Friday, April 10, 2026
Mourinho deixa o Benfica, Rui Costa é o novo treinador
"Palavras do treinador sobre os ativos são a ponta do icebergue de uma gestão confusa do Benfica. E enquanto o barco vai afundando, dispara em todas as direções...
Os números estão longe de dizer tudo no futebol, mas dizer que o Benfica não venceu qualquer um dos últimos três jogos com o Casa Pia será suficiente para perceber que a águia é, definitivamente, a terceira força do futebol em Portugal nesta altura. O caminho das trevas do FC Porto durou apenas uma época, a de transição de 40 anos de Pinto da Costa para André Villas-Boas, e o Sporting está sólido e até já faz peito aos mais poderosos da Europa.
Quando chegou, Mourinho prometeu «meter um dedinho» na equipa, mas nem com o Benfica a jogar de semana a semana e, por isso, com mais tempo para trabalhar, transparece a mínima evolução na equipa. Com bola, o fio de jogo é enfadonho e, ao dia de hoje, dependente do que faz Schjelderup, esse mesmo que só não saiu porque fez a exibição de uma vida frente ao Real Madrid.
E enquanto o barco vai afundando, com mais uma época paupérrima na era Rui Costa depois de mais de 100 milhões de euros gastos, Mourinho segue o seu método habitual de apontar o dedo a tudo e todos. Após o empate com o Casa Pia, o treinador disse, com todas as letras, que queria abdicar de certos jogadores, mas não o faz porque «outros valores se levantam».
O que Mourinho disse é, além de relevante, grave, revela pouco poder do treinador que, em tempos, encostou Casillas, Pogba, Ricardo Carvalho ou Pepe, para tomar decisões que só a ele lhe dizem respeito e deveria obrigar Rui Costa a reagir, porque os problemas não se resolvem fingindo que não existem ou com pífias publicações de revolta no X. Também já Bruno Lage, no famoso áudio da garagem, tinha aflorado esta questão, apesar de, na altura, ter garantido ser tudo «tirado do contexto».
Afinal, quem escolhe quem joga e deixa de jogar no Benfica? Há interesses superiores aos meramente desportivos? Talvez assim se perceba o porquê de Banjaqui, Gonçalo Oliveira, José Neto ou Gonçalo Moreira continuarem à margem, Enzo ser adaptado a central, Sidny Cabral contratado quando há muito boa prata da casa na posição e a renovação com Otamendi, à beira dos 40 anos, ainda ser tema.
Em tempo oportuno escrevi neste espaço que o regresso de Rafa seria nocivo para o coletivo e não é surpresa que, dois meses volvidos, o avançado seja um dos alvos da ira do treinador. Com este negócio só o Besiktas ganhou, ao livrar-se de um grande contrato, e, por outros valores se levantarem, Sudakov saiu da equipa quando, finalmente, dava um ar de sua graça. Este é só um dos inúmeros exemplos de uma gestão sem critério e ao sabor do vento.
É pouco crível que apontar falta de caráter de alguns jogadores para lutar pelo título seja a melhor forma de motivar um plantel de braços em baixo para ainda sonhar com um 2.º lugar que tanta diferença fará no orçamento para a próxima época, mas Mourinho não o fez inocentemente. Rui Costa já sabe que, continuando com o treinador, como parece que fará depois de, ontem, ter empurrado a questão com a barriga — «a continuidade de Mourinho não é questão neste momento», disse em exclusivo a A BOLA — terá de fazer a enésima revolução no plantel e contratar jogadores do perfil (de jogo e de... caráter) que ele quer, com os enormes custos que isso terá."
Chega de desculpas, Mourinho
"Depois do Qarabag, das arbitragens ou do percurso fora de normal dos rivais, agora foram os jogadores. É tempo de assumir responsabilidades.
O Benfica não foi além de um empate com o Casa Pia e não aproveitou a surpreendente igualdade do FC Porto com o Famalicão, o que significou o definitivo adeus dos encarnados ao título. José Mourinho foi o primeiro a reconhecê-lo, logo após a desilusão em Rio Maior. Até aqui tudo normal.
O mais estranho foi o que se seguiu, com o treinador a tecer críticas internas. «Neste momento tinha vontade de não fazer jogar mais alguns jogadores, mas há valores mais altos que se levantam, são ativos e mesmo que eu não quisesse continuar com algum deles se calhar é mais fácil não continuar tentando valorizar do que hostilizando.» Disse e repetiu. Primeiro na flash interview e depois na sala de imprensa. Pelo que não foi uma gafe — algo que Mourinho raramente comete —, e também não acredito que tenha sido uma reação a quente, mesmo considerando o peso desolador do empate.
Mourinho é um mestre da comunicação e tudo o que diz tem um propósito. O special one não tem paralelo no discurso, pelo que há, sim, que descodificar a mensagem. A BOLA logo identificou Rafa, Enzo Barrenechea e Lukebakio como os que mais têm desiludido o treinador, mas também facilmente se percebe que Sudakov e Ivanovic, até pela diminuta utilização, igualmente não o convencem.
Não foi Mourinho a escolher o plantel e é normal que vários jogadores não se enquadrem nas suas ideias de jogo, mas não é normal que o treinador critique publicamente elementos do grupo. Ele melhor do que ninguém sabia que ato contínuo às suas declarações o elencar de nomes ia ser uma prioridade de todo o País. Dito e feito.
Certo é que o título para o Benfica é uma miragem e que o segundo lugar, que vale o acesso à UEFA Champions League, ficou mais distante. Muito pouco para um clube com a dimensão do Benfica.
Os encarnados continuam imbatíveis na Liga, mas já cederam nove empates, oito deles já com Mourinho no comando técnico. É certo que dois foram com o FC Porto e outros dois com Sporting e SC Braga, mas há mais quatro muito penalizadores, daqueles cujos pontos se consideram irrecuperáveis. Com Rio Ave, Tondela e Casa Pia, por duas vezes, voaram oito pontos. Que, como se percebe, fazem agora toda a diferença.
Depois do Qarabag, das arbitragens ou do percurso fora de normal dos rivais, Mourinho critica agora jogadores. Até admito que tenha razão em muitas das queixas, mas entendo que já chega de desculpas. É tempo de assumir responsabilidades. Até porque falhou em várias opções e muitos momentos. As contratações de Rafa e Sidny em janeiro, por exemplo, já têm o seu selo.
Esta época, mesmo que atinja o segundo lugar, está perdida para o Benfica. Logo é tempo de planificar a próxima. E o presidente Rui Costa, em exclusivo a A BOLA, deu-lhe quarta-feira carta branca. «José Mourinho tem contrato por mais um ano, não é uma questão neste momento. Estamos em sintonia.»
Talvez fosse o que Mourinho queria ouvir…"
A inteligência artificial 'desconfia' de José Mourinho
"Mourinho não pode esquecer que em matéria de dar a vida por uma equipa é mais decisiva a liderança do que a personalidade dos comandados... É que até o Gemini ficou confuso quanto ao que relmente pretende o treinador do Benfica.
Embalado por uma declaração de Farioli sobre o futebol português poder ser uma série da Netflix, perguntei ao Gemini que série da Netflix poderia assumir por argumento a conferência de imprensa de Mourinho após o empate com o Casa Pia. E todo o contexto do atual Benfica. Foram declarações duras. Do assumir um oficial adeus ao título, passando por críticas à falta de instinto matador da equipa e à ausência de capacidade de dar a vida em cada jogo, em cada lance, por cada ponto. Daí até ter vontade de não utilizar mais alguns jogadores foi um pequeno passo… Paralelamente, o assumir do desejo de ficar no Benfica na próxima época…
O Gemini sugere-me The House of Cards e termina com uma dúvida: «Mourinho quer ficar para reconstruir o Benfica à sua imagem, ou está apenas a certificar-se de que, se o barco afundar, ele será o único a sair com o colete salva-vidas da 'superioridade moral'?» Perante as dúvidas do Gemini - que, falemos honesto, são as dúvidas de muita gente - resolvi não me meter. Responder seria fazer juízos de valor que José Mourinho — por muito que ele se esteja a borrifar para o que penso — não merece. Tem um currículo de fazer inveja e a convocar ao respeito e à admiração.
Por muito que discorde — e não discordo em tudo — da estratégia de comunicação que seguiu após o empate com o Casa Pia — e que não é virgem, basta lembrar os 9 jogadores que lhe apeteceu substituir no jogo com o Atlético, da Taça, e outras críticas à equipa e a jogadores — não posso ser hipócrita. Várias vezes me queixei do discurso amorfo de Roger Schmidt e Bruno Lage. Quando os jogos corriam mal, falavam até de coisas que nem os adeptos do Benfica tinham visto. Criticar agora Mourinho não faria sentido. Mourinho dá muito mais pano do que a maioria dos treinadores. Tem coisas relevantes para dizer. E é inteligente. E às vezes também dá tiros nos pés. E depois?
O norte-americano Simon Sinek, um dos mais impactantes oradores mundiais, é para muitos a maior autoridade moderna na ideia de que o líder é o arquiteto da dedicação extrema. «Quando os líderes criam um círculo de segurança à volta das suas equipas, as pessoas sentem-se seguras. E quando as pessoas se sentem seguras, elas dão o seu melhor, partilham ideias e, se necessário, sacrificam-se umas pelas outras», desenvolveu Simon Sinek. Para quem «a capacidade de uma equipa não é o reflexo das aptidões dos seus membros, mas sim do quão seguros eles se sentem sob a orientação do seu líder.» No fundo, ouso eu acrescentar, a capacidade de morrer pela equipa depende mais da capacidade de o líder inspirar e da cultura criada numa instituição do que dos atributos psicológicos ou de personalidade de cada um enquanto peça individual. É por isso que, citando uma frase muitas vezes atribuída a Alexandre, o Grande, «um exército de ovelhas lideradas por um leão pode vencer um exército de leões liderados por uma ovelha.»
Naturalmente, há ovelhas e leões que não querem ser liderados, há sempre maçãs que não devem estar no cesto. E sim, Mourinho não deixa de ter razão, às vezes é preciso cortar o mal pela raíz para não contaminar. Mas o que ganha a equipa e o que se ganha em eficácia assumindo essa limpeza em público e sem citar nomes? Mesmo dando de barato que, internamente, Mourinho será claro a apontar o dedo aos alvos, que ganha o Benfica com este anátema que coloca tantos jogadores sob suspeita? Que riscos para um plantel que vê um líder lançar alguns dos seus à fogueira, para mais, sem ser claro sobre os alvos? O que ganha o próprio Mourinho ao assumir que as suas escolhas podem não ser apenas técnicas mas também em função de outros interesses que se levantam por estarem muitos milhões em jogo? Se os alvos forem mesmo Rafa, Lukebakio, Barrenechea e Sudakov, mais de 60 milhões, grosso modo…
Atenção: o diagnóstico de Mourinho não foi mal feito. Como pode o Benfica ter desperdiçado a benesse que o Famalicão lhe deu ao empatar no Dragão? Como pode a equipa estar a vencer e sofrer um golo como sofreu com o Casa Pia? Como podem alguns jogadores parecer que não têm pinga de sangue? Mas e onde fica Mourinho no meio disto tudo?
E o que disse Otamendi? Se calhar mais preocupante...
Ao lado passaram as declarações de Otamendi no final do mesmo jogo, quando o capitão do Benfica frisou que a equipa «tem de ter pensamento de clube grande». Devastadora esta frase, porque corresponde a algo que é o pior pesadelo de muitos os que pensam e sentem o Benfica: um clube que foi perdendo cultura de grandeza, que passa pelos títulos mas também por uma identidade, uma forma de estar. Ser grande é a capacidade de entrar em campo com a convicção das inevitabilidades, sendo vencer a maior delas. Ganhar sem jogar bem; levar tudo à frente se preciso for; cair, aleijar e só lamber as feridas no fim: e, se a derrota um dia chegar, sentir a dor dilacerante.
O Benfica atravessa uma crise identitária? Não nos sócios e adeptos. São o Benfica. É internamente que reside a questão. No rumo, na política, na liderança e na cultura de uma instituição. Discutir isso é mais importante que os desabafos de Mourinho. Até para que não possam ser entendidas como por-se a salvo das culpas. Não é justo nem digno de um treinador com a dimensão de Mourinho.
Então e Rui Costa? Ontem, em declarações a A BOLA, limitou-se a lembrar que Mourinho tem contrato e que está em sintonia com ele. Lamentou o empate e exigiu que a equipa se redima. Tudo em 30 segundos. É uma opção válida deixar Mourinho fazer a despesa da comunicação. Mas o que custará mais a Rui Costa é ser a enésima vez que pede desculpa pela equipa e exige resposta a um desaire. As desculpas também se evitam. Com projeto e liderança."
«Ai, aaaaaaai, vou dizer à professora...»
"Nas décadas pós-Revolução havia nas salas de aula, nos recreios e nas ruas uma série de personagens-tipo: a gira, o engatatão, o caixa de óculos, o gordo, o dono da bola, o atleta, o mariquinhas, a sonsa, o menino da mamã, o bufo, a graxista, o queixinhas, o preto e até o chinoca.
Passaram os anos e foi com satisfação que me vi pai de duas ex-crianças que não foram estigmatizadas na escola por usarem óculos. E nunca lhes ouvi, nem aos amigos, expressões discriminatórias.
É com redobrada estranheza, portanto, que constato a existência — e a boa saúde — de uma das tipologias: o queixinhas. Está vivo e recomenda-se entre os principais clubes do futebol português.
De chorar por mais
Em exclusivo a A BOLA, Rui Costa disse muito sobre a necessidade de entendimento entre clubes.
No ponto
Estudo sobre mulheres no dirigismo deixa bons sinais, mas há muito caminho para fazer rumo à igualdade.
Insosso
As hipotéticas dispensas do Benfica não dizem muito bem sobre a preparação da temporada, com ou sem Mourinho.
Incomestível
Enzo Fernández parece ter tanto de bom jogador como de desrespeitador dos clubes que lhe pagam ordenados de rei."
Ibracadabra
"«Abracadabra» é uma palavra tradicionalmente ligada à magia. Algo surpreendente, quase sobrenatural. Ao transformar essa palavra em «Ibracadabra», essa associação vai muito além da fonética. Zlatan construiu ao longo da carreira uma persona muito particular. Confiança no limite, quase teatral, frequentemente descrevendo-se como alguém único e superior. Essa autoconfiança, somada ao seu estilo de jogo irreverente e belo, alimenta a ideia de algo mágico. O ponta-de-lança sueco marcou golos altamente improváveis. Remates acrobáticos, golos de longa distância, bicicletas quase impossíveis e lances de pura criatividade que parecem surgir do nada, como quem faz um belo truque de ilusionismo. Uma espécie de «Ibracadabra».
Para mim, Zlatan Ibrahimovic nunca foi apenas um jogador. Foi uma inspiração crua, imperfeita e, ao mesmo tempo, fascinante. Fui crescendo a vê-lo fazer coisas que pareciam desafiar não só os adversários, mas também a lógica. Enquanto muitos aprendiam o futebol de forma metódica, quase previsível, Zlatan parecia inventá-lo a cada toque na bola. E isso, para um jovem a jogar com os seus amigos, era tudo.
Lembro-me de tentar imitar os seus movimentos, aqueles dribles improváveis, as receções quase impossíveis, os remates de ângulo apertado, as acrobacias que mais pareciam cenas vindas diretamente do «Karate Kid». Zlatan jogava com uma confiança quase arrogante. E, durante muito tempo, essa arrogância foi incompreendida. Mas para quem o admirava, ela tinha outro significado. Não era apenas ego, era crença absoluta em si próprio, mesmo depois de sofrer bullying e de ser muitas vezes achincalhado durante a adolescência, ele resistiu.
Num mundo onde tantos jogadores parecem moldados para não errar, ele destacava-se precisamente por não ter medo de tentar o impossível. E, de vez em quando, fazia mesmo acontecer. E nesses momentos, o futebol tornava-se arte.
Dia 14 de novembro de 2012, na Friends Arena, há um jogo para ser contado aos filhos e aos netos. Suécia-Inglaterra. 4-2. Todos os golos da seleção sueca foram marcados por Zlatan, mas o seu pontapé de bicicleta a 40 metros da baliza defendida por Joe Hart, é das coisas mais bonitas que já vi dentro de um campo de futebol. Inventem outra palavra, pois isto não pode ser apenas um golo. Para ver e rever. Quantas vezes quiser.
Quando jogávamos nos pelados ou nos sintéticos, com o nosso amor puro pelo futebol, todos queríamos marcar golos bonitos. Mas, no fundo, o que queríamos mesmo era sentir, nem que fosse por um segundo, aquela confiança inabalável. Aquela sensação de que, independentemente do adversário ou da dificuldade, tudo era possível. Zlatan ensinou-me, sem nunca saber, que tudo está dentro de ti e de que a confiança é um fator altamente diferenciador.
Zlatan sempre foi fiel a si próprio, sem filtros, sem concessões. Não se trata apenas dos golos impossíveis ou das jogadas espetaculares. Trata-se da forma como nos fez sentir. Da forma como fez tantos miúdos acreditarem que o futebol podia ser mais do que um jogo. Podia ser criatividade e ousadia, algo que faz muita falta ao futebol atual.
Há, de facto, jogadores que passam pelo futebol como grandes profissionais. Outros deixam números, títulos, sangue, suor e estatísticas impressionantes. E depois há aqueles raros que se tornam histórias lendárias, quase personagens maiores do que o próprio jogo. Zlatan Ibrahimovic pertence, sem margem para dúvidas, a esse último grupo."
O que distingue o nosso atleta, treinador ou dirigente?
"Como é que um país com apenas 10,5 milhões de habitantes (mais 2 ou 3 milhões espalhados pelo Mundo) consegue produzir tanto talento no desporto?
É uma pergunta recorrente que me fazem. Não apenas no futebol, a principal montra, mas no desporto em geral. Há atletas a destacar-se em várias modalidades e nos melhores campeonatos, treinadores e dirigentes a abrir portas em diferentes países e equipas portuguesas a competir com sucesso contra contextos que investem três vezes, cinco ou muito mais.
Ponto de partida: isto é uma excelente notícia. É positivo e motivo de orgulho. E há um fator crítico nisso: alcançamos estes resultados mesmo reconhecendo que não trabalhamos tão bem quanto poderíamos. Mas existe também um elemento de preocupação, com um lado de curiosidade quase enigmático: porque somos fortes em alguns desportos e nas áreas de treino e gestão? O que nos distingue?
Responder a esta questão é decisivo. Em qualquer projeto, a autoanálise permite identificar rapidamente forças e áreas a desenvolver. A minha leitura é que não sabemos, de forma clara, o que nos diferencia, nem como esse diferencial se forma, evolui e sustenta.
Um teste simples: se pedíssemos a cada profissional do desporto em Portugal que escrevesse, num post-it, uma única característica diferenciadora, obteríamos centenas ou milhares de respostas diferentes. Isso indicaria falta de clareza coletiva. E daqui resultam dois problemas: se não sabemos o que nos distingue, dificilmente o conseguimos desenvolver; e torna-se complexo definir estratégia sem um entendimento comum sobre forças, fraquezas e posicionamento.
Escrevi neste mesmo espaço que o desporto, sobretudo fora do futebol, enfrentará dificuldades financeiras recorrentemente. E o atual contexto no Médio Oriente tende a agravar a fragilidade de muitos projetos. O futebol, pela sua dimensão, poderia resistir mais e melhor, mas o tema da sustentabilidade será exposto também em vários clubes e associações.
Apesar disso, existe valor claro para partilhar. Profissionais estrangeiros reconhecem-no. As visitas frequentes a centros de treino em Portugal demonstram interesse não apenas pelas infraestruturas, mas pela integração entre áreas, como a ligação entre departamentos médicos e o desempenho desportivo, por exemplo. Há investigadores portugueses em todo o lado, treinadores em ligas competitivas, dirigentes em mercados como Inglaterra, França, Brasil, Arábia e técnicos de modalidades como basquetebol ou andebol com presença internacional.
O exercício é obrigatório: identificar, estruturar e tornar consciente o que nos permite atingir níveis elevados com recursos limitados e, por vezes, de forma pouco coordenada. Como no Andebol, Atletismo, Judo, Canoagem, Ginástica, etc. Temos uma elevada taxa de exportação de talento per capita. Vemos a Premier League (expoente máximo do futebol) e é raro o jogo que não coloca frente a frente portugueses, seja nos treinadores, atletas, staff médico, scouting, dirigentes de gestão, etc.
O que é interessante é isto: há uma performance acima do esperado face ao orçamento, investimento, população e, desculpem a sinceridade, face à nossa forma de trabalhar. O que nos leva para a seguinte questão: e se trabalhássemos bem, onde estaríamos?
Quanto mais claras forem essas respostas, mais forte será a indústria do desporto em Portugal. Trabalhar identidade, posicionamento e uma lógica de marca Portugal–Desporto é um passo estratégico. Em paralelo, reforçar a cooperação entre profissionais portugueses no estrangeiro aumentará a capacidade de influência e consolidação internacional (aprender com os espanhóis por exemplo).
Isto não seria apagar a identidade individual de cada um. Seria termos algo para trabalhar em todas as federações, entidades relacionadas com o desporto. Seria uma ferramenta poderosa para as universidades, as associações de treinadores, etc.
Se compararmos Portugal com outros países (apenas da Europa) com números similares aos nossos em termos de população ou menores, percebemos três indicadores onde somos diferentes.
Primeiro, e ao contrário de uma Dinamarca, Suíça, Áustria, já para não falar da Eslovénia ou Croácia, temos mais modalidades onde costumamos aparecer no topo. O que somos é mais inconstante, ou seja, há mais dispersão e menos consistência do sucesso.
Segundo, a maioria dos países com a nossa dimensão são a favor da hiperespecialização (é assumido em termos estratégicos) e em Portugal existe mais dispersão competitiva e de investimento. Resta saber sinceramente se é propositado ou fruto da incapacidade que temos de gerir conflitos e, com isto, tentar agradar a muitos.
Terceiro, há um aproveitamento mais difuso do nosso talento e é fruto de um sistema menos estruturado. A excelente notícia é que temos uma margem de crescimento elevado se existir uma estratégia clara e que seja respeitada continuadamente.
Este trabalho não é da responsabilidade de uma entidade só. Provavelmente seria uma discussão interessante a ter/observar entre vários treinadores de diferentes modalidades. O que distingue o treinador português dos outros do Mundo? É algo de modalidade a modalidade ou tem mais de comum? E o dirigente? A verdade é que, no contexto certo, somos altamente competitivos. Temos competências que são negligenciadas em Portugal e depois lá fora fazem-nos brilhar. E os atletas?
Por último, considero que Portugal não tem tanto um problema de talento, mas mais de estratégia e dispersão. Produzimos acima da média com menos recursos. Podemos e devemos considerar isso uma vantagem competitiva, embora ainda pouco estruturada. E é precisamente por isso que o risco é maior: aquilo que não é compreendido, não é replicável, aquilo que não é estruturado, é mais difícil de manter. Parece-me que Portugal continua a ter bons resultados apesar do sistema, mas não por causa dele.
A oportunidade é esta mesmo, conseguir transformar talento numa vantagem.
Se isso acontecer, deixamos de ser um país que surpreende e passamos a ser um país que pode dominar em (algumas) modalidades globais. E neste caso, a verdadeira questão não seria o como foi que chegámos aqui, mas seria até onde podemos ir se, finalmente, tivermos uma estratégia de como e para onde queremos ir."






