Valor...

Como convencer Marco Silva


"Enquanto não há certezas, a crítica ocupa espaço; José Mourinho ficou sem condições que sejam benéficas para continuar na Luz; o Benfica precisa que Marco Silva sinta que vai ter sucesso

Tudo se vai passando nos bastidores, ninguém assume compromissos de viva voz e a crítica tem ocupado um espaço que está vazio pela ausência de comunicação e certezas de qualquer forma.
As eleições no Real Madrid baralharam tudo, Florentino Pérez tem de garantir que vence e José Mourinho que isso suceda, pois neste momento, e partindo do princípio que a proposta de renovação do Benfica está válida, a permanência na Luz já não seria benéfica.
Rui Costa, portanto, tem de encontrar um sucessor e isso significa convencer Marco Silva que, no meio de tudo isto, está na situação mais confortável. O Fulham quer renovar com ele, oferece um salário considerável e a Premier League, o mercado aonde todos querem chegar. Marco nunca ficará de mãos a abanar, ainda que também o clube londrino deva ter os seus timings para definir o futuro.
Além disso, Marco Silva conhece os números de José Mourinho no Benfica. Sabe quanto o clube estava disposto a pagar para garantir a continuidade do setubalense e sabe ainda que o Benfica não deve adiar muito mais uma decisão sobre o banco. Claro, há o exemplo de Farioli que chegou ao FC Porto bem mais tarde no verão, mas na Luz ainda se joga no campo político e ninguém admite que se chegue às AG de junho sem treinador.
O Benfica tem, portanto, de convencer Marco Silva. Pode até não lhe oferecer o mesmo ordenado que o Fulham, o próprio técnico saberá distinguir as realidades inglesa e portuguesa, mas tem de encontrar-se a nível financeiro com o técnico. Os encarnados ficaram sem o trunfo Champions no imediato, ainda que contem desportivamente na Europa como o Fulham não o faz.
Ao fim de muitos anos em Inglaterra, Marco Silva pode olhar para o Benfica como a oportunidade de conquistar títulos de forma consistente, regressar à Liga dos Campeões como ambição (o contrato nunca será de uma época) o que, caso assim o deseje, o pode recolocar no radar dos maiores campeonatos num patamar acima do Fulham.
Por fim, estrutura. Marco Silva disse-o, do lado do Fulham necessita de ter garantias para lá das financeiras: quer garantias desportivas. Marco Silva escutará a liderança, mas também saberá o que a crítica vai dizendo do Benfica e é, portanto, presumível que exija o mesmo na Luz. Isso pode agitar, de algum modo, a estrutura no Seixal. É preciso que Marco Silva sinta que não vem apenas para ocupar uma cadeira vazia, mas que tem condições para ter sucesso nela."

Luis Enrique podia ser um herói da Marvel


"Pode ser o segundo treinador a vencer duas Ligas dos Campeões consecutivas, depois de Zidane, mas é o 'como' e não o 'quanto' que o aproxima de uma personagem de ficção

Tony Stark podia ser interpretado por Luis Enrique. Arrogante, cínico, desafiador nas conferências de imprensa, vendo os media como uma espécie de inimigo, distribuindo patacoadas que ajudam a construir um escudo à volta da sua equipa. Dentro de portas, porém, não se importa de se expor, exibindo a sua mais pura condição humana, como o fez mais que uma vez em documentários intimistas reveladores uma das personalidades mais complexas e extraordinárias do futebol moderno. A diferença, porém, é que O Homem de Ferro é uma personagem de ficção, ao passo que o espanhol é uma figura real, que por acaso já participou no Iron Man, o que o torna muito mais especial.
Neste sábado, em Budapeste, se vencer o Arsenal, o asturiano tornar-se-á no segundo treinador a conquistar duas Champions consecutivas no formato contemporâneo da prova rainha da UEFA. O primeiro foi Zinédine Zidane, quando o francês ganhou em 2016, 2017 e 2018. Mas não será pelo quanto, antes o como o treinador do PSG poderá ficar na história. Sem querer ser injusto para com Zizou, há uma diferença gigantesca entre os dois: o Real Madrid venceu pela capacidade dos seus jogadores, com Cristiano Ronaldo à cabeça, os de Paris estão a fazê-lo por causa do homem que os comanda a partir do banco.
«Para o ano vou controlar tudo». Esta foi uma das frases que mais vezes recordo do documentário sobre a sua primeira época no PSG, a propósito de não conseguir pôr a estrela Mbappé a defender como o fazem todos os atuais avançados da formação gaulesa. Esta obsessão foi premiada há um ano e a menos que haja alguma surpresa sê-lo-á em 2026. Não tenho muitas dúvidas de que o antigo jogador do Real Madrid e Barcelona vai marcar uma era. Não tem o glamour de Guardiola, mas merece ser objeto de estudo de todos os que gostam de futebol - ou simplesmente dos que aspiram a gerir equipas.
Este PSG tornou-se numa das melhores obras de autor deste século. Junta, na mesma equipa, princípios da escola Barcelona e a verticalidade dos melhores intérpretes do futebol alemão: a procura incessante, ao centímetro, da ocupação de espaços para criar linhas de passe ao futebol vertical e de transições; a construção em superioridade numérica no primeiro terço com a pressão asfixiante; e ainda assim ainda dá tempo e espaço para os seus jogadores usarem a criatividade num caos controlado.
Luis Enrique podia ser um Guardiola e Jurgen Klopp na mesma pessoa, mas já vai sendo o tempo para dizer que a sua marca é tão avassaladora que qualquer comparação soaria a um desaforo, de tão redutora. A forma mais genuína de analisar um treinador é ouvir o que os seus jogadores dizem dele e até hoje não me recordo de ler críticas marcantes. O homem que deseja «controlar tudo» conseguiu criar 11 estrelas de espírito operário; não apenas meia dúzia, mas uma equipa inteira e os seus suplentes. Não me recordo de algo assim.
Come seis ovos por dia, detesta queijo, dorme nu e passou pelo trauma da perda de uma filha de nove anos. Luis Enrique tem todos os traços de um herói da Marvel.

ELEVADOR DA BOLA
A subir
Bruno Fernandes, médio do Manchester United Foi considerado o melhor jogador da Premier League em 2025/26 e a sua equipa não ficou nos dois primeiros lugares. Isto diz muito sobre a época do internacional português, cuja carreira merece ser também acompanhada de títulos coletivos.

Estagnado
Carlo Ancelotti, selecionador do Brasil Renovou com a seleção brasileira até 2030 ainda antes de iniciar o Mundial 2026, para o qual foi obrigado a chamar Neymar, numa decisão que pareceu ser desconfortável... e forçada para o experiente treinador italiano.

A descer
Míchel Sánchez, ex-treinador do Girona Ficou na história por levar o modesto Girona à Champions dois anos depois de alcançar a subida à LaLiga. Foi ontem despedido na sequência da... descida da divisão da equipa. O preço a pagar por nunca ter pretendido sair pela porta grande."

Benfica e Sporting: a crise alastra em lideranças sem líderes


"Entre a paralisia na Luz e as desculpas em Alvalade, os grandes expõem a sua maior fragilidade: o vazio de rumo estratégico num dirigismo que governa, mas não lidera o jogo

Enquanto os rivais já vão chegando às suas primeiras metas estipuladas para o mercado, o Benfica, que até viu o seu arranque ser antecipado pela conquista da Taça por parte do Torreense, faz chegar aos jornais, de forma direta ou indireta, que acelera na preparação da nova época. Mais do que algo palpável, é a tal palmadinha nas costas, acompanhada de piscar de olho de chico-esperto, que apenas aparece para manter as coisas serenas. Criar pelo menos a dúvida à contestação. Lembra sem lembrar que a preocupação e a imagem de crise e caos são coisas de jornais e jornalistas, que há um timoneiro ao leme e que vai correr bem. E se correr mal, outra vez?
Não há dúvida de que toda a situação foi gerida à-Rui Costa, ou seja, com ausência comunicacional absoluta ou completamente desenquadrada do divulgado quase em uníssono por praticamente todos os órgãos, exceto o canal do clube. Chamemos-lhe realidade. Nomes têm sido muitos, talvez até mais do que o normal. Concretizações zero. Sem treinador, com uma oferta com nomes indisponíveis e poucas opções — ao contrário do que acontecia nos tempos de jogador, não esperem do presidente qualquer rasgo de génio —, também o melhor é que não se concretizem mesmo. A não ser que sejam nomes inequívocos, que joguem em qualquer sistema e façam sua qualquer ideia, todavia para esses não parece que haja assim tanto dinheiro.
Os líderes, os verdadeiros, não os empossados, mas aqueles que têm realmente vocação — e, sim, são raros os que viram presidentes de clubes ou políticos — conseguem olhar para lá do óbvio, ler nas entrelinhas, antecipar problemas e soluções, avistar cenários completos e não apenas o que está perto. Rui Costa teve a oportunidade de controlar a narrativa e o próprio destino. Para isso, precisava de ter a certeza da sua decisão. De ser capaz de encerrar ciclos. Não ao corresponder à abertura de José Mourinho em ficar no pré-Real Madrid, mas precisamente no abrir mão de um técnico que teima em ficar bem abaixo das expectativas que gera, desde que, precisamente, deixou a capital espanhola. A partir do momento em que não tomou o próprio destino entre mãos permitiu o colar de dois futuros, o da Luz e o outro, do Bernabéu, e do qual o emblema português nunca sairá a ganhar. Já está inclusive a perder, bloqueado no tempo, sem poder realmente avançar para a próxima temporada.
Afinal, por 15 milhões, o valor da rescisão (e eventualmente de uma contratação falhada aos dias de hoje), vale a pena abdicar de tanto?
Ridícula foi ainda a oferta posterior, quase em desespero, que só fortaleceu a imagem do Special One. Deteriorando ainda mais a do presidente, ao ponto, provavelmente, de já não se reconhecer no próprio reflexo.
O campeão não se faz só de mercado e o começar mal não quer dizer, só por si, que os encarnados terão mais uma época para esquecer. Só que o problema é esse mesmo «mais» na frase anterior. Rui Costa não chegou hoje, bem pelo contrário. As temporadas, exceção feita à primeira, com Roger Schmidt, e ainda assim com um inverno pouco equilibrado face às saídas, foram todas planeadas de forma insuficiente, com muitos negócios de oportunidade, em vez de apostas cirúrgicas.
Também há, na Luz, muita pressa no que diz respeito à afirmação de jogadores, o que precipita decisões erradas e comprometedoras do futuro. Hoje, se não fosse o Real Madrid, Schjelderup estaria em Bruges. Sem as exibições no Mundial juvenil, Prestianni andaria talvez por algum clube menor a ganhar músculo. A Sudakov, pasme-se, já lhe apontam a porta da saída tantas vezes quantas, antes de tempo, apontaram a Ríos. Falta realmente quem pense o futebol do Benfica.
No entanto, como escrevo há anos, falta antes de tudo um rumo. Que não virá com Rui Costa. Porque não olha para lá de amanhã, não vê além do Estádio da Luz e prefere que as coisas se resolvam por si só do que resolvê-las ele mesmo. Felizmente, Otamendi decidiu sair por si ou o argentino arriscaria bater todos os recordes de longevidade.
A confirmar-se, Marco Silva, cujo bom trajeto é inegável, ainda não percebeu bem onde se irá realmente meter. Quanto mais incapaz for ele próprio de preencher o vazio que irá de certeza encontrar, mais dificuldades terá em descobrir o caminho para o sucesso. Mesmo com Mário Branco, com quem já trabalhou, mas numa realidade tão distante que parece de outro planeta.
De fragilidade para fragilidade. Comunicacional. Mas também de liderança. Uns metros à frente, baixou a crise sobre Alvalade. Avisava eu, há umas semanas, que o Torreense iria determinar o quão fragilizado Rui Borges iria começar a nova temporada. E a festa azul-grená, no Jamor, juntando-se a uma temporada sem títulos e que teve como atenuantes apenas a boa campanha na Champions e o regresso, via 2.º lugar, à prova milionária, fez obviamente disparar a pressão em torno do técnico, que nunca foi realmente consensual para adeptos e críticos. Renovar com o mesmo naquela altura pareceu querer dizer que se confiava no processo independentemente dos resultados, o que não só nunca é verdade em Portugal, como ,depois de os mesmos não terem sido favoráveis, não elimina as questões sobre se mantém a confiança ou não no técnico principal. Fazê-lo agora, sim, seria uma afirmação.
Frederico Varandas veio também a público, naquele seu jeito sem jeito, abrir a porta a um verão movimentado no plantel. Num discurso muito anos-80 — na verdade, deixámo-nos iludir pela forma, o conteúdo infelizmente continua o mesmo —, o presidente do Sporting protegeu o treinador reconduzido e entregou os jogadores às feras, sugerindo já terem a cabeça no Mundial ou noutros lados, usando a palavra «atitude». Como se os futebolistas não tivessem querido ganhar a Taça ou não tivessem sequer querido jogar bem. Como se Pedro Gonçalves e Luis Suárez, aqueles que mais oportunidades tiveram, pudessem ter colocado mais vontade no prato da balança que diz «acertar».
Seria muito mais fácil para estes dirigentes se as suas equipas jogassem sozinhas, sem adversários do outro lado do campo. Aí não teriam mesmo como errar!"

Na final


"O tema principal desta edição da BNews é o apuramento do Benfica para a final dos play-offs do Campeonato Nacional de basquetebol.

1. Qualificação em 3 jogos
Em basquetebol, o Benfica ganhou, por 78-86, no reduto da Oliveirense, fechando as meias-finais dos play-offs a seu favor com três vitórias em outras tantas partidas.fu

2. Na frente
Em hóquei em patins, as águias entraram a vencer nas meias-finais dos play-offs do Campeonato Nacional. O triunfo ante o OC Barcelos saldou-se por 3-2.

3. A edificar o futuro
Guilherme Müller, diretor-geral do Benfica Campus, participou na tertúlia sobre o futebol de formação no âmbito da conferência "A Excelência no Futebol", organizada pela Rádio Renascença.

4. Estreia
Jaden Umeh atuou pela primeira vez pela seleção A da Irlanda.

5. Agenda para sábado
Em futsal, no masculino há o início das meias-finais dos play-offs com a visita do Benfica ao Leões Porto Salvo (15h00), e no feminino disputa-se o jogo 2 da final do Campeonato no reduto do Nun'Álvares (18h00).
Às 11h00, há dérbi de iniciados entre Benfica e Sporting no Benfica Campus. A equipa feminina de hóquei em patins recebe a Sanjoanense às 18h00 e, no mesmo horário, a equipa feminina de andebol desloca-se ao pavilhão do Gil Eanes."

Aproxima-se o Mundial


"Aproximando-se o início de uma grande competição, as marcas começam a querer associar-se às seleções participantes e ao organizador — ainda que para tal não estejam autorizados.
Os patrocinadores oficiais quer das seleções quer da FIFA — e em concreto do Campeonato do Mundo de 2026 — detêm uma posição privilegiada na promoção dos seus serviços e produtos, dado que lhes são atribuídos direitos exclusivos, nomeadamente quanto à sua apresentação em ações de publicidade, merchandising, transmissões televisivas e todo o tipo de comunicação comercial associada ao evento.
Não obstante, as marcas que ficam de fora procuram formas criativas de aparecer nas ações promocionais e comunicacionais. É neste contexto que surge o marketing de emboscada ou ambush marketing, uma estratégia que consiste em invadir um evento com ações de marketing ou publicidade visando obter indevidamente a mesma visibilidade dada aos patrocinadores.
A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Auto Regulação Publicitária (ARP) divulgaram um comunicado conjunto alertando para os direitos e deveres associados à comunicação comercial durante o Mundial de 2026. O objetivo é claro: prevenir práticas de ambush marketing e garantir o respeito pelos direitos comerciais exclusivos da FIFA e dos seus parceiros oficiais.
Neste contexto, a FPF e a ARP sublinham que não devem ser explorados, direta ou indiretamente, quaisquer elementos associados à competição sem autorização prévia e escrita da FIFA e é reforçada a importância de proteger os parceiros comerciais da Seleção Nacional, impedindo associações indevidas por parte de marcas não autorizadas."

Os direitos de formação no futebol português


"O futebol habituou-se a falar de transferências, cláusulas de rescisão e direitos económicos. Mas antes de qualquer transferência há quase sempre uma realidade mais silenciosa: a formação. Antes do contrato profissional e do destaque mediático, houve clubes, dirigentes e estruturas que investiram no jogador sem garantia de retorno.
É por isso que existem os direitos de formação, como reconhecimento jurídico de que formar jogadores tem valor económico. O clube que recebe um atleta já desenvolvido beneficia, muitas vezes, de anos de trabalho realizado por outros. Esse trabalho não deve desaparecer quando o jogador sobe de patamar ou quando passa a gerar valor numa transferência.
Na dimensão internacional, a FIFA Clearing House veio automatizar e centralizar mecanismos que antes dependiam quase exclusivamente da iniciativa dos clubes formadores. No plano nacional, a proteção económica da formação segue uma lógica diferente, menos automatizada e mais dependente da atuação dos clubes, mas encontra no Regulamento do Estatuto, Categoria, Inscrição e Transferência de Jogadores (RECITJ) dois instrumentos essenciais: a compensação por formação e a contribuição de solidariedade.
A compensação por formação é devida, em regra, quando o jogador celebra o primeiro contrato de trabalho desportivo até ao final da época em que complete 23 anos, ou quando volta a adquirir o estatuto profissional nos trinta meses seguintes após ter readquirido o estatuto de amador. Porém, o RECITJ faz depender esta compensação da certificação do clube formador pela FPF, nos termos do Regulamento de Certificação das Entidades Formadoras.
Já a contribuição de solidariedade tem uma lógica diferente, uma vez que não está ligada ao primeiro contrato profissional, mas à transferência de um jogador profissional antes do termo do seu contrato. Nesses casos, os clubes que contribuíram para a formação do atleta têm direito a receber cinco por cento do valor da transferência, proporcionalmente distribuído pelos anos em que o jogador esteve registado entre o ano civil do seu 12.º aniversário e o ano civil do seu 23.º aniversário.
A diferença é simples: a compensação por formação protege o investimento feito até à profissionalização do jogador, enquanto a contribuição de solidariedade permite que os clubes formadores participem no valor económico gerado por uma transferência posterior.

Direitos que exigem atuação
Para os clubes formadores, estes direitos podem ter impacto económico relevante. Para os clubes que profissionalizam ou contratam jogadores, conhecer antecipadamente o regime aplicável permite avaliar encargos, riscos e obrigações futuras. Por isso, o acompanhamento jurídico assume importância não apenas quando já existe litígio, mas também numa lógica preventiva.
O RECITJ regula ainda o funcionamento prático destes direitos. A compensação por formação deve ser paga pelo clube que profissionaliza o jogador no prazo de 30 dias, sendo o valor apurado segundo percentagens distribuídas pelos anos de formação. Já a contribuição de solidariedade deve ser paga pelo clube que regista o jogador transferido, também no prazo de 30 dias após a transferência.
O regulamento prevê ainda um mecanismo arbitral próprio para litígios relacionados com estes direitos, permitindo aos clubes reclamar, junto da Comissão de Arbitragem da FPF, valores que não tenham sido pagos.
Há, contudo, um ponto essencial a considerar: a prescrição. Em ambos os casos, o prazo é de dois anos, contando-se, na compensação por formação, desde o registo do primeiro contrato profissional e, na contribuição de solidariedade, desde a transferência que lhe deu origem.
Há, portanto, um paralelismo evidente entre o plano internacional e o nacional. Internacionalmente, a tendência é para um sistema mais automatizado e centralizado, como sucede com a FIFA Clearing House. A nível nacional, o exercício destes direitos continua a depender, em grande medida, da iniciativa e do devido acompanhamento por parte dos clubes.

O equilíbrio do artigo 59.º
Ainda assim, o RECITJ revela uma preocupação com a realidade concreta do futebol português. Nem todos os primeiros contratos profissionais têm o mesmo significado económico e nem todos os percursos conduzem imediatamente à equipa principal.
É aqui que o artigo 59.º, especialmente nos números 5, 6 e 7, merece atenção. Salvo acordo em contrário, os clubes que celebrem o primeiro contrato de trabalho desportivo com vista à participação no Campeonato Nacional de Sub-23 ficam vinculados a pagar, durante as duas primeiras épocas, apenas 15% da indemnização de formação devida. Para os restantes campeonatos nacionais, o valor é de 30% durante a primeira época. Em ambos os casos, este regime deixa de se aplicar se, na mesma época, o jogador for utilizado na equipa principal em mais de cinco jogos oficiais e por, pelo menos, 45 minutos em cada jogo.
O n.º 7 completa o sistema ao prever que, terminado esse período inicial, o clube que mantenha o jogador ao seu serviço, ou o clube com o qual o jogador venha a celebrar novo contrato de trabalho desportivo, fica vinculado a pagar o valor remanescente da indemnização de formação.
Estas regras revelam uma tentativa de equilíbrio. O regulamento não elimina o direito dos clubes formadores, mas também não transforma a compensação num obstáculo imediato ao primeiro contrato profissional. Há uma fase intermédia em que o jovem passa a profissional, mas o encargo financeiro da formação pode ser faseado enquanto ainda se encontra num contexto de desenvolvimento.
Em suma, formar tem valor e profissionalizar também envolve risco. Por isso, a compensação por formação e a contribuição de solidariedade exigem dos clubes uma leitura preventiva e atempada do regime, tanto para assegurar o exercício dos direitos devidos como para antecipar encargos, riscos e responsabilidades futuras."

Curaçau: Kenji Gorré, o viciado em casinos que apanhava as bolas de Ronaldo e se tornou mental coach


"No Manchester United, Kenji Gorré apanhava as bolas que Cristiano Ronaldo chutava para fora quando estava a treinar livres. Apesar de ter sido dispensado dos red devils por Alex Ferguson, tornou-se um nome conhecido do futebol português. Veio para a Madeira por convite de um ministro e foi nessa fase que se tornou internacional pelo país mais pequeno de sempre a ir a um Mundial.

Alex Ferguson mandou-o entrar no gabinete. O jovem de 18 anos passou a porta acanhado por enfrentar alguém com uma aura infinita e o título de Sir. O treinador tinha algo para partilhar. Kenji Gorré tinha chegado à fase da carreira em que poucos são retidos pela peneira dos grandes clubes, um momento de transição entre a formação e o futebol sénior que pode encrencar a fluidez do percurso.
A lenda do Manchester United fez a cama: elogiou o caráter e o caminho feito pelo jogador até ali. Kenji Gorré foi-se apercebendo do conteúdo progressivamente dramático da conversa. Alex Ferguson chegaria ao ponto que tinha motivado o encontro: o extremo não tinha hipóteses de continuar nos red devils.
Kenji Gorré conteve o choro até ao carro. Nessa zona segura, desfez-se em lágrimas. O clube da sua vida, onde tinha preferido ficar mesmo após o interesse demonstrado por Chelsea e Arsenal, deu-lhe uma nega. De lá partiu para ir somar minutos no Swansea, do País de Gales.
Quando chegou a Inglaterra tinha apenas cinco anos. Nascido nos Países Baixos, foi transportado na bolsa do canguru da carreira do pai. Dean Gorré, também ele jogador, mudou-se do Ajax para o Huddersfield e levou a família a reboque.
Entre os seis e os nove anos, Kenji teve a invulgar possibilidade de jogar ao mesmo tempo pelo Manchester City e o Manchester United. Quando foi obrigado a fazê-lo, optou pelo clube marcado pelos padrões de qualidade elevados estabelecidos pelo homem que o viria a dispensar.
Entre outros aspetos, a cultura manifestava-se na proximidade que os jogadores da formação tinham com os da equipa principal. Ele era demasiado novo para treinar com o rol de estrelas que o Manchester United tinha na altura, algo que viria acontecer mais tarde. No entanto, era maduro o suficiente para se colocar atrás da baliza enquanto Cristiano Ronaldo cobrava livres e apanhava as bolas tergiversadas pelo português.
A mudança para o Swansea permitiu a Kenji Gorré estrear-se na Premier League. Ser um jogador com esse estatuto expô-lo a outras tentações que geralmente tornam falível um jovem com dinheiro. Foi nessa fase de deslumbramento que molhou os pés no vício. Embora não gastasse quantias exorbitantes de uma só vez, deu por si a fazer a roleta girar todos os dias.
“Não eram milhares de libras todos os dias, mas eu perdia cem aqui, duzentas ali. Felizmente, não eram quantias enormes, mas eu sei que era viciado em frequentar casinos”, contou à revista neerlandesa “Voetbal International”. Antes de ter dívidas intoleráveis, leu os sinais ao redor. A relação com a namorada ficou por um fio, acabando remediada graças à revisão de comportamentos.
Kenji Gorré voltaria a encontrar-se com Cristiano Ronaldo. Cruzaram-se inesperadamente no aeroporto da Madeira. Quando aterrou para assinar pelo Nacional, lá estava o busto do internacional português para o receber. No momento da chegada a Portugal, percebeu duas coisas: que CR7 era madeirense e que a Madeira é uma ilha.
A transferência do Swansea para o Nacional contou com intervenção de um ministro. Costinha era treinador da equipa insular e convidou diretamente o atacante para se juntar ao clube. Kenji Gorré ficou particularmente impressionado com o currículo do técnico, vencedor da Liga dos Campeões com o FC Porto.
A mudança drástica de ambiente desbloqueou novas áreas de interesse. Foi na Madeira que se tornou mental coach, tendo mesmo criado um projeto chamado “On The Ball” onde jogadores e especialistas de várias áreas davam palestras a desportistas profissionais em busca de robustecerem conhecimentos. Assim, adotou um mindset para ter um melhor lifestyle e ser a melhor versão de si mesmo, contagiando quem o rodeia com boas energias, de modo a que todos possam desbloquear o seu máximo potencial.
Foi durante o período que passou no Nacional que foi convocado pela primeira vez para a seleção de Curaçau. A aventura chegou ao auge. A ilha do Caribe estará representada no Mundial 2026 e será o país mais pequeno de sempre a participar na competição. Durante a qualificação, Kenji Gorré contribuiu com três golos e uma assistência para essa histórica caminhada.
Atento à diáspora como fonte de recrutamento de jogadores, Curaçau conseguiu um feito significativo que vai testar a equipa num contexto de exigência máxima. Num dos poucos jogos frente a seleções de maior nível que teve oportunidade de realizar, o país fez de bombo da festa na primeira aparição da Argentina após se sagrar campeã do mundo em 2022. A alviceleste encheu-se com sete golos sem resposta.
Durante a carreira, Kenji Gorré explorou também o Nacional e o Boavista, antes de rumar ao estrangeiro. Passou pelo Umm-Salal e atualmente representa os israelitas do Maccabi Haifa."