sexta-feira, 12 de junho de 2026
Tudo começa no Azteca, estádio dos estádios da história dos Campeonatos do Mundo, que coroou Pelé e Maradona
"É o único estádio a receber duas finais, em 1970 e 1986, e no Mundial 2026 vai ser a casa do jogo de abertura pela terceira vez. Foi no Azteca, da Cidade do México, que Pelé se tornou tricampeão mundial e Maradona saltou com a sua Mão de Deus, antes de arrancar para o Golo do Século. Não há recinto que aguente tanta história dos Campeonatos do Mundo. É aqui que o Mundial 2026 vai começar, esta quinta-feira, com o México-África do Sul
Há locais que, numa conjugação mágica de propósito e acaso, se tornam página de história, memória coletiva eterna. “Há algo muito especial no Azteca”, disse um dia Pelé sobre o estádio que vai receber, esta quinta-feira, o jogo de abertura do Mundial 2026, entre o México e a África do Sul. Pelé tem as suas razões e não são poucas.
Foi no Azteca, cenário multitudinário, o maior estádio da América Latina, onde cabem mais de 87 mil pessoas, que o brasileiro recebeu o cruzamento de Rivelino para marcar de cabeça o primeiro golo da final do Mundial de 1970 (4-1 à Itália), onde se tornou no primeiro e, até agora, único jogador a sagrar-se campeão mundial em três ocasiões. Dias antes, os italianos haviam ali batido a Alemanha Ocidental por 4-3 nas meias-finais, num duelo com cinco golos no prolongamento e considerado então o Jogo do Século, com direito até a placa comemorativa nas paredes de betão do Azteca.
A história fez-se merecida, depois de tanto suor ali investido. Para erguer tamanha estrutura no bairro de Coyoacán, o mesmo que viu nascer Frida Kahlo, no sul da Cidade do México, foi necessário espartilhar e remover 180 milhões de quilos de rocha naqueles 64 mil metros quadrados de terreno e convocar dez arquitetos, 35 engenheiros e mais de 800 operários. O estádio seria inaugurado em maio de 1966 e cedo ficaria viciado em feitos.
Dezasseis anos depois de Pelé, foi Diego Maradona a fazer do Azteca o seu La Scala, palco de arte, glória, marotice e, porque não, vingança. No México 1986, o Azteca tornar-se-ia o primeiro e único estádio a receber por duas vezes jogos de abertura e a final de um Mundial e voltaria a coroar um dos gigantes do futebol. Foi no ar rarefeito da altitude da Cidade do México que Maradona saltou mais alto, ergueu o braço e tornou eterna a Mão de Deus, nos quartos de final desse torneio, frente à Inglaterra que quatro anos antes humilhara a Argentina na Guerra das Malvinas. Porque nunca é só futebol.
O golo, de tão cheio de malícia como de esperteza, ilegal mas reparador, o mais perfeito exemplo da tão argentina viveza criolla, é o mais lendário da história do futebol. E foi o Azteca que lhe deu guarida.
Não contente, minutos depois da mãozinha marota, e como que querendo mostrar aos terráqueos que com ele tudo era possível, de golos fora da lei a outros passíveis de estarem nos melhores museus de arte, Maradona ziguezagueou por entre meia equipa inglesa, entregando a bola à baliza de Peter Shilton. Chamam-lhe ainda hoje o Golo do Século. Dias depois, El Pibe levantaria ali, no Azteca, a sua taça de campeão mundial, num jogo não menos emocionante: 3-2 frente à Alemanha Ocidental. Foi o 19º jogo de Campeonatos do Mundo a realizar-se no Azteca, um recorde que será engordado a partir desta quinta-feira.
Nos anos que se seguiram, não só de futebol se fez a história do Azteca, onde tocaram Michael Jackson e os U2, e, em 1993, mais de 130 mil pessoas se juntaram para o combate de boxe entre Julio César Chávez e Greg Haugen. Até velórios ali se fizeram, como o do ator e comediante Chespirito, em 2014.
Será por isso algo injusto para a história do futebol que o Estádio Azteca seja, de alguma forma, apenas um ator secundário neste Mundial 2026 tripartido, mas onde há muito mais Estados Unidos do que México e Canadá.
O Azteca é o estádio dos estádios dos Mundiais, agora de cara lavada e reaberto em março com um particular entre México e Portugal. O recinto da capital mexicana ficará, no entanto, mais uma vez na história, recebendo pela terceira vez um jogo de abertura do Mundial. Mas depois do México-África do Sul restam-lhe apenas mais dois jogos da fase de grupos, um jogo dos 16-avos de final e outro dos oitavos de final."
Confiança: o capital silencioso do futebol
"Começa hoje o Campeonato do Mundo de Futebol.
Durante as próximas semanas, milhares de milhões de pessoas acompanharão os mesmos jogos, discutirão os mesmos lances e viverão as mesmas emoções. Num mundo cada vez mais fragmentado por conflitos, polarização, algoritmos e uma competição permanente pela atenção, este é um fenómeno notável.
Poucas instituições conseguem ainda reunir pessoas de diferentes continentes, culturas, gerações e sensibilidades em torno de uma experiência verdadeiramente comum. O futebol continua a consegui-lo.
O Campeonato do Mundo tornou-se um dos raros acontecimentos verdadeiramente universais do nosso tempo. Poucos fenómenos conseguem mobilizar simultaneamente tantas pessoas, em tantos países, durante tanto tempo.
Mas a dimensão do futebol não pode ser explicada apenas pela sua popularidade ou pelos milhões que gera. A sua verdadeira singularidade reside noutra coisa.
Ao longo de mais de um século e meio, o futebol conquistou algo que muitas instituições, públicas e privadas, lutam hoje para preservar: confiança.
Milhões de pessoas investem tempo, emoção e recursos no futebol porque acreditam numa premissa simples: aquilo que acontece dentro das quatro linhas merece ser acreditado.
Acreditam que as regras são conhecidas e aplicadas. Que a competição é legítima. Que o mérito continua a desempenhar um papel decisivo. Que as instituições existem para proteger o jogo e não para se apropriarem dele.
É esta confiança que transforma uma modalidade desportiva numa instituição global. Que sustenta audiências, atrai investimento, mobiliza patrocinadores e gera valor económico. Que permite ao futebol atravessar fronteiras como poucas outras atividades humanas.
A confiança é o capital silencioso do futebol. Invisível na maior parte do tempo. Mas impossível de ignorar quando falta.
Sente-se quando surgem dúvidas sobre a integridade das competições. Quando a transparência dá lugar à opacidade. Quando os mecanismos de supervisão falham. Quando os interesses particulares se sobrepõem ao interesse coletivo.
Nestes momentos, torna-se evidente uma realidade muitas vezes ignorada: a integridade não é apenas uma questão ética. É uma condição de sustentabilidade.
Corrupção, lavagem de dinheiro, evasão fiscal, manipulação de resultados, conflitos de interesse ou má governança não são apenas problemas reputacionais. Constituem riscos sistémicos para a credibilidade do futebol e para o valor social e económico que dele depende.
Durante demasiado tempo, a integridade foi vista sobretudo como resposta à crise. Mas a experiência demonstra o contrário. A confiança não se reconquista no momento da crise. Constrói-se muito antes dela.
Há cerca de 2.500 anos, Sun Tzu observou, e bem, que as batalhas são vencidas antes de serem travadas. O mesmo acontece no desporto. A integridade mede-se pela qualidade das decisões, das regras, dos mecanismos de controlo e da cultura institucional que ajudam a prevenir os problemas antes de eles surgirem.
É por isso que a integridade deve ser entendida como infraestrutura. Tão essencial para o futuro do futebol como os seus atletas, as suas competições, os seus adeptos ou os seus modelos de negócio.
A confiança não se decreta. Conquista-se.
E, no desporto, conquista-se todos os dias — através de decisões transparentes, liderança responsável e compromisso real com os mais elevados padrões de integridade.
É precisamente esta convicção que está na base do trabalho da SIGA.
Se a confiança é o ativo mais valioso do desporto, a integridade não pode depender apenas de boas intenções. Tem de assentar em princípios claros, padrões reconhecidos e mecanismos credíveis de implementação, verificação e certificação.
Foi com esse propósito que a SIGA desenvolveu os seus Standards Universais sobre Integridade no Desporto e o SIRVS (SIGA Independent Rating and Verification System): transformar compromissos em resultados demonstráveis e reforçar a credibilidade das organizações desportivas.
Porque, num setor em que a confiança é essencial, a integridade não deve ser apenas proclamada. Deve ser demonstrada, medida e verificada.
O Campeonato do Mundo que hoje começa produzirá novos campeões. Mas a verdadeira vitória do futebol mede-se por algo mais simples e mais valioso: a confiança que continua a merecer."
Pausas no jogo para hidratação, instruções e... monetização: um jackpot
"No início era a necessidade de dar de beber a atletas que andavam a correr debaixo do Sol com temperaturas por vezes obscenas. As pausas para hidratação foram uma excelente medida tomada no futebol.
Astuto, o mundo do negócio entrou em campo, aproveitando até o novo expediente de mandar sentar guarda-redes para os treinadores darem instruções. Junta-se a pausa para hidratação à pausa técnica e determinam-se três minutos de paragem em cada parte de jogo do Mundial .
Sabe qual é o minuto de publicidade em TV mais caro que há? Talvez estes novos seis minutos passem a concorrer pelo pódio. Junta-se o útil ao agradável.
De chorar por mais
Bruno Fernandes foi verdadeiro capitão: sem desculpar Leão pela expulsão, colocou a união do grupo acima de tudo.
No ponto
A aprovação da chave de distribuição dos direitos TV é um bom sinal, por mais ajustes que sejam necessários.
Insosso
Tudo o que se passou no Benfica e no Real se soube antes. Os clubes já não controlam qualquer fase dos processos.
Incomestível
O Mundial ainda não começou, mas a previsível vergonha trumpista já. Inenarrável o controlo das fronteiras."
Até onde ajudam os dispositivos de monitorização no futebol?
"Dormir melhor, recuperar mais rápido, prevenir lesões. A promessa dos dispositivos de monitorização entrou em força no futebol moderno. Hoje, muitos jogadores chegam ao treino já com dados sobre o sono, frequência cardíaca ou níveis de recuperação. Mas até que ponto esta informação muda realmente o jogo?
A grande vantagem é clara: temos acesso contínuo a indicadores fisiológicos fora do treino e da competição. Qualidade do sono, variabilidade da frequência cardíaca, carga interna — tudo isto ajuda a construir uma imagem mais completa do estado do atleta. Num contexto onde o detalhe faz a diferença, essa informação pode ser valiosa.
Na prática, estes dados permitem ajustar cargas, identificar sinais precoces de fadiga e, em alguns casos, antecipar o risco de lesão. Um jogador que não tem dormido bem e apresenta sinais de recuperação insuficiente, pode necessitar de adaptação no plano de treino. Este tipo de decisão, antes baseada sobretudo na perceção, ganha hoje um suporte mais objetivo.
Mas há um ponto essencial: os dados, por si só, não decidem. A evidência científica demonstra que muitos destes indicadores — como a variabilidade da frequência cardíaca — são úteis, mas altamente sensíveis a múltiplos fatores: stress, viagens, contexto emocional ou até hidratação, ou seja, fora de contexto, podem ser facilmente mal interpretados.
Quem trabalha no terreno percebe que dois jogadores, com dados semelhantes, podem ter respostas completamente diferentes, não esquecendo que a forma como o atleta se sente continua a ser uma das informações mais relevantes.
Outro desafio é o excesso de informação. Mais dados não significam, necessariamente, melhores decisões. Sem uma leitura crítica e integrada, o risco é cair numa dependência tecnológica que complica mais do que ajuda.
No futebol profissional, estes dispositivos são ferramentas importantes — mas continuam a ser isso mesmo: ferramentas. A diferença não está no dispositivo utilizado, mas em quem interpreta os dados e os transforma em decisões úteis.
Contudo, entre números e rendimento, continua a haver algo que a tecnologia ainda não consegue medir totalmente: o contexto."
México: Jorge Campos, o pequeno grande guarda-redes das camisolas escaganifobéticas
"Nasceu numa família de posses em Acapulco e não passou dos 170 centímetros de tamanho, mas isso não evitou que se tornasse num dos mais míticos guarda-redes do final do século passado. Ágil e corajoso, as suas camisolas garridas levaram-no até a um museu de Paris.
Para uma parte significativa dos adeptos de futebol chegará como uma surpresa que a resposta à pergunta “Que futebolista viu uma das suas criações ser exposta no Museu de Artes Decorativas de França em 2024?” seja o nome de um guarda-redes mínimo, com não mais do que 1,70m e que nunca jogou na Europa. Já para quem viu o Mundial de 1994 de ponta a outra, com o entusiasmo febril de quem nada mais tinha naquelas semanas de verão tórrido, o nome Jorge Campos trará consigo algumas das mais nostálgicas recordações de um futebol feito de outras peles e camadas. E outras cores.
Esteve lá sim, exposto na capital da moda, o seu equipamento berrante, com bocados amarelos, verdes, cor de rosa, laranja, como que pintado com marcadores fluorescentes, aqueles para destacar palavras importantes num texto. Foi o próprio Jorge Campos que o desenhou, como desenhou outros equipamentos com que jogou. Aborrecia-o de morte o preto dominante que, na verdade, até usou por uma vez (heresia!) no spot publicitário da Nike em que se juntou a Figo, Rui Costa, Maldini, Kluivert, Ronaldo, entre outros, para derrotar uns terríveis diabinhos, destruídos por fim com a força do pontapé-canhão de Eric Cantona e um “au revoir” que é uma das coisas de que a mitologia do futebol é feita.
Mítico também era Jorge Campos, rapaz nascido numa família de posses junto às águas quentes de Acapulco, no México, e que se tornou professional no Pumas, da capital mexicana, onde a presença de Adolfo Ríos na baliza o levou a assumir inicialmente o papel de avançado. Chegou a marcar 22 golos em 1989/90, antes de fazer marcha-atrás para a baliza, ainda que com Campos para a frente fosse sempre o caminho.
Com 1,70m, tamanho anormalmente atarracado para alguém que tem de defender uma área entre os postes de 2,44 metros de altura e 7,32 metros de largura, Jorge Campos apaixonava pela agilidade, a destreza, a audácia e o destemor ao sair da baliza, pelo atrevimento de pegar na bola e iniciar uma jogada de ataque, sempre vestido com as cores mais garridas e alegres. Para o mexicano não havia amarras que o prendessem à área, o que também lhe valeu uns ocasionais golos sofridos que poderão entrar na galeria dos apanhados do futebol. Sempre de mangas curtas e tamanho vários números acima, voava com a leveza de uma ave canora e não temia o choque ou aferrar-se aos lances mais junto à relva.
Esteve no Mundial de 1994, também no de 1998, onde se vestiu de forma mais comedida. Ainda assim, surpreendeu frente aos Países Baixos ao usar a camisola verde com motivos aztecas do equipamento oficial, com calções azuis. No de 2002 foi convocado, mas não jogou.
Um pequeno pedaço de trivia mais esquecido é que Jorge Campos foi o primeiro estrangeiro contratado para a novíssima MLS, em 1996, ainda a sorver a popularidade que o Mundial de 1994 lhe havia trazido por terras norte-americanas. Jogava pelos LA Galaxy e assim voltou a viver junto ao mar - a primeira paixão do guarda-redes nem sequer foi o futebol, mas sim o surf. Nesses tempos em que intercalava temporadas no futebol norte-americano com a época mexicana, chegou a dizer aos jornalistas que sentia sempre alguma pressão quando jogava, mas nunca como quando se atirava à água com a sua prancha e temia o aparecimento de tubarões."




