terça-feira, 3 de março de 2026
Enquanto cada um puxa para o seu lado, o desporto português encolhe
"Portugal é um país pequeno a tentar sustentar um sistema desportivo grande e esse choque de escala está a ficar cada vez mais evidente. Temos talento, história, clubes com marca internacional e modalidades com resultados relevantes, mas continuamos a operar como um arquipélago de interesses e não como uma indústria coordenada.
Num mundo onde a atenção é a moeda e a escala decide quem sobrevive, a fragmentação não é um detalhe administrativo: é o principal travão ao crescimento do desporto em Portugal. Os números mostram que há base. Portugal tem cerca de 800 mil praticantes federados, e este facto devia ser o gatilho para um salto comercial e mediático, mas não tem sido.
Pelo contrário: enquanto os atletas aumentam, o número de clubes diminui e o sistema continua a competir por recursos escassos, como pavilhões, tempo de televisão, orçamento de patrocinadores e atenção dos adeptos. É o retrato típico de um mercado com procura, mas sem modelo. A consequência é simples: desperdiçamos valor porque cada clube/associação/federação tenta “salvar-se” sozinha. O Governo assiste a tudo isto de forma passiva e insiste em usar modelos e financiamento do passado.
No futebol, a escala ainda disfarça o problema. A Liga Portugal regista mais de 3,7 milhões de espetadores por época, mas sabemos também que a grande maioria desses espectadores se concentraram nos jogos em casa dos três grandes. Isto é força, mas também é risco: significa que o ecossistema depende de um triângulo e que o resto da pirâmide vive num permanente “modo sobrevivência”. Quando a sustentabilidade de uma liga é condicionada por três marcas, o sistema inteiro fica mais frágil a crises desportivas, mudanças de performance e alterações no consumo.
Fora do futebol, a fragmentação é ainda mais penalizadora. Temos modalidades com massa crítica relevante como o voleibol com cerca de 60 mil federados, o andebol com 48 mil e o basquetebol com 30 mil, mas a capacidade de transformar essa base em produto é limitada por falta de coordenação.
As próprias federações admitem o óbvio: faltam infraestruturas, faltam condições e há “rutura de espaços de pavilhão”, com instalações degradadas e uma oferta incapaz de acompanhar a procura. Quando voleibol, andebol, basquetebol ou a patinagem enfrentam o mesmo problema e continuam a atacá-lo separadamente, o país perde duas vezes: perde eficiência na operação e perde poder na negociação com marcas, media e Estado.
O mesmo acontece na comercialização. O mercado português está cheio de pequenos patrocínios, muitos deles construídos como “apoios” e não como investimentos, porque as propriedades são vendidas isoladamente, sem escala, sem continuidade e sem capacidade de entregar dados consolidados.
Mas há sinais de que a escala funciona quando existe: o Placard mantém naming relevante no andebol e no hóquei em patins e a Solverde.pt reforçou a aposta no voleibol feminino. O que falta é transformar estes bons exemplos em lógica de indústria: pacotes integrados, calendários coordenados, inventário digital partilhado e métricas de retorno uniformizadas.
Uma marca não quer apenas aparecer; quer saber quanto gerou, a quem chegou, que comportamento mudou e que vendas influenciou. Sem dados, sem consistência de produto, a maioria das modalidades continua a vender pouco, não porque valha pouco, mas porque se apresenta de forma pequena.
Os produtos desportivos precisam de ser modificados para competir pela atenção num mercado saturado. Em Portugal, além de modificarmos produtos, temos de modificar a arquitetura do sistema. Precisamos de mais cooperação entre federações, mais projetos comuns com autarquias e mais plataformas partilhadas de bilhética, conteúdos e dados.
O desporto português não tem dimensão para funcionar como 40 negócios independentes a disputar a mesma carteira de patrocinadores e os mesmos minutos de emissão. A pergunta certa não é “quem ganha hoje”, é “quem cria escala amanhã”. Porque a fragmentação é confortável para quem gere o presente, mas é fatal para quem quer ter futuro."
Filhos ao colo, medalhas ao peito
"Jogos Olímpicos de Inverno colocaram as mães em primeiro plano e dedicação no regresso foi recompensada com medalha.
Em paralelo com as batotas do curling, a história de traição norueguesa confessada em direto, o atleta ucraniano impedido de competir por causa do capacete, um fugitivo eslovaco detido por ir ver o hóquei no gelo, os Jogos Olímpicos de Inverno colocaram as mães no centro das atenções. Terá sido coincidência os Jogos terem sido em Itália, onde o papel da mamã (dizer 'mama' com sotaque italiano aqui) faz parte do estereótipo internacional do país?
Em Milão-Cortina houve um número recorde de medalhadas olímpicas a competir como mães pela primeira vez, o que até contribuiu para excelente televisão - veja-se o caso da patinadora italiana de velocidade Francesca Lollobrigida, que conquistou um ouro nos 3000m no dia que fazia 35 anos e celebrou com o filho de dois anos ao colo, que acabou por ser o centro das atenções. Viria a ganhar outra medalha nos 5000.
No bobsleigh, a americana Elana Meyers Taylor, 41 anos, disputou os seus quintos Jogos Olímpicos, levou os dois filhos pequenos e voltou a casa com a primeira medalha de ouro. A colega de equipa, Kaillie Humphries, 40 anos, regressou à competição como mãe, afirmando que «se sente mais forte e mais confiante», e levou dois bronzes.
Kendall Coyne Schofield, 33 anos, jogadora de hóquei no gelo e medalha de ouro pelos EUA, competiu este ano como mãe pela primeira vez. «Não queria que o meu filho fosse a razão para deixar de jogar hóquei. Queria que fosse a razão para continuar a jogar», resumiu ao site dos Jogos.
As quatro são mais uma vez exemplo que não é preciso escolher entre ter filhos e alcançar o sucesso, e que ser mãe não significa o fim da carreira de elite. Pode ser, aliás, um excelente motivador.
De resto, há ainda uma história melhor: Sarah Schleper, 47 anos, que competiu em esqui alpino pelo México, levou mais longe o levar o filho aos Jogos e esteve inscrita a par do filho de 18 anos, Lasse Gaxiola, também em competição no esqui alpino. Pela primeira vez, uma dupla de mãe e filho participou junta nuns Jogos Olímpicos.
Em paralelo, não posso deixar de fora outra história de coragem destes Jogos, que apareceu e se desvaneceu logo no primeiro fim de semana: Lindsey Vonn, de 41 anos, que saíra da reforma para voltar a dar tudo, fez uma rotura de ligamentos num joelho a uma semana da prova. Qualquer atleta estaria normalmente a caminho de casa no dia seguinte, mas ela não.
Surpreendeu tudo e todos e anunciou que ia competir. No entanto, em prova, durou apenas 13 segundos e uma queda provocou-lhe uma fratura bastante complexa na perna direita. Agora o seu desafio não é voltar a competir, é voltar a andar. Mas ninguém lhe tira o ter estado lá, o dar tudo mesmo colocando em causa a integridade física. Ela e as mães mostraram uma dedicação que se espera seja cada vez mais normalizada. E agora vou acabar os meus 10 mil passos diários."
Fazer do Desporto Universitário uma prioridade nas instituições de ensino superior
"Hoje, a FADU Portugal assinala 36 anos de existência. Um momento de responsabilidade. Se durante décadas trabalhámos para que o desporto universitário fosse reconhecido, chegou o tempo de transformar esse reconhecimento em ação estratégica.
O desporto tem de deixar de ocupar um espaço periférico nas prioridades institucionais e passar a integrar, de forma estruturada e assumida, o núcleo central das políticas das instituições de ensino superior.
Hoje, mais de 10.000 estudantes-atletas competem anualmente nas nossas provas, representando as suas instituições com ambição, identidade e sentido de pertença. Este número é a demonstração inequívoca de que o desporto universitário é uma dimensão essencial da vida académica portuguesa e um ativo estratégico para o país.
2026 é, aliás, um ano particularmente simbólico. Celebramos os 30 anos da primeira organização, pela FADU, de um Campeonato do Mundo Universitário em Portugal, marco que abriu portas à internacionalização do nosso modelo organizativo. Três décadas depois e com mais de 50 eventos mundiais e europeus realizados, Portugal recebe novamente dois Campeonatos do Mundo Universitários, consolidando a sua posição como parceiro estratégico da FISU e da EUSA, e como território de confiança para grandes eventos académicos e desportivos internacionais.
Simultaneamente, será o ano da maior participação internacional portuguesa de sempre. Este dado, mais do que estatístico, é político. Traduz o investimento do país na representação dos seus estudantes, reforça a diplomacia desportiva académica e afirma internacionalmente o nosso ensino superior através do desporto.
Mas o valor do desporto universitário mede-se, sobretudo, pelas pessoas.
Ao longo das últimas décadas, o sistema desportivo universitário foi etapa marcante no percurso de alguns dos maiores nomes do desporto nacional. Atletas como Naide Gomes, Patrícia Mamona, Fernando Pimenta, Nélson Évora ou Patrícia Sampaio passaram pelo desporto universitário, conquistaram medalhas e levaram o nome do nosso país além-fronteiras. Em diferentes momentos das suas carreiras, encontraram neste setor uma plataforma de continuidade, equilíbrio e afirmação.
Este legado demonstra algo fundamental, o desporto universitário não é um espaço paralelo ao alto rendimento, integra o seu percurso de excelência e reforça o setor desportivo nacional.
Num contexto europeu em que a dual career assume crescente centralidade, Portugal tem vindo a estruturar um modelo mais consistente de conciliação entre estudos e carreira desportiva. Hoje, as instituições reconhecem o estudante-atleta como ativo estratégico e reconhecem que formar campeões académicos e desportivos é responsabilidade partilhada.
A valorização institucional do estatuto do estudante-atleta, a criação de regulamentos internos de apoio, a flexibilidade pedagógica e o reconhecimento formal das competências adquiridas através do desporto são sinais claros de maturidade do sistema.
É neste enquadramento que surge a campanha FADU 'Mais do que estudante, atleta'. Não como um slogan, mas como uma afirmação política. O estudante-atleta é um jovem que desenvolve competências de liderança, gestão de tempo, resiliência, disciplina e cooperação, competências críticas para a empregabilidade e o desenvolvimento do país.
O desporto universitário ocupa hoje um espaço efetivo na agenda das instituições de ensino superior. Integra estratégias de internacionalização, contribui para as políticas de promoção da saúde e do bem-estar estudantil, reforça a atratividade institucional e desenvolve competências transversais, determinantes para o futuro profissional. Não é uma dimensão acessória da vida académica, mas sim um ativo estratégico.
A nossa ambição é clara e estruturada. Alargar a base de participação, envolvendo mais clubes e estudantes-atletas. Reforçar a diversidade competitiva, com mais modalidades e modelos mais exigentes. Consolidar a presença internacional de Portugal. Aprofundar o reconhecimento político e institucional do setor. Garantir maior investimento, maior articulação estratégica e plena integração nas políticas públicas.
Aos 36 anos, o desporto universitário português já não precisa de legitimação, precisa de decisão estratégica. As instituições de ensino superior devem integrar o desporto nos seus planos estratégicos, investir em infraestruturas e serviços qualificados, consolidar políticas de apoio à carreira dual e reconhecer formalmente o estudante-atleta como ativo institucional. Precisamos que o país compreenda que cada estudante que compete desenvolve competências essenciais à liderança, à inovação e ao desenvolvimento nacional.
'Do reconhecimento à ação' não pode ser apenas um lema. Tem de ser uma escolha política.
O desporto universitário não é um complemento da experiência académica. É uma dimensão estruturante da formação superior e um investimento na qualidade do ensino superior e na competitividade do país.
O futuro das nossas instituições de ensino superior e do país também se joga aqui."


