Fundação...

Seleção: de jeans e ténis no Azteca


"Portugal não levou o seu melhor futebol a México e Estados Unidos. Algumas ideias que ficam dos dois jogos da Seleção, e o que parece ainda por decidir e eventualmente resolver

Sem Ronaldo, Rúben, Bernardo e Leão, não foi um Portugal trajado de gala aquele pisou o palco do Golo do Século do barrilete cósmico e o magistral punchline de Carlos Alberto, com vernáculo e gestos a apontar para os céus, a pontuar a melhor sentença coletiva da história. Enquanto esses gritos ecoavam, e assim o será para sempre, no betão retocado do Azteca, via-se em campo uma Seleção cinzenta, ainda que tapada por uns trapos vermelhos que a tantos quilómetros se viam desbotados após uma primeira lavagem. Daí para Atlanta, onde pelo contrário nunca foi erguido qualquer altar aos deuses, resultado e exibição melhoraram um pouco.
Havia curiosidade de perceber se alguns jogadores se chegariam à frente, e talvez aí tenha Trincão ficado a apontar para o golo que marcou. A definição do jogador do Sporting ficou patente, falta-lhe contudo o tricotar do extremo que vai chegar ao Mundial já sem contrato com o Manchester City e provavelmente com outro patrão. Terá o leão ganhado o lugar? Arrisco que não, porque na projeção daquilo que Portugal quer ser com o espanhol ao leme, assumindo bola e controlo do jogo, não restam grandes dúvidas de que Bernardo faz parte do plano.
Pior estiveram Ramos, a atravessar mau momento em termos de confiança, e um desastrado e emocionalmente frágil — imagem que teima em não conseguir diluir, sobretudo quando a exigência cresce — Inácio. Razão esta suficiente para Tomás Araújo reivindicar mais atenção, precisando de ter aí a cumplicidade de Mourinho a sustentar a sua afirmação primeiro na Luz e, consequentemente, na Cidade do Futebol.
Numa das muitas conversas que temos, e com quem espero não estar aqui a cometer inconfidências, eu e o Nuno Travassos tirámos conclusões semelhantes. Se João Neves é a melhor companhia para Vitinha e Vitinha é a reserva de clarividência e criatividade da equipa, há questões identificadas no que diz respeito ao terceiro elemento. Bruno Fernandes é absolutamente imprescindível, mas a química com aqueles dois terços do meio-campo campeão europeu não é a melhor.
A linguagem é diferente. Vitinha e João Neves querem escolher o momento certo e o Manchester United pretende acelerar à primeira. Definir. Está completamente viciado nesse momento sempre que se veste de Manchester United e não há nada de mal nisso, apenas precisa de enquadramento diferente. A própria forma de Cristiano Ronaldo abordar os ataques mais associativos, quando de forma errática e quase sempre estéril deixa a companhia dos centrais para se chegar à linha, irá também implorar que Bruno Fernandes ocupe o seu lugar. Logo, talvez até faça mais sentido se se aproximar da área. Uma ideia que cruza com o posicionamento de Bernardo, a cada dia mais médio e menos avançado.
Por que razão não colocar Bernardo mais perto da construção, a dividir despesas e a combinar com Vitinha e João Neves, e Bruno Fernandes a abrir o corredor direito para as sobreposições de Cancelo ou Dalot? Em tese, surgiria melhor química na fase de criação, com os três a falar na mesma língua. E teríamos maior presença no momento da decisão por quem define muito bem, como Bruno Fernandes. Que fez mais duas assistências, assinale-se. Talvez noutros tempos, um Bruno mais paciente, que não sentisse a cada momento que tem de carregar a equipa às costas, fosse possível. Não o é.
Paralelamente, a experiência de Samú terá sido isso, uma forma de perceber da prontidão do médio do Maiorca para assumir a posição 6 no grupo, não necessariamente no 11.
À frente, resta uma vaga. Martínez gosta muito de Pedro Neto. E é verdade que o extremo do Chelsea teve no passado vários azares que o afastaram das fases finais. Só que, neste momento, não é certo que seja ele a partir na frente. Estará no grupo se tudo correr bem fisicamente, mas há um novo João Félix, motivado e sem ter deixado evaporar uma pinga de talento nos desertos da Arábia Saudita — que paradoxalmente lhe devolveu algo minimamente parecido com um rumo —, disposto a baralhar as contas. O 10 conseguiu evitar as miragens e descobrir-se a si próprio em todo o espaço à sua volta.
Entretanto, Rafael Leão, pela época que está a fazer e até pelo deslocamento para o corredor central no Milan, poderá vir a ser um grande ponto de interrogação até ao verão.
Serão eventualmente as hesitações do selecionador, o desejo de não se expor tanto ou a gestão do momento ou da condição física de alguns elementos que o farão decidir-se por Rúben Neves (6-quarterback para aproveitar espaço nas costas da defesa e variações de centro de jogo), Samú Costa/João Palhinha (6 posicional, com forte incidência na recuperação da bola), Gonçalo Guedes (avançado de transição e ataque rápido que brilha no espaço) ou Francisco Conceição (extremo de 1x1).
Paulinho, a rábula das últimas semanas, terá surgido em cena para apenas expor o racional divulgado por Martínez. Nunca teve perfil semelhante a Ronaldo e Gonçalo Ramos, e rapidamente passou de ponta de lança esquecido (como nós dizíamos nos baldios onde jogávamos) a opção com minutos nos dois jogos. Um episódio perfeitamente evitável.
Do mítico Azteca e de Atlanta não chegaram novidades sobre a evolução da maior lacuna da equipa nacional: como transformar os níveis de retenção da posse de bola que a equipa atinge com um ataque posicional efetivo, capaz de ultrapassar blocos baixos. Diante dos mexicanos, Portugal criou muito pouco e, perante os norte-americanos, desequilibrou a partida após uma recuperação de bola a meio-campo e um ataque rápido. Consolidou o triunfo, no segundo tempo, através da bola parada.
É verdade que Vitinha tem e terá papel importante nesse momento, mas é daqueles problemas que só se resolvem de forma coletiva, e talvez até com mais nomes. Mateus Fernandes é uma boa ideia que só necessita de trilhar um pouco de caminho. Tal como Pote e Horta. Pedro Gonçalves ficará à espera do tamanho e estado certos da relva, embora tal como o avançado do SC Braga, e pela forma como leem o espaço, não esteja a ser valorizado o suficiente nesse contexto que nos perseguiu em alguns momentos do apuramento. Fará sentido abdicar deles quando o que entregam é pelo menos parte do que procuramos? Na verdade, Martínez até agora e desde os tempos da Bélgica, e com outros jogadores, nunca encontrou a solução. Será que é desta? A contagem decrescente começou há muito é cada vez mais sonora. A resposta poderá significar uma despedida em glória. Para o selecionador. E para Ronaldo."

Algarve, Varandas e AVB: dois tipos de pressão


"Do fórum da Associação Nacional de Treinadores de Futebol ao gabinete da ministra do Desporto, onde apareceram engravatados e solenes Varandas e Villas-Boas.

Enquanto o país desportivo se ia distrair com visitas ao Governo e ao Parlamento, o Algarve serviu de refúgio para a essência do jogo. Ali, no fórum da ANTF, discutiu-se, entre outras coisas, a metamorfose do treinador, que passou de mestre da tática a gestor de ativos financeiros sob pressão constante. A mudança de paradigma na propriedade dos clubes dominou a intervenção de Nuno Espírito Santo, por exemplo. Mas podia ser aplicada a vários outros treinadores, inclusive alguns da nossa Liga.
A «ditadura dos investidores» trouxe um novo e espinhoso dilema: escolher um 11 por valor de mercado. Como gerir a relação com um proprietário que questiona se o jogador Y, que pode ter uma proposta de saída, vai jogar, quando o treinador já escolheu, e sabe, que o X é o indicado para começar frente ao próximo adversário. Isto pode levar a uma espécie de erosão da autoridade técnica e se a derrota chega ninguém vai perguntar ao dono se ele se sente responsável. Pior do que isso, provavelmente nem se importa, desde que aquele ativo afinal tenha rendido bem e o negócio se faça. O treinador moderno não luta apenas contra o adversário; luta contra a folha de Excel do dono do clube..
A ciência também reclamou o seu espaço. A introdução de dados analíticos no treino já não é uma tendência, mas uma linguagem obrigatória e que cada vez mais dá ferramentas ao treinador para ter mais e melhor informação.
Mas o melhor, na minha opinião, ficou mesmo para o fim. Num bom momento de partilha entre homens com a mesma função, Paulo Fonseca revelou as suas inquietações sobre a evolução das pressões homem a homem. Destacou o FC Porto de Farioli como equipa que muda entre a «perseguição» individual e o rigor da defesa zonal com uma fluidez que desafia qualquer preparação prévia.
Rui Borges também contribuiu com o exemplo prático do que foi todo o ciclo Bodo Glimt, fora e casa, e depois Alverca. Seria ótimo perceber também ao pormenor a diferença de preparação que o Sporting teve, por exemplo, para o Benfica (joga apenas segunda-feira) neste pós-seleções.
Depois de tudo isto, não deixou de ser «enternecedor» ver Frederico Varandas e André Villas-Boas, engravatados e solenes, de visita ao gabinete da Ministra do Desporto para discutir o ‘estado a que chegámos’. Ou que eles chegaram. Nesta semana, debateram-se dois tipos de pressão. Homem a homem e a política. Para a primeira, há quem já esteja a pensar como solucioná-la. Para a segunda, duvido que tenha solução possível, ou que até haja vontade para isso."

Imaginemos copiar a parte boa dos italianos


"Itália tem problemas de fundo que impedem a evolução do futebolista nacional, mas continua com um campeonato forte. Fundamentalmente porque tem adeptos fiéis

Itália vive um psicodrama: se há país cuja paixão pelo futebol é proporcional ao orgulho nos feitos do passado é este fantástico povo e belo território, cuja ausência deixa mais pobre qualquer competição, ainda mais tratando-se um Mundial. São três vezes seguidas a ver navios.
Para quem gosta de analisar causas, a falência do calcio é um rico material de estudo. Porque é o exemplo de como o atavismo ou uma certa prepotência na persistência de ideias ultrapassadas podem levar à derrocada. Há dois motivos estruturais para o falhanço de uma inteira geração de jogadores italianos: um modelo de formação que trava a evolução dos futebolistas quando saem dos juniores e infraestruturas arcaicas que não permitem escalar receitas proporcionais à dimensão do país e da sua economia.
Já visitei muitos estádios em Itália e fiquei surpreendido pelas deficientes condições que a maioria oferece para os padrões modernos, como se o país futebolístico tivesse parado no Mundial-1990. Atualmente, o Juventus Stadium é o único que preenche os requisitos de elite exigidos pela UEFA, ainda assim nenhum dos palcos dos três grandes portugueses fica atrás no conforto, estética ou acessibilidades.
Mas depois há o outro lado: a Serie A continua no top 5 das ligas europeias e sem dar sinais de quebra. Há duas razões fundamentais: a primeira, de ordem financeira; a segunda, e talvez a mais importante, de dimensão social.
Quase metade dos 20 clubes do campeonato (Juventus, Inter, Milan, Roma, Atalanta, Como, Nápoles, Fiorentina e Bolonha) são detidos por multinacionais, seja na tradição dos poderosos grupos familiares ou através de fundos de investimento; e todos os estádios, sem exceção, têm taxas de ocupação elevadas (média de 82 por cento). Ao contrário do que acontece em Portugal (55 por cento), estas médias não são calculadas com base em três ou quatro visitas dos colossos, antes em venda de lugares anuais (os abonnati). Damos o exemplo do Lecce: 19.000 cadeiras vendidas para um recinto com capacidade para 25 mil lugares. Cada clube tem vida própria, portanto.
E a que preços, já agora? Em termos nominais são mais elevados que em Portugal, porém mais baratos se compararmos com o salário médio, já que um italiano gasta 5,4% do seu ordenado pelo preço médio de um bilhete, enquanto um português despende 7 por cento.
Em comparação, Portugal tem modelos de formação superiores, infraestruturas melhores, mas falta gente nos estádios. Imaginemos que daríamos esse salto e até que ponto não se podia ambicionar com algo bem maior. Seleção e talento temos a rodos, falta o resto.

ELEVADOR DA BOLA
A subir
Bruno Fernandes, jogador da Seleção Nacional
Na ausência de Cristiano Ronaldo, é ele a grande figura da Seleção. Num relvado péssimo, mostrou, nos States, que está em grande forma. Mesmo que estivesse envolvido numa Champions ou Liga Europa, a dedicação seria a mesma. Um craque de cabeça aos pés.

Estagnado
Roberto Martínez, selecionador nacional
Voltou a deixar pontas soltas na forma como geriu a comunicação acerca da utilização de jogadores, exemplo de Paulinho ou agora de Pedro Gonçalves. Decidir é tomar medidas que não são consensuais, embora legítimas.

A descer
Frederico Varandas/André Villas-Boas, presidentes de Sporting e FC Porto
Discutir quem começou primeiro ou quem tem mais razão nesta guerra entre clubes pode levar à esquizofrenia. É tempo de os senadores (se é que ainda os há) aparecerem e lembrarem os seus presidentes de que eles não se representam apenas a si"

Avençados...

Muitos jogos para ganhar


"O destaque nesta edição da BNews é a participação de dois jogadores do Benfica numa sessão de autógrafos, na qual Dahl expressa o foco em vencer os jogos por disputar.

1. Lutar até ao fim
Dahl e Ivanovic acarinhados por muitos Benfiquistas em sessão de autógrafos. Em declarações à comunicação social, o lateral partilha a abordagem do plantel às jornadas que restam do Campeonato: "Temos 7 jogos para disputar e são 7 finais muito importantes, por isso vamos lutar até que seja matematicamente impossível."

2. Contrato renovado
Banjaqui renova o contrato que o liga ao Benfica até 2031.

3. Foco no Casa Pia
O grupo de trabalho às ordens de José Mourinho prepara o próximo embate, agendado para segunda-feira, às 20h45, em Rio Maior.

4. Contributos internacionais
O desempenho dos jogadores do plantel profissional de futebol e de formação ao serviço das seleções.

5. Apontar ao hexa
Nycole Raysla, em declarações à BTV após visita à Benfica FM, só pensa na revalidação do título nacional: "Continuamos a trabalhar constantemente em prol do objetivo maior."

6. Últimos resultados
O Benfica obteve vitórias pelas suas equipas masculinas de andebol (35-34 ante o Póvoa AC nos quartos de final da Taça de Portugal) e futsal (1-5 na visita ao Caxinas a contar para o Campeonato).

7. Jogos do dia
Hoje há dois jogos na Luz: às 15h00, a equipa feminina de andebol encontra-se com a Academia São Pedro do Sul nos quartos de final da Taça de Portugal; às 19h00, a equipa masculina de voleibol recebe o Leixões no jogo 1 das meias-finais dos play-offs do Campeonato Nacional.
A equipa feminina de futsal joga às 17h00 no reduto da Novasemente, naquela que é a primeira partida dos quartos de final dos play-offs da Liga Placard.
No Estádio Universitário de Lisboa, às 15h00, o Benfica recebe o Cascais em râguebi.

8. Agenda do fim de semana
No sábado há Benfica-Sporting em juniores (11h00), Benfica-Rio Ave em juvenis (12h00) e Benfica-FC Porto em iniciados (16h00) no Benfica Campus. Em basquetebol, a equipa masculina de basquetebol visita o Galitos (15h00) e a feminina atua no pavilhão do Esgueira (21h00). A equipa feminina de voleibol tem embate na casa do FC Porto (17h00).
No domingo, a equipa feminina de futebol recebe o Torreense às 16h00. A equipa masculina de futsal visita o SCU Torreense (14h00).

9. Protagonista
Agate Sousa, campeã do mundo do salto em comprimento em pista curta, é a entrevistada da semana.

10. Entrevista
A basquetebolista do Benfica, Schaquilla Nunn, fala sobre a recente conquista da Taça de Portugal e do que se pode esperar da equipa feminina de basquetebol do Benfica nos play-offs do Campeonato.

11. Taça das Nações
Acompanhe o desempenho de 9 hoquistas do Benfica na competição ao serviço de várias seleções.

12. História agora
Veja a rubrica habitual das manhãs de quinta-feira na BTV.

13. Apoie a Fundação Benfica
Sem custos, pode ajudar a Fundação Benfica a ajudar quem mais precisa. É só colocar o NIF 509 259 740 na declaração anual de IRS."

Assédio sexual


"No seguimento do nosso artigo da semana passada, referente a alterações regulamentares no seio da Federação Portuguesa de Futebol, e dentro do mesmo enquadramento normativo, tendo presente a evolução das exigências em matéria de integridade e proteção dos agentes desportivos, foram igualmente aprovadas propostas de alteração ao regime disciplinar relativas ao assédio sexual, a vigorar na próxima época desportiva.
Estas alterações incidem sobre o reforço do quadro sancionatório aplicável a condutas de natureza sexual indesejada, com o objetivo de promover um ambiente desportivo mais seguro, respeitador e livre de qualquer forma de intimidação ou abuso.
Em concreto, prevê-se o agravamento das sanções aplicáveis a dirigentes, treinadores ou outros agentes desportivos que adotem comportamentos de assédio sexual, seja sob a forma verbal, não verbal ou física, aumentando-se a moldura disciplinar, de modo a refletir a gravidade destas condutas e o seu impacto na dignidade das vítimas.
Do mesmo modo, são objeto de agravamento as sanções aplicáveis a situações de constrangimento à prática de atos de natureza sexual contra a vontade da vítima, reforçando-se a resposta disciplinar em linha com a política de tolerância zero para este tipo de infrações.
Adicionalmente, é introduzido um maior grau de responsabilização de todos aqueles que, tendo conhecimento de comportamentos suscetíveis de configurar assédio sexual, não atuem de forma adequada à sua prevenção ou repressão, sendo agravadas as consequências disciplinares associadas a atitudes passivas.
Com estas medidas, pretende-se não apenas sancionar de forma mais severa as condutas ilícitas, mas também afirmar um compromisso inequívoco com a proteção da integridade física e moral de todos os intervenientes no fenómeno desportivo, reforçando os mecanismos de prevenção e dissuasão deste tipo de comportamentos."

Friday, April 3, 2026

Sofrido

Benfica 35 - 34 Póvoa
20-18

Com demasiado sofrimento, estamos na Final Four da Taça de Portugal, com uma vitória muito mas mesmo muito sofrida, em casa, sobre o Póvoa! A poucos minutos do final, estávamos a perder por 3 !!!

Banjaqui 2031


Renovação confirmada do nosso futuro Lateral Direito. Como era esperado, após o aniversário dos 18 aninhos, assinou... apesar da azia dos mérdia, que nas últimas semanas tentaram encontrar à força, um Clube que roubasse o nosso talento!!!

Tem um potencial enorme, está maduro para a idade, ofensivamente não deve nada aos mais velhos, defensivamente tem que evoluir, mas o potencial é gigantesco! Não é só força, e velocidade, tem bons pés, cabeça e normalmente tem decide bem! Algo que é muito complicado 'treinar'...

O que têm Beethoven e Schjelderup em comum?


"Faz hoje 226 anos que a 1.ª Sinfonia se estreava em Viena. Foi arrasada pela crítica. Só que o verdadeiro poder está do lado de quem escolhe em quem acreditar: nos críticos ou em si mesmo?

A 2 de abril de 1800 — passam hoje 226 anos — Beethoven subia ao palco, em Viena, para estrear a 1.ª Sinfonia. O palco do Burgtheater. E, desde já esclareço, para evitar confusões, não era um restaurante de hambúrgueres... Certo é que a crítica arrasou a obra: demasiado inovadora, disseram, uma piada em jeito de desrespeito perante a ordem clássica das sinfonias. Beethoven, felizmente, não lhes deu ouvidos. E ainda bem. Se o tivesse feito, talvez hoje não existissem mais oito sinfonias, nem aquele momento absoluto que é o Hino à Alegria — escrito já quando o silêncio era, para ele, total.
O escritor norte-americano Elbert Hubbard (1856–1915) dava até um conselho: «Se não queres críticas, não faças nada, não digas nada e não sejas nada». Seria, acrescento eu, a mais deprimente das conceções existenciais: viver a vida de forma a que caiba numa lápide a assinalar a data de nascimento e de morte, num vazio de nada pelo meio.
Já Mark Twain (1835–1910), o autor de As Aventuras de Tom Sawyer, aconselhava a nunca darmos explicações a quem nos critica de forma mais dura e injusta. Quem gosta de nós não precisa dessas explicações; quem não gosta nunca vai mudar de opinião e apenas procura arsenal para novas críticas.
Na última terça-feira, falava com uma jovem a entrar no mercado de trabalho e a viver numa fase em que duvida se tem o que é preciso para vencer. Disse-lhe que a questão primeira não é saber se tem ou não o que é preciso; é saber se tem ou não a paixão e o prazer pelo que quer fazer. A segunda é entender que só vai onde quer se for a melhor versão dela mesma. A autenticidade pode até gerar antipatias, mas também muitas simpatias e apoios, e são estes que nos vão ajudar a seguir em frente. Terceiro conselho: nunca ficar afetado com uma crítica. Se é justa, aprendemos e agradecemos; se não é justa, vai para a pasta de spam… O que nunca pode acontecer — e acontece sempre — é esta reação tão humana de, ao fim de um dia com nove pessoas a elogiar-nos e apenas uma a criticar, ser essa a condicionar a qualidade do nosso sono.
Não sei o que Schjelderup pensou da vida há poucos meses, quando ouvia o próprio José Mourinho criticar a forma como jogava, como não defendia. Com janeiro à porta… a porta de saída estava escancarada. Três meses depois, é a imprensa catalã a falar de uma possível investida do Barcelona.
Schjelderup ouviu críticas justas e injustas. Saber a diferença entre ambas é um exercício que pode ser muito difícil. Seguir em frente é essencial. O tempo tem destas coisas e Schjelderup é apenas um entre tantos e tantos exemplos: não somos necessariamente como nos definem; não somos obrigados a cumprir um destino que outros traçaram para nós; em cada segundo há sempre uma segunda oportunidade para uma 1.ª Sinfonia. E restantes que queiramos compor.
Entre dedos que ficam e anéis que podem ou não ir, que fique o sorriso de quem faz o que faz por paixão e procura, na sua consciência — e não na validação externa —, a avaliação que faz sobre a vida. Não devemos temer o julgamento externo, só o julgamento feito no silêncio de nós mesmos."

Criticar de barriga cheia


"Adeptos ganharam o direito de elevar as exigências na proporção do nível que a Seleção atingiu. Mas às vezes é bom recordar como era há umas décadas: a Itália no topo e Portugal a ver navios...

Portugal terminou a digressão pelo continente americano com mais uns pontos no ranking FIFA, um cachet para os cofres da Federação Portuguesa de Futebol e zero ideias novas para implementar no Mundial.
Surpreendente seria o contrário. É preciso lembrar que nesta fase da época, das grandes decisões, os jogadores tentam proteger-se e estão focados nas suas competições internas e continentais, a ponto de alguns conseguirem uma dispensa para descanso das pernas e da mente.
São legítimas e aceitáveis as críticas à falta de algo verdadeiramente palpável por parte de Roberto Martínez nos jogos frente a México e Estados Unidos, mas estas são as queixas de quem tem a barriga cheia. É preciso ter memória para nos lembrarmos como há uns anos os portugueses viviam estas datas FIFA: de faca nos dentes, disputando play-off carregados de drama. Foram escritas páginas douradas, como por exemplo aquele célebre hat trick de Cristiano Ronaldo na Suécia em novembro de 2013, mas seria um feito evitável se Portugal se tivesse qualificado diretamente para o Mundial 2014.
Se há sinal de que algo verdadeiramente mudou na relação com a Seleção é este: a crítica é proporcional à qualidade. Há 15 anos, com estes resultados, Martínez estaria muito perto de ser uma personalidade consensual; hoje, tem dias. Se for aquele que tática e estrategicamente colocou Portugal a superiorizar-se a Alemanha e Espanha na Final Four da Liga das Nações, é encarado como o homem certo para conduzir a nau rumo ao cetro mundial; mas se for o que vacila na escolha de um jogador como Paulinho (bastava ter optado por uma comunicação diferente e escusava de ser acusado de incoerente), emerge novamente a desconfiança em torno do trabalho do técnico espanhol e do seu futuro. Tudo normal, afinal isto é transversal a todas as seleções, nem o campeão do mundo em título, Lionel Scaloni, ou o campeão da Europa, Luis de la Fuente, escapam ao escrutínio feroz das respetivas opiniões públicas.
É bom que por estas bandas isto se mantenha assim: discussões feitas pelo alto. Porque os mais velhos certamente se recordam do que era ver uma Itália a lutar por títulos enquanto em Portugal os adeptos tinham de adotar uma seleção por quem torcer (Brasil, Argentina, a própria Itália). Os papéis agora inverteram-se, só falta elevar o nível de excelência construído com muito trabalho. E, acima de tudo, não estragá-lo."

Tristes figuras no desfile de horrores


"«O futebol é um desporto profissional, os outros são amadores. Comente-se com imparcialidade. Os outros são desportos de Estado, como os de Inverno: tirando Arianna Fontana [patinadora de velocidade], todos dependem do Estado.»
Gabriele Gravina, presidente da federação italiana de futebol, sobre eliminação do Mundial

No desfile de horrores que foi a eliminação de Itália do Mundial — terceira seguida no play-off, agora frente à Bósnia, depois de cair diante da Macedónia do Norte, há quatro anos, e da Suécia, há oito —, é difícil não olhar para Gabriele Gravina, presidente da federação, e não ver nele o grande responsável.
Sim, entrou na federação em 2018, já depois da eliminação frente aos suecos, mas tinha estado três anos à frente da liga. E numa década em posição de liderança do futebol italiano, assistiu, impávido, à degradação do calcio.
Foi Bastoni e não ele quem se fez expulsar aos 41 minutos em Zenica, quando a squadra azzurra vencia por 1-0, e foram Esposito e Cristante que não acertaram na baliza no desempate por penáltis. Mas o processo de substituição de Luciano Spalletti no banco, em junho, após perder o 0-3 na Noruega, foi sinal de desnorte — o presidente da federação não percebeu que o problema vai mais fundo do que quem está no banco: não há matéria-prima para a Itália ser a Itália do início do século (e a quantidade de recusas até Gattuso aceitar deveria tê-lo feito perceber...).
Em Zenica, no jogo decisivo, quando Gattuso quis mexer no ataque trocou Moise Kean, desilusão no Everton e na Juventus (recuperou fulgor mas na Fiorentina, que está longe da elite do calcio), por Esposito, suplente do Inter. A Itália é melhor que a Bósnia, mas está bem longe de ser uma das grandes seleções europeias."

A propósito de Sporting e FC Porto... «guerra é guerra»


"Quem leu no comunicado publicado no sábado que o FC Porto é uma instituição com «um percurso e uma reputação amplamente reconhecidos» nem sabe bem o que pensar

O que se passou, sábado, antes do jogo de andebol entre FC Porto e Sporting fez-me recuar quase 16 anos, ao Algarve, onde encontrei Sven-Goran Eriksson, de bem com a vida, com o lastro de um percurso riquíssimo como treinador e gentleman. Conduziu os leitores de A BOLA pela carreira dele, especialmente pelas duas passagens pelo Benfica, que guardava no coração, e passou pelo balneário nauseabundo das Antas que recebeu os encarnados, em 1991.
Antes do jogo que o Benfica venceu por 2-0, com dois golos de César Brito, o treinador sueco contou que confrontou o presidente do FC Porto apenas com um desabafo. «Hey», soltou, ao mesmo tempo que, com as palmas das mãos para cima, abriu os braços. Disse Eriksson que ouviu: ‘Guerra é guerra.’ Estava tudo dito, não estava?
Não sei se por haver guerras que nos devem preocupar seguramente mais — agora que nos toca no bolso, depois de quase todos ignorarmos sem pingo de sensibilidade atrocidades sem fim à vista — poucas reações houve, até ontem, ao que se passou no Porto. Salvo honrosas exceções, claro. Haverá, entretanto, mais, mas tudo passará.
Para quem está habituado a que tudo se desvalorize, o que se passou no Porto no sábado terá, enfim, sido mais um episódio triste que o contexto da rivalidade servirá para diminuir. Podemos recordar os mais recentes — o árbitro Fábio Veríssimo denunciou que a televisão do balneário do Dragão passou, ao intervalo do jogo com o SC Braga, repetidamente, golo anulado ao FC Porto, além de um lance dele no torneio da Pontinha; ou as bolas escondidas por apanha-bolas no fim do clássico de fevereiro, para não falar das toalhas de Rui Silva.
Sobre o que se passou com o árbitro Fábio Veríssimo, para os mais desatentos, o FC Porto foi condenado pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol a pagar multa de 12.500 euros. Cada um tire as conclusões que quiser sobre o castigo. Mas alguém poderá arriscar que a piada se faz sozinha.
Para quem chegou até aqui, sabe que se fala das acusações do Sporting sobre o odor intoxicante no balneário que lhe estava atribuído no pavilhão do Porto, confirmado pela delegada ao jogo, Rosa Pontes, em declarações a A BOLA, e que obrigou os leões a equipar-se no corredor. O treinador do Sporting, Ricardo Costa, e o pivô Christian Moga precisaram de assistência médica. A delegada contou que o cheiro intenso lhe provocou «ardor e olhos vermelhos». O FC Porto, em comunicado, desmentiu «de forma absoluta, clara e inequívoca os relatos tornados públicos».
Já aqui tinha chegado quando tomei conhecimento de que o Ministério Público abriu um processo-crime para averiguação ao que se passou no pavilhão do FC Porto. Para todos os envolvidos, só pode ser boa notícia. Que se aproveite a oportunidade para que, desta vez, tudo fique bem claro, que se torne público o que aconteceu e que se aplique a lei, se for o caso, com força e sem olhar a quem. Já uma vez aqui escrevi que a transparência é o melhor desinfectante, embora alguns casos exijam produtos mais agressivos.
Escrevo sem saber o desfecho do que se passou nas audiências, ontem, entre a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, e os presidentes de Sporting e FC Porto. Não alimento expectativas positivas sobre resultados que esse encontro possam produzir, embora considere importante o passo, por ser o primeiro, que Frederico Varandas tomou.
Sobre o FC Porto, continuaremos à espera que a mudança prometida pelo novo presidente não tenha sido apenas um aroma de perfume fino que disfarçou por pouco tempo um odor insuportável. Quem leu no comunicado publicado no sábado que o FC Porto é uma instituição com «um percurso e uma reputação amplamente reconhecidos» nem sabe bem o que pensar."

Quem quer tramar André Villas-Boas?


"Talvez seja tempo de instituir uma espécie de Ministério da Investigação Interna para descobrir quem o quer tramar. A não ser que seja mesmo ele, no fim das contas, que ande a tramar isto tudo…

Os ventos de mudança sopraram durante pouco tempo. De Alvalade à Luz e depois sobretudo no Dragão, a rajada que traria os novos dirigentes, uma nova geração de presidentes, foi apenas uma brisa, talvez mesmo apenas um sopro que deixou tudo na mesma. Ou porque a expectativa de nova era surgia como raio de sol, talvez nos faça ter a perceção de que com o andar da carruagem tudo caminhe para ficar ainda pior. Talvez seja difícil, a imitação é sempre pior do que o original…
André Villas-Boas vinha para romper com um passado que já cheirava a mofo. Foi aliás porque a esmagadora maioria dos sócios do FC Porto já não se revia no estilo (para não lhe chamar outra coisa) Pinto da Costa, um vencedor para a história mas com expedientes, no mínimo, censuráveis, que o atual líder se consagrou presidente com 80 por cento dos votos. E certamente que os 21.489 sócios (total de 26.876 votantes) que nele votaram esperavam uma rotura total, foram 80.3 por cento contra 19.5 da lista de PdC.
Não vou aqui dedicar-me aos comunicados e comunicadinhos, aos berros e aos insultos que de parte a parte, sem se saber muitas vezes quem lança a primeira pedra, proliferam no futebol… bem, no desporto português, que isto já vai bem para lá apenas do futebol. Mas começo a pensar que dentro do FC Porto anda alguém a querer tramar André Villas-Boas…
Não sei se algum saudosista do anterior regime, se alguém que não gosta do líder, se alguém a sabotar. Mas porque Villas-Boas disse que vinha para mudar, certamente não foi dele que partiu a ideia de colocar uma televisão no balneário do árbitro Fábio Veríssimo a passar em loop, e sem hipótese de ser desligada ou de se mudar o canal, imagens de erros de arbitragem desse mesmo árbitro, incluindo um jogo dos infantis ou iniciados. Também não posso acreditar que tenha sido ele quem mandou os apanha-bolas recolher as mesmas na parte final do jogo com o Sporting na jornada 21 do campeonato no Dragão. E certamente não foi Villas-Boas o responsável pela limpeza do balneário na Dragão Arena e que esteve na origem de mais um, o mais recente, caso a envolver os azuis e brancos e mais uma vez com os verdes e brancos, que passaram por estes tempos a ser o grande rival.
Na altura do caso da TV no balneário de Veríssimo, Villas-Boas terá percebido que poderá alguém querer tramá-lo, tanto que anunciou investigação interna aos acontecimentos. Talvez seja tempo de instituir uma espécie de Ministério da Investigação Interna para descobrir quem o quer tramar. A não ser que seja mesmo ele, no fim das contas, que ande a tramar isto tudo..."

Onde estão os valores que importam?


"Há linhas que não podem ser ultrapassadas. No desporto, como na vida, nem tudo pode ser justificado pela competição.
O alegado episódio no Dragão Caixa, no contexto do andebol, envolvendo a presença de um cheiro intenso a amoníaco, não é apenas mais uma polémica. É um sinal de alarme e, se o ignorarmos ou normalizarmos. Um daqueles momentos em que o desporto é obrigado a confrontar-se consigo próprio e a perguntar: até onde estamos dispostos a ir para ganhar? Felizmente existe um inquérito aberto e esperamos que factos sejam devidamente apurados, pois tenho pouca crença em acasos de sintomas que levam mais do que uma pessoa a sentir-se mal.
Independentemente da confirmação factual e das conclusões legais, o simples facto de este cenário ser plausível já nos diz muito. Diz-nos que, em determinados contextos altamente competitivos, a fronteira entre o aceitável e o inaceitável pode tornar-se difusa.
O desporto é, por natureza, um espaço de construção social e educativa. É nele que se aprendem e, se reproduzem, valores como o respeito pelas regras, a justiça, a responsabilidade coletiva e a capacidade de lidar com a vitória e com a derrota. Aquilo que acontece dentro do campo não fica no campo: molda comportamentos, influencia gerações e contribui para a forma como entendemos o mérito, o esforço e o outro.
Do ponto de vista psicológico, este tipo de situações enquadra-se numa lógica de “desvio normativo progressivo”. Pequenas transgressões vão sendo toleradas, depois normalizadas, até que práticas claramente problemáticas deixam de ser percecionadas como tal dentro do grupo. É um processo silencioso, mas perigoso. Acontecimentos como estes, semelhantes, e ainda os discursos acusatórios e viscerais que têm sido produzidas (e, meus senhores, não há inocentes, todos têm brincado com o desporto), colocam em causa estes princípios básicos. Está em causa a função social do desporto enquanto escola de valores. Porque aquilo que se normaliza no jogo tende a ser legitimado fora dele.
Mais do que isto, chegamos ao ponto em que estes comportamentos incendeiam os ânimos, estas provocações (caso se confirme a situação do andebol estamos a falar em muito mais do que provocações) legitimam comportamentos agressivos de adeptos. Neste momento assistimos a comportamentos perigosos e altamente inflamatórios que colocam claramente a causa os futuros jogos e nos próximos tempos aproximam-se jogos grandes e não estamos só a falar de futebol. Aquilo que se espera é que se tenha responsabilidade e que não se desrespeite os valores base do desporto. A continuarmos assim arriscamos a que algo muito mau venha a acontecer e claramente que cada um terá de colocar a mão na sua consciência e fazer o mea culpa.
Este episódio deve, por isso, ser mais do que um caso isolado. Deve ser um ponto de viragem. Um momento de reflexão séria sobre regulação, fiscalização e cultura desportiva. O desporto não pode permitir zonas cinzentas quando está em causa a integridade dos atletas. E quando começamos a tolerar o intolerável, o problema já não está no resultado. Está no que estamos dispostos a sacrificar para o alcançar."

O Desporto nos 50 anos da Constituição


"No dia em que se assinalam os 50 anos da Constituição da República Portuguesa, proponho uma viagem à nossa ‘Magna Carta’, na relação desta com o Desporto

No dia em que se assinalam os 50 anos da Constituição da República Portuguesa (CRP) proponho-lhe, caro leitor, situar o desporto nessa nossa Lei Fundamental.
É importante desde já deixar claro que o percurso que se segue não incide sobre normas meramente programáticas ou políticas, desprovidas de efeito prático; pelo contrário: tribunais, órgãos jurisdicionais federativos, entidades reguladoras e diversos outros entes, públicos e privados, têm, ao longo de décadas, agido e decidido com recurso a essas normas. E o legislador também: sobra legislação infraconstitucional a concretizar a CRP, desde o desporto de base ao alto rendimento e seleções nacionais. Eis um ínfimo exemplo: a lei obriga expressamente a que haja infraestruturas desportivas em locais como prisões, parques de campismo ou espaços de turismo rural.
Mas venha daí, então, caro leitor, para uma viagem à nossa ‘Magna Carta’, na relação desta com o desporto.
Sendo Portugal uma República “baseada na dignidade da pessoa humana” (artigo 1º), não se vislumbra uma vida plenamente digna sem o acesso e o desenvolvimento da prática desportiva.
O desporto é, por outro lado, uma via de formação integral dos cidadãos, de verem reconhecidos os seus “direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade” e “à cidadania” (artigo 26º, nº 1).
Se há fator de promoção do “bem-estar” e da “qualidade de vida” de um povo, esse fator é a prática desportiva. Nesse contexto, a promoção do bem-estar e da qualidade de vida constitui uma das “Tarefas fundamentais do Estado” (artigo 9º, alínea d)) e uma “Incumbência do Estado no âmbito económico e social” (artigo 81º, alínea d)). A “qualidade de vida do povo português” deve, aliás, ser um dos objetivos dos “Planos de desenvolvimento económico e social” (artigo 90º) – poderá aqui enquadrar-se o recente Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo. “Ambiente e qualidade de vida”, num quadro de um desenvolvimento sustentável, nomeadamente através de “parques de recreio” foram outra preocupação dos deputados (artigo 66º, epígrafe e nº 2, alíneas c) e h)). E o direito à habitação pressupõe a existência de uma “rede adequada” de “equipamento social” (artigo 64º, nº 2, alínea a)), necessariamente incluindo equipamentos, instalações e infraestruturas desportivas.
A CRP, ao remeter para a lei a definição do leque de atribuições e competências das Autarquias Locais (artigo 237º, nº 1) permite que a legislação autárquica tenha múltiplas referências ao desporto. De igual modo, e ainda num contexto de um Estado unitário descentralizado, onde se procura corrigir os ‘custos de insularidade’, a Constituição remete para os Estatutos Político-Administrativos das Regiões Autónomas a listagem das matérias de interesse regional ou específico, de onde consta o desporto (artigos 227º, nº1, alínea a); 5º; 6º; 9º alínea g)). Daí a a legislação desportiva adaptada e a aplicação do famoso ‘princípio da continuidade territorial’ (vide no caso dos pagamentos das viagens das equipas de e para as Ilhas).
A integridade física e psíquica dos atletas, muitas vezes preocupantemente violada, dentro e fora dos terrenos de jogo, também nos remete para o “direito à vida” (artigo 24º) e o “direito à integridade pessoal” (artigo 25º).
Mas é em três preceitos, inseridos no Título III – “Direitos e deveres económicos, sociais e culturais”, que surgem relevantes referências expressas ao desporto: a CRP consagra o “direito ao desporto” para todos (artigo 79º) [“Todos têm direito à cultura física e ao desporto”; “Incumbe ao Estado, em colaboração com as escolas e as associações e coletividades desportivas, promover, estimular, orientar e apoiar a prática e a difusão da cultura física e do desporto, bem como prevenir a violência no desporto”]; a “promoção da cultura física e desportiva” consta como instrumento do direito à proteção da saúde (artigo 64º); e prevê-se a “proteção especial” dos “jovens” para a “efetivação dos seus direitos económicos, sociais e culturais”, nomeadamente “[n]a educação física e no desporto” (artigo 70º, nº 1, alínea d)).
Sendo as coletividades e as associações (clubes, associações distritais, federações desportivas, Comités Olímpico e Paralímpico …) a célula do desporto nacional, percebe-se o impacte no desporto da “liberdade de associação” (artigo 46º), encontrando-se ainda num país cada vez mais plural e multicultural a importância, também no desporto, do princípio da igualdade (artigo 13º), em particular a “igualdade entre homens e mulheres” (artigo 9º, alínea h)); da não discriminação em razão da deficiência (artigo 71º) e na terceira idade (artigo 72º), e a proibição de discriminações arbitrárias a estrangeiros (artigo 15º). No desporto deve assegurar-se igualmente a liberdade religiosa (artigo 41º). Por outro lado, e ainda que de difícil aplicação em face das especificidades dos contratos de trabalho desportivo, a CRP prevê o direito ao “repouso e aos lazeres” para todos os trabalhadores (artigo 59º, nº 1, alínea d)). Ainda no plano laboral, a liberdade de escolha de profissão por um praticante desportivo profissional também encontra guarida na CRP (artigo 47º, nº 1).
Por seu turno, o crescente e crucial papel do que a lei chama de “empresas prestadoras de serviços desportivos” – por exemplo ginásios e empresas de mergulho desportivo - ou das “empresas de animação turística” que muito promovem o desporto - , funda-se desde logo na constitucionalização da “iniciativa económica privada” (artigo 61º, nº 1).
O binómio CRP-Desporto remete-nos igualmente para a cidadania, para a democracia participativa, sendo mister lembrar que o desporto é uma das matérias objeto de queixas dos cidadãos junto da Provedoria de Justiça, por ação e omissão do Estado (artigo 23º), e que o primeiro referendo local em Portugal (artigo 240º) incidiu sobre a localização de um recinto desportivo.
A chamada ‘justiça desportiva’ tem também uma relação umbilical com a Constituição. Note-se que o TAD, Tribunal Arbitral do Desporto, foi criado com base na CRP (artigo 209º, nº 2) e que a versão inicial da lei, ao não consagrar a recorribilidade das decisões em arbitragem necessária também esbarrou no Tribunal Constitucional, por força do direito de acesso aos Tribunais, no quadro de uma tutela jurisdicional efetiva, tal como plasmado na CRP (artigos 20º e 268º, nº 4). Nesta sede também é de invocar o facto de sermos uma “República soberana” (artigo 2º) e o que com tal pode contender a Lex Sportiva (normas emanadas de organizações desportivas internacionais), em particular as que restrinjam o acesso de jogadores ou clubes a tribunais comuns.
Este nosso já longo percurso não esgota, naturalmente, a incidência direta e indireta da CRP no desporto. E tampouco será um percurso totalmente conseguido e acabado: por um lado, há ainda muitas violações, por ação e omissão, do texto constitucional, que urge combater; por outro lado, quando chegar a hora de uma nova revisão constitucional, se a mesma não for cirúrgica, creio que se imporá atualizar, aperfeiçoar e completar o artigo 79º (originário de 1976, e já revisto em 1982 e 1989), da epígrafe ao articulado.
Mas hoje é dia de festa: parabéns à nossa CRP pelo meio século de vida e o que daí também já beneficiou o universo desportivo em Portugal, contribuindo, também por esta via, para a afirmação de um “Estado de direito democrático” (artigo 2º)!"

Thursday, April 2, 2026

Regresso às vitórias...

Caxinas 1 - 5 Benfica

Regresso á normalidade, com uma vitória larga!
Com muitas notícias do Mercado por aí, é muito importante, ficar no mais importante: o Bicampeonato!

Máfia...

Nomeações...

Schjelderup: da quase saída à revelação


"Há jogadores que precisam de mais tempo para se afirmar, e foi o caso de Schjelderup, que é agora uma peça essencial no Benfica de Mourinho e atrai interesses mais sérios lá de fora

Andreas Schjelderup é hoje, provavelmente, o jogador mais apetecível do plantel do Benfica. Pela idade, pelo potencial, pela qualidade que tem demonstrado em campo, é natural que os próximos tempos sejam de maior atenção internacional e que a estrutura encarnada se prepare para um eventual ataque no mercado de verão. E ainda, caso não chegue uma proposta ao nível esperado, que a renovação seja posta em cima da mesa, conforme noticiamos hoje em A BOLA.
O caso de Schjelderup é muito curioso. O jovem jogador foi tendo oportunidades e até certa altura pareceu não as agarrar, sendo que pelo meio foi condenado por partilhar um vídeo sexual com menores, com toda a gravidade e o impacto que isso pode ter numa carreira e num clube. No final de 2025, quando José Mourinho se queixava muito da falta de extremos, o norueguês esteve mesmo na porta de saída, mas meia dúzia de jogos mudaram o seu estatuto na equipa. À quarta época na Luz, foi mesmo considerado a revelação no futebol masculino do Benfica, com direito a prémio Cosme Damião. Se em janeiro tivesse mesmo ido para o Club Brugge, ninguém se lembraria dele na gala...
O futebol tem destas coisas e bem sabemos o quão injusto consegue ser. Agora, Schjelderup é indiscutível nos encarnados e vai brilhando também na seleção. Por mérito próprio, claro, mas também do treinador que precisou de tempo para ver nele não só uma solução, como um trunfo. E, com isso, ganha interesse também para a administração encarnada que, aproximando-se o final da época, começa a fazer contas à hipótese de ficar de fora da próxima Liga dos Campeões. Acabe como acabar, o Benfica precisa sempre de vender (e não é o único, pois claro) e é importante ter ganho entretanto este novo ativo. Por outro lado, uma proposta baixa é agora muito menos aceitável, mas todas as dores de cabeça fossem essas...
Schjelderup é a prova de que o futebol é o momento - e este é o momento do jovem norueguês e do Benfica se aproveitarem do bom futebol demonstrado."

Lukebakio....

Nico...

Arbitragem: o erro que todos veem… e o desgaste que ninguém vê


"Na arbitragem, decide-se em segundos. Mas aquilo que influencia essas decisões constrói-se muito antes.

Num futebol cada vez mais rápido, mais físico e mais exposto, o árbitro vive num permanente limite. Cada decisão tem impacto direto no resultado, no jogo e na narrativa que o envolve. Não decide apenas um lance — decide contextos, emoções e consequências que ultrapassam o próprio momento e que moldam a perceção do jogo. E, ainda assim, continuamos a olhar para a arbitragem quase exclusivamente através do erro. O lance. A repetição. A crítica.
Raramente olhamos para aquilo que está por trás da decisão. A arbitragem é, provavelmente, um dos contextos mais exigentes do desporto a nível psicológico. O árbitro não gere apenas regras — gere emoções, conflito, pressão social e responsabilidade competitiva, tudo em simultâneo. É chamado a manter lucidez num ambiente onde tudo à sua volta é intensidade, contestação e ruído. Vive num contexto onde a margem de erro é mínima… mas a exposição ao erro é máxima.
E este desequilíbrio não é neutro. Tem impacto. Tem desgaste. Tem consequência. A evidência mostra que a esmagadora maioria dos árbitros já foi exposta a situações de abuso ao longo da carreira, com impacto direto na sua saúde psicológica. Isto não é um detalhe isolado. É um padrão estrutural que se repete ao longo do tempo. Quando este contexto não é acompanhado, o impacto acumula-se de forma silenciosa: stress contínuo, ansiedade crescente, fadiga emocional, quebra de confiança e, em muitos casos, burnout.
Mas há um efeito ainda mais profundo — e menos visível. Abandono precoce da carreira. Dificuldade em reter árbitros experientes. Menor atratividade para novos elementos. Ou seja, o problema deixa de ser individual… e passa a ser sistémico. Estamos a comprometer não só o presente, mas também o futuro da arbitragem.
Existe uma ideia muito enraizada no futebol: o erro do árbitro acontece naquele momento. Naquele lance. Mas essa leitura é incompleta. O erro não nasce ali. O erro constrói-se. Constrói-se na acumulação de pressão ao longo das semanas, nos jogos sucessivos sem recuperação emocional adequada, na exposição constante a ambientes hostis e na ausência de suporte estruturado.
Constrói-se também na falta de ferramentas para lidar com a exigência emocional da função. Quando um árbitro entra em campo já emocionalmente desgastado, a sua capacidade de decidir com clareza, rapidez e confiança fica inevitavelmente condicionada.
E há aqui um ponto essencial. A qualidade da decisão não depende apenas da leitura do lance. Depende do estado em que o árbitro chega ao momento da decisão. Clareza cognitiva. Estabilidade emocional. Capacidade de foco sob pressão. Tudo isto influencia diretamente aquilo que depois vemos no campo.
E é aqui que o tema deixa de ser apenas humano… e passa a ser claramente competitivo.
Falar de saúde psicológica na arbitragem não é falar de fragilidade. É falar de desempenho. Um árbitro psicologicamente preparado não é apenas mais resistente. É mais eficaz.
Decide com maior clareza. Mantém níveis de concentração mais estáveis. Resiste melhor à pressão externa. Recupera mais rapidamente do erro. E apresenta maior consistência ao longo da época.
Por outro lado, um árbitro exposto a níveis elevados de stress tende a hesitar mais, a perder qualidade na decisão e a tornar-se mais vulnerável ao contexto envolvente. E no futebol de alto nível, a diferença entre decidir bem ou mal está muitas vezes em detalhes invisíveis.
Há, aliás, um ponto que o futebol ainda não integrou totalmente. Falamos muito de erro, mas pouco de consistência. E consistência não se constrói apenas com conhecimento técnico — constrói-se com estabilidade emocional ao longo do tempo. Um árbitro pode conhecer perfeitamente as regras e, ainda assim, apresentar oscilações de desempenho se não tiver condições para gerir o contexto em que está inserido. Porque o desafio não é apenas decidir bem num jogo. É decidir bem, de forma consistente, ao longo de uma época inteira, em contextos diferentes, com níveis de pressão variáveis e exposição constante.
E isso exige preparação. Exige ferramentas. Exige estrutura.
Sem isso, continuaremos a exigir decisões de alto nível em contextos que não estão preparados para as sustentar. E enquanto essa realidade não for assumida, continuaremos a discutir consequências… sem resolver as causas. Se queremos melhorar a arbitragem, não podemos continuar a atuar apenas na consequência.
A tecnologia evoluiu — o VAR é exemplo disso. A formação técnica também deu passos importantes. Mas continua a existir um espaço crítico pouco desenvolvido: a preparação psicológica estruturada.
A evolução da arbitragem exige uma mudança clara de paradigma. Da reação… para a prevenção. E essa mudança tem de ser operacional. Assente em três pilares fundamentais.
Avaliar. Compreender os riscos psicossociais da função.
Monitorizar. Acompanhar indicadores como stress, carga emocional e exposição a abuso.
Intervir. Desenvolver competências como gestão de stress, tomada de decisão sob pressão, regulação emocional, comunicação, resiliência e gestão do erro.
Não como ações pontuais. Mas como parte integrada do percurso do árbitro.
Isto não é apenas apoio. É performance. Porque quando melhoramos o estado psicológico do árbitro, melhoramos diretamente a qualidade da decisão. E quando melhoramos a decisão, melhoramos o jogo.
Há também aqui uma oportunidade estratégica clara. Reposicionar a arbitragem. Durante muito tempo, foi associada sobretudo à polémica. Mas a arbitragem é um dos pilares centrais do futebol competitivo. Sem decisões consistentes, não há justiça desportiva. Sem árbitros preparados, não há estabilidade competitiva. Sem estabilidade, não há confiança no jogo.
Investir na saúde psicológica dos árbitros é investir no próprio futebol. É aumentar a qualidade das decisões. É reforçar a credibilidade das competições. É garantir maior longevidade nas carreiras. É proteger o futuro da arbitragem. E é reconhecer algo essencial: o desempenho não depende apenas do conhecimento das regras ou da condição física.
Depende, cada vez mais, da capacidade de lidar com pressão, erro e exposição. Se queremos uma arbitragem mais forte, mais consistente e mais respeitada, temos de começar a olhar para além do lance. Não apenas quando há erro. Mas sobretudo antes dele acontecer. Porque enquanto continuarmos focados apenas na decisão, vamos continuar a ignorar os fatores que a influenciam. E talvez esteja aqui um dos maiores desafios — e uma das maiores oportunidades — do futebol atual.
«Na arbitragem, decide-se em segundos. Mas o erro constrói-se muito antes.»"