: «Tudo parece impossível até ser feito.»
Vozinha, no cume do Monte Cara, acreditou. Durante décadas, a ideia de ver Cabo Verde num Campeonato do Mundo pareceu impossível. A ideia de ver um guarda-redes cabo-verdiano travar uma potência mundial parecia impossível. A ideia de um homem chegar ao maior palco do futebol aos 40 anos parecia impossível. Até acontecer.
Vozinha foi o estilista e o alfaiate que desenhou e cortou o fato que hoje veste. Um autodidata que aprendeu sozinho sobre ser-se guarda-redes. Que só chegou ao profissionalismo com 25 anos. Que tem feito uma carreira digna, mas longe dos grandes campeonatos, dos maiores clubes, dos holofotes. E quando entrou em campo para enfrentar a Espanha, entrou com 40 anos de vida vivida. E quando voou num incrível golpe de rins para evitar o golo de Oyarzabal vi uma Fénix, na certeza de que nada nem ninguém trava um encontro marcado com o destino. E emocionei-me. Como se emocionou Vozinha.
Feliz quem pode, ao fim de uma jornada gloriosa, exclamar. «Valeu a pena». Por ele e pelos avós, que o criaram. Por ele e pela mãe, que devido a problemas de visto não conseguiu estar no estádio a babar-se de orgulho pelo seu eterno filhinho.
Cada defesa de Vozinha era mais do que uma defesa. Era uma resposta. Uma resposta às suas próprias questões. Uma resposta a todos os que se escudam na palavra impossível. É tão triste ter-se medo de se ser feliz. George Eliot tem razão. «Nunca é tarde para ser aquilo que poderíamos ter sido». Há frutos que só ficam doces depois de muitos verões.
Pensando bem, a história de Vozinha não é apenas sobre vitória. Nem sequer é apenas sobre heroísmo. É também sobre dignidade. A dignidade de quem valida a carreira e a vida mais pelos passos dados a cada instante do que pelos palcos pisados. Alguém que sabe até que para cada herói existem milhares que se ficam pelo abnegado esforço sem nunca pisarem os palcos do sonho. Theodore Roosevelt daria a estes que têm o mérito e as virtudes do «homem na arena».
Há cerca de um ano entrevistei Vozinha. Emocionou-se a falar de Cabo Verde. Todos os amigos e conhecidos que temos em comum me dizem o melhor sobre o guarda-redes cabo-verdiano. Fico feliz por saber que a felicidade bateu à porta de quem a merece. Mas igualmente de quem a reconheceu e lhe abriu a porta.
No Ilhéu dos Pássaros contam-se histórias de resistência. E sobre a baía do Mindelo, o Monte Cara assiste a tudo com absoluta serenidade. Sei que Germano Almeida tem razão: do Monte Cara vê-se o Mundo. E o Mundo olha agora de volta para aplaudir um filho do Monte Cara."

Coragem para sermos Portugal


"Num Campeonato do Mundo, cada jogo coloca problemas diferentes e obriga uma equipa a encontrar respostas dentro da sua identidade. A estreia de Portugal mostrou isso. Entrámos bem, chegámos à vantagem e tivemos momentos em que conseguimos instalar o nosso jogo. Mas também permitimos que a RD Congo crescesse e transformasse a partida num encontro mais dividido do que nos interessava.
O mais importante agora é perceber o que o jogo nos ensinou. Portugal tem qualidade, experiência e soluções para fazer um grande Mundial. Para isso, tem de ser uma equipa corajosa com bola, mas também sem bola. Coragem para assumir o jogo, procurar os espaços e acelerar quando eles aparecem. Sem bola, coragem para avançar em bloco, pressionar e recuperar o controlo.
Há uma palavra que considero decisiva nestas competições: lucidez. Uma equipa tem de saber quando acelerar, quando acalmar, quando assumir riscos e quando permanecer junta. Nem sempre será possível dominar. Haverá momentos em que será necessário saber sofrer, sem perder organização nem confiança. Os grandes torneios exigem essa maturidade.
O coletivo deve estar sempre acima das individualidades. Portugal possui jogadores capazes de decidir qualquer partida, mas será a força da equipa, a forma como todos participam nos diferentes momentos e a disponibilidade para colocar o talento ao serviço de uma ideia comum que poderá fazer a diferença.
O empate da primeira jornada não deve alterar a ambição, mas deve servir para acelerar o crescimento. Num Mundial, não há muito tempo para corrigir. É preciso aprender enquanto se compete, mantendo a tranquilidade e a fome de vencer.
O próximo jogo representa uma nova oportunidade para Portugal reafirmar aquilo que é. Respeitando o adversário, mas sem abdicar dos seus princípios, da sua qualidade e da vontade de impor o jogo. Acredito que esta Seleção pode crescer durante a competição. Sendo fiel à sua identidade, estará sempre mais perto de ser feliz."

Se parar é morrer, João Neves vai ser eterno


"Fez várias tarefas ao mesmo tempo na estreia da seleção no Mundial 2026, mas foi particularmente efetivo a cravar-se na grande área, onde marcou o golo da equipa de Roberto Martínez. Por isso, João Neves foi escolhido pela redação da Tribuna Expresso como a figura do Portugal-RD Congo. Veja aqui os destaques (positivos e negativos)

👑 A figura
João Neves não parece ter uma só existência. A omnipresença leva-nos a acreditar que existem outros em linhas temporais paralelas e que entre eles combinaram um encontro em Houston.
Do que se conhece do multiverso, há várias versões de João Neves: o invasor de grandes áreas, o recuperador de bolas e o construtor. No Portugal-RD Congo, todos se fundiram.
Num certo momento da estreia da seleção nacional no Mundial 2026, o médio solicitou a bola no pé para tentar acelerar a construção. Após não a ter recebido, fez uma correria desenfreada para procurar o espaço nas costas da defesa. Podem-lhe dar dois papéis em simultâneo que ele cumpre.
No entanto, foi mais efetivo quando se cravou na zona de finalização. Ainda não tinha chegado ao 1,74m que tem hoje e já se dizia nos corredores do Seixal que andava por lá um miúdo sempre aos pulos. Até que se crie uma regra que proíba o uso de molas nos pés, João Neves vai voar.
A impulsão foi-lhe particularmente útil para responder ao cruzamento de Pedro Neto, logo aos seis minutos. As aparências não lhe têm um espaço reservado naquela altitude, mas a pulga intrometeu-se para cabecear.
No momento em que adiantou a seleção nacional, tornou-se no terceiro mais jovem de sempre a marcar por Portugal num Campeonato do Mundo (21 anos e 8 meses). O recorde continua a pertencer a Cristiano Ronaldo (21 anos e 4 meses).
O médio é resultado de uma série de equívocos entre ligações que damos por certas. Ninguém pula como ele, apesar de ser baixo. Ainda atravessa a meninez, mas já cativou a maturidade.
Ao contrário do que a ficção científica sugere, Portugal só tem mesmo um João Neves. Não podendo reproduzi-lo, não assentava mal a outros assumirem o seu espírito.

🔥 O esperto
Francisco Conceição: estar no banco de suplentes não é uma condenação quando se usa o ponto de vista exterior para identificar lacunas e tentar resolvê-las. Francisco Conceição entrou como uma daquelas avós que se dizem muito modernas e, por isso, são tidas como prafrentex. Foi esperto em colmatar, no início da segunda parte, alguns dos problemas. O extremo parece funcionar de uma maneira autónoma, sendo capaz de desviar mais do que um adversário mesmo quando a equipa está a cometer um sacrilégio. Alterando o propósito da posição face ao antecessor, Bernardo Silva, assistiu Cristiano Ronaldo em duas situações que podiam ter dado à estreia portuguesa outro encanto. Talvez, como fez contra a Nigéria no último jogo de preparação, o melhor fosse ele próprio ter tentado resolver.

❌ O beneficiário
Cristiano Ronaldo: a RD Congo defendeu (e muito), mas o posicionamento da linha mais recuada não foi propriamente baixo. A estéril presença de Ronaldo não convenceu os cinco elementos da retaguarda de que, em algum momento, o avançado lhes pudesse escapar com um movimento mais repentino. A apatia do capitão permitiu à equipa africana encurtar o espaço entre setores, ou seja, os médios da seleção nacional perderam espaço. Com o jogador do Al-Nassr igualmente petrificado no momento defensivo, Portugal não teve como ser eficaz na reação à perda da bola. Santo António já se acabou, mas as titularidades em homenagem a São Cristiano estão para durar. O deputado do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, recusou o convite da Federação Portuguesa de Futebol para assistir ao jogo em Houston, sugerindo que a regalia fosse dada a alguém que “raramente tem a oportunidade de ver a seleção ao vivo”. O organismo liderado por Pedro Proença parece ter aceitado a sugestão e colocado essa pessoa a jogar lá na frente. No início do processo de decadência, aceitava-se que a capacidade de finalização substituisse a velocidade que, com o passar dos anos, perdeu. Depois, deixou de conseguir pressionar para logo também deixar de possuir habilidade para baixar e relacionar-se com os colegas. Todos os dias Cristiano Ronaldo perde e Roberto Martínez vai-se contentando com um esqueleto.

🐦 As pombinhas da Catrina
Diogo Costa, Tomás Araújo e Renato Veiga: quando não se consegue injetar atitude competitiva ao longo das fases de qualificação e nos amigáveis, a dormência contagia as fases finais. O cruzamento de Masuaku foi lento e bombeado, características que ajudam quem defende. Diogo Costa gritou é minha, Tomás Araújo afirmou outra é tua e Renato Veiga disse outra é de quem a apanhar. Ninguém a apanhou, exceto Yoane Wissa, o marcador do golo da RD Congo. Os centrais equivocaram-se nas abordagens defensivas, acertando exclusivamente nos adversários ou mesmo na poça de ar diante dos próprios pés. Comprometeram."

Okay, Houston, tivemos aqui um problema, Portugal jogou assim-assim


"A seleção nacional estreou-se no Mundial com uma igualdade (1-1) apesar de ter entrado bem no jogo com o Congo: dona da bola, também da iniciativa, a seleção nacional marcou cedo, por João Neves, mas tentou logo adormecer o jogo com a sua preferência pelo controlo. Mas, quando os africanos mudaram o ritmo e Portugal manteve o seu, sofreu um golo. Os portugueses só mexeram na sua lentidão a trocar passes na segunda parte, nos momentos em que Francisco Conceição atacou a área. Foi pouco

Os Estados Unidos pulsam por espetáculo.
Houston não destoa, no casulo de betão do estádio a música não toca, berra, as cheerleaders surgem a um canto da bancada, com pompons, hiperativas a dançar, no topo estão os dois maiores ecrãs gigantes que podem imaginar. O show impera, ao show os adeptos são fiéis e eles vibram com Cristiano Ronaldo, o maior dos shows, nem a frase pela qual é afamada a cidade do primeiro jogo de Portugal neste Mundial escapa à atração: o “Houston, we have a problem” dito, em 1970, por um dos astronautas da missão Apollo 13 quando ouviram uma explosão na nave a mais de 300 mil quilómetros da Terra não foi bem assim.
Só que a NASA, anos depois, batizou com essa frase um programa de rádio seu dedicado a pormenorizar a história, soava melhor assim, e um guionista de Hollywood, na década de 90, pô-la na boca de Tom Hanks no filme que popularizou a história, por ficar na orelha, como fica ouvir milhares a gritarem o “siiiu” popularizado por Ronaldo mal a seleção entrou o campo para aquecer, a entoarem o seu nome, em coro, logo ao primeiro minuto de jogo, ou a irromperem num bruá quando o capitão, fora da área, recebeu a bola e ameaçou rematar pouco depois. Mas a bola não era dele.
Era de Portugal, mandão desde o arranque, a pegar na iniciativa que lhe competia por talento e valor. Com Vitinha e João Neves juntos a filtrarem os primeiros passes, João Cancelo e Nuno Mendes bem projetados nas alas, a seleção quis fazer dançar o bloco compacto do Congo, paciente à espera perto da sua área. Difícil de furar pelo centro, a seleção tentou por fora, cedo lhe correu bem quando João Neves, o único de camisola aprumada dentro dos calções, surgiu de cabeça na área a desviar o cruzamento do lateral esquerdo.
O golo nada mudou, antes acentuou a tendência. Prevaleceram as longas posses de bola da seleção, duradouras como o húmido calor de Houston. À exceção dos remates de Yoane Wissa e Cédric Bakambu, consecutivos a entrarem na zona de Renato Veiga após o Congo descobrir abertas nas costas dos médios portugueses, o jogo virou soporífero, cheio de demoradas posses de Portugal, de largos minutos, sem quererem nada com a velocidade. A seleção nacional parecia jogar à rabia, tal a prioridade dada ao controlo e a indiferença dos congoleses na pressão.
Até quem manda no estádio projetou nos ecrãs um conhecido influencer, vestido à Portugal, para imitar o festejo de vocês sabem quem, e a plateia acordar e o imitar. Um pouco de show forçado enquanto o espetáculo no campo estava morno. Cumprida a primeira pausa de hidratação, que é como quem diz finda a primeira parte da partida, que para quem a vê pela televisão significa uma interrupção para publicidade, o Congo quis mudar a tendência.
Os seus avançados deram uns passos em frente, chatearam mais os centrais no princípio do jogo português, Vitinha deixou de tocar na bola tão à vontade. Os pés de Diogo Costa foram chamados, eram precisos na saída da área e o guarda-redes, por um par de vezes, hesitou na cara da pressão congolesa. O velocímetro da partida agitou-se. Obrigado a pensar e a agir mais rápido, Portugal encurtou a duração das suas jogadas, que ganharam algum risco forçado que provocou mais passes falhados, mais erros, e bastante menos controlo.
As jogadas da seleção deixaram de entrar tanto na metade do campo dos africanos, decididos a arrastarem o jogo para os duelos provocados por marcações individuais. O Congo acelerou o ritmo, mas Portugal manteve o seu. Bruno Fernandes pouco tocava na bola, Bernardo Silva deixava-a fugir quando esta lhe chegava. Apenas João Neves e as suas pilhas Duracell se sintonizaram com a evolução do jogo forçada pelo Congo que, aos poucos, acumulou transições rápidas nas perdas de bola da seleção nacional que custaram horrores aos portugueses de acompanhar. E nos últimos segundos dos descontos, num canto, Yoane Wissa saltou sozinho na área para empatar.
O apito do intervalo soou no instante seguinte. Os jogadores de azul saíram do campo a sorrir, quase em festa, com os espíritos cá para cima, e os portugueses cabisbaixos, sem darem o espetáculo ansiado por milhares nas bancadas onde predominava o apoio a Portugal. E o expoente da adoração estava discreto. Pouco móvel na frente de ataque a não ser para recuar, fugir da área e dar uns toques inconsequentes na bola em zonas de perigo para ninguém, via-se Cristiano de vez em quando, mas dele pouco se via.
Lá se viu quando simplificou, fazendo de parede na área, colocando-se entre central e lateral para receber um passe e a dois toques, simples e prático, lançar o embalado Nuno Mendes. O cruzamento rasteiro não foi emendado por pouco. Era este um dos caminhos, para Ronaldo e para a seleção: promover combinações nos espaços entre os congoleses, ter gente a surgir a correr de trás, acelerar assim os ataques, não ser só aumentar a contagem de passes feitos. Noutra jogada parecida, o peito de João Neves ajeitou o cruzamento de Pedro Neto para Cancelo chutar de bicicleta. A bola entrou, mas houve fora de jogo.
Francisco Conceição entrar para o lugar de Bernardo no descanso foi outro sinal. Portugal ganhava um acelerador, não podia ser só rame-rame, um estilo morno funciona apenas se servir de base para uns arrepios de frio repentinos. O Congo, sentido o toque, ameaçou logo a seguir, outra vez os avançados a provocarem dúvidas nos buracos entre médios e centrais, de novo Renato Veiga demasiado hospitaleiro. Virando-se com a bola na área, Cédric Bakambu rematou a bola com brutidão contra o poste esquerdo da baliza.
O jogo depois regressou às chuteiras da seleção nacional, devolvida ao meio-campo adversário, mais controladora a preparar os momentos em que punha alguém a entrar no espaço entre o lateral congolês, atraído para o jogador que dava a largura, e o defesa central mantido na dúvida entre dar cobertura ou seguir o português que atacava esse buraco. Foi onde ‘Chico’ Conceição apareceu, entrou pela área e, ao invés de rematar, serviu Ronaldo com uma bola descalibrada, um pouco para trás do pé direito do capitão. O primeiro remate de Cristiano saiu tosco, não proporcionou espetáculo, mas era um raro movimento de aplaudir a Portugal.
Tão pertinente se provou essa intenção que mal o jogo foi retomado para a quarta parte, imediatamente após outra pausa contra o calor não existente no estádio refrigerado de Houston, a seleção repetiu a jogada, tirando uma fotocópia, Conceição outra vez furou os congoleses, passou a Cristiano e a batida do capitão, agora em cheio na bola, falhou a baliza. Nélson Semedo e Rafael Leão entraram pouco antes, pouco depois Bakambu, na outra área, assustou com um remate que podia ter entrado na baliza. Os contra-ataques do Congo, menos frequentes, ainda existiam.
Atinar a defesa portuguesa sem Rúben Dias será uma prioridade para as próximas núpcias de Portugal no Mundial, destapada que se mostrou, de novo, na derradeira aproximação do Congo à baliza portuguesa: Renato Veiga foi cortar a jogada, o lançamento lateral dos africanos saiu rápido, Tomás Araújo deixou-se atrair para a mesma zona do outro central, ficaram juntos a um lado e Portugal defendeu o cruzamento, saído torto, com João Neves e Vitinha, os seus mais baixos, na área. Já decorriam os últimos 10 minutos, Gonçalo Ramos entraria para fazer companhia a Ronaldo.
Entre dribles forçados, e perdidos, de Rafael Leão, entremeados com cruzamentos em demasia, a seleção não incomodou mais a fortaleza congolesa que agradeceu a gentiliza, ao preferir lidar com problemas deste tipo, apta com os seus três centrais, Chancel Mbemba à cabeça, para cortar solicitações vindas pelo ar. A última ameaça de Portugal veio do pé de Bruno Fernandes, rematando de fora da área na reciclagem de um cruzamento infrutífero; na ressaca do lance, Yoane Wissa ainda cavalgou sozinho num contra-ataque rápido ameaçador do Congo - uma fotografia geral adequada para a partida.
O último apito repetiu o cenário do intervalo, os congoleses pularam e celebraram, felizes com o ponto, enquanto as cabeças dos portugueses encolheram entre os ombros. A bola na estreia no Mundial foi de Portugal, a iniciativa igual, as expectativas também já estavam do seu lado, mas, em campo, entusiasmou pouco. A confundir controlo com lentidão, rígida no jogo posicional de Roberto Martínez onde, desta feita, nem se viu um lateral a aparecer pelo centro do campo para fingir desordem, como é costume, a seleção só se fez perigosa quando tentou algo diferente, o tal rasgo de alguém a atacar o espaço inesperado.
Rareou o espetáculo, se é que existiu, e a América bem que adora um bom pedaço de showbiz. Não foi Cristiano a dá-lo onde o dito deve acontecer, em campo, onde teve 90 minutos aos 41 anos, inócuo na sua sexta edição do torneio. Não foi o único. Ele e a equipa não deram show, nem de perto, privando Houston do que provocou uma das frases mais repetidas e certamente a pior citada da história. Em 1970, lá em cima em órbita, o astronauta James Lovell disse ao Centro Espacial da NASA, que fica a uns quarenta quilómetros deste estádio, um mais palavroso “Okay, Houston, we’ve had a problem here”, não tão apetecível para o ouvido como o repetido à exaustão “Houston, we have a problem”.
A cultura do que fica melhor para ser vendido alterou a frase para consumo das massas, primeiro na rádio, depois em Hollywood, celebrizando uma citação mal feita. Calha melhor respeitar a original, mais exata para resumir a estreia no Mundial de uma versão de Portugal pouco apta a ficar gravada na memória: porque houve aqui um problema em Houston, onde a seleção não entusiasmou e jogou assim-assim. Na próxima terça-feira cá regressará, contra o Usbequistão."

O teste da confiança


"Tempos houve em que o desporto podia viver apenas da paixão. Hoje, já não pode. Hoje, a reputação é rainha.
Nas salas dos conselhos de administração. Nos gabinetes governamentais. Nos mercados financeiros. Na mente de patrocinadores, operadores de media, investidores, governos e adeptos, a confiança tornou-se a moeda mais valiosa do mundo.
O desporto não é exceção. Aliás, é talvez no desporto que a batalha pela confiança assume maior relevância.
Olhemos para o Mundial FIFA 2026.
Os números são impressionantes. A FIFA prevê receitas de cerca de 13 mil milhões de dólares para o ciclo comercial de 2023–2026, estabelecendo um novo recorde para a organização. Trata-se do ciclo comercial de quatro anos da FIFA, e não apenas das receitas de um único torneio. O rigor importa. Mas o contexto também. O Mundial alargado a 48 seleções, organizado pelos Estados Unidos, México e Canadá, é o principal motor desse crescimento.
A história da bilhética é igualmente reveladora. Até ao final de novembro de 2025, a FIFA tinha anunciado a venda de quase dois milhões de bilhetes nas duas primeiras fases de comercialização. Este mês, o Presidente da FIFA já falava em mais de seis milhões de bilhetes vendidos, ao mesmo tempo que defendia os preços perante um debate crescente sobre a sua acessibilidade e custo.
Sim, o Mundial é maior. Mais rico. Mais mediático. Mais global do que nunca.
Mas há um ponto que demasiados continuam a ignorar: a dimensão não é sinónimo de legitimidade.
O dinheiro não compra confiança. Segue-a.
As marcas não investem milhares de milhões porque um jogo de futebol dura noventa minutos. Investem porque o futebol continua a ser uma das raras plataformas globais capazes de unir pessoas para além de fronteiras, culturas e ideologias.
O desporto em geral e o futebol em particular captam atenção. Inspiram crença. Criam ligações emocionais que políticos, empresas e organizações de media dificilmente conseguem replicar.
É por isso que a reputação se tornou o ativo mais estratégico do desporto. E é por isso que a sua perda representa hoje o maior risco para o setor.
Durante demasiado tempo, a indústria conviveu com uma contradição desconfortável. Fala incessantemente de valores, enquanto continua demasiadas vezes a coexistir com ameaças capazes de os destruir. Falhas de governança. Corrupção. Branqueamento de capitais. Manipulação de competições. Conflitos de interesses. Abuso de poder. Falta de transparência. Fraca responsabilização.
Cada escândalo tem um custo. Não apenas um custo moral. Mas um custo comercial. Um custo financeiro. Um custo reputacional.
A confiança abandona a sala mais depressa do que o dinheiro. E quando a confiança desaparece, o dinheiro segue-lhe as pisadas.
É por isso que o anúncio feito esta semana pela Sport Integrity Global Alliance (SIGA) é tão importante.
Não porque acrescenta mais um certificado.
Não porque cria mais um acrónimo institucional.
Não porque o desporto precisasse de mais uma conversa elevada sobre integridade.
É importante porque a SIGA decidiu agir.
Abrimos oficialmente as candidaturas para entidades que pretendam tornar-se Organismos de Certificação Acreditados pela SIGA, transformando o nosso modelo independente de certificação numa infraestrutura global escalável.
Dito de forma muito simples: entidades independentes, qualificadas e acreditadas poderão avaliar organizações desportivas de acordo com os Standards Universais da SIGA sobre Integridade no Desporto.
E isso muda a conversa!
Durante anos, o desporto viveu de declarações. “Defendemos a integridade.” “Promovemos a transparência.” “Cumprimos os mais elevados padrões.”
Muito bem. Agora, provem-no.
A era dos discursos terminou. A era da evidência começou.
Os patrocinadores querem evidências. Os investidores querem evidências. Os governos querem evidências. Os operadores de media querem evidências. Os adeptos querem evidências.
Todos fazem a mesma pergunta: conseguem demonstrar aquilo que afirmam?
As organizações que compreenderem esta realidade liderarão a próxima era do desporto. As que não compreenderem serão expostas por ela.
Porque os vencedores da próxima década não serão apenas os mais ricos, os maiores ou os mais ruidosos. Serão, sim, os mais confiáveis.
A confiança não é uma abstração. A confiança é infraestrutura. A confiança é capital. A confiança é vantagem competitiva.
E, ao contrário do marketing, a confiança não se compra. Conquista-se!
É por isso que esta iniciativa da SIGA é tão relevante. Porque separa aqueles que falam daqueles que agem. Aqueles que emitem comunicados daqueles que aceitam ser avaliados. Aqueles que se escondem atrás de slogans daqueles que estão preparados para ser medidos por padrões objetivos e independentes.
Esta é a linha traçada na areia.
Por isso, se acredita na integridade, dê um passo em frente.
Se afirma liderar, lidere pelo exemplo.
Se diz que não tem nada a esconder, abra as portas.
Se realmente pratica aquilo que defende, aceite o teste.
O Mundial demonstrará o poder extraordinário do desporto. O seu alcance. A sua influência. A sua beleza. As suas contradições.
Mas o futuro do desporto não será decidido apenas pelas receitas. Será decidido - isso sim - pela reputação.
O Teste da Confiança começou.
E, num mundo onde a reputação é rainha, aqueles que se recusarem a fazê-lo já nos deram a sua resposta."

Bacalházão!!!