domingo, 17 de maio de 2026
Não há João Almeida, há Afonso Eulálio
"Da luta pelo segundo lugar e a despedida de Mourinho ao promissor corredor da Figueira da Foz que pode não vencer o Giro, mas já mereceu entrar numa galeria exclusiva. Almeida deve estar a torcer por ele
Ponto final num campeonato que, como todos os campeonatos, é feito de alegrias e frustrações, virtuosos e culpados, com mais ênfase nos defeitos de quem perdeu do que nos méritos de quem ganhou. É assim a forma de se viver no futebol e não é um exclusivo português. Enquanto o Douro prepara a bonita festa para celebrar o título do FC Porto, Sporting e Benfica reservam para si a última luta de galos, na tentativa de chegar à Liga dos Campeões via segundo lugar (o terceiro também dará, mas só na temporada 2027/28).
Do ponto de vista matemático, está tudo naturalmente em aberto, mas depois do empate das águias, em casa, diante do SC Braga, na última jornada, não serão muitos os que acreditarão numa escorregadela do Sporting em casa, diante do Gil Vicente — ainda que, atenção, os homens de Barcelos, sob excelente orientação de César Peixoto, mostraram neste campeonato ser uma das equipas que melhor futebol praticou.
O problema é que o adversário do Benfica também pressupõe ser uma daquelas obras com forte impressão digital (o Estoril de Ian Cathro) e das duas uma: ou José Mourinho tem um discurso para o plantel em que pede uma despedida em grande e todos dão as mãos rumo ao tal «milagre» referido pelo treinador nas conferências de imprensa, ou os sinais de desapego, falta de expressão e rasgo de uma equipa que há muito desconfia que vai perder o seu líder diz adeus da mesma forma como em tantas vezes atuou em 2025/26: errática, falhando em muitos momentos-chave.
Afonso Eulálio pode não ganhar o Giro, mas envergar durante pelo menos dois dias a camisola rosa (e pode não ficar por aqui...) já o coloca numa galeria exclusiva, juntando-se a Acácio da Silva e João Almeida como os únicos portugueses a liderarem a Volta à Itália. Para o público nacional foi uma deceção não poder assistir ao desempenho do corredor de A-dos-Francos, por não se sentir em condições, numa prova em que, em circunstâncias normais, poderia lutar novamente pela vitória, mas João Almeida será seguramente mais um a torcer, como qualquer adepto de ciclismo e (mais que tudo) de desporto, por mais um esforço do ciclista da Figueira da Foz, que saltou do pelotão nacional diretamente para uma equipa de topo, num trajeto anormal e que nos obriga a todos a dedicar mais tempo e atenção a um novo e promissor talento do ciclismo nacional."
El poder no necesita micrófono
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— Fever Pitch (@Fever_PitchFC) May 16, 2026
Croácia: Robert Prosinečki, o talento balcânico a quem só faltou fumar no chuveiro
"Com os pés, era um dos mais dotados da geração de ouro do futebol jugoslavo que se desmembrou com a guerra. Mas Prosinečki amava tanto o futebol quanto o seu cigarrinho e a bebida. Garante que não teria sido melhor jogador sem eles. Ainda é, hoje, o único jogador a marcar em Mundiais com duas camisolas diferentes.
Há uma característica física muito distintiva em Robert Prosinečki: aos 20 anos, o médio, talvez o mais talentoso daquele grupo de jogadores que em 1987, em vésperas do início das hostilidades na Jugoslávia, se sagrou campeão mundial sub-20, parecia já um veterano calejado pelas agruras do futebol. Talvez fosse do cabelo loiro desalinhado, dos olhos azuis claros e encovados, da pose e expressão cansada, ainda que os pés contassem, quase sempre, outra história.
Pensar-se-ia que tal se devia às histórias comuns de quem veio daquele lado da Europa, gente marcada pela guerra e pelos conflitos com vizinhos. Mas Prosinečki até nasceu na Alemanha Ocidental, em 1969, de pai croata e mãe sérvia, ambos parte do contingente gastarbeiter que ajudou a reconstruir o país nas décadas do pós-guerra. É possível que o ar de estivador exausto venha, por isso, do omnipresente cigarro, do álcool, vícios que nunca tentou escamotear. Aliás, chegou mesmo a dizer numa entrevista à FIFA que não teria sido melhor jogador sem fumar ou beber.
Prosinečki tinha apenas 17 anos quando se estreou na liga jugoslava (e com um golo) pelo Dinamo Zagreb, clube que lhe deu ordem de marcha pouco depois, quando o seu pai exigiu que lhe dessem um contrato profissional. Miroslav Blažević, então treinador do Dinamo, prometeu num programa de rádio local que “engoliria” o seu diploma de treinador se Prosinečki se tornasse um jogador de futebol decente. Palavras que teve seguramente de comer quando convocou o médio para o Euro 96 e Mundial de 1998.
Isto porque Robert, ainda com a Jugoslávia una, mudou-se para Belgrado e para o Estrela Vermelha, onde explodiu com o seu futebol cheio de toque, lento mas belo, como quem tenta embalar o esférico: foram três títulos jugoslavos e o maior feito do futebol de clubes dos Balcãs, com a conquista da Taça dos Campeões Europeus de 1991.
Já nessa altura, Prosinečki era um fumador inveterado, apaixonado mesmo, manejando o cigarro com a mesma naturalidade com que fazia um drible em cima de um adversário. Numa entrevista ao canal Sport TV da Eslovénia, Zvonimir Boban, colega de seleção primeiro na Jugoslávia e depois na Croácia, contou que aos 13 anos, nas concentrações das seleções jovens, Prosinečki já fumava Marlboro vermelho como um adulto. “Eu era o colega de quarto dele e não era fácil quando íamos dormir. Entre as 3 e as 4 da manhã começava a ouvir o som do isqueiro”, revelou outra das estrelas croatas dos anos 90.
Refik Šabanadžović, companheiro dos tempos do Estrela Vermelha, revelou ao jornal sérvio “Telegraf” que, já no Real Madrid, Prosinečki fumava “dois ou três maços de tabaco por dia” e fazia-o em frente aos dirigentes dos merengues, para onde se mudou depois do sucesso europeu em casa e do início da violência no seu país. O croata custou 15 milhões de euros ao Real, uma enormidade na época, e iniciou ali uma série de experiências falhadas no estrangeiro, pontuadas por lesões e comportamento pouco profissional. Ainda passou pelo Oviedo, emprestado, e foi depois protagonista de uma sempre complexa mudança de Madrid para o Barcelona, mas em Camp Nou repetiu a mesma pobre forma demonstrada no Santiago Bernabéu.
Se nos clubes as coisas não corriam bem, tudo mudava quando Prosinečki vestia a camisola axadrezada da Croácia. E antes dela, a azul da Jugoslávia, com a qual foi eleito o melhor jogador do Mundial sub-20 de 1987. Ainda antes da independência da Croácia, jogou o Mundial sénior de 1990 pela Jugoslávia e marcou. Repetiria o feito no histórico Mundial de 1998, já pela Croácia, que foi 3ª classificada, apenas três anos após o fim da guerra. Tornou-se aí no primeiro e único jogador a marcar em Mundiais por dois países diferentes.
Ainda assim, pelo que logrou com o Estrela Vermelha, Prosinečki diz que ainda hoje é mais saudado “em Belgrado do que em Zagreb”.
Em 2001, e já depois de um regresso à Croácia e uma passagem pelo futebol belga, Prosinečki foi inesperadamente contratado pelo Portsmouth, ainda antes do período áureo do clube do sul de Inglaterra. Na 2ª divisão inglesa aumentou o seu estatuto de jogador de culto. Aí cruzar-se-ia com um muito jovem Peter Crouch que, numa entrevista à “FourFourTwo”, revelou que Prosinečki fumava “antes do jogo, ao intervalo, no chuveiro, depois do jogo”. E que continuava fiel ao clássico Marlboro vermelho, carregado de alcatrão. O avançado confidenciou ainda que o croata percebia perfeitamente o inglês “mas quando lhe dizias para voltar para trás e defender, fazia de conta que não entendia.”
Em resposta, Prosinečki, que entretanto se tornou treinador, sem particular sucesso - é agora selecionador do Quirguistão - assumiu que, sim, o cigarro era um companheiro ubíquo, quase uma extensão dele próprio, mas que Crouch talvez tenha exagerado. “É verdade que eu fumava muito, mas não no chuveiro. Os cigarros acalmavam-me. E eu não queria esconder, ao contrário de outros futebolistas”, disse numa entrevista ao Transfermarkt."

