Monday, April 6, 2026

FC Porto-Sporting: a troca de acusações que nos faz recuar décadas


"A troca recente de críticas e acusações entre os presidentes do FC Porto e do Sporting é lamentável e triste. Pior ainda é perceber que essas disputas são velhas conhecidas do futebol português, parte de um ambiente tóxico que ambos os dirigentes prometeram combater quando chegaram ao poder.
Ao ouvir André Villas-Boas, na tentativa de fazer humor com factos mais ou menos relevantes, voltamos a reviver maus exemplos de outros tempos. E, sinceramente, acho que pouca gente continuará a achar piada. E quando Frederico Varandas responde no mesmo tom, ou pelo menos tenta, o cenário é o mesmo e chega a ser confrangedor: recuamos décadas na cultura desportiva nacional.
É possível que ambos queiram apenas defender os seus clubes — além parecer também um bocadinho o culto da personalidade — mas o resultado é destrutivo. A imagem projetada não é boa, não é nova e está longe do que se exige de líderes do desporto português.
Durante a antevisão do jogo com o Santa Clara, o treinador leonino Rui Borges lançou um desafio sensato: deixemos de discutir toalhas roubadas e passemos a falar de futebol. Mas como fazê-lo se são as figuras máximas dos clubes a alimentar polémicas que nada acrescentam ao jogo?
O mais grave, contudo, nem está nos dirigentes — e muito menos nos clubes e nos seus adeptos. A principal responsabilidade continua a ser do Governo português, que insiste em tratar o futebol como simples espetáculo de circo, ignorando o impacto social do fenómeno. Tudo o que envolve os três grandes — Benfica, FC Porto e Sporting — tem reflexo direto na sociedade. O clima de rivalidade doentia e de ódio crescente gera consequências sérias e, por vezes, trágicas. Já tivemos vários exemplos, antigos e mais recentes, e não somente no futebol. Enquanto o poder político continuar a empurrar o problema para as federações, e o Governo mantiver a postura de ‘eles que se entendam’, a bola de neve não vai parar de crescer.
Não são os clubes que devem pedir para ser ouvidos no Parlamento — o Parlamento é que deve convocá-los e assumir a liderança neste debate. O País precisa de um plano concertado e consistente para o futuro do futebol nacional.Mas em vez disso e de trabalharmos nele, continuamos a discutir televisões que parecem ter vida própria, odores, objetos escondidos e toalhas desaparecidas, e aceitamo-lo como normal. E enquanto essa mentalidade persistir, o futebol português continuará refém dele próprio."

Sporting e Benfica de novo a sonhar: vai Farioli voltar a ser... Farioli?


"O empate caseiro com o Famalicão reacende a luta pelo título e ressuscita o trauma do técnico italiano. Com Sporting (e Benfica) à espreita, estará o filme do Ajax prestes a repetir-se?

A noite de 4 de abril de 2026 ficará gravada como o momento em que o silêncio ensurdecedor do Dragão substituiu o cântico da vitória. O empate do FC Porto frente a um Famalicão atrevido não foi apenas um percalço no caminho; foi o estalar do verniz numa liderança que parecia inabalável.
Com o Sporting à espreita — e com o jogo em atraso frente ao Tondela a poder reduzir a distância para meros dois pontos —, o campeonato português deixou de ser uma cavalgada triunfal para se tornar num thriller psicológico de final incerto.
No centro deste furacão está Francesco Farioli. O técnico italiano, mestre da estética e da posse, começa a ver o seu passado projetado no Douro como um filme de terror em alta definição. É impossível não recordar a tragédia grega vivida na época passada em Amesterdão.
Ao serviço do Ajax, Farioli chegou a gozar de uma vantagem de 10 pontos sobre o PSV Eindhoven. O título era dado como certo, as faixas estavam encomendadas, mas a equipa desmoronou-se na reta final, permitindo uma ultrapassagem histórica que deixou a capital neerlandesa em estado de choque. A história, dizem os cínicos, repete-se; os adeptos portistas, agora, temem que Farioli esteja prestes a... ser Farioli.
A margem de erro evaporou-se e o calendário não tem piedade. Na próxima jornada, o FC Porto viaja até à Amoreira para defrontar o Estoril de Ian Cathro. E aqui reside o perigo real: este Estoril não é um outsider qualquer. Pratica um futebol de vertigem, corajoso e taticamente evoluído.
Convém não esquecer que, na primeira volta, apesar da derrota tangencial, os homens de Cathro foram claramente superiores em pleno Dragão, expondo fragilidades que Farioli nunca conseguiu camuflar totalmente.
Com 18 pontos em jogo, a Liga está relançada e o fôlego é novo em Lisboa. O Sporting de Rui Borges, que tem demonstrado uma frieza pragmática na perseguição, sente o cheiro do sangue e sabe que depende apenas de si para incendiar o topo.
Mas não se engane o Dragão: até o Benfica, mesmo correndo por fora e com menos probabilidades matemáticas, volta a ter licença para sonhar com um descalabro azul e branco. Para o FC Porto, o desafio já não é apenas tático, é mental.
Farioli tem seis jornadas para provar que aprendeu a lição neerlandesa ou para confirmar que o seu futebol, embora belo, carece do instinto de sobrevivência para os meses de brasa."

Da festa à fresta


"Agora, para Neymar ir ao Mundial só por uma fresta. Caso vá, fará uma festa. E se não for provavelmente também.

Neymar quer ir ao Mundial. E bater penáltis na Kings League. E fazer cruzeiros com os amigos e amigas. E jogar póquer com os parças. E curtir o carnaval. E ir para a balada sem que ninguém o recrimine. E que toda a gente esteja de acordo com ele mesmo quando joga mal, joga pouco ou nem joga.
Neymar, que assinou o primeiro contrato no início da adolescência, logo por valores muito acima da média salarial dos brasileiros, e depois foi multiplicando o valor por dois, por dez, por mil, por um quadrilhão, não passa, aos 34 anos, de uma criança mimada. Daquelas que faz birras se não comer o bolo, o chocolate e o gelado, daquelas que não entende que antes do bolo, do chocolate e do gelado tem de comer a sopa e o arroz e o feijão.
Maradona também adorava o lado chocolate da vida. Ronaldo Fenómeno idem. Mas quando um sentiu que era a sua oportunidade de conquistar o mundo fez um intervalo de todos os vícios para se preparar, com a faca entre os dentes, para o Mundial dele. E o outro comeu, em vez de chocolate, o pão que o diabo amassou para recuperar do joelho.
Bilardo e Scolari escancararam-lhe, por isso, as portas dos Mundiais de 1986 e 2022. Ancelotti, mal chegou ao Brasil, deu sinais de que estava disposto a fazer o mesmo por Neymar. Mas agora, sem mais nenhum jogo do Brasil e míseros 14 do Santos até à convocatória final de 18 de maio, a Neymar resta-lhe uma fresta.
Guarda-redes serão três: Alisson, certo, e dois de entre Ederson, Bento ou Hugo Souza. Laterais cinco, Wesley e Militão (caso o merengue não esteja apto, será Ibañez o central-lateral substituto), Alex Sandro e Douglas Santos, com Danilo Luiz para ambos os lados. Aos titulares Marquinhos e Gabriel Magalhães vão juntar-se mais dois zagueiros de entre meia dúzia de candidatos.
No meio, há lugar para um sexteto com Casemiro, Fabinho, Bruno Guimarães, Andrey Santos, Paquetá e Danilo Santos certos ou quase certos.
No ataque, os concorrentes, ao contrário da estrela santista, bateram com fé à porta de Carletto e foram entrando, pedindo licença, mas mostrando trabalho. Desde logo, Vinícius Jr e Raphinha, da elite mundial do futebol; depois, Estêvão, Matheus Cunha, João Pedro mais Gabriel Martinelli, todos na exigente Premier League; e agora, nesta última data FIFA, Endrick e Luiz Henrique.
Oito atacantes, já não cabe mais ninguém, provavelmente nem Richarlison, nem Igor Thiago, nem Rayan, nem, claro, o lesionado Rodrygo.
Agora, para Neymar ir ao Mundial só por uma fresta. Caso vá, fará uma festa. E se não for provavelmente também.
Neymar não passa, aos 34 anos, de uma criança mimada. Daquelas que faz birras se não comer o bolo, o chocolate e o gelado."