quinta-feira, 7 de maio de 2026

À rasquinha...

Benfica 2 (2) - (1) 2 Reus
(Viti, Rodrigues)

Vitória nos penalty's, contra um adversário bastante mais fraco, em mais um jogo a eliminar, onde o Benfica voltou a abanar! Fomos superiores durante grande parte do jogo, mas não concretizámos e inclusive voltámos a desperdiçar as bolas paradas!!!
Até nos penalty's estivemos em desvantagem!

Temos que jogar muito melhor no Sábado!

Se não sabem gerir calendários, liguem para Inglaterra ou... Façam algo, por favor!


"O anúncio tardio da 33.ª e penúltima jornada é o culminar de uma época de caos logístico. Entre 'feiras' e jogos em pausas de seleções, a Liga 'esqueceu-se' de ser... profissional

Ontem, segunda-feira, dia 5 de maio, a Liga dignou-se, finalmente, a anunciar os horários da 33.ª jornada. O facto de estarmos a meros cinco dias do início da penúltima ronda do campeonato — na qual tanto se decide, da Europa às descidas — e só agora sabermos o calendário oficial é um atestado de incompetência que asfixia a nossa indústria. Esta opacidade logística não é apenas um incómodo; é um desrespeito gritante por quem faz o espetáculo.
Numa época marcada pela renovação das estruturas da Liga, com novas caras e promessas de modernidade, o que vimos foi um retrocesso organizacional sem precedentes. O futebol moderno vive de microciclos de trabalho. Cada hora de treino, cada período de recuperação e cada detalhe nutricional é planeado ao milímetro. Como se pode pedir excelência a treinadores e atletas quando estes vivem na incerteza até à última hora?
O historial desta temporada é um manual de sobrevivência ao caos. Recordamos com amargura o episódio de Arouca, onde o calendário ignorou uma Feira das Colheitas previsível há décadas, obrigando o FC Porto e o clube local a um braço de ferro vergonhoso. Assistimos à revolta legítima do Estoril, forçado a jogar desfalcado em plena pausa de seleções porque «não havia datas». Vimos o Nacional da Madeira ameaçar a falta de comparência por impossibilidades logísticas que a Liga, no seu castelo de vidro, decidiu ignorar.
Se a desculpa é a complexidade das competições europeias ou os direitos televisivos, olhemos para o lado. Na Premier League, o rigor é lei. Em junho, o adepto sabe quem joga com quem; e, com meses de antecedência (normalmente, seis a oito semanas), sabe o minuto exato do pontapé de saída de cada duelo. Lá, entende-se que o futebol é um produto que exige respeito. Aqui, tratamos o calendário como um post-it que se cola e descola ao sabor de conveniências.
A nova estrutura da Liga prometeu profissionalismo, mas entregou amadorismo disfarçado de burocracia. Se a gestão de 34 jornadas ultrapassa a capacidade analítica dos nossos órgãos decisores, o conselho é simples: liguem para Inglaterra. Estudem os modelos que funcionam. Respeitem os microciclos, a logística, os adeptos que viajam e a integridade da competição.
O futebol português não pode continuar a ser gerido com a antecedência de uma marcação de jantar entre amigos. Façam algo, por favor!"

As boas intenções na criação do VAR já estão a arder no inferno


"Ao contrário da expectativa inicial, videoárbitro não eliminou o erro com influência no resultado do jogo, muito menos a controvérsia na análise de muitos dos lances.

O VAR acabou por revelar-se tóxico e os adeptos detestam. A sua introdução, transformou o árbitro na figura central na transmissão de um jogo de futebol.
Ao contrário da expectativa inicial, não eliminou o erro com influência no resultado do jogo, muito menos a controvérsia na análise de muitos dos lances. Retirou até alguma condescendência ao erro e condicionou a explosão de alegria dos adeptos na celebração de um golo — pode ser revertido.
Eliminar o VAR não é a solução. O equilíbrio deverá ser atingido aumentando as decisões tomadas pela tecnologia (linha de golo e fora de jogo). Analisando o nível médio dos jogadores, treinadores e árbitros portugueses, a diferença do nível médio entre os melhores de cada classe é evidente.
Além da barreira cultural ( é precisa coragem para se ser árbitro, o que limita muito o universo de recrutamento), a diferença na exigência do treino na formação e a elevada taxa de abandono no percurso, faz com que apenas tendo uma enorme quantidade na base da pirâmide se conseguirá ter um conjunto alargado de árbitros de qualidade nas competições profissionais.
Mas se a questão do VAR e do nível médio dos árbitros das competições profissionais não se resolve em pouco tempo, a APAF deixar de querer que a classe que representa seja a única que não pode ser criticada numa democracia liberal da União Europeia já é algo que não se pode aceitar e que é urgente. E se uma classe, corporativista, o tenta fazer, compete a quem faz o regulamento disciplinar não permitir essa exceção.
Alguém imaginaria multar um treinador por criticar um seu jogador? E tentar amordaçar essa crítica, só a amplifica. Faz o assunto continuar vivo durante a semana, quando outros já o teriam submergido naturalmente. Querer multar agentes desportivos que criticam árbitros é querer parar o vento com as mãos — em 2026, a crítica já não se circunscreve aos colegas de trabalho e familiares — há dezenas de programas de televisão diários que competem ferozmente por audiências e precisam de polémicas, porque notícias há poucas.

De um grande, a regra é que um treinador só sai vendido ou despedido
Entre um presidente e um treinador a tensão é permanente. Contribuem decisivamente para a estabilidade da relação os resultados, a solidariedade, a lealdade do treinador e um pequeno círculo de pessoas que estão à volta dos dois, filtrando desabafos e ajudando a esbater diferenças de opinião.
É por isso rara a situação em que um treinador de um grande chegue ao fim do contrato. Jorge Jesus (2009-2015, no Benfica) e Vítor Pereira (2013 no FC Porto) foram exceções. O futebol moderno é complexo — quando cada época começa, as receitas correntes são muito inferiores às despesas correntes. Só se equilibra o saldo com vendas de jogadores. Para essas vendas se realizarem, é preciso ter bons jovens jogadores — e que joguem. E que a equipa também esteja bem. A sintonia entre a administração e a equipa técnica é decisiva.
André Villas-Boas renovou contrato com Farioli num momento decisivo da época, e em que a vitória no campeonato não era uma certeza. Ganhou, pelo que todos reconhecem o acerto da decisão. Se Farioli fosse despedido daqui a um ano e meio, iria dizer-se que a renovação tinha sido um erro? O FC Porto ganhou o campeonato na 1.ª volta e na 2.ª não o perdeu.
Farioli não foi campeão no Ajax, mas fez 78 pontos. Na época anterior, o Ajax tinha feito 56, e a duas jornadas do fim esta época tem 55 — pode fazer 61, no máximo. Rui Borges, por exemplo, foi o treinador que mais contribuiu para a subida de Portugal no ranking da UEFA, com o Vitória de Guimarães em 2024/2025 e o Sporting em 2025/2026.
Nas próximas três semanas, vai ter dois jogos da Liga e a final da Taça com o Torreense, que é uma excelente equipa— vai ser um jogo muito difícil de preparar e de ganhar. Nos últimos 15 anos, o Sporting perdeu duas finais que pareciam ganhas antes do jogo: Académica e Aves. E começou o século XXI a ganhar uma final ao Leixões, que jogava no 3.º escalão, apenas por 1-0.
O Torreense vai ser um adversário muito perigoso e mentalizar os jogadores do Sporting da dificuldade do jogo vai ser difícil de conseguir — uns a pensar no Mundial e todos a pensar nas férias. E os adeptos no Jamor a contar com um jogo fácil.Em um ano e meio, Rui Borges conseguir ser campeão nacional, ganhar duas Taças de Portugal e ter chegado aos quartos de final de uma UEFA Champions League será um desempenho excecional.

A disponibilidade da ministra Margarida Balseiro Lopes
A ministra Margarida Balseiro Lopes, nas negociações do orçamento de Estado, conseguiu um valor recorde para o desporto em 2026, aproximadamente 70 milhões de euros. É igual ao da SAD do SC Braga em 2024/25, mas muito inferior ao que será o de 2025/26, com a inclusão dos €32 M da venda de Roger e da receita obtida com a brilhante prestação europeia.
A passagem do Desporto do ministério da Educação para o da Cultura, permite que a disponibilidade e atenção do ministro seja muito maior. Perto de metade do orçamento da Cultura, destina-se à RTP, que é tutelada por outro ministro, António Leitão Amaro. O financiamento da RTP é assegurado através das verbas obtidas com a taxa de contribuição audiovisual, que é paga na conta da luz, mesmo por quem não tem televisão. Sobre esta taxa, de 2,85 euros mês, ainda incide 6% de IVA! Isso mesmo, à taxa acresce IVA. Desde 2016 que a estratégia tem sido deixar que o tempo resolva (não se atualiza o valor da inflação) — o valor já foi reduzido 23% em termos reais.
Se é certo que nenhuma destas habilidades foi perpetrada por este Governo, também não surpreende que não as resolva e que continue tudo na mesma. A disponibilidade da ministra para os temas do Desporto não pode ser desperdiçada."

Alinhamentos...

Critérios...

O maior jogo de Portugal em 2030 não se joga no relvado


"Em 2030, Portugal vai jogar um dos jogos mais importantes da sua história recente. E talvez nem se dispute dentro das quatro linhas.
O Campeonato do Mundo que vamos coorganizar com Espanha e Marrocos, o primeiro Mundial transcontinental da história, representa muito mais do que futebol, estádios cheios e noites de celebração. Representa uma oportunidade rara de afirmação e projeção internacional, num tempo em que a reputação dos países se constrói tanto pela narrativa como pelos resultados. Durante algumas semanas, os olhos do mundo estarão sobre Portugal. Mas o essencial não está apenas no que acontece durante os 90 minutos de cada jogo. Está naquilo que se passa antes e fica depois da competição desportiva.
O futebol tornou-se uma das formas mais eficazes de projeção internacional. Os megaeventos desportivos deixaram de ser apenas competição para passarem a ser vitrinas globais de modernidade, capacidade organizativa, hospitalidade, segurança e visão estratégica. É aqui que ganha força o conceito de soft power, desenvolvido pelo politólogo norte-americano Joseph Nye: a capacidade de um país influenciar os outros pela atração, pela confiança e pela legitimidade, e não pela força. A Alemanha percebeu-o em 2006, ao usar o Mundial para projetar uma imagem de abertura e hospitalidade; a África do Sul fê-lo em 2010, ao afirmar-se como nação moderna e capaz de acolher o Mundo; o Brasil reforçou-o em 2014 através da projeção global da sua cultura e diversidade; a Rússia, em 2018, procurou reposicionar a sua imagem externa; e o Qatar, em 2022, mostrou como um megaevento pode simultaneamente ampliar visibilidade e influência, mas também expor tensões reputacionais ligadas à sustentabilidade e aos direitos humanos.
Em 2030, Portugal terá essa mesma oportunidade e essa mesma responsabilidade perante uma audiência global sem precedentes. Mais do que receber jogos, receberá um teste à sua capacidade de transformar exposição internacional em prestígio e confiança duradouros. Um Mundial bem organizado pode fazer mais pela perceção internacional de um país do que anos de campanhas promocionais ou diplomacia tradicional. Pode alterar a forma como milhões de pessoas olham para um destino, reforçar a sua notoriedade e criar uma ligação emocional entre públicos globais e um território.
A capacidade de acolhimento, a segurança, a qualidade urbana, a gastronomia, a paisagem, a cultura e a própria relação do país com o futebol oferecem uma base excecional para consolidar a marca Portugal no mundo. Mas esse acolhimento não se resume às infraestruturas ou à logística. Mede-se também na forma como os residentes recebem quem nos visita, no orgulho com que mostram a sua cidade e no sentimento de pertença a um momento histórico.
É por isso que este impacto não se mede apenas na forma como o mundo nos vê. Mede-se também na forma como os portugueses vivem o país depois de 2030 e na perceção que têm dos benefícios de acolher o evento. Se os residentes sentirem melhorias reais nas acessibilidades, nos serviços, na requalificação urbana, nas oportunidades económicas, na valorização dos territórios e na autoestima coletiva, tornam-se os primeiros embaixadores do sucesso do Mundial.
Quando um megaevento é bem pensado, o legado não termina no apito final, permanece nas cidades, nos serviços, nos espaços públicos e na memória positiva de quem lá vive. Permanece também na forma como um país aprende a organizar-se melhor e a promover a cooperação entre instituições e nações.
O sucesso de 2030 dependerá da capacidade de transformar o Campeonato do Mundo de Futebol num verdadeiro projeto nacional, onde Federação Portuguesa de Futebol, clubes, Liga Portugal, autarquias, setor do turismo, empresas, comunidades locais e cidadãos estejam alinhados em torno de uma visão comum. Esse alinhamento coletivo terá reflexos diretos no próprio ecossistema do futebol português. O Mundial pode acelerar investimento em academias, centros de treino, inovação tecnológica, qualificação de recursos humanos, profissionalização da gestão e valorização internacional dos clubes e das competições nacionais. O legado não deve ficar apenas nos estádios que recebem jogos, mas irradiar para a formação, para o futebol feminino, para os escalões jovens e para os territórios que vivem o jogo longe dos grandes centros. Porque estará em jogo a forma como Portugal se apresenta ao Mundo e melhora a vida dos seus residentes.
Mas há uma nuance essencial: a visibilidade não se transforma sozinha em reputação duradoura. A atenção mediática é apenas o início. O verdadeiro impacto depende da forma como essa atenção é convertida em experiência, narrativa, legado e memória coletiva. Cada transmissão televisiva, cada imagem partilhada por adeptos, cada reportagem internacional sobre a experiência de estar em Portugal e cada comentário positivo sobre mobilidade, organização ou ambiente urbano contribuem para uma construção simbólica que vai muito além do torneio.
O maior legado pode surgir depois do apito final: mais desejo de visita, maior reconhecimento internacional, reforço da confiança externa e uma imagem ainda mais sólida de Portugal enquanto destino turístico e país moderno, aberto e confiável. Num contexto internacional competitivo, essa vantagem pode ter efeitos muito concretos e prolongados.
Há, porém, uma condição que hoje decide a credibilidade de qualquer megaevento: a sustentabilidade. O mundo já não avalia estes acontecimentos apenas pelo espetáculo. Avalia o impacto nas comunidades, a utilidade futura das infraestruturas, a responsabilidade ambiental, a gestão dos recursos públicos e a coerência entre discurso e prática.
Em 2030, Portugal não será apenas observado como organizador. Será avaliado como modelo. E essa avaliação dependerá também da coerência entre ambição internacional e benefícios reais para as populações. A singularidade desta edição aumenta ainda mais a exigência. Portugal dividirá a narrativa global com Espanha e Marrocos, dois países com identidades, posicionamentos turísticos e enquadramentos institucionais distintos. Essa complexidade faz do Mundial 2030 um exercício raro, mas também uma oportunidade única para Portugal afirmar a sua própria narrativa dentro desta coorganização transcontinental. Ser anfitrião é um facto; transformar essa condição em valor estratégico é outra coisa.
Quando faltam apenas quatro anos, a pergunta mais importante não é «vamos ganhar o Mundial?». A verdadeira questão é se Portugal está, já hoje, a fazer tudo o que é necessário para transformar esta oportunidade histórica numa vantagem real, coletiva e duradoura.
É aqui que se decide a diferença entre evento e transformação. O Mundial de 2030 pode ser o palco onde Portugal confirma a sua maturidade institucional, a qualidade dos seus territórios, a força da sua hospitalidade e a capacidade de alinhar desporto, turismo, sustentabilidade e visão estratégica numa mesma narrativa de país. Num tempo em que a reputação se constrói na experiência vivida, cada detalhe contará: mobilidade, segurança, ambiente urbano, eficiência organizativa e legado útil às comunidades. No fundo, o maior troféu que Portugal pode conquistar em 2030 talvez não seja apenas uma taça, mas uma posição reforçada no mapa mental e emocional do mundo."

Tomas Rosický, o Mozart checo


"Tomas Rosický foi um daqueles futebolistas raros que pareciam jogar com o tempo a um ritmo diferente. Médio elegante, de toque refinado e com uma visão de jogo privilegiada, fez da inteligência em campo a maior arma.
Formado no Sparta de Praga, cedo se percebeu que havia ali algo especial. Ainda muito jovem, já comandava o meio-campo com uma maturidade invulgar, sendo peça-chave na conquista de títulos nacionais. O salto para o Borussia Dortmund confirmou o talento à escala europeia. Na Alemanha, Rosický encantou os adeptos com a capacidade de condução, passes milimétricos, remates de meia distância e golos memoráveis, sendo um dos rostos do título da Bundesliga, em 2001-02.
A classe levou-o até ao Arsenal, onde viveu alguns dos momentos mais marcantes da carreira. Em Londres, sob a batuta de Arsène Wenger, tornou-se símbolo de um futebol fluido e técnico. Houve jogos em que parecia dançar com a bola, como aquele inesquecível golo em Anfield, onde deixou a sua marca com um remate perfeito por cima do guarda-redes.
Podem ver e rever o golo. Remate de primeira, parece fácil. O camisola 7 dos Gunners simplificava o futebol. No entanto, foi também em Inglaterra que o seu percurso ficou profundamente marcado pelas lesões.
Longas paragens, regressos adiados e a frustração constante de não poder estar em campo impediram-no de manter a consistência que o talento merecia. Ainda assim, cada regresso era recebido como um pequeno milagre. E Rosický fazia questão de retribuir com a mesma elegância de sempre, como se nunca tivesse estado ausente.
Pela seleção da Chéquia, foi igualmente uma referência. Capitão e líder, representou o país em Europeus e Mundiais, com o 10 nas costas, e sempre com a mesma entrega e criatividade que o caracterizavam. Era mais do que um jogador. Era o cérebro da equipa, o elo entre a disciplina tática e a inspiração.
No regresso ao Sparta de Praga, já na fase final da carreira, fechou o ciclo onde tudo tinha começado. Não com a explosão física de outrora, mas com a mesma paixão pelo jogo. E até aí Rosický é diferenciado. Prometeu que voltaria a jogar pelo seu clube e cumpriu.
O futebolista checo esteve 18 meses afastado dos relvados após lesões sistemáticas. Ainda assim, a sua frase de despedida, após mais de 600 jogos como profissional, diz tudo:
«Apesar de todos os obstáculos, a minha carreira foi muito bonita. Vivi momentos magníficos, mas também vivi outros muito negativos. Acima de tudo, sou alguém que ama profundamente o futebol e que nunca joguei pela glória ou pelo dinheiro.»
Este futebolista deu-nos magia, precisão e definição. E escreveu mais um belo poema sobre superação."

Escócia: John Thomson, o “príncipe dos guarda-redes” com um destino fatal


"Trabalhou em minas de carvão enquanto adolescente, foi contratado pelo Celtic por 10 libras, muitos opinam que foi o melhor guardião que defendeu as redes dos católicos. No entanto, a sua vida terminou aos 22 anos, na sequência de um choque com Sam English, jogador do Rangers. O multitudinário funeral uniu no luto adeptos dos dois gigantes de Glasgow.

John Thomson cresceu habituado à escuridão. Sabia o que era a claustrofobia do subsolo, a Terra pronta a esmagá-lo, a pouco natural vida a fingir ser uma toupeira.
Vindo ao mundo em 1909, John era de Cardenden, uma comunidade mineira, sítio de gente habituada à dureza que a própria luta pela subsistência implicava. Foi em Cardenden, perto do Mar do Norte, virada para Edimburgo, que se travou o último duelo até à morte registado em solo escocês. Seria em 1826, terminando com um banqueiro, George Moran, morto à custa das feridas de uma bala disparada por David Landela, um mercador.
Naquele local cinzento não havia muito tempo para não se ser adulto. Não ser adulto significava não trabalhar e não trabalhar significava uma despesa adicional. Com 14 anos, John foi para a mina de carvão onde o pai também trabalhava. O dever do adolescente acontecia a 300 metros de profundidade, tendo de desengatar os ganchos das correntes dos vagões que transportavam o carvão da mina para a superfície.
O ofício deu-lhe força nos braços. John não era alto (1,75 metros), a escassez associada ao quotidiano fizeram-no magro, mas o corpo ganhou, lá nas profundezas, calo para outro tipo de desafios.
Quando não estava na mina, Thomson era guarda-redes. A sua mãe, para quem o filho estar a trabalhar na indústria do carvão com 14 anos era algo tão natural como as leis que regem a natureza, não gostava que o rapaz jogasse futebol, muito menos na baliza. Era demasiado perigoso, alegava, preocupada. E premonitoriamente.
A perícia do guardião levou-o a ganhar fama em ligas regionais. Não obstante, seria quase por acaso que chegaria o salto que definiria a carreira de futebolista.
Willie Maley, lendário técnico do Celtic - orientou os católicos de Glasgow durante uns formidáveis 43 anos, entre 1897 e 1940, erguendo 30 títulos -, enviou um olheiro para assistir a um encontro do campeonato local onde John Thomson atuava. A intenção era ver um guarda-redes da equipa adversária, mas seria o talento do rapaz que trabalhava nas minas a fascinar o caça-talentos. Aos 17 anos, o adolescente trocou a vida debaixo da terra por um contrato com o Celtic, que pagou 10 libras ao Wellesley Juniors, modestíssimo emblema, pelo jovem.

Fama e morte
O mineiro feito futebolista rapidamente ganhou estatuto de titular em Glasgow. Na final da Taça de 1927, Thomson ergueria um de dois desses troféus a eliminar que obteria. Eram anos de domínio do Rangers, pentacampeão entre 1927 e 1931, somando a parte protestante da cidade mais um tricampeonato entre 1933 e 1935. Pelo meio o melhor da bola escocesa foi o Motherwell, erguendo um raríssimo título para um conjunto de fora de Glasgow, Edinburgo ou Aberdeen - só sucederia mais uma vez desde o começo do século XX até 2026, com o Kilmarnock em 1965.
A aparente pequena estampa física para defender as redes era compensada por elegância e reflexos. Willie Maley, o dono do banco do Celtic durante 43 anos, sublinhou a “capacidade única de defender os mais potentes remates com suavidade e graciosidade“, agindo sempre com “equilíbrio e beleza“; Desmond White, presidente do clube entre 1971 e 1985 que crescera com John como keeper, classificou-o como “o melhor guarda-redes“ da história dos verde e brancos, realçando a “elasticidade de bailarino“; a imprensa popularizou a alcunha “príncipe dos guarda-redes“ e os adversários várias vezes o aplaudiram, como os ingleses, em Londres, num encontro em 1930.
Já internacional escocês casaria, em 1930, com Margaret Finlay. Os dois planeavam abrir uma loja de vestuário em Glasgow. Nesse mesmo ano, uma espécie de aviso: um embate violento contra um avançado levou-o a perder dois dentes e fraturar o maxilar e várias costelas. A mãe repetiu o pedido dos tempos da adolescência: retira-te, filho.
Thomson continuo a jogar até setembro de 1931. Tinha 22 anos e aí disputaria o 188º e último encontro pelo Celtic. Naquela tarde, 80 mil pessoas deslocaram-se a Ibrox para o Rangers-Celtic. Os tempos eram de enorme agressividade entre os adeptos de ambos os clubes - o Rangers com a sua base protestante, o Celtic, fundado por um padre irlandês, ancorado na comunidade católica -, com violentos conflitos.
Ao começar a segunda parte, um lance fortuito, sem intenção, mancharia o dérbi. Sam English, do Rangers, correu para tentar chegar à bola. No movimento contrário, John Thomson, destemido, saiu aos pés do adversário, cujo joelho acabaria a chorar, com violência, contra a cabeça do guarda-redes.
Há crónicas de jornais que asseguram que, na bancada principal, o impacto gerou um instante de silêncio entre a multidão. No meio do mutismo, escutou-se um grito. Era Margaret Finlay, a mulher daquele jovem de 22 anos, ela própria com apenas 19.
Thomson foi levado de maca. A opinião generalizada, ainda assim, apontava apenas para um choque mais agressivo. No entanto, James Marshall, futebolista do Ranges e estudante de medicina, comentou imediatamente que algo mais sério se passava.
Tinha razão.
A vítima foi levada para o hospital. Sofrera uma fratura do crânio com rotura da artéria temporal direita. Às 17h, sofreu uma convulsão intensa. Foi levado para ser operado de urgência, mas sem êxito. Hora da morte: 21h25.
O funeral do “príncipe dos guarda-redes“ seria um caso raro de união entre adeptos do Celtic e Rangers. Quarenta mil pessoas, muitas do lado protestante de Glasgow, foram às cerimónias fúnebres. O local onde Thomson está sepultado é, ainda hoje, lugar de peregrinação para as gentes do Celtic. Na comunidade onde John cresceu, as crianças de hoje, já sem o hábito de trabalhar em minas quando mal têm barba, disputam, todos os anos, o John Thomson Trophey.
Sam English, protagonista involuntário da tragédia, ficaria profundamente afetado pelo sucedido. Ainda jogaria no Liverpool, sendo dono de um respeitável percurso no futebol. No entanto, ao retirar-se, confessou: “Vivi anos de carreira infeliz e sem alegria a partir daquele momento.”"